O Jantar - Ernesto e Ema
1 O Jantar
Ema adentrou decidida na mansão do parque, porém sentiu toda a fortaleza de certeza erguida a muito custo, ruiu no segundo seguinte.
Ela não podia acreditar. A vergonha abateu rápida e impiedosa sobre si. Lá estava Ernesto a olhando com olhos acusadores. Ela engoliu a seco. Respirou fundo e adentrou de vez na sala. Não podia fraquejar agora, porém... Que inferno ele estava fazendo ali?
Depois de passados os cumprimentos, estavam todos sentados, bebericando o licor.
— Mas, é realmente uma surpresa vê-lo por aqui, Ernesto! — cumprimentou Aurélio.
— De fato uma grande surpresa! — comentou Jorge, olhando para Ema vendo a bochechas dela corar, porém se ateve pois Amélia apertou seu braço.
— Pois num é que deve ser mesmo? — respondeu o italiano, sorrindo um tanto presunçoso.
— Ernesto me salvou de uma boa em São Paulo. — disse Edmundo. — E como estava de visita ao Vale para ver a família, tornou-se presença quase ilustre nesse jantar. — ele sorriu debochado para o amigo. — Só não mais que a minha futura noiva.
Ema arregalou os olhos, corando ainda mais. Tentou não olhar para Ernesto, mas inconscientemente o fez, e este sorria, um tanto austero e diplomático. Ela estranhou. Como era possível ele não sentir nada? E se fosse sincera admitiria que doeu por ele não ter sentido.
— Só não poderei demorar-me muito. — disse ele. — Amanhã volto cedo para São Paulo.
— E como estão todos? — ela perguntou. Precisava se dirigia a ele, por algum motivo lhe era uma necessidade. — Elisabeta, Jane e Camilo?
Percebera o quanto sentia falta dos amigos.
— Bem! Todos encaminhando-se!
— E o seu trabalho no bar?
— Um fardo divertido.
— Qual o quer? — adentrou Edmundo na conversa. — Pode retirar o 'fardo' dos adjetivos. Você esbanja carisma, italiano. Já tem aquele velho portuga nas mãos. — Sorriu. — Por certo por ter atraído uma chuva de novas clientes para o estabelecimento.
— Não invente meu bom!
— Inventar?! Aquilo lá está mais enfeitado de belas jovens do que os ateliês de modistas da Rua Paulista.
Ema fechou a cara, e revirou os olhos.
— Achei que tivesse sido contratado como garçom. Não como atração turística, ou bibelô do lugar. — disparou altiva, sem nem ao menos perceber que abrira a boca.
— Ema! — ralhou-lhe Aurélio.
— Não se afobe em seus cuidados ao seu antigo criado, baronesinha. São apenas jovens distintas e altamente respeitáveis, tal qual a senhorita, que visitava o bar todas as tarde!
— Ora seu... seu... não se atreva a comparar-me! — alarmou-se com o coração batendo forte em constrangimento e irritação. — Eu ia por causa dos lanches. — pontuou altiva.
— Claro! Os suculentos...
Ela arregalou os olhos, acreditando ter sido traída por Elisabeta.
— Assim como as mais nobres jovens da região, que são dotadas de um bom paladar. — continuou ele.
Ela estreitou os olhos perigosamente para ele. Apertando forte as unhas na palma das mãos.
— Posso imaginar o quanto...
Os presentes na sala olhavam de um para o outro. Realmente embarcados e curiosos com a conversa, porém sem nada entender dela, até ouvir-se a sonora risada do barão.
— Eu bem sabia hein, Carcamano de uma figa! Você não tem mesmo cara de quem para quieto!
Ema levantou-se de supetão.
— Preciso usar o toalete!
— Eu a acompanho, Ema. — interveio Cecília e as duas se poram a sair da sala, porém ao passar por Ernesto Ema fez questão de lhe pisar o pé. Ao "A--i" entre dentes dele, ela sorriu petulante e seguiu estranhamente contente.
— O que passou, Ema? — perguntou a amiga assim que deixaram a sala.
— A que se refere?
— A sua discussão com Ernesto em meio a sala! — o tom calmo de Cecília, tornava a indagação suave ao seu ouvido, e a fazia calma para responder.
Ainda pôde dar um meio sorriso constrangido.
— Não houve discussão!
— Não se apercebeu que discutiam?
— Ora, Cecília apenas... É sempre assim meus tratos com Ernesto. — deu de ombros.
Cecília apenas sorriu e lhe indicou a porta do toalete.
Ela queria de alguma maneira ser tragada naquele recinto. Os pensamentos mais diversos corriam a sua mente, desde Ernesto e sua intimidade com Edmundo, desde as insinuações de Edmundo e de seu avô sobre os desfrutes de Ernesto; desde ele lhe comparando com jovens despudoradas que o visitava no bar, e a o pior ele não dando a minima importância a apresentação de Edmundo a ela como sua futura noiva. Estava enlouquecendo só podia. Ou estava num sonho muito louco. Não queria fazê-lo para não borrar a maquilagem, mas jogou água no rosto, segurou-se na cuba de louça, mirando-se no espelho, o colo arfava, ela percebeu então que a respiração estava descompassada, e o rubor em sua face denunciou o sangue correndo forte por suas artérias.
Como escapar daquilo? Daquela noite que tinha tudo para ser a pior de sua vida? Podia fingir um "mal súbito"! Lembrou-se que fora essa a desculpa que o despudorado usara quando ela o flagrou em sua cama. Devaneou, parecia ter sido em outra vida. Respirou fundo! Não ia fraquejar. Passou mais três minutos olhando no espelho, esperando as mãos pararem de tremer e a respiração assentar, então saiu.
Trabalho inglório! Foi a primeira coisa que pensou quando o viu recostado despreocupadamente na parede ao lado a porta do banheiro.Todo seu corpo voltara a se agitar.
— A senhorita acatou minha sugestão, ao que vejo? — disse ele.
— O que?
— O marido rico! Porém não acho que seja a maneira mais digna 'de ganhar dinheiro' mesmo que seja a mais fácil.
Ela suspirou.
— Vai continuar a ofender-me?
— Não vê que é a senhorita que está fazendo isso a si própria? — ele virou-se totalmente para ela. — Diga-me como consegue fazer isso?
— Fazer o que?
— Nunca a imaginei tão fria!
— Fria?! Não sabe o que isso está me custando!
— Tão pouco me interessa! Se não faz diferença para senhorita, porque deveria fazê-lo a mim?
Ela sentiu a pontada no peito.
— Então o que veio fazer aqui? Atrás de mim?
Ele aproximou-se mais. Mirou-a nos olhos.
— Vim desencantar-me, baronesinha! Vim ver de perto ruir a imagem integra que eu fazia da senhorita!
Ema engoliu a seco.
— Não se atreva...! — a voz lhe falhara. Ela tinha os olhos dele muito perto, a boca também.
E ele a segurou firme pelos braços.
— Não me atrevo? — a voz erra sussurrada rente seus lábios, a desestabilizando, os joelhos tremeram, enquanto ela sentia demasiado o peso do seu corpo, agradeceu por ele lhe está segurando. — Olhe para você... — roçou os lábios no dela, a sentiu tremer e arfar. — Completamente rendida em meus braços, e estando na casa de seu digníssimo futuro marido. — Alguma parte do cérebro de Ema, talvez a razão, a despertou. Ela estava exatamente como ele descrevera, completamente rendida. Odiou-se e afastou-se dele bruscamente.
— Energúmino! — foi a única palavra que viera a sua mente. Saiu em disparada pelo corredor.
Chegou na sala ainda completamente afetada.
— Ema? Está tudo bem? — adiantou-se Cecília a seu encontro, enquanto os cavalheiros levantaram-se.
— Estou bem! — suspirou. — Apenas achei que tivesse me perdido. Os corredores pareceu-me um labirinto.
— Pra mim também é assustador às vezes! — disse Cecilia, os olhos meio arregalados, olhando para o corredor por cima do ombro de Ema. — Principalmente quando se não sabe para onde ir!
— É... é isso! — ela engoliu a saliva.
— Viu Ernesto? — perguntou-lhe Edmundo. Ela corara novamente.
— E-Ernesto? — a voz falhou. Mas, que inferno!
— Ele ao que parece sumiu!
— Não, não o vi! Como disse... estive perdida!
Ela voltou a seu lugar, mas não sem antes perceber o olhar astuto de Jorge. Ele parecia mais atento a suas reações que qualquer outra pessoa. Ema sentia o peso da observação sobre si. Tanto melhor que fosse ele, pensou. Nada mais o devia, estava casado com Amélia a quase um mês. E o médico havia lhe sugerido o campo, era mais sossegado para ela se recuperar. E lá estavam eles desempenhando papeis numa grande trama, digna de Sheakespeare ou Austen.
Ernesto surgiu minutos depois pela entrada principal da casa. Quando questionado seu paradeiro por Edmundo, respondeu-lhe que precisou de um pouco de ar. Matar a saudade do cheiro de relva do Vale. Adiantou-se em lembrar que voltaria para São Paulo na manhã seguinte.
— Então creio que podemos seguir para o jantar! — disse Rômulo.
— De forma alguma se apressem por mim — respondeu ele.
— Tanto melhor — disse o almirante altivo. — Podemos ter a honra de ouvir a senhorita Ema ao piano!
Ema sentiu algo frio despencar por seu estômago. Não tinha animo, ou inspiração para tocar.
— Claro! — disse por fim, tentando sorrir. — Se Cecília me acompanha com sua bela voz.
A amiga olhou para o marido que assentiu.
As duas tomaram posição. Mas, Ema não foi para Chopin ou Bach como por certo esperava a maioria dos presentes. Escolheu uma canção de uma artista português, cuja a melodia era nostálgica, e a letra falava de amor, encontro e cumplicidade, e que Cecilia interpretara divinamente em sua doce voz melodiosa, emocionando Rômulo e também Amélia. Ema acompanhou-a no final dos versos que diziam:
"Demos voltas
Sem dar conta
Chocámos mais que uma vez
Somos leves
E nem que cegue
Eu te irei perder
Meu é teu..."
No final, aos aplausos a amiga abaixou-se perto dela e lhe deu um sutil "obrigado", pois sua voz tinha embargado de emoção. Podia-se dizer que Ema também se atinha a ela, pois seus olhos assim como os de Cecília, Rômulo e Amélia estavam molhados. Os versos daquela canção lhe dava um conforto que ela sabia que não podia ter.
— Acredito que as tardes em minha casa serão sempre melodiosas a partir de então... — comentou o almirante, e a paz que a melodia trouxera a Ema dissipou-se no instante seguinte. — Acho que agora podemos passar para o jantar, enfim!
Na mesa, já devidamente acomodados e servidos, a boa conversa retornou:
— Pode nos contar um pouco mais das novidades de São Paulo, Ernesto? — pediu Cecília — Sinto tanta falta de minhas irmãs.
— Acredito que a recíproca seja verdadeira — ele sorriu para ela. — Mas, estão verdadeiramente bem. Jane a cada dia que passa parece mais encantada com Camilo. O que é incrível! Já que dizem que a conveniência desencanta e aflora os defeitos.
Eles sorriram.
— Ah, não quando se está apaixonado — ela disse, e olhou terna para o marido.
— Pois bem, esse deve mesmo ser o diagnostico de sua irmã, para aturá-lo. — deu de ombros, sorrindo dos sempre "bons modos" do novo amigo.
— Ah, então o amor agora, enfim, é uma doença? — indagou Ema, em petulância. — Diga isso a Elisabeta por mim!
— Creio que não adiantará. — ele respondeu-lhe no mesmo tom. — Está plenamente rendida aos encantos do Sr. Darcy. A única coisa que talvez tenha mais espaço que ele em sua vida seja o trabalho.
— Como a vida é hilária!- comentou Rômulo. — Lembro-me que você me dizia que os dois viviam as turras em brigas. — disse ele a Cecília, que assentiu.
— E é verdade, Elisabeta chegava bufando por causa de Darcy. — completou ela.
— Isso por que era uma cabeça dura – interveio Ema. — Qualquer um via que eram perfeitos um para o outro. — disse astuta na direção de Ernesto, com certeza querendo o fazer lembra-se de sua paixonite pela amiga. Não percebendo que outros olhos a analisava curioso.
— Devo concordar com a senhorita. — disse ele sorrindo. — Talvez apenas o tamanho de Darcy pudesse ser necessário para por rédeas no coração de Elisabeta.
— Elisabeta foi muito corajosa em ceder ao orgulho. — disse Rômulo trocando um olhar altivo com a esposa.
— O que me choca é dizer-me que ela está trabalhando! — disse o almirante. — Onde já se viu...
— Ora, os tempos são outros, meu velho amigo — disse o Barão. — Na época do império não se via uma balburdia dessas, ora! Uma mulher? Trabalhando?!
— Pois já eu acho que faz Elisabeta muito bem — disse Ernesto que nunca se amedrontara diante da "nobreza" dos comentários do Barão. — Lutando pelos seus sonhos e sustentando-se de maneira digna — ele enfatizou a palavra— , mesmo tendo na agulha um pretendente como Sr. Darcy Williamson.
Ele tentou não expressar reação de dor quando sentiu o chute na canela, causado por certo, pela ponta da bota de Ema.
— Realmente os tempos são outros. — disse Aurélio, o pensamento parecia longe dali. — Temos a exemplo Julieta Bittercourt; tão grandioso império, e apenas uma mulher!
— Ora, pois não me venha falar dessa demônia agora e estragar a noite! — alarmou-se o Barão.
Aurélio voltou a si.
— Mas temos Ludmila também como exemplo. — opinou Jorge. — Dirige sozinha uma fabrica, onde a maioria, se não todos os funcionários são mulheres.
— Ah, mas isso é ridículo! — disse o Barão. — Fabrica de quê? De tricô?
— Ora não seja misógino, vovô! — defendeu Ema. — Ludmila é uma ótima empresaria, e foi ela que ajudou em minha acolhida em São Paulo, foi-me de muita gentileza.
— Não podemos esquecer-nos da Doutora Mariko — lembrou-se Ernesto. — Talvez isso lhe choque Sr Barão, mas é uma das médicas mais competentes que eu já vi! Inteligente, corajosa e ainda marcada por ser descendente de imigrantes.
Ema sentiu o peito rugir.
— Ora!! Mundo perdido esse — choramingou o barão. — Uma mulher exercendo a medicina! Deus tenha piedade da humanidade!
— Mas, a doutora Mariko é realmente tudo isso que Ernesto falou. — disse Rômulo e posso falar como colega de profissão.
— É verdade! — concordou Cecília com conhecimento de causa. – Atenciosa, gentil. E sim muito inteligente.
— Ora meu Deus! Como ainda não a canonizaram? – disse Ema, com displicência.
—Taí — disse Ernesto, entusiástico. — Uma coisa que ela não tem: vocação para santa! — ele piscou para Ema e então novamente sentiu o chute em sua canela. Travou os dentes.
— Pelo perfil fariam um belo par – comentou Aurélio.
— São Paulo vem estado tão esplendorosa ultimamente, não acham? – comentou Ema de repente. – Um clima energizante.
— Como foi sua temporada por lá? – perguntou-lhe Edmundo.
Ela pigarreou. Arrependeu-se imediatamente e ter aberto a boca. Bem, pelo menos o assunto fora desviado.
— Ah, fora de muito... — procurou na mente a palavra. — Aprendizado.
— Onde hospedou-se? O tempo em que estive lá, não me lembro de tê-la visto no hotel! – perguntou o almirante.
Ela abriu a boca uma duas ou três vezes, mas não emitia som algum. Ernesto sorriu.
— A Baronesinha esteve passando por um momento de... como disse mesmo? Ah, sim: retração! Não importou-se, e nos deu a honra de hospedar-se conosco no cortiço.
Ela novamente estreitou os olhos para ele.
— Oh que ultraje, nem me lembre disso... Minha netinha, num cortiço! – choramingou, novamente, o Barão.
— Isso é verdade, senhorita Ema? — perguntou-lhe o almirante, meio espantado. – Um cortiço? Precisaria ver tal cena para crer.
— Eu precisei do mesmo! — falou Jorge mais para si que para os outros.
— Pois não vejo motivo para tal! — ele sentiu-se no dever de defender o cortiço. — Pode ser totalmente desprovido de luxo, porém é o lugar de pessoas muito generosas e calorosas. Foi uma experiência... interessante.
Ela viu o olhar orgulhoso de Ernesto para ela, e aquilo logo a envaideceu.
— Apesar dos banhos frios. – acrescentou, com um meio sorriso, e ele a acompanhou. Aos outros só restou não entender. Pois eles tinham a cumplicidade de quem conversava com o olhar.
— E dos aquecedores quebrados durante a madrugada! — comentou ele e Ema corou, mesmo que ainda sorrisse, lembrando-se do episódio onde dormira aconchegada em seus braços, o corpo estremeceu.
— Ah, eu não sou de todo luxo, mas não consigo imaginar-me vivendo num lugar assim. — comentou Amélia. — Lamento!
— Às vezes não se tem escolha — disse Ernesto.
— Outras vezes se tem a motivação necessária. – Ema emendou, pensativa. – Como é o caso de Jane. – completou, rapidamente.
— Eu conheci o lugar. — disse Cecília. — E é tal quão Ema descreve. E realmente o casamento de Jane e Camilo está aí para não me deixa mentir! Um dos casamentos mais encantadores que eu já vi.
— Um Bittencourt? Casando-se num cortiço? — indagou o almirante.
— Camilo fora deserdado por amor a Jane. — contou Rômulo. — Um absurdo!
— Amor?! Quero só ver como vão sobreviver?
— De coragem. De trabalho duro — respondeu Ernesto, altivo. — Como vêem fazendo, e sobrevivendo. E a felicidade de ambos é visível a qualquer que lhe ponham os olhos. Não concorda, senhorita Ema?
Ema novamente sentiu a pontada no peito.
— De fato — teve que comentar, porém baixou os olhos. — Nunca vira Jane mais radiante na vida.
— É o que o amor faz com as pessoas. — disse Cecília com propriedade — Não importa onde esteja e sim com quem esteja. Se for a pessoa de seu coração, tudo ficará bem.
E o coração de Ema acelerou naquele momento que se tivesse aplaudindo e confirmando a linda frase da amiga.
— Fantasia! — disse o almirante. — Daqui a um tempo estarão se odiando.
— O senhor não conhece Camilo e Jane — disse Rômulo. — Um, simplesmente, basta ao outro.
— Quando o amor é verdadeiro, por certo isso deve ser verdade! — comentou Aurélio.
— Ora, Aurélio, pense — Tibúrcio interveio novamente. — O jovem Bittencourt. Único herdeiro de grande império. Abrir mão de tudo assim, por... pelo quê, meu Deus? Nada!
O almirante em sua altivez não percebia que insultava metade dos presentes em sua mesa.
— Paz de espírito! — disse Edmundo. — Imagino que seja realmente um homem apaixonado o tal Camilo. Só assim para ter tamanha coragem!
— Coragem que falta a muitos, e são estes os verdadeiros pobres, que nunca irão saber o que perderam, por puro orgulho. — comentou Ernesto.
Ema engolia em seco, os olhos marejando e um silêncio se seguiu a mesa. Quem se atreveria a debater palavras tão... imprudentes, porém tão sensatas?
— Conte-nos mais de sua interessante experiência no cortiço, Ema — pediu Amélia, segundos depois. — Deixou-me realmente curiosa.
— A mim também — emendou Cecília. — Suas aventuras talvez desse um ótimo romance!
— Estando mais para comédia. – respondeu ela, sem graça.
— Não seja tão dura consigo mesma! — Ernesto provocou.
— Comigo mesma? — ela irritou-se, não conseguia se controlar, às vezes simplesmente não se atinha aonde estava, sua boca simplesmente soltava seus intempéries quando estava próxima a ele. — Se todas as minhas tragédias devo, exclusivamente, ao senhor!
— Ah mim? Como ousa, Baronesinha? — semblante mais inocente que o que ele apresentou naquele momento só o de uma criança de poucos anos de vida.
Ela lhe estreitou os olhos, pela enésima vez aquela noite.
— Não avisou-me do banho frio, me fazendo correr quase congelada de volta para o meu quarto. — acusou ela.
— Cedi-lhe meu lugar na fila do banheiro. — defendeu-se ele.
— Derrubou-me vinho no vestido de grife.
— Que limpei e lhe devolvi em perfeito estado.
— Derrubou a porta do quarto...
— ... onde a senhorita tinha se trancado e Camilo precisava estar para arrumar-se para o próprio casamento.
— Foi um despautério! –ela agitou-se.
— Um resgate, Baronesinha! – ele continuava calmo.
— O senhor é muito intratável e terrivelmente odioso! — bufou.
Ernesto apenas sorriu e simplesmente voltou a comer, ciente que tinha completado sua missão. Veio o silencio na mesa, onde alguns prendiam o sorriso, outros olhavam curiosos a cena e ainda outros tinham uma espécie de compreensão no semblante. E Ema corou quando acalmou-se, mais uma vez odiou-se. O papel mal educado que estava desempenhando naquele jantar na presença do pai, avô e do almirante que pareciam mais curiosos que realmente irritados, mais uma vez ela devia a Ernesto! Ela simplesmente o odiava. E envolta em sua própria afobação não viu que cada um de seus gestos, de suas expressões e palavras que dissera desde que chegara eram bem analisada não só por Jorge, mas também por seu ex futuro noivo.
Edmundo teve então a certeza que buscava. Ema amava Ernesto. Por mais que ela não soubesse disso. Ou por mais que insistisse em negar. E ele não podia seguir com aquilo. Não quando via tanta... paixão recíproca num relacionamento.
Ernesto que o havia dito que podia provar-lhe o que Ema sentia, nem precisara de tanto esforço. Ela nem precisava verbalizar, estava tudo ali, olhares, gestos e inquietação. A simples presença do amigo era o elixir de vivacidade de Ema, ela simplesmente brilhava, mesmo quando estava prestes a lançar-lhe os maiores impropérios. Ele sorriu, enquanto levava a taça de vinho a boca, apenas o olhar por cima do cristal, procurou a moça que um dia tinha tal vivacidade em sua presença, o sorriso se apagou ao perceber que seu olhar agora era praticamente fúnebre, porém se olhasse atentamente perceberia por cima da intensidade do ódio um outro sentimento que lutava para despertar.
— Entre o amor e o ódio a linha e tênue — e quando todos os olhares caíram sobre si, ele emendou. — Já dizia alguém. — deu de ombros. Pensando que se essas palavras fossem realmente verdadeiras não lhe custaria muito reencontrar o amor de sua vida, e dessa vez, não o largaria por nada.
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