Notas iniciais
olá o// espero que gostem, dêem dicas, sejam verdadeiros com o que gostaram e se não gostaram também podem falar ehueuehuheu. boa leitura!

Lorenny

Haviam dois guardas impedindo sua passagem. Os homens vestiam cotas de malhas simples e botas negras. A menina, apesar da pouca idade, era esperta e hábil. Sempre encontrava um jeito de pular portão à fora e espreitar-se pelos bosques aos arredores. Ali, no Santuário Celeste, nenhum homem ousaria machucá-la. Pelo menos não ali.

O Santuário Celeste era um enorme templo dedicado à Deusa Fermelia. O templo simplesmente estava ali a séculos, desde que se tinha conhecimento. No penhasco mais alto de Bosque Dourado, a estrutura de pedra erguia-se até as nuvens mais densas em uma subida que parecia não ter fim. Poucos homens tinham coragem de subir os mais de três mil degraus irregulares.

Lorenny jamais passara da primeira torre. Era ali que vivia com o irmão e o senhor seu pai, um grande sábio. Seu velho pai fazia parte do Conselho Espiritual de Fermelia, um grupo de sábios e devotos que dedicavam suas vidas à Deusa dos bosques. Devido a isso, Lory e seu irmão eram obrigados a viver junto ao pai em Santuário Celeste. Nos primeiros anos de sua vida Lory não se importava em viver no templo. Sentia-se uma princesa em seu próprio castelo. Mas os anos passaram e seu castelo transformara-se em uma prisão, onde Lory havia sido condenada a passar toda sua vida.

- Nosso pai está ocupado na Torre Superior. Ouvi dizerem que irá voltar ao pôr-do-sol – disse Aremys, seu irmão, a despertando de um pequeno transe.

— Então temos tempo o suficiente – o vento da manhã dançava por entre seus cachos loiros e embaraçados.

Lory e Aremys eram gêmeos quase idênticos, de oito anos de idade. A menina possuía cachos loiros até o meio das costas e profundos olhos verdes. Seu irmão também os possuía, porém os cabelos eram lisos até a nuca, presos fortemente com uma presilha.

Os pássaros tagarelavam freneticamente. Espreitando-se pelo muro do portão, os irmãos rolaram até a extremidade esquerda e, silenciosamente, subiram em montes de feno. Lory foi a primeira a avançar para o muro, segurando a borda de pedra com cuidado e posicionando o pé estrategicamente entre as rochas. Com um pequeno impulso e com a ajuda do irmão, pôs-se agachada sob o muro. Por ser mais alto e forte, Aremys não teve dificuldades.

Corriam feito escravos rumo à liberdade. Duas pequenas crianças de pés descalços na terra molhada; suas nobres sedas azul-celeste voavam atrás de si. Lory parou, ofegante, e olhou para trás com segurança. Já estavam longe o suficiente dos guardas do pai.

Aremys apoiou o braço em uma árvore e fitou a irmã.

- Para onde vamos dessa vez?

- A Velha Ama uma vez dissera-me sobre os penhascos. Sempre quis vê-los, parecem ser atordoantes – respondeu Lory, olhando suavemente para o horizonte. Via apenas árvores.

- Você sabe que nosso pai jamais nos deixaria ir aos penhascos – sibilou o irmão. – Mal nos deixa sair dos portões...

- Mas nosso pai não está aqui. Por favor, irmão, você também deve querer ver.

O garoto deu um sorriso gentil à irmã e disparou mata adentro. Aos risos, Lory o seguiu pomposa.

O bosque tornava-se cada vez mais denso. As árvores antes espalhadas agora cresciam tão próximas umas às outras que mal podia se caminhar entre elas. O céu azul e límpido desaparecia gradualmente e a escuridão tomava conta do cenário. As duas crianças agora caminhavam, lado a lado, apertando os olhos para enxergar na escuridão.

- Nunca tínhamos avançado tanto – dissera-lhe Aremys. O garoto tinha os cabelos grudados a nuca e uma pequena mecha aloirada caída sobre a testa.

Lorenny lançou ao irmão um olhar perdido.

- Irmão, tem certeza que estamos seguindo a direção certa? – Lory parecia apreensiva. A menina apenas conhecia as primeiras árvores de Matadeleste. Era a primeira vez que ousava avançar pela escuridão da floresta.

- Eu não sei. Mas pelo pouco que conheço dos mapas, Matadeleste é pequena, e se seguirmos sempre na mesma direção uma hora vamos atravessar.

A menina deu de ombros e continuou a caminhar com o irmão. Seus pés descalços e sujos já estavam doendo e incomodando. As mangas compridas do vestido estavam dobradas até o cotovelo. Exceto pelas sedas, quem a visse naquele estado a acharia uma pobre menina perdida.

O tempo corria como água. Após alguns minutos, as árvores tornaram-se a ficar cada vez mais dispersas. Quando Lory avistou o céu no horizonte, sorriu para o irmão e ambos arranjaram forças para correr. Ao saírem de Matadeleste e avistarem o Mar Enevoado, sentiu um frio estonteante.

- É tão bonito... – disse a menina, aproximando-se cautelosamente do penhasco para olhar mais de perto. Antes que pudesse olhar para baixo, Aremys a segurou o braço e a puxou para perto de si. – Aqui está bom – ele disse.

Lory deu-se por satisfeita. Abriu os braços e fechou os olhos, deixando o vento forte do mar balançar seu pequeno corpo. Por um instante, pensou que pudesse voar. E era exatamente o que queria, voar para longe de Santuário Celeste. Sair mundo à fora feito uma borboleta, sem ter nenhum destino certo. Era apenas uma borboleta, não necessitava de exuberantes sedas ou tampouco fazer aulas de costura. Mas a vida da borboleta era curta...

- Lory, olhe ali, acho que tem um caminho – Aremys caminhou até o extremo esquerdo do penhasco. Dali, era possível ver as pequenas torrinhas do templo em que moravam por trás de uma gigantesca montanha.

Ao abrir os olhos e perceber que estava bem distante do irmão, Lory correu até o garoto. Se deparou, maravilhada, com uma gigantesca árvore. O tronco devia ter pelo menos um metro de comprimento e suas raízes desciam pelo penhasco, enroladas umas às outras. Tocou a mão suavemente na casca rígida. Lory podia sentir toda uma vida passar por aquela árvore.

- Tem uma trilha – Aremys apontou o indicador para uma descida pouco íngreme, atrás da árvore.

Os irmãos desceram a trilha com cuidado. Lory era corajosa, mas suas pernas tremiam e sua barriga dava voltas apenas ao olhar para o lado. A queda era mortal.

Após caminharem cerca vinte minutos morro abaixo, chegaram a uma bifurcação. Um dos caminhos continuava a descida até a base da montanha e, o outro, os levava para o centro. Aremys estudou as trilhas e se virou para a irmã, em sinal de dúvida.

- Nós já vimos as rochas – disse Lory.

Viraram-se, então, seguindo para o centro da montanha.

O coração de Lory palpitava de excitação. Ao mesmo tempo, suas pernas doíam e a barriga clamava por comida. Estavam caminhando a mais de três horas sem descanso.

- Eu não aguento mais – a menina gemeu e se sentou em uma pedra, apoiando os cotovelos nos joelhos. O irmão concordou com a cabeça e sentou-se no chão.

- Sabe, eu estou com fome – disse Lory.

- Eu também estou, mas aqui não tem nada que a gente possa comer – Aremys respirava ofegante, tentando encontrar palavras que pudessem resolver a situação.

- Ai, e se voltarmos?

- Melhor a gente procurar algum riacho para se banhar e beber água. Meus pés estão cheios de calos...

- Achei minha energia fosse infinita... – Lory parecia que ia explodir e chorar a qualquer momento.

- Tolo foi eu de dar brecha para essa sua ideia – o garoto fitou a irmã por alguns instantes e começou a rir. Lory sibilou um “Idiota!” e se levantou emburrada. Aremys também o fez e os dois seguiram adiante.

O sol laranja e triunfante ia descendo a cada minuto. O céu era uma mescla de diversas cores, laranja, azul, rosa e azul novamente. Lory os observava com curiosidade e, ao mesmo tempo, seu coração ficava cada vez mais apertado. Os irmãos precisavam encontrar algum abrigo antes da noite cair ou estariam completamente perdidos. Como se já não estivessem.

- Nosso pai vai nos matar... – disse o loiro. –, ou a fome o fará primeiro.

Lory tentou ignorar o comentário. Não havia pensado no que seu pai estaria fazendo naquele momento. “Provavelmente já voltou para a Primeira Torre”, pensou, inquieta. O Sábio Ortis era um homem de cinquenta e poucos anos, de cabelos grisalhos e corpo frágil. E agora estariam os guardas procurando por Lory e pelo irmão em toda Matadeleste.

- Ary... – começou a menina. Os dois pararam de caminhar e se encararam. – O que é aquilo? – e apontou para uma grande abertura em uma das montanhas. Lory notou um sorriso brotar nos lábios do irmão. – Uma caverna.

As paredes eram ásperas e indelicadas e as rochas eram negras como carvão. Lory nunca tinha visto uma caverna, apenas ouvia falar nas histórias que sua ama contara. Aremys pouco se importava, estava mais preocupado em descobrir se algum animal feroz habitava o lugar. Mas Lory era uma menina imaginativa e fantasiosa, com uma vontade insaciável de explorar tudo aquilo que o mundo tinha a oferecer.

- Vamos passar a noite aqui e pela manhã nós seguimos viagem – disse o garoto. Lory nada disse.

- Gostaria de torradas com mel, queijo branco e uma imensa jarra de leite – o olhar perdido da garota espiava os estalactites antes desconhecidos. – Minha barriga dói.

— A minha também, irmã. Mas aqui não tem nada para comermos, exceto se você gosta dessas pedras – Aremys pegou uma pedra circular do chão e a arremessou para longe. A queda fez um ruído estrondoso que ecoou por toda caverna.

Seguiam por um corredor estreito com o teto tão alto que não podia se ver o fim. A excitação passageira fora trocada por medo, frio e fome. Quando viraram à esquerda por uma descida pouco íngreme, viram uma cascata de água tão brilhante quanto o sol.

Sorriam deslumbrados.

- É incrível... – sibilou Aremys.

Correndo, os irmãos banharam-se na pequena lagoa formada no fim da cascata. Salpicavam água uns nos outros e, aos risos, saciaram a sede com grandes goles da água cristalina. Quando estavam cansados o suficiente para cair no chão e dormir ali mesmo, saíram da lagoa tremendo de frio.

Lory e Aremys despiram as roupas e as jogaram no chão. A pele branca e frágil da menina se arrepiava com o gelado sopro da cascata. Num gesto delicado, ela abraçou-se e esfregou os braços, tentando, sem sucesso, aquecer o corpo.

Seu corpo era alto e esbelto. Os cabelos eram negros cacheados e olhos duas esmeraldas cravejadas. Sua pele era branca feito neve; os lábios vermelhos e finos, desenhados perfeitamente. E os traços eram delicados como os de uma boneca e a voz aveludada e penetrante. Ela deslizou feito uma pena, bonita e graciosa, gesticulando as mãos para as crianças.

- Que fazem na minha caverna? — disse a Ninfa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.