Notas iniciais
Espero que tenha ficado bom ^^

Sentada em frente à pequena mesa que havia no meu quarto, tentava focar na lição de matemática. O pior da matemática aqui na Espanha não são os números, porque eles continuam iguais. A parte mais chata é que todos os problemas são em espanhol. Não tenho problemas com a língua, entendo tudo, mas quando entro em contato com ela é quase como se pudesse sentir aquele hálito morno em meu pescoço. Conseguindo piorar a minha situação, a cozinha emanava um perfume de banana no forno, com um leve toque de canela. Como podem esperar que eu me concentre desse jeito?

Não tinha como aguentar mais. Precisava fazer a lição, mas não era capaz de focar em z=a+bi sabendo que aqueles cachos perfeitos estavam a alguns metros de distância. Sendo assim, tomei uma decisão perigosa e decidi contar á minha irmã o que havia acontecido.

Embora Alicia seja minha melhor amiga, somos extremamente opostas. Se eu contasse o que aconteceu ela ficaria furiosa coma minha 'irresponsabilidade'. Precisava desabafar com alguém mas ainda não tive tempo de criar verdadeiras amizades aqui, apenas conhecia algumas pessoas agradáveis e divertidas. Contar para minha irmã essas coisas é quase certamente um tiro pela culatra, ela provavelmente iria querer contar para os nossos pais.

Sentia meu corpo pesar mais e mais na cadeira. Mesmo sabendo que precisava contar para ela, não conseguia deixar de relutar. Enfim consegui me levantar e com passos vagarosos fui ate o quarto dela. Quando olhei para minha irmã tive uma estranha sensação. Apenas em raras ocasiões havia me sentido tão diferente de Alicia.

"O que você quer?" disse enquanto me olhava por cima de um livro. Fechei a porta atrás de mim e me sentei ao seu lado na cama. "O que você ta lendo?". Minha tentativa de enrolar um pouco antes do assunto principal tinha sido em vão, "Pode ir falando, conheço sua cara como se fosse a minha. Foi algum garoto né?". Não tinha como evitar, destrambelhei a falar.

...

Não acreditava no que estava escutando. Minha irmã não estava me criticando pelos meus atos 'irresponsáveis'? "Que bom que achou alguém como você. Alguém que não se importa com regras e não acredita na existência de responsabilidades. Tô contigo nessa.". O apoio dela não só significava muito pra mim, mas também era vital na estratégia para esconder as coisas do meu pai.

...

"Atena! Alicia! O bolo está pronto!" gritou minha mãe. Me levantei da cama e estendi o braço para minha irmã, oferecendo ajuda para levantar. "Preciso terminar esse capítulo, o livro ta muito bom! Me traz um pedaço que esse cheirinho de banana com canela está me matando". Nem respondi, só recolhi o braço e saí. Por que ela tinha que falar na canela? A canela dele! Talvez não fosse culpa da Alicia, e sim da minha mente que sempre volta pra ele. O garoto misterioso, o fotógrafo, o jornalista, meu vizinho e o mais importante: a droga na qual meu cérebro (ou talvez meu corpo) estava profundamente viciado.

Dou alguns passos no corredor até chegar à sala. Encontro minha mãe e Olivia sentadas à mesa com chá e bolo servidos. Me sento junto a elas e me sirvo uma boa porção de chá de jasmim. "Querida, por que sua irmã não vem?" perguntou minha mãe. Expliquei o motivo e ela sorriu educadamente. Minha mãe é do tipo de pessoa que sempre tenta demonstrar a maior educação e finesse, especialmente perto da minha avó.

Quando terminei o chá, me levantei da mesa. "Essa aí continua comendo pouco?" disse Olivia. "Essa sim, já a irmã..." respondeu minha mãe "Leva o bolo da Alicia, vai." lembrou. Enquanto ela corta o bolo, sinto os olhos de minha avó em mim, me examinando. "Não seria educado levar um pedaço de bolo para a vizinha que emprestou a canela?" observa ela. Pego o bolo das mãos de minha mãe e enquanto me dirijo para o quarto da Alicia respondo "Vizinho, foi um vizinho que me emprestou.".

Com essa resposta me senti como uma garota de filme. Não sei por que mas me senti como uma daquelas atrizes misteriosas que sabem mais que todos, que todo o mundo quer saber de sua vida pessoal mas ela simplesmente a mantém pessoal. Me senti como Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, ou Anne Hathaway em Os Miseráveis, e até talvez Stana Katic em Castle. Me senti poderosa e misteriosa. Misteriosa como o meu vizinho do andar abaixo.

Mesmo me sentindo bem, a pergunta me incomodou. Minha avó não fala as coisas por acaso. Olivia sempre está um passo a frente, e eu queria saber que passo era. Não sei se relacionava o da noite anterior com o vizinho, mas ela já esperava minha correção. Ela havia visitado o prédio várias vezes para ver como estava a obra antes da nossa chegada e provavelmente viu o garoto por aí. Precisava descobrir até onde ela sabia.

...

Deitada no chão do meu quarto ouvia um pouco de Hozier para relaxar. Mesmo assim, minha mente maquinava a mil por hora. Para deixar de pensar nos assuntos do coração decidi examinar a chave de Olivia. Era grossa e parecia antiga. Percebi que estava bem suja, então não deveria ser de ambientes internos, mas a varanda do apartamento era minúscula. Não restavam opções, meu cérebro tinha travado.

Para refrescar a mente e dar espaço para novos pensamentos decidi dar uma volta com meu Border Collie. Levantei-me de súbito e comecei a olhar as roupas do meu armário. Uma legging preta e meu abrigo verde militar resolvem o frio do outono em Barcelona.

Passei correndo pelo corredor e derrapei em minhas meias quando fiz a curva para a cozinha. Passando pela porta encontro Frankie e Coco me olhando enquanto abanavam os rabos. Liberei Coco, o Pug de Alicia, para o resto da casa enquanto fui colocar a coleira em Frankie. Assim que viu a coleira começou a pular e latir de felicidade, talvez porque não havíamos saído para passear depois da mudança. Estava preocupada como ia reagir aos outros cães daqui. Os cães europeus parecem meio esnobes e bem comportados e Frankie é um bebezão bagunceiro. Calcei as botas Timberland mais velhas confortáveis e quentinhas que eu tinha e saímos.

Descendo pelas escadas meu coração batia acelerado. Na Europa são chatos com animais e nós já temos sorte de que sejam permitidos no prédio, mas não podem passear de elevador, o que aumenta as minhas chances de me deparar com os olhos verdes que eu tanto temia porém desejava encontrar.

Chegando no nível da rua fomos andando no sentido das Ramblas que não estavam muito longe. Cada passo que dava me sentia mais purificada. As pessoas na rua, eventualmente ouvir o catalão, o frio no meu rosto, a respiração de Frankie... tudo me trazia paz interior e me fazia divagar sobre como seria o futuro aqui.

Quanto mais próximo às Ramblas chegávamos, mais lojas de design apareciam. Fui parando de loja em loja pra observar as vitrines até encontrar a Casa Batlló, uma obra prima do Gaudí que mistura arquitetura e natureza de uma forma que só se pode entender vendo de perto. Não dava para entrar porque não podia abandonar o Frankie do lado de fora, então decidi ir até o outro lado da avenida.

Escolhi o banco mais de frente e me sentei, amarrei Frankie ao meu lado e tirei da bolsa de couro um pequeno caderno e um lápis. Comecei a rascunhar um esboço da casa com seu dorso de dragão e suas janelas retorcidas. Sem entrar em muitos detalhes, o desenho já tomava forma e se assemelhava a realidade. Enquanto estava desenhando, percebi alguém se posicionar em pé, diretamente atrás de mim. Alguém observava meu desenho mas estava ocupada demais concentrada no azulejo que lembra escamas. Então, a pessoa que observava por cima de meu ombro diz: "Bonito esse desenho hein?". Essas quatro palavras não teriam gelado meu corpo se tivessem vindo de uma voz diferente, mas aquela em específico... não podia ser.