Notas iniciais
Como sempre, espero que gostem ^^ Desculpa a demora XD

Escolhi o banco mais de frente e me sentei, amarrei Frankie ao meu lado e tirei da bolsa de couro um pequeno caderno e um lápis. Comecei a rascunhar um esboço da casa com seu dorso de dragão e suas janelas retorcidas. Sem entrar em muitos detalhes, o desenho já tomava forma e se assemelhava a realidade. Enquanto estava desenhando, percebi alguém se posicionar em pé, diretamente atrás de mim. Alguém observava meu desenho, mas estava ocupada demais concentrada no azulejo que lembra escamas. Então, a pessoa que observava por cima de meu ombro diz: "Bonito esse desenho hein?". Essas quatro palavras não teriam gelado meu corpo se tivessem vindo de uma voz diferente, mas aquela em específico... não podia ser.

Quando me virei, pude ver um rosto familiar. Senti cada músculo do meu corpo relaxar, as batidas do meu coração se acalmaram enquanto ele colocava uma de suas mãos em meu ombro e dava um leve apertão. “Não pode ser! Não dá pra Acreditar!” disse em um tom talvez agudo demais. Nunca gostei desse tom, parece demais com a minha irmã, porém não me importava quando escapava perto dele. “Rafi! Vamos tomar um café ou alguma coisa! Faz tanto tempo que não nos vemos”

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Seguimos pelas Ramblas até chegar à entrada para a Plaça Reial. Entramos na pequena e sinuosa viela com seu braço sobre meus ombros e meus braços envolvendo seu abdômen. Fomos caminhando vagarosamente e aquele contato me fazia sentir completa, feliz. “Vamos ali tomar um café” disse Rafi apontando com o indicador para um pequeno e elegante café com um ar parisiense.

Ao entrar no estabelecimento, o contato com o ar quente me fez perceber como sentia frio. Rafi se posicionou na fila para pedir nossos cafés quentinhos e eu me aconcheguei em suas costas colocando minhas mãos frias junto às suas nos bolsos do casaco. Abraçados, parecíamos o casal perfeito e sabia que ele também sentia que era como se todo aquele tempo afastados não existisse.

O que mais gostava no Rafael- Rafi, pros íntimos- era seu estilo: estava sempre bem vestido. Naquela ocasião usava calças bege com mocassins um tom mais escuros, um blazer azul naval e uma camiseta vinho de uma de nossas bandas indie favoritas. Cheirava seu perfume de sempre, seu favorito, que ele nunca me revelou o nome. Aquele homem era visualmente perfeito.

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Sentados nas pequenas mesinhas para dois, bebericava meu delicioso café com chocolate enquanto ele apenas brincava com a embalagem vazia. Um pequeno sorriso travesso apareceu em seus lábios e então eu decidi perguntar-lhe algo que desejava desde que nos encontramos, “O que te traz à Barcelona? Você não estava morando em Milão?”. Ele abaixou os olhos parecendo envergonhado e então respondeu “Vim de viagem com um amigo, gostaria que o conhecesse. Dadas as circunstâncias de tamanha coincidência, me pergunto se você estaria de viagem”. Ele sempre falava desse jeito meio formal quando estava nervoso. “Na verdade, acabei de me mudar para cá. Faz menos de um mês” disse, olhando para seus cabelos quase pretos e extremamente densos em sua cabeça. “Acho que nesse tempo já deu pra quebrar uns corações por aí hem?”. “Que isso...” disse rindo enquanto corava um pouco. Ele era o único que conseguia me fazer corar, eu nunca entendi essas habilidades mágicas que ele tinha. Tentando mudar de assunto para não ter que falar de Nicolò, perguntei em tom provocativo “Então... esse amigo é só um amigo mesmo?”.

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Enquanto voltávamos, já escurecia e o frio ficava um pouco mais forte. Em um marcador de rua vi que a temperatura estava em torno de 1ﹾC. Andávamos pela avenida Passeig de Gràcia, que é onde ficam as lojas de grife aqui. Andava segurando em seu braço para me aquecer. Aos olhos dos outros parecíamos um casal, até ouvi uma senhora idosa dizer “Não é mais comum ver casais assim... como os de antigamente”. Acho que ela se referia a nós dois.

Ao longo do caminho fomos parando em diversas lojas caras para observar a vitrine e comentar nas roupas como se fossemos críticos de moda. Quando as lojas acabaram, decidi contar-lhe o que tinha acontecido com Nicolò. Como nos velhos tempos não existiam segredos entre nós, e eu achei melhor contar. Ele ia passar quase um mês aqui e podia me ajudar a me resolver com os meus sentimentos.

Estávamos chegando bem perto de casa quando meu celular toca: era Alicia. “Oi, eu estou com a mamãe no mercado comprando as coisas pra janta, uns amigos que trabalham com papai estão na cidade então eles vão jantar fora. Somos só nós duas e a vovó, o que você quer?”. Nunca entendi como ela consegue falar tanto em tão pouco tempo. Pensei comigo mesma e respondi “Liga pra vovó e pede pra ela colocar a mesa para cinco e não três. Rafi e o namorado vão jantar conosco e nós dois faremos nosso famoso risoto. Depois eu te explico. Beijo”.

Quando olhei pro lado pude ver uma mistura de confusão e felicidade no rosto dele. Com sua pele morena e olhos verdes bem escuros, seu ar exótico o tornava irresistível, mesmo com aquela estranha expressão no rosto. “O que está olhando? Seu hotel é do lado da minha casa e seu ‘amigo’ está lá te esperando não?” e em seguida o olhei provocativamente. “Está bem... vamos por aqui” respondeu fingindo estar contra sua vontade.

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O hotel era na frente da universidade de medicina que minha irmã queria estudar. Estava sentada em uma das poltronas do saguão observando Frankie lá fora andando adoravelmente em círculos ao redor de onde o havia preso. As janelas escureciam o lado de fora, mesmo assim era notável que já estava escuro. Estava sentada em uma poltrona preta de cetim extremamente confortável, o ambiente de penumbra com luzes apenas no bar e na recepção, o jazz suave tocando de fundo, o rabo de Frankie que abanava sem parar... parecia que o ambiente estava decidido a me empurrando para os braços de Morfeu. Mesmo me sentindo pesada na poltrona não fazia muita força para me manter acordada talvez pela quantidade de café que havia bebido, pelo que ia beber a noite (e com a minha avó que é a cereja no topo) ou pelo reencontro com Rafi. Acho que a combinação de tudo era responsável por me deixar eletrizada daquele jeito.

Comecei a ouvir se aproximar uma voz familiar falando em italiano “Lei è la mia miglior amica. Ti piacerà”. Levantei-me e girei em direção a eles. O garoto tinha a minha altura era extremamente magro e igualmente estiloso. Vinha bem vestido mas com roupas adequadas para a noite que teríamos, aparentemente Rafi havia explicado como as coisas funcionavam com Olivia.

“Atena este é Lorenzo”. As apresentações foram feitas em inglês mesmo que ele falasse um pouco de português. Lorenzo era um garoto tímido mas muito simpático. No caminho até minha casa descobri que compartilhávamos uma paixão por pins de viagem e tínhamos o mesmo gosto musical. Frankie também gostava dele, dava pra ver claramente por sua linguagem corporal.

Ambos os garotos aparentavam ser extremamente héteros, o que tornava nosso passeio pelas ruas de Barcelona ainda mais estranhos. Rafi estava no meio com os dedos entrelaçados aos de Lorenzo e o braço em meus ombros. Com um mão eu o abraçava de volta e com a outra segurava Frankie que corria devagar um pouco a frente.

Ao chegar em frente ao prédio, paramos ao lado do restaurante que havia no andar térreo da construção. Peguei as chaves na bolsa e abri o portão. Rafi se ofereceu para levar Frankie pelas escadas enquanto eu e Lorenzo fomos de elevador. Quando chegamos ao último andar, abrimos a portinha e descemos conversando enquanto esperávamos Rafi e Frankie.

Quando estávamos todos no hall de entrada do apartamento, peguei outra chave no molho e abri a porta de entrada. Quando abri a porta me dei de cara com minha mãe em um belo vestido e meu pai de terno e gravata borboleta colocando seus respectivos casacos. “Pronta querida?” perguntou meu pai, sério, e ela fez que sim com a cabeça sem demonstrar muito afeto também. Eles não tinham uma cara muito boa, talvez estivessem cansados. Abrimos espaço enquanto eles passavam se despedindo e revelando uma cena me arrepiou mais que o frio lá fora. Sabia o porquê da cara de poucos amigos de meus pais. Tomando uma taça de vinho com minha avó, ninguém mais ninguém menos que Nicolò, o vizinho. Vi minha avó me dar uma piscadinha e minha irmã eu estava na cozinha mais atrás fingiu bater palmas e pronunciou “Mandou bem”. Rafi me deu uma cutucada nas costas, até ele havia entendio a situação, o único mais perdido que eu era Lorenzo que não capisci nada do que acontecia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.