Notas iniciais
Desculpem demorar tanto, mas aqui está outro capítulo. =D

Como em todos os fins de semana, era dia de faxina no quarto de Karin e Shion. Na companhia de Tayuya e Karui, a coisa toda não estava funcionando direito. A cada cinco ou dez minutos, as duas discutiam sobre o espaço, seus pertences, sobre “não gostar uma da outra” e qualquer outro motivo imbecil que conseguissem encontrar. O falatório estava deixando Karin irritada e com dor de cabeça, mas sabia, intuitivamente, que não deveria comprar briga com nenhuma delas. Mesmo que não considerasse Tayuya ou Karui como uma ameaça, sabia que a melhor estratégia para conviver com elas era a “convivência tolerante”. As duas provavelmente pensavam o mesmo a respeito dela, mas não de Shion.

Shion era uma garota inofensiva. Embora tivesse certo dom para a maldade, o mais comum era que apenas seguisse pelos caminhos abertos por Karin ou Ino, no tempo em que as três andavam juntas. Não fazia planos, não ganhava inimizades e tinha facilidade para passar despercebida. Essa era uma das coisas que Karin gostava nela, ninguém desconfiava de Shion, ninguém conseguia ficar com raiva dela, e era bom poder contar com sua disposição para a simpatia sempre que as coisas ficavam um pouco mais complicadas.

Em geral, Karin não tinha motivos para reclamar de Shion, apesar de, às vezes, precisar ter um pouquinho a mais de paciência quando a garota começava a divagar sobre o garoto de seus sonhos. Principalmente por ser aquele garoto! Tudo aquilo tinha começado como uma brincadeira, talvez não tão inocente quanto ele fez parecer, mas o estrago estava feito. Shion até tentava disfarçar, mas sua atenção sempre era capturada quando ele estava presente e não havia nada que a convencesse a esquecer aquela história boba de amor. Nem as constantes provas irrefutáveis que ele próprio dava de que era um completo idiota, nem o tempo, que supostamente curava tudo. Menos, aparentemente, a doença mental que acometia Shion com sua paixãozinha sem razão de ser.

No entanto, Karin sabia que não podia julgar a amiga por se apaixonar, ainda que tivesse alguns comentários reservados para si sobre a pessoa escolhida. Afinal, ela própria estava apaixonada, não estava? Há quase tanto tempo quanto Shion. Não sabia porque Sasuke tinha colocado um fim no relacionamento antes que ela tivesse a chance de fazer coisas que ele jamais esqueceria. Bom, o fim era uma questão discutível e Sasuke ainda estava inquestionavelmente na sua mira. Talvez por isso estivesse disposta a deixar Shion devanear sobre Naruto, enquanto ela própria gastava seu tempo tecendo um novo plano para ter Sasuke novamente em seus braços.

Seria muito mais fácil agora que Ino estava fora de seu caminho. A loura era a única naquele colégio que sempre representou um desafio para Karin. Era verdade que preferia tê-la como amiga do que como inimiga, mas que escolha tinha? Ino do nada veio com aquela história de estar interessada em Sasuke e não havia a menor possibilidade de Karin deixá-la ganhar aquele prêmio em particular. Não fosse isso… não fosse isso Karin não teria nenhum motivo para afastar Ino de sua vida. Afinal, elas eram melhores amigas, parceiras, e muito boas em ser más juntas. Não, Ino não tinha nada de santa, portanto, se Karin não tivesse agido primeiro, com certeza teria sido ela a ser passada para trás. Conhecia Ino melhor que ninguém e sabia do que aquela garota era capaz.

Mesmo que Ino estivesse no passado, Karin ainda não podia descartar totalmente a influência dela no sucesso ou fracasso de seus planos. Precisava se certificar que ela se ocupasse de outras coisas, de outras pessoas… Aquelas suas novas amigas, Sakura Haruno e Hinata Hyuuga, eram uma piada. Onde Ino estava com a cabeça quando achou que seria boa ideia ser vista na companhia delas? Duas nerds sem absolutamente nada atraente a respeito delas, nem aparência, nem personalidade, nada... Bom, Hinata tinha o primo, Neji Hyuuga que obviamente não era alguém que devesse ou pudesse ser ignorado, mas nem mesmo ele se importava com a priminha, então porque Karin se preocuparia? Porém, havia uma pessoa que despertava sua curiosidade em muitos níveis diferentes: Kiba Inuzuka.

Não era de hoje que Karin o via de conversa mole com Ino pelos cantos, mas nunca ficou claro qual era o tipo de relação que eles tinham. Amizade? Apesar de vê-los juntos algumas vezes, não dava para dizer que eram amigos, pois havia dias, semanas até, em que mal se olhavam ou reparavam na presença do outro no mesmo ambiente. Então, qualquer outra coisa, além disso, também era difícil acreditar. Mas havia alguma coisa ali, disso Karin tinha certeza. Podia sentir algo no ar toda vez que os via juntos, embora nunca durasse mais que alguns minutos, e nunca perto demais para despertar suspeitas.

Aquilo estava ocupando os pensamentos de Karin mais tempo do que devia, o que a irritava. Precisava descobrir o que estava acontecendo entre aqueles dois, antes de poder descartar Ino de sua lista de possíveis obstáculos até os braços de Sasuke.

Por um golpe de sorte, Karin tinha sido presenteada duas vezes naquele ano. A primeira, quando seu “primo” foi colocado no mesmo quarto de Sasuke Uchiha. A segunda, quando Kiba Inuzuka também fora colocado no mesmo quarto.

Na verdade, Naruto era seu sobrinho, filho de sua meio irmã, Kushina Uzumaki. Quando o pai delas, Masashi, anunciou o seu segundo casamento, logo após a separação do primeiro, Kushina não aceitou. Pelo que Karin sabia, Kushina sempre fora uma filha rebelde e ingrata, mas para o pai delas, sua pior rebeldia tinha sido se relacionar com o filho de seu rival nos negócios. Minato Namikaze tinha sido a razão final para a separação de Masashi e Kushina e, graças a essa confusão, Karin tinha estado pouquíssimas vezes na presença da meio irmã mais velha e tudo o que sabia sobre ela era que o que o pai lhe dizia, e que tinha um filho…

Era impossível saber se Kushina colocara Naruto no mesmo colégio de propósito – e se fosse esse o caso, qual propósito? –, ou se tudo não passava de uma simples coincidência. Institivamente, Karin sabia que a segunda opção não podia ser verdadeira.

Ela e Naruto não eram amigos, nem saiam por ai espalhando que eram parentes, muito menos que eram tia e sobrinho. No máximo, deixavam algumas pessoas pensarem que eram primos e era assim que Karin preferia pensar nele. Porém, ela começava a pensar que talvez tivesse chegado a hora de mostrar um pouco mais de simpatia ao garoto que poderia agora ser a diferença entre estar por cima dos fatos sobre Sasuke e Kiba, ou correr o risco de ser pega de surpresa. Essa era uma situação na qual Karin não se daria à vergonha de estar.

Além disso, Shion poderia finalmente parar de suspirar por Naruto e transformar aquela paixão em realidade. “Os fins justificam os meios”, Karin pensava, enquanto tentava armazenar paciência para ver a amiga com aquele garoto… Shion merecia alguém muito melhor! Mas, naquele momento, Naruto teria que servir.

Quando terminaram a faxina e se livraram do falatório (em alguns momentos, gritaria) de suas colegas de quarto, Karin desceu com Shion para o refeitório. Logo que passaram pela pesada porta de entrada do salão, o olhar de Karin alcançou o primo, sentado como de costume com seu colega de quarto, Chouji e o gênio do colégio, Shikamaru Nara. Eles não eram o tipo de gente com quem ela queria se misturar, mas estava tentando ver aquilo como um investimento, e teria que assumir os riscos.

Pegou na mão de Shion e caminhou resoluta até a mesa em que eles estavam. Com um sorriso e um tom de voz entusiasmado, cumprimentou os companheiros de Naruto primeiro, depois focou no primo.

– Oi Naruto! Eu estava te procurando.

O garoto olhou para ela com uma expressão confusa. Karin sabia porque, mas esperou até que ele avaliasse a situação da melhor forma que pudesse. Eles não conversavam muito, na verdade, nas poucas vezes em que se falaram no colégio, tinha sido nos corredores, durante a troca de aulas, e não trocavam mais que duas ou três frases. Era estranho, tanto ele quanto ela sabiam. Fazer parte da mesma família, estudar no mesmo colégio, e viver vidas tão distantes por causa de uma briga na qual nenhum deles tinha parte. Na verdade, se Naruto não fosse tão irritante e implicante, talvez Karin não visse problema em conviver com ele, porém… não, melhor não entrar por esse caminho agora. Karin precisava se focar.

– Eu queria te perguntar se você voltou para o Clube de Teatro esse ano. – A lembrança do Clube de Teatro lhe ocorrera de repente e agradecia mentalmente por Shion ter comentado alguma coisa a respeito no ano anterior.

– Voltei, claro. – Naruto pareceu acordar de um longo devaneio. – Fui para a reunião do grupo hoje.

– Que legal. – Karin sorriu. – Quando forem apresentar a primeira peça eu quero estar na primeira fila.

A expressão de Naruto fechou-se ainda mais, numa curiosidade desconfiada. Karin soube que tinha exagerado no entusiasmo. Tanto ela quanto Naruto sabiam que Karin nunca se interessou por teatro e que o fato de Naruto estar no Clube de Teatro era uma das razões para ela passar bem longe desses eventos.

– Por quê?

– Porque… — Karin fez uma pausa, pensando numa resposta capaz de expulsar a desconfiança da mente de Naruto. Sutilmente, mudou sua expressão para uma mais leve, quase inocente. – eu quero começar a fazer alguma coisa pela nossa família. – disse, fazendo um esforço para ignorar a presença de Shikamaru e Chouji, incomodada com a ideia que eles soubessem a verdade sobre sua família. – Eu acho que o primeiro passo tem que ser dado por nós dois.

Observando a expressão de Naruto suavizar um pouco, Karin deixou-se comemorar por um instante.

– Tudo bem. – Naruto disse e, de repente, um sorriso sincero brotou em seus lábios. – Eu vou reservar um lugar para você na primeira fila.

– Eu também quero. – Shion entrou na conversa, sorrindo para Naruto toda abobalhada.

O garoto olhou para ela por um instante, como se a estivesse vendo pela primeira vez desde que elas se aproximaram. Ele continuou sorrindo, mais por simpatia que por qualquer outra coisa.

– Claro, Shion. Eu vou ficar feliz de ver vocês duas lá quando eu estiver no palco.

A felicidade de Shion era quase palpável quando elas se afastaram e sentaram na mesa com os outros alunos. Elas não conversaram sobre o assunto enquanto os outros estavam em volta delas, embora Mayumi tenha perguntado enfaticamente “o que Karin estava falando com aquele garoto?”. Shion perdeu um pouco o sorriso e sua bochecha ganhou uma coloração rosada. Karin ficou satisfeita ao perceber que a amiga, apesar de seus sentimentos boçais por seu “primo”, sabia que meter-se em um relacionamento com Naruto seria algo como pedir para virar piada para todo o colégio. Apesar disso, o comentário de Mayumi e a vergonha de Shion lhe deram uma ideia. Virando-se para Mayumi, Karin falou em voz alta, para que todos na mesa a ouvissem.

– “Aquele garoto”, Mayumi, é meu primo. Ele é meio bobalhão, mas é da minha família. Não quero que fale dele assim.

– Você nunca me disse que vocês eram parentes. – Mayumi disse, num tom entre desconfiada e envergonhada.

– Agora eu disse. – Karin num tom de quem encerra um assunto. – Ele é um cara legal.

Foi assim que, de “esquisito”, Naruto ganhou o status de “cara legal”, e Karin pode levar a diante seus planos.

Notas finais
Pronto, é isso. Gostaram? Não gostaram? Deixem as respostas nos comentários! ^_^