O Inventário das Ausências
1 Crepúsculo

Talvez eu já tenha confessado, ou talvez minha pele tenha denunciado antes da minha boca: eu carrego um inquilino chamado ansiedade.
Há manhãs em que ele é apenas uma sombra discreta no canto da sala; eu sei que está lá, mas o ignoro enquanto passo o café. Mas há outros dias em que ele decide ocupar todos os cômodos. Nesses dias, o mundo lá fora pode vestir seu melhor figurino, aquele sol generoso que pede um chimarrão no pátio, mas por dentro o clima é outro.
O silêncio se torna ensurdecedor, e o barulho... o barulho dói.
O paladar é o primeiro que se retira. O café perde a identidade; vira apenas um líquido quente que esqueceu o próprio gosto. O chimarrão perde o viço. São os dias em que a vida acontece por trás de um vidro fosco.
O meu favorito sempre foi o "dia-crepúsculo", aquela meia-luz que acolhe os contornos incertos. Mas até o meu refúgio trai minha percepção. De repente, não é mais um entardecer estético; é uma névoa.
O cinza assume o controle. Entro no modo automático, uma engrenagem que gira sem saber por quê. Quando a noite finalmente chega, olho para trás e vejo um rastro de horas vazias. Eu habitei o corpo, mas não vivi o tempo. Foi um dia sem registro, uma página que a ansiedade escreveu com tinta invisível, deixando apenas o cansaço de quem correu uma maratona sem sair do lugar.
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