O Jeito Como Você Mente
1 Ino
Notas iniciais
Sábado, 28 de janeiro de 2012, 08 hs e 40 min.
Já faz dois anos que estou no Colégio Hashirama Sarutobi, a melhor instituição de ensino do país e, pelo que se diz por esses corredores, de todo o continente. Mas, o que se diz entre essas paredes de tijolos aparentes não se escreve. Todos aqui gostam de ser os melhores no que quer que façam. Alguns realmente o são. A outros, resta o consolo de ser um dos três mil alunos de um dos melhores colégios deste mundo! Ainda que isso não seja lá grande coisa se você insistir em se portar como um perdedor. A grandeza não acolhe qualquer um.
Quanto a mim, eu adoro esse lugar, mais do que qualquer outro! Não me importa se ele é o melhor ou pior do país, do continente ou do mundo, eu continuaria voltando para cá, ano após ano.
Depois de quase ser expulsa no ano passado, passar o verão com meus pais foi… bastante interessante. É bom estar de volta, é bom, inclusive, sentir esse cheiro de lençóis velhos lavados, e sentir sob mim esse colchão velho amaciado por tantos outros corpos, de gente que nunca pensei em conhecer, e mesmo ouvir esse ranger insuportável da cama… tudo isso, por mais potencial que tenha para me deixar louca, é melhor que estar em casa.
Esse ano não fiquei no mesmo quarto. Não que eu quisesse, mas passei todo o período de férias planejando uma pequena vingança para a Karin. Mas a mudança de quarto é só um contratempo. Sei que a encontrarei cedo ou tarde ciscando por aí, e terei muitas oportunidades. Além do mais, tenho que admitir que preciso amadurecer algumas dessas ideias, porque tem que ser perfeito! Se ela pensa que me assustou… que me paralisou… aquela galinha está muito enganada!
Portanto, Karin pode esperar. Tenho outros assuntos para cuidar. Por hora, tenho que começar a arrumar a cama e tentar conhecer minhas novas colegas de quarto. Tenho certeza que vi uma ou duas pelos corredores nos anos anteriores, mas a outra parece ter um rosto totalmente novo para mim. Realmente não dá para saber. Espero que não sejam um bando de patas inúteis. Seria tedioso, um desperdício de espaço e poderia me fazer sentir falta do meu antigo quarto. E isso, definitivamente, não pode acontecer. E, se minha intuição estiver certa, é melhor eu começar a me mexer e fazer novas amigas.
Segunda-feira começam as aulas, o que significa que os primeiros passos precisam ser dados hoje!
Que a sorte esteja sempre ao meu lado.
Ino fechou o pequeno diário, certificando-se de que o cadeado estava fechado, e então o colocou na primeira gaveta de seu criado mudo. Uma rápida olhada pela janela a deixou um pouquinho desanimada. Estava garoando. Por mais que se esforçasse, não conseguia achar entre os seus dias favoritos nenhum em que estivesse um tempo daqueles. Na verdade, só conseguia achar dias ruins, decepcionantes e traumatizantes. Por um momento, questionou-se se deveria considerar aquilo como um mal presságio, mas ela não se considerava do tipo pessimista, por isso, ignorou aquilo e pôs-se a arrumar sua cama.
Essa era uma das regras do colégio.
Todos os alunos eram responsáveis por arrumar suas próprias camas todos os dias. Os colegas do quarto deveriam fazer uma faxina no recinto todo fim de semana. As luzes eram apagadas às dez horas. Cada um era responsável por lavar sua própria roupa. O uniforme do colégio era peça obrigatória durante os dias letivos e deveriam estar impecáveis. Os objetos pessoais deveriam ser guardados nas gavetas designadas para cada aluno em seus quartos, e quem perdesse as chaves deveria arcar com o custo das cópias. No final de cada ano letivo, as chaves deveriam ser devolvidas ao responsável por cada dormitório.
No caso do dormitório E, o dormitório de Ino, a responsável era a veterana Hana Inuzuka, uma garota grande, de ossos largos e olhar assustador. Ela era irmã de um dos primeiros “parceiros de crime” que Ino conheceu em seu primeiro ano. As duas tinham trocado pouquíssimas palavras naqueles dois anos, mas Ino não estava ansiosa para aumentar o contato entre elas. Hana era uma das poucas pessoas que a intimidavam, e era algo tão óbvio, que Ino não se esforçava em esconder.
Havia muitas outras regras, inclusive sobre a maneira correta de vestir o uniforme e outras que Ino assimilou a tanto tempo, que fazia automaticamente, sem sequer perceber. Mas uma regra que fazia questão de não esquecer, era a de ser sempre educada. Especialmente com suas colegas de quarto. Às vezes, quando era necessário, dava um jeito de esquecer, como aconteceu no ano anterior quando teve que enfrentar Karin, mas isso era apenas para situações específicas. No resto do tempo, Ino era um exemplo de boas maneiras, elegância e simpatia.
Terminou se arrumar sua cama com perfeição e sentou-se olhando para cada uma de suas novas colegas. Com um sorriso, começou:
– Já que passaremos o resto desse ano juntas, parece que teremos que nos conhecer mais cedo ou mais tarde. Meu Ino Yamanaka…
– Nós sabemos quem você é. – uma das meninas, de cabelo castanho preso em um coque interrompeu, sem olhá-la. Ela pegou um edredom do baú acoplado à sua cama e o esticou sobre o lençol. – O que não sabemos é porque veio parar no nosso dormitório.
– Assim posso acabar pensando que não sou bem vinda. – disse Ino, com um sorriso indeciso.
– Não é isso. – Outra garota, sentada na cama com um caderno apoiado nos joelhos interveio. Tinha o cabelo num tom rosado, que estranhamente combinava com sua pele branca e bochechas naturalmente coradas. – Não foi isso que a Tenten quis dizer. E, aliás, ela trata todo mundo como se não fossem bem vindos.
– Então o que foi que eu quis dizer, Sakura? – Aquela chamada Tenten questionou, num tom indecifrável.
Sakura olhou dela para Ino e respondeu, com um sorriso.
– Que sim, Ino, nós sabemos quem você é. O colégio inteiro sabe. E também sabemos o que aconteceu no fim do ano passado entre você e… — Sakura parou de repente.
– Entre eu e a Karin. – Ino completou e em seguida deu de ombros. – Aquilo foi… lamentável.
– Ah, não foi, não. Acredite. – Tenten finalmente estava olhando para Ino. – Aquilo pode ter sido tudo, menos lamentável. Eu pelo menos, não lamentei nem um pouco.
– Tem razão. – Ino riu. – Não foi. Eu também não lamentei.
– Pensávamos que vocês fossem amigas.
– Eu também pensava. Pelo visto estávamos todas erradas.
Ino suspirou. Não queria falar de Karin. Não queria tampouco questionar-se se o episódio havia ou não sido lamentável. Sua primeira tentativa de fazer contato com aquelas meninas podia ser um completo fracasso se não pensasse rápido. Elas a conheciam. É claro que conheciam! Ela era popular e a polêmica que sua briga com Karin causou no colégio tinha feito por ela mais do que pensava. Elas a conheciam. Mas ela não tinha a menor ideia de quem elas eram. E não pareceria gentil de sua parte deixar isso claro. Precisava se lembrar. Qualquer coisa. Entre três mil alunos, tinha que se lembrar daquelas três. Uma tarefa quase impossível. Se fossem populares, as teria visto com frequência, quando andava com Karin, Shyon e as outras. Claro que não era esse o caso. De qualquer forma, Ino sabia que conhecia pelo menos dois daqueles rostos.
Sakura, a menina de cabelo rosa, parecia simpática, até inteligente. Ino tinha certeza agora de que a viu nos outros anos. Faziam algumas aulas juntas. Claro! Sakura era aquela menina gênio das aulas de química! Aquela que sempre tinha uma resposta na ponta da língua para os professores, tão centrada nas aulas que o mundo podia estar desabando na sala de aula, que ela não desgrudava os olhos da lousa, ou do caderno, ou das apostilas.
Tenten. Essa Ino não sabia se conhecia. Não se lembrava de tê-la visto nas aulas. Mas não se admirava. O rosto dela era tão comum e sem graça que passaria despercebido em qualquer lugar. E o cabelo preso daquele jeito… parecia mais um menino. A referência trouxe outra lembrança. Jogadora. Tenten fazia parte do time de futebol do colégio. O time feminino era a única esperança nos torneios interescolares. O time masculino, com todos aqueles nerds obcecados por boas notas, não conseguiam sair da lanterna ano após ano. Era lamentável. Aliás, Tenten não era apenas parte do time. Ela era o time nos momentos de decisão. Seu nome aparecia em destaque em toda edição do jornal do colégio, quando tinha jogos. Ainda não era a capitã, mas todos tinham certeza de que seria a sucessora natural de Temari Sabaku.
Ino estava satisfeita de sua memória. Nunca pensou que tivesse reparado naquelas garotas naqueles dois anos, mas, ao que havia acabado de constatar, sabia mais sobre elas do que supunha. Ainda era cedo para saber o que fazer com aquelas informações, ou como deveria interpretá-las, mas por hora era suficiente. E ainda tinha a terceira garota. De cabelos pretos, num leve tom azulado, olhos perolados, lábios bonitos, pele branca e aparência frágil. Ino não sabia nem por onde começar a procurar em sua memória. Sequer supunha tê-la encontrado nos corredores ou nas aulas algumas vez. Ela podia muito bem ser uma novata. Mas quando entrou no quarto mais cedo, Tenten e Sakura conversavam com ela, não como se tivessem acabado de se conhecer, mas como se já dividissem o quarto há algum tempo.
– Eu também sei quem vocês são. – Ino começou, adiando a adivinhação sobre quem era aquela menina. Não podia ficar quieta por muito tempo. — Só achei que devíamos fazer as apresentações oficiais.
– Certo. – Sakura sorriu para ela, deixando o caderno de lado. – Eu sou Sakura Haruno. É um prazer tê-la como nossa colega de quarto, Ino.
– Eu digo o mesmo Sakura.
Tenten bufou jogando-se na cama e virou a cabeça para Ino.
– Tenten Mitsashi. Encantada! – disse, debochada.
– E você? – Ino sorriu para a terceira garota.
– Hinata. – Ela disse, numa voz fraquinha, que Ino precisou esforçar-se para ouvir. – Hinata Hyuuga.
Hyuuga. É claro que Ino conhecia aquele nome. Neji Hyuuga era um dos alunos mais brilhantes do Colégio Hashirama. Inalcançável, inabalável. Ele era lindo, com aqueles cabelos castanhos compridos, os olhos claros, aquele jeito de quem não liga para ninguém que esteja abaixo em sua cadeia alimentar. Deslumbrante, de tirar o fôlego. Hinata era irmã dele? Nunca ouviu falar que ele tivesse uma irmã. Observou a menina. Tímida. Provavelmente vivia se escondendo por aí, tentando não chamar a atenção. Não era de se surpreender que Ino não se lembrasse ou que não comentassem sobre ela.
– Irmã…
– Prima. – Hinata corrigiu rapidamente. – Prima do Neji Hyuuga.
Ino sorriu.
– Você tem que me dizer, ele é tão bonito e frio pessoalmente quanto parece à distância? Ele é tipo uma celebridade nesse colégio.
– Ele não é frio. – Foi tudo o que Hinata disse, como que se desculpando, antes de corar.
– Tem celebridades demais nesse colégio. – Tenten comentou, e quando Ino olhou em sua direção, percebeu que ela a encarava.
– Você também é quase uma. Pelo é a única que eu conheço que aparece no jornal. – Comentou.
Tenten revirou os olhos e deu de ombros. No instante seguinte, estava de pé, colocando o casaco.
– Eu vou ver as meninas do time. Falo com vocês mais tarde. – E saiu do quarto.
– Ela não gostou de mim.
– Ela não gostou de nenhuma de nós no começo. – Sakura disse. – Ela vai se acostumar com você.
– Não tem problema. – Ino sorriu. – Ela vai ver que não sou tão ruim assim.
Antes de voltar a escrever em seu diário, Ino deu uma última olhada nas duas meninas que ficaram no quarto com ela. Sakura também escrevia, sabe-se lá o que naquele caderno e Hinata terminava de arrumar suas coisas, com um cuidado de dar nos nervos. Ainda era cedo demais para criar uma opinião sobre elas. Escreveu o pouco que sabia sobre elas no diário, prometendo a si mesma que descobriria mais. Não podia se dar ao luxo de não conhecer absolutamente todas as pessoas que cruzavam seu caminho. Nunca se sabe quando você vai precisar dessas informações.
*
O almoço era um dos momentos favoritos de Ino. A comida era ótima, feita pelo velho Ichiraku, uma verdadeira festa em seu paladar. E era um dos poucos momentos em que tinham um pouco de liberdade para conviver com os outros alunos, conversar sem se preocupar com o tom de voz, e naquele dia especificamente, para saber como estava sua popularidade depois de tudo o que aconteceu.
Além do mais, queria ver Karin e ter uma ideia de como seria a interação delas a partir de agora. Costumavam ser melhores amigas. Até que Ino se viu sendo apunhalada pelas costas. Esquecer as boas maneiras e a elegância, e partir para cima da garota não tinha sido a coisa mais inteligente a fazer, Ino sabia disso. Agora. Na hora, foi impossível pensar nos prós e contras. Tinha saído de si. Transformado-se em um animalzinho agredido tentando se defender. Ino jamais se perdoaria por ter sido inocente e não ter erguido todas as barreiras possíveis contra as investidas de Karin. Deveria ter previsto! Sabia quem ela era e do que era capaz. Eram melhores amigas. Ninguém conhece Karin melhor do que ela. Por isso Ino deveria saber! Porém, aquilo não ficaria impune. Ino jamais esqueceria!
O salão onde ficava o refeitório era enorme, suficiente para comportar todos os alunos. O barulho às vezes era insuportável, mas ninguém era obrigado a comer ali. Havia portas nas laterais de todo o salão, com saída para o jardim dos fundos do colégio. Um lugar lindo, em qualquer época do ano, mesmo naqueles dias frios e chuvosos que Ino tanto odiava. A garoa já havia passado, embora o cheiro de terra molhada ainda subisse pelos ares. Era um cheiro bom, Ino era obrigada a admitir. Ao longe os pássaros começavam a cantar, provável sinal de que nenhuma chuva chegaria enquanto durasse o almoço, pelo menos. Os bancos estavam molhados, mas Ino não se importou. Estava no batente de uma das portas, apenas algumas poucas pessoas se arriscavam a ir para o jardim, com a terra molhada, podiam sujar os sapatos, meias e a barra das calças, e ninguém queria passar a primeira noite no colégio lavando roupas.
Sakura e Hinata estavam sentadas na mesa mais perto dali. As três tinham decido para o refeitório juntas, embora Ino ainda não tivesse decidido se era uma boa ideia ser vista andando com aquelas garotas. Porém, a opção de ser vista por aí sozinha não era melhor. Podia passar a impressão errada de alguém que havia sido derrotada. Suas novas companheiras de quarto não eram muito de puxar assunto, o que lhe custou algum esforço para fazer isso por elas. Agora, havia esgotado todos os assuntos neutros que conhecia, e que costumava usar para situações como essa. Ino sabia como fazer amigos, mas geralmente conhecia pessoas com mais a oferecer.
Sentiu uma mão de pele grossa tocar seu braço e fechar-se em volta dele. Assustou-se a princípio, mas quando olhou para ele, do lado de fora do salão, permitiu-se relaxar um pouco. Puxou o braço do contato com a mão dele.
– Aff, Kiba, já disse para não me tocar com essa mão de roceiro.
– Oi miss. Pensei que depois da confusão no ano passado, você poderia voltar mais humilde. Que bom que posso contar com a antiga Ino para me colocar no meu lugar.
– E porque eu mudaria por causa daquilo? – Ino o encarou, com raiva.
Ele deu de ombros, rindo.
– Todo mundo sabe que você se deixou enganar. Para alguém com a sua reputação, isso é vergonhoso.
– Cala a boca, maldito! – Ino empurrou Kiba. – Se não tem nada interessante para dizer, pode ir embora.
– Pensei que fôssemos amigos. – Ele ainda ria.
– Somos, mas só quando você não é um perfeito idiota.
– Qual é? Vamos dar uma volta. – Kiba pegou a mão de Ino, mas ela a soltou rispidamente. Ele se aproximou, mantendo os olhos nas companheiras de quarto de Ino. – A menos que prefira continuar a ser vista com essas duas. – disse, murmurando perto do ouvido dela. – Vamos.
Ino não questionou. Estaria mentindo se dissesse que preferia a companhia delas do que a de Kiba, mesmo que ele fosse um implicante insuportável às vezes. Além disso, estava mesmo precisando de um rosto conhecido por perto, afinal. Kiba foi uma das primeiras pessoas que conheceu no colégio e, apesar de brigarem quase todos os dias, no princípio, acabaram descobrindo que trabalhavam muito melhor juntos do que separados. Kiba estava sempre disposto a fazer o que quer que ela pedisse e só pedia em troca uma ou outra ajuda de vez em quando. Era um acordo simples, que Ino não via problemas em manter.
Kiba tinha uma coisa que Ino não encontrava em muitas pessoas por ali. Pelo menos não da mesma forma que encontrava em si mesma. Kiba tinha ambição e sagacidade para conseguir o que quisesse. A maioria só tinha ambição, mas pareciam bichinhos perdidos, tentando encontrar seus caminhos. Ino era diferente. Sabia perfeitamente quem era, o que queria, e como conseguiria. Kiba, apesar dela não fazer ideia do que ele queria, também sabia quem era, e não ficava parado esperando as coisas acontecerem. Ambos eram pessoas de ação. Era isso Ino admirava. Um parceiro com esse tipo de visão não a deixaria na mão, enquanto ela soubesse como retribuir os favores que recebia.
Havia mais uma coisa que contava a favor de Kiba, ao contrário de Karin, ele não representava uma ameaça direta a seus interesses. Seus interesses normalmente não se chocavam. Dessa forma, ao menos substancialmente, Kiba era, sim, mais confiável que qualquer amiga que pudesse conseguir.
– Como vai a interação com suas novas colegas de quarto?
– Nada que valha a conversa até agora. Nem sei se vale a pena tentar. Uma delas, aquela atacante do time de futebol, Tenten sei-lá-o-quê, é a antipatia em pessoa. Definitivamente não gostou de mim. Eu não fiz nada para ela.
– Tenten não gosta de ninguém. – Kiba disse, no mesmo tom que Sakura tinha dito antes. Ino pensou em perguntar porque a menina era assim, mas não estava realmente interessada.
– Que seja. Não é isso que vai tirar meu sono.
– E as outras?
– Uma nerd simpática, mas de pouca conversa e uma nerd tímida, de nenhuma conversa. – Ino lançou um olhar para o salão.
– Sakura Haruno e Hinata Hyuuga. Prima…
– Do Neji Hyuuga, é eu sei, fiz a lição de casa, Kiba, obrigada.
– Eu não estava supondo o contrário.
Eles caminhavam pela grama molhada, sentindo o cheiro de terra molhada e ouvindo o canto dos pássaros aumentar ao passo que seguiam em frente, para longe do salão. Para além da estrada para o povoado mais próximo, havia uma floresta densa e sinistra, que sempre atraía o olhar de Ino. E lhe dava arrepios.
– O que você fez o verão todo? – Ino perguntou.
– O de sempre. Não fiz nada memorável, se quer saber.
– Se não fez nada memorável, é óbvio que eu não quero saber.
– Apesar de achar que você não merece minha consideração, eu também fiz minha lição de casa. – Kiba parou de repente, observando o rosto curioso de Ino por um momento. – Eu soube que aquele lance da Karin com o Sasuke não foi para frente. Aparentemente, ela é insegura e possessiva demais e ele não aguentou nem um mês daquilo.
– É mesmo? – Ino tentou parecer desinteressada, mas era inútil. Depois de Karin, Kiba era quem mais sabia o quanto se importava.
– É verdade. Eu falei com ele hoje mais cedo. Adivinha quem é meu novo colega de quarto.
Kiba todo ano ficava em um quarto diferente. Não que fosse de arranjar encrenca com seus colegas de quarto, ou pelo menos, nada que se espalhasse pelo colégio. Mas ele não parecia se importar. Também não era uma pessoa de muitos amigos. De qualquer forma, a notícia não poderia ser melhor para Ino.
– Alguma coisa boa, finalmente!
– Tem seus prós e contras, na verdade. – Kiba deu de ombros. – Aturar o humor instável dele, por exemplo. E as “gordices” do Chouji, sem falar nas idiotices do Naruto…
– Coitado de você, Kiba! – Ino zombou. – Quando vai aprender a não reclamar da sorte?
– Sorte? Para quem?
Ino não respondeu. Karin e Sasuke não estavam mais juntos e isso era a única coisa que importava.
– Vamos voltar. Quero encontrar a Karin ainda hoje.
– Só tente não pular no pescoço dela como da última vez.
– Não sou idiota, Kiba. – Ino lançou-lhe um olhar de desprezo, já seguindo de volta para o salão.
– Desculpe, mas seu histórico não diz muito a seu favor! – Kiba riu, mas acabou seguindo-a.
Ino o observou pelo canto dos olhos quando Kiba a alcançou. Havia algo diferente nele. Diferente, inclusive, da maioria dos garotos que reviu desde que chegou. Seu rosto estava diferente. Quando percebeu o que era, riu.
– Você está ficando com cara de homenzinho! – Comentou, cutucando o braço dele com o cotovelo.
Kiba apenas sorriu.
– Vejo você mais tarde, miss.
E seguiu para o outro lado do salão, onde seus amigos estavam.
Ino não encontrou suas colegas de quarto quando voltou ao salão, mas não perdeu muito tempo as procurando. Seu olhar vasculhava o local a procura de Karin, mas aqueles cabelos ruivos estavam longe de sua visão. Ou escondidos, pensamento que a agradava absurdamente. Os alunos começavam a deixar o salão, o que a obrigou a aceitar o fato de que Karin não estava mais ali. Ela preparava-se para deixar o local também, quando sentiu outra mão, dessa vez mais delicada, segurar-lhe gentilmente pelo braço. Em seguida, ouviu aquela voz…
– Oi, Ino. – Sasuke estava parado diante dela, com aqueles olhos negros, dos quais não conseguia fugir desde que o conheceu há dois anos. Eram os olhos mais bonitos em todo o mundo. Sasuke era o garoto mais bonito que conhecia! Não importava quantos Neji Hyuuga aparecessem em sua vida, Sasuke ainda era melhor que aquilo. Ele tinha aquele efeito sobre ela, de deixá-la subitamente sem ar, sem voz, sem reação.
Antes de responder-lhe o cumprimento, porém, precisou reunir forças e recompor-se. Em hipótese alguma Sasuke podia saber dos efeitos que causava nela. Claro que, depois de tudo, ele sabia como ela se sentia, mas tudo que Ino podia fazer agora, em nome do que lhe restava de dignidade, era não dar a ele o gostinho de ser o alvo do seu desejo. Pelo menos não de uma forma tão desesperadora. No ano anterior, Ino podia ser uma menina inocente, inconsequente, que não pensou antes de deixar todos cientes de seus sentimentos. Mas agora, Ino era uma garota melhor. Não levantaria o ego de garoto nenhum. Mesmo que isso lhe custasse todas as suas forças.
– Oi Sasuke. Como foi o verão?
– Foi ótimo, na verdade.
– Que bom. Fico feliz. Você é o primeiro que me diz isso hoje. Se mais alguém me dissesse que teve um verão chato, eu acabaria ficando entediada.
– E o seu verão, como foi? – Sasuke soltou o braço de Ino. A sensação do toque dele ainda estava impregnado em sua pele.
– Foi ótimo! – Disse, com empolgação demais para seu gosto. Não teve um verão ruim, mas “ótimo” era um exagero. – Qualquer hora eu te conto os detalhes, agora, tenho que ver se encontro umas pessoas. Nós nos falamos depois, Sasuke.
– Certo. Até mais, Ino.
– Até mais. – Dizendo isso com um sorriso doce, Ino se afastou, tomando cuidado para não sumir de vista logo, mas mantendo-se numa distância segura. Seja o que for que Sasuke pensasse que ela sentia, agora ele podia não ter tanta certeza. Ótimo. Era assim que tinha que ser.
Sábado, 28 de janeiro de 2012, 21 hs e 00 min.
Hoje não foi tão ruim quanto eu achei que seria. As minhas colegas de quarto não são muito interessantes, como seria ideal, mas não vou dar o assunto como encerrado ainda. Tem muita coisa que preciso saber sobre elas, e sobre o que perdi nesse verão, mas estou animada. E tenho que confessar que boa parte do motivo é a conversa que tive com Kiba (que me contou sobre o fiasco que foi a tentativa da Karin de namorar o Sasuke) e minha conversa com o próprio Sasuke.
Ele está lindo como sempre! É claro que ter duas garotas brigando por sua causa encheu o ego dele. Tenho certeza que ele tomou minha paixãozinha como algo certo. Tive que usar meu melhor para deixá-lo em dúvida sobre isso hoje no almoço. O que eu podia fazer? Parecer uma garotinha desesperada está fora de cogitação!
Infelizmente (ou não), não vi Karin em parte alguma hoje. É só uma questão de tempo para isso acontecer, e quero estar pronta nesse momento. Porém, apesar do que eu disse ao Kiba, sobre não ser idiota de partir para cima dela imediatamente no instante em que a vir, confesso que às vezes me sinto inclinada a fazê-lo. Por isso mesmo que preciso estar preparada. O que vale para o Sasuke, vale para ela também. Não posso parecer desesperada.
E, imagino, isso também se encaixe em relação às minhas colegas de quarto. Tentar fazer amizade com elas, quando obviamente não têm nada a ver comigo, pode acabar se tornando um grande desastre. Preciso pegar leve, ir com calma.
Também tentei encontrar Shyon, mas ela também não apareceu. Espero ter mais sorte amanhã.
Não consigo deixar de pensar que seria melhor se eu pudesse simplesmente ficar com o Kiba e os amigos dele (que não são completamente estranhos para mim). Mas não sei como isso seria. Até hoje, não sei bem se eu e Kiba somos amigos. Ou, se o somos, quais são os termos dessa amizade bizarra. Não nos falamos o verão todo, não trocamos confidências profundas, somente o essencial para que ele saiba o que eu quero e o que tem que fazer, e o mesmo vale para mim. O que temos é quase como um acerto de negócios. Ele me ajuda a conseguir o que quero, eu o ajudo a conseguir o que ele quer. Não há nenhum outro compromisso sobre lealdade ou companheirismo, ou qualquer outra coisa que haja numa amizade.
Estou tentando não pensar nisso, na verdade. No fim das contas, realmente não importa. É um bom acordo. Com termos simples. É algo com o que posso lidar.
O domingo vai começar cedo para mim, amanhã. E as luzes serão apagadas daqui a pouco. Muito o que fazer, muito em que pensar. Talvez Shyon e Karin apareçam amanhã. Talvez eu encontre Sasuke amanhã de novo. Talvez eu descubra outro jeito de puxar assunto com minhas queridas colegas de quarto, tentarei, inclusive, com Tenten.
Então, talvez, eu possa ter um bom dia amanhã também.
Boa sorte para mim!
Notas finais
Espero que gostem. Eu sempre quis escrever essa fic, embora somente hoje tenha dado a ela uma cara...
Realmente espero que esteja bom!
Até mais!
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