O Início Do Fim
1 Eles
O carro passava devagar pelas ruas, alguns carros e ônibus ao nosso redor, eu ainda no estado letárgico do sono e meu pai no seu estado-padrão: Começando o dia com um grande sorriso e “The Dire Straits” no volume máximo.
- With the Sultans, With the Sultans of Swing... – Cantarolava, enquanto desviava dos carros que bloqueavam nosso caminho – E ai filho, a prova vai ser de quê hoje?
- Física – Respondi desinteressadamente, sabendo que ia pagar por ter estudado tão pouco na véspera – mas a matéria é fácil, acho que vou me dar bem.
- E existe física fácil? – Ele perguntou, para logo depois rir de sua própria piada – Mas aposto que você vai se dar bem.
Era isso que eu adorava nele, esse bom humor permanente dele, aquele pensamento positivo que o tornava único, que ele carregava desde cedo até o último suspiro do dia.
Bem... aqui estamos – Falou, sorrindo, enquanto parava o carro na frente da escola – Até de noite filho, e boa prova.
- Tchau, pai – me despedi, dando um beijo e um abraço nele. Mal sabia que aquela seria nossa última manhã normal.
A caminhada até o portão da escola sempre parecia muito mais demorada do que realmente era, não sei se era o sono, a falta de vontade de entrar naquela “prisão diária” ou as duas coisas juntas, mas por algum motivo, naquele dia, a caminhada de oito passos pareceu duplicar de duração. Até mesmo o clima de Belém parecia estar mais frio, assim como suas pessoas.
- E aí, Seu Idaías, tudo bem? – Cumprimentei o porteiro, como um aceno de cabeça e um sorriso.
- E aí seu Júlio, tudo bem com o senhor? – Perguntou ele, rindo de uma orelha a outra – Mas esse tempo está muito estranho, não é? Num dia está frio, no outro está fervendo de quente!
- É o aquecimento global, seu Idaías – Brinquei, seguindo meu rumo até a sala de aula.
A sala ainda estava vazia, apenas umas 5 pessoas, além de mim. Nem me incomodei de cumprimenta-los, provavelmente estavam tão nervosos quanto eu para as provas, talvez até mais. Fiquei sentado em uma das carteiras intermediárias (nem no fundão nem na frente dos professores) e comecei a revisar a matéria.
Alguns minutos se passaram assim, e então, do nada, um grito rasgou aquela “paz”:
- Faaaaaaaaaala rapaz, tudo beleza!? – Gritou Tarso, batendo a porta e colocando a mochila uma carteira atrás da minha – Estudou pra hoje?
- E aí Tarso, beleza? – Ri daquela entrada espalhafatosa, comum apenas em dias de prova – Estudei só o feijão-com-arroz, pra não zerar.
E nós continuamos a nossa conversa falando sobre novos games, provas e carreiras, os assuntos mais comuns para os alunos do 3º ano. Tarso era meu melhor amigo desde que eu me entendia por gente, tínhamos o mesmo gosto para quase tudo: Desde videogame até o prato favorito, nossa única diferença talvez fossem as aparências; o cabelo dele era castanho e liso, a pele branca e os também castanhos, enquanto eu era um pouco mais bronzeado, meus cabelos eram encaracolados e negros e os olhos também negros. E conforme conversávamos a sala ia ficando mais cheia, com cada vez mais vozes preenchendo o silencio anterior. E então, assim que o sinal bateu, nosso “carrasco” havia chegado: O supervisor da prova, com um monte de folhas de papel que marcariam nossas vidas. Notei que sua mão estava coberta com uma bandagem, mas naquela hora não parecia nada de mais. Nunca parece.
- Eu quero todos sentados! – Ele avisou, enquanto começava a distribuir as provas e passar as instruções, como de costume – quero uma disposição alternada de carteiras: Uma carteira vazia e uma ocupada, uma vazia e uma ocupada. Qualquer um que for pego colando será tirado de sala e terá nota mínima nessa avaliação. E além disso... – Ele parou para tossir um pouco sobre a bandagem, mas um pouco da tosse acabou sendo “derrubada” numa das provas.
Passada a crise de tosse ele continuou a dar instruções e a entregar as provas. Após um comando dele, a prova teve início. A primeira hora correu, mas após ela, o tempo pareceu arrastar-se o máximo possível. Foi quando, ao virar a página, meu sangue gelou: haviam gotas de sangue seco naquela prova. Justo quando começava a me perguntar de quem era aquele sangue, o fiscal da prova voltou a tossir, agora sua tosse estava bem mais carregada, mais seca... mais assustadora.
Parando para observa-lo melhor, qualquer leigo veria que ele estava mal: O local da ferida em sua mão provavelmente tinha infeccionado, olheiras enormes se formavam sob seus olhos, e a julgar por sua pele pálida colorida em apenas certos pontos, ele havia se ferido em diversas partes do corpo.
E então aconteceu: Ele caiu de joelhos no chão e começou a vomitar, vomitar muito, e vomitar sangue. Ele tentava com todas as forças que restavam cobrir a boca ou evitar que vomitasse tanto. A essa altura toda a sala já havia largado suas provas e agora olhavam aterrorizados para o fiscal, impotentes, pensando num modo de ajudar. Todos estavam congelados, enquanto olhavam para o fiscal, que agora tremia em meio à convulsões, mais pálido que antes.
E então acabou. Tão simples quanto começou, acabou.
A sala toda ainda estava em silêncio. Agora era só uma questão de tempo até que alguém acendesse a faísca que faria a tensão explodir. Foi quando um de meus colegas, Carlos, se levantou e se aproximou do corpo, imagino que para certificar-se de que estava morto. Ele se ajoelhou ao lado da cabeça e pôs os dedos sob o pescoço do fiscal. Alguns segundos tensos se seguiram, quando ele soltou a frase derradeira:
- Gente... Ele... Tá morto...
A sala inteira explodiu em sussurros nervosos e alguns gritos de pânico. Enquanto Carlos apalpava os bolsos em busca do celular, uma cena digna do inferno se seguiu. O fiscal abriu os olhos, assustando a todos, principalmente a Carlos, que, pelo susto, acabou caindo de costas no chão. Alguns chegaram até a suspirar, achando que ele estava melhor. O maior engano da vida deles. Numa ação repentina, ele contorceu-se e começou a se arrastar, lentamente na direção de Carlos, que ainda tentava entender a situação. Foi quando o fiscal agarrou seu pé e começou a puxá-lo, deixando-o desesperado, e enquanto o garoto esperneava e lutava, o monstro que um dia foi nosso fiscal continuava se arrastando, chegando cada vez mais perto.
O monstro logo chegou perto o suficiente de Carlos, seus rostos quase se tocavam. E então houve a mordida. A criatura pendurou-se no pescoço do pobre coitado e mordeu com toda a sua força. Carlos gritava, desesperado, em pânico, enquanto o sangue escorria por sua pele, pelos dentes da criatura e caía no chão, formando uma poça. O sangue também espirrou do seu pescoço para quase todos os alunos da primeira fileira, que estavam em choque, enquanto todos os outros alunos gritavam em pânico. A criatura continuava mastigando o pescoço de Carlos, que agora nem gritava, apenas usava suas únicas forças para chorar, implorando por sua família, por seus amigos, por sua vida. E então calou-se.
O monstro agora se banqueteava na carne do meu ex-colega, agora inerte no meio daquela poça de sangue. Foi quando senti a mão de Tarso me puxando para o fundo da sala, local onde todos estavam se aglomerando para evitar contato com aquele show dantesco.
- Cara, você sabe que porra é essa?! – Ele falou, percebi que estava quase entrando em pânico – aquilo é um zumbi, UMA PORRA DE UM ZUMBI!!
Eu sabia o mesmo que qualquer outro leigo no assunto, nada demais, apenas que eles são mortos-vivos e que você tem que acertar a cabeça para mata-los, mas sabia também o suficiente para reconhecer aquelas características e aquele “canibalismo”.
- É, eu já percebi — Respondi, tentando me controlar e olhando ao redor – A gente precisa dar um jeito de tirar ele da frente da porta. É isso ou a gente vai terminar feito o Carlos.
Eu ainda não acreditava que “aquele” Carlos, aquele que tinha sido um meu colega, o cara mais inteligente da sala, estava morto. Sua vida terminou tão simples como uma vela: Um sopro, e ele se foi. Incrível como a morte pode afetar alguém. Meu coração batia totalmente descompassado, meu estômago dava voltas, me dando ânsias, e meu cérebro doía, tentando seguir a ordem dos fatos e ao mesmo tempo tentando bolar um plano.
Foi sentindo tudo isso que percebi que o zumbi havia perdido o interesse na carcaça de Carlos e agora vinha em nossa direção, cambaleante, com os braços esticados em nossa direção, gemendo. Todos na sala começaram a gritar por ajuda, a chorar e desesperar-se, enquanto tentavam empurrar uns aos outros para a parede, tentando prolongar ao máximo aquela tortura. O monstro ainda estava a 8 passos da gente, quando finalmente tive uma ideia: As cadeiras.
O único problema era que as cadeiras estavam a 5 passos, e agora a criatura estava a 7 de nós, de modo que talvez não conseguisse alcança-las a tempo, e se conseguisse, talvez fosse minha vez de virar comida. Arriscando todas as minhas chances, me movi pela sala, tentando fazer o mínimo de barulho possível, enquanto todos ainda estavam tentando com todas as forças escapar da morte e o zumbi chegava, agora a 6 passos. 5 passos, eu estava chegando perto das cadeiras. 4 passos, ele ainda não tinha me percebido, talvez eu tivesse chances. 3 passos, ele havia passado por mim, eu havia chegado nas cadeiras. 2 passos, ele estava quase alcançando uma das meninas, quase tocando em seus cabelos. 1, quando finalmente agarrou os cabelos dela, eu arrebentei a cadeira em sua cabeça, derrubando-o de joelhos, dando a todos tempo suficiente para escaparem pelos lados e saírem pela porta, exceto pela menina que havia sido agarrada, em choque, e por Tarso, que estava com um braço por cima de seu ombro, acalmando-a. estava quase relaxando quando o zumbi começou a se reerguer. Assustado, chutei suas costas, derrubando-o de peito no chão. Sem respirar, corri e peguei a mesa da cadeira e, enquanto ele ainda estava caído, comecei a golpear repetidamente seu crânio, enquanto ele fazia barulhos cada vez mais estranhos e a frequência de seus movimentos diminuía.
Fiquei uns vinte segundos golpeando-o quando finalmente a mesa cedeu, mas não antes de eu concentrar um ultimo golpe nele. Após partir a mesa, cai sentado no chão, minhas mãos tremendo, os nós dos dedos brancos de tanta força que tinha usado para segurar a mesa e golpear o monstro. Fiquei um bom tempo ali, tentando me recompor e reorganizar a ordem dos acontecimentos, quando um grito suprimido de pânico chamou minha atenção: A garota que havia sido agarrada estava na frente da porta, olhando fixa para o pátio principal do colégio. Quando finalmente me levantei, percebi o motivo do grito.
Os alunos, professores, funcionários, todos... todos eles estavam mortos, e os que não estavam, provavelmente estavam intocados em outras salas, esperando, desesperados, o destino chegar. O problema era que os que estavam mortos não ficavam assim por muito tempo; Logo eles se levantam, mortos, semidecompostos, e famintos.
Aquele foi o início do Fim.
Fale com o autor