O Jeito Como Você Mente
8 Ino
Ino não falou muito desde que Hinata saiu do quarto para seu primeiro encontro com o grupo de teatro. A menina parecia nervosa e hesitante, mas com a insistência de suas colegas de quarto não teve outra opção senão se colocar a caminho do anfiteatro. Antes, Hinata até tentara argumentar, dizendo que era dia de faxina e que queria ajudar, pois não era justo que as demais fizessem todo o trabalho, mas acabou ganhando três pares de olhos irritados em sua direção e acabou desistindo. Assim que conseguiram tê-la fora do quarto, as outras três se colocaram a arrumar o quarto em silêncio. Sakura de vez em quando fazia algum esforço para quebrar o silêncio, mas não parecia se importar que as outras não respondessem.
Quando terminou a sua parte, Ino separou as roupas que precisava lavar e, percebendo que Sakura estava também quase acabando, decidiu esperá-la. As duas desceram em silêncio até a lavanderia, até que Ino percebeu a companheira olhando-a insistentemente. A princípio, pensou em ignorá-la. Não tinha acordado de bom humor e as provocações de Tenten sobre Sasuke tinham minado completamente sua capacidade de se animar novamente naquele dia. Por fim, não conseguiu manter distante a consciência de que Sakura a olhava e decidiu encará-la.
__ Você está bem? __ perguntou Sakura, diminuindo o passo.
__ Não. __ ciente de que a resposta foi pouco delicada, Ino suspirou e tentou corrigir-se. __ Não estou muito bem hoje.
Sakura pareceu ponderar algo, mas como o silêncio entre elas se estendia e a garota nada dizia, Ino seguiu em frente, acreditando que ela não diria mais nada. No entanto, Sakura tocou seu braço para chamar a sua atenção.
__ Por causa do que a Tenten disse?
Por um momento, Ino quis dizer que não. O que Tenten havia dito para provocá-la não era o problema. Lidar com Karin todo aquele tempo havia sido muito pior, pois Karin estava sempre falando como se fosse superior a todo mundo e estivesse sempre certa. Não foram uma, nem duas vezes que ela e Ino haviam discutido, alimentando uma relação que, agora, se revelava falsa e destrutiva para ambas. Tenten não escondia sua antipatia a Ino e não media palavras nem atitudes nesse sentido. Ino era recíproca. Mesmo assim, era mais fácil lidar com alguém que dizia abertamente que não gostava de você do que com alguém que se dizia sua melhor amiga.
A verdade era que, quanto mais o tempo passava, e as semanas dentro do Colégio Hashirama se estendiam, Ino começava a se sentir ansiosa e insegura. E com esses sentimentos, vinha a lembrança desagradável de velhos hábitos, os quais não se sentia forte o suficiente para enfrentar. Adiou a resposta à pergunta de Sakura, enquanto desciam mais um lance de escadas.
__ Ino... __ ouviu Sakura chamá-la, mas não a olhou.
__ Eu não acordei muito bem __ respondeu, num tom neutro. __ Acho que em parte a provocação da Tenten só ajudou a me deixar mais para baixo.
__ Aconteceu alguma coisa?
__ Não. Nunca acordou se sentindo desanimada? Ou triste?
__ Claro que já. __ Sakura ajeitou o pequeno cesto de roupas que carregava. __ Todo mundo tem um dia assim.
__ Pois é. Hoje é a minha vez.
Mais uma vez caíram no silêncio. Na maioria das vezes, quando estavam sozinhas, Sakura era uma companhia agradável. Ino teve que admitir, mesmo sem querer pensar muito nisso, que gostava de tê-la por perto, mesmo que nem sempre conseguisse acompanhar seu entusiasmo em alguns assuntos. Sakura era como um enciclopédia e não perdia uma oportunidade sequer de explicar ou apresentar curiosidades sobre o que quer que fosse. Isso era um pouco irritante, mas era uma questão de costume. E Ino estava começando a se acostumar com ela.
__ Eu só... __ Sakura parou no começo da frase, olhando para Ino tentativamente. Recebendo seu gesto de incentivo para que continuasse, pareceu criar coragem. __ É que eu percebi que você não está assim só hoje. Mas há algumas semanas, já. Eu fiquei preocupada. Não gosto de ver você assim, porque me lembro de você alegre e confiante. __ fez uma pausa, durante a qual Ino adivinhou o que viria a seguir. __ Você sente falta da Karin, não é?
__ Não. __ Ino respondeu rapidamente e sem hesitar. Não sentia falta de Karin. Era um alívio não ter mais que lidar com aquela garota e seu ego. Sentia falta de tempos mais fáceis, de saber exatamente o que dizer, e de como fazer as coisas. Sentia falta de saber quem era. __ Não poderia sentir falta de alguém como ela.
__ Eu imagino que esteja sendo difícil para você se adaptar às mudanças que ocorreram desde o ano passado. __ Sakura falou baixinho, como se pedisse desculpas por dizer aquelas coisas.
__ Sim. __ Ino admitiu no mesmo tom. __ Muitas coisas mudaram. Eu... __ calou-se.
Subitamente, Ino começou a pensar sobre o que significaria começar a se abrir com aquela garota. Elas eram amigas? Elas deveriam ser amigas? E se ela se deixasse levar pela aparente bondade de Sakura e de repente tudo fosse para o inferno novamente? Não queria correr o risco de se apegar a alguém e ter sua confiança e amizade jogadas no lixo como se não fossem nada. Claro que Sakura era muito diferente de Karin, tão diferente, que às vezes era difícil assimilar a ideia de que vivessem no mesmo ambiente. Ino duvidava que Sakura pudesse trai-la, mesmo porque, seus objetivos e interesses eram completamente diferentes, seguiam caminhos totalmente opostos. No entanto... Era tão difícil confiar. Todas as pessoas em quem ela confiou, de algum modo, acabaram lhe dando as costas e deixando-a sozinha. Não podia deixar que isso acontecesse novamente.
__ O quê? __ Sakura demandou uma resposta.
__ Eu estava pensando em Hinata. __ Ino disse de repente, ignorando o olhar de Sakura, que não parecia ter conseguido acompanhar seu raciocínio. __ Ela está tão preocupada com o currículo, com o futuro e, hoje, ela deu um passo muito importante. Ela decidiu se arriscar, fazer algo que ela nunca pensou em fazer. Ela está enfrentando os medos dela, sabe? __ Sakura meneou a cabeça, em sinal de que entendia o que Ino estava dizendo. __ E você também. Acho que ninguém nesse colégio está mais preparado para o futuro. __ Ino observou um brilho orgulhoso nos olhos de Sakura. Era era uma garota inteligente e sabia disso. Apesar de ser essencialmente boa e gentil, Sakura fazia um péssimo trabalho em disfarçar a consciência de que, sim, ela era a aluna mais inteligente, e mais preparada do Colégio Hashirama. Sakura não era perfeita, afinal. E, portanto, não era tão assustadora. Isso trouxe um pouco de alívio a Ino. Ela não sabia lidar com pessoas perfeitas, sua especialidade eram os defeitos. Era estranho, mas esse conhecimento só fez com que Ino gostasse ainda mais de Sakura. __ Quanto a mim, eu não sei o que fazer. Não sei o que quero fazer na faculdade, não sei o que quero fazer hoje...
__ Sabe sim.
Ino a olhou curiosa. Elas haviam chegado à lavanderia, que ficava no subsolo do colégio. Era um lugar gelado e asséptico, onde Ino nunca se sentiu à vontade. Ainda bem que, hoje, não estava sozinha. Sakura abriu a porta para que ela entrasse.
__ Foi você mesma quem disse que hoje queria visitar as vilas. __ disse, abrindo um sorriso quando Ino a olhou. __ É o que faremos hoje. E amanhã. Segunda-feira, vamos achar para você um clube para fazer parte, nem que eu tenha que te colocar no clube do teatro junto com a Hinata.
Ino iria responder, mas conteve-se, dessa vez, por não conseguir pensar em nada para dizer. Sakura andou confiante até uma das máquinas e começou a preparar as roupas. Ino observou enquanto ela trabalhava e, sem questionar, viu quando ela pegou seu próprio cesto de roupas de sua mão e colocou sobre a máquina ao lado. Sakura separou as camisas do uniforme e as roupas claras, das sais e das roupas coloridas. Colocou o primeiro grupo na máquina e deixou o resto de maneira organizada dentro do cesto.
__ Por que você não coloca o resto nessa máquina aqui? __ Ino apontou para a máquina que estava à sua esquerda.
Sakura fez um sinal negativo com a cabeça.
__ Mais alguém pode precisar dela. Quando a gente terminar aqui, estará na hora do almoço e depois vamos nos arrumar para sair.
__ Okay __ foi a resposta de Ino, pois, àquela altura, era a única coisa que poderia dizer. Como era possível que alguém como Sakura pudesse ser tão auto confiante? Aliás, como era possível que Sakura, alguém cuja presença Ino ignorou tantas vezes, pudesse ter mais confiança do que ela própria?
Pouco depois, a porta da lavanderia produziu barulho para abrir e chamou a atenção delas. Ino sorriu automaticamente ao ver Kiba entrando atrapalhado com um cesto semelhante ao delas, abarrotado de roupas, e uma cara de poucos amigos. Antes mesmo que ele levantasse os olhos para a sala, Ino chamou por ele.
__ Precisa de ajuda, Inuzuka?
__ Não. __ ele respondeu de mal humor, e só depois olhou para ela. Seu olhar se suavizou um pouco, mas ele manteve a expressão fechada. __ Você vai usar essa máquina? __ perguntou apontando para a peça ao lado de Ino.
__ Não.
__ Certo.
Ino, que estava começando a se sentir melhor, também o observou. Havia menos graça e leveza nos gestos de Kiba, embora ele estivesse repetindo quase as mesmas coisas que Sakura tinha feito a pouco. Ele descontava seu mal humor na máquina, abrindo a porta com mais força que o necessário e socando os botões do painel ao invés de simplesmente apertá-los. Kiba socou todas as roupas juntas, sem hesitar, parecendo ignorar o fato de que roupas coloridas poderiam soltar tinta. Antes que ele finalizasse o serviço, Ino segurou sua mão e a afastou do botão “Ligar”.
__ Presta mais atenção no que está fazendo, Kiba! __ disse, apontando para a porta circular na frente da máquina. __ Primeiro separa suas roupas coloridas antes de ligar a máquina.
__ Por quê?
__ Porque elas soltam tinta e mancham as outras roupas. Você quer usar um uniforme cor-de-rosa na segunda-feira?
__ Não...? __ Kiba arrastou a palavra, como se estivesse em dúvida sobre o que Ino estava falando.
__ Então separa aquela blusa vermelha que eu vi no meio das suas coisas.
__ Bobagem.
__ Paga pra ver. __ Sakura disse de repente, fazendo Ino sorrir ainda mais.
Visivelmente contrariado, Kiba abaixou-se novamente e abriu a máquina. Levou alguns segundos tirando suas roupas coloridas, mais do que Ino havia distinguido no meio daquela bagunça, e colocou de volta dentro do cesto. Quando levantou-se, Ino apertou o botão de ligar e o garoto resmungou:
__ Valeu.
__ Por nada. __ Ino respondeu, triunfante.
Por um momento, Kiba fitou em silêncio o painel da máquina. Ino aproveitou para manter os olhos sobre ele. Estava adorável com aquela regata preta, uma calça de ginástica e o cabelo desgrenhado. Sua expressão séria lhe emprestava um ar mais velho, rebelde e surpreendentemente bonito. Ino ficou subitamente incomodada com esse reconhecimento e tratou de desviar os olhos de seu amigo. Ela própria se pôs a fitar a máquina onde estavam suas próprias roupas, tentando inutilmente ignorar a consciência de que a atenção de Sakura estava totalmente voltada para ela. Sem mais nem menos, ouviu a garota sufocar um riso, e levantou os olhos em sua direção, questionando. Sakura apenas sorriu para ela e voltou o rosto em outra direção, fugindo da resposta que ela sabia que Ino queria.
__ O que vocês vão fazer hoje? __ Kiba perguntou depois de um momento. Ino voltou o olhar para ele, encontrando-o displicentemente encostado em uma das máquinas da fileira de trás.
__ Estávamos pensando em ir até as vilas. __ respondeu, irritada consigo mesma, sem saber bem o motivo.
__ Qual delas?
__ Provavelmente Konoha. __ Ino deu de ombros. De verdade, ela não tinha pensando em um itinerário para aquela tarde, mas aquela era sua vila favorita. Aliás, era a vila favorita da maioria dos alunos, o que representava certo incomodo, por estar sempre lotada.
__ Por que não vem com a gente pra Suna? __ Kiba a fitou nos olhos e, estranhamente, Ino achou que ele queria lhe dizer alguma coisa. Subitamente, lembrou-se da outra noite, quando lhe pediu ajuda e ele disse que daria um jeito.
__ Com a gente quem?
__ Eu, Naruto, Chouji e Shikamaru. __ Kiba respondeu e, talvez imaginando que aqueles companheiros não agradariam muito a Ino, voltou-se para Sakura. __ O que você acha, Sakura? Vocês chamam a amiga de vocês também, a Hinata, não é? Pode ser divertido. __ Ele dá de ombros, dessa vez olhando novamente para Ino.
Ino olhou para Sakura, procurando adivinhar o que ela achava daquela ideia. A garota parecia ter perdido um pouco da confiança que havia demonstrado não muito antes, estava com o rosto levemente corado e uma expressão perdida, como se não soubesse o que fazer a seguir. No entanto, Sakura recuperou-se logo e sorriu para Kiba, concordando com a cabeça.
__ Claro. A que horas vocês vão sair?
__ Logo depois do almoço. A gente pode esperar vocês lá na saguão de entrada.
__ Tudo bem.
Ino ficou parada, observando os dois conversarem. Sua mente voltou novamente para a outra noite, quando Kiba apontou para o grupo de Karin e afirmou que, com Sakura e Hinata apenas, Ino nunca teria de volta o que havia perdido. Ele não poderia imaginar que com aquele pequeno grupo de renegados do colégio, as coisas seriam diferentes. Mais uma vez, Ino perguntou-se se não estava se arriscando demais confiando naqueles dois. Sakura, com seu jeito doce e bom, e Kiba.
A pior coisa sobre Kiba, era a sensação lealdade e segurança que ele passava. Ino não conseguia entender porque ele fazia o que fazia, mesmo que tivessem aquele estranho acordo. Quanto mais conviviam, mais ela tinha a impressão de que, entre todas as pessoas, ele era o único que nunca a tratou com falsidade. Era tão difícil definir Kiba, que às vezes essa questão ganhava mais atenção de Ino do que deveria. Sim, ele era grosso, arrogante, antipático e incrivelmente traiçoeiro, mas, ainda assim, leal. Mais do que nunca, Ino percebeu que, se ele a traísse, seria muito difícil para ela se recuperar do baque. Isso por quê, apesar das constantes tentativas de fazer seu cérebro compreender que ela estava sozinha e que só podia confiar em si mesma, Ino já confiava em Kiba. Isso a tornava fraca, vulnerável e estúpida. Completamente e irremediavelmente estúpida. Nesse momento, ela soube que precisava ter um plano B, precisava encontrar alguma forma de derrubá-lo caso fosse necessário. Kiba era a última pessoa em quem poderia confiar, pois era a única pessoa que conhecia todas as maneiras de puxá-la para baixo.
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