O Inventor e o Cavaleiro

1 Capítulo 1 - Segundos Finais


Notas iniciais
Leia com atenção, que é essencial. Posso ter filtrado a personalidade de alguns amigos, ou posso ter inventado tudo, inclusive esse trecho que vos escrevo. Posso dizer apenas mentiras, mas esta já seria uma verdade, oque desmentiria a afirmação acima, que no final acaba sendo verdade. Se você se confundiu você NÃO vai ser professor de filosofia.

O dia está claro. Muito claro para um dia tão trágico. As nuvens dançam no céu, enquanto eu olho para cima. Elas parecem estar felizes com meu derradeiro destino. Na verdade, qualquer um nessa cidade parece estar feliz. Malditos traidores. Nem parece que foi aqui que passei minha vida toda. O Sícaro para ao meu lado, puxando a corda, me faz levantar. Ele ajeita o nó, me faz subir num banquinho e depois amarra a corda na madeira. Ele começa uma contagem. Quando ele diz "um", o tempo passa mais lentamente. Consigo ver ele esticando a linguiça que ele chama de dedo, devagar. Ouço as pessoas pararem de gritar e, de repente, minha vida toda passa pelos meus olhos.

Lá estava eu em casa − humilde, iluminada de dia pelo sol e de noite pelas velas, pequena, mas aconchegante − enquanto minha mãe preparava o almoço. Eu já sabia que algo iria acontecer, porque não é todo dia que temos um porco inteiro. Eu estava brincando com meus brinquedos − uma Ovelha-Batata, um Cavalo-Cenoura e uma Azeitona-Cachorro, meus heróis de infância. Eles salvavam a Senhorita Porca-Cebola das mãos do Lorde-Alcachofra e das suas capangas, Formigas Lava-pé − quando meu pai entrou pela porta, batendo-a com força na parede.

Os olhos de minha mãe se encheram de lágrimas, e ela correu em sua direção. Quando eles se encontraram, tudo passou mais devagar. Eles se abraçaram, girando e deram um beijo digno de Mocinho−Mocinha. O tempo voltou a passar normalmente e meu pai veio em minha direção, e me pegou no colo. Ele me girou, balançou e eu apenas ria. Depois de muitas conversas, ele me contou as histórias de suas cruzadas. Ele atacava os hereges, lutava contra vilões, salvava mocinhas... Nessa hora minha mãe deu um tapa no ombro dele, mas ele disse que eram princesas ele as entregava para os príncipes. Depois de algumas histórias, quando ele estava no ápice da terceira − quando o Rei Macaco estava prestes a ser derrotado pelo meu pai− minha mãe o interrompeu:

_Crianças, não acham que já está bom demais por hoje?Vocês vivem de ar? Venham logo comer!

Meu pai, então disse:

_Que crianças? Você não contou direito. Não vê que temos um homenzinho aqui? − Então ele me pegou, levantou e me levou "voando" até a mesa.

O almoço foi um dos melhores da minha vida, minha mãe caprichou no tempero, mas eu sabia que aquela alegria toda não iria durar muito. Meu pai REALMENTE foi um herói de batalha. Ele ajudava nosso país a expandir territórios, lutando contra inimigos. Claro, não salvava muitas princesas, mas mesmo assim era um herói. Heróis não ficam parados por muito tempo. Logo logo, eu tinha certeza, que ele iria ser chamado novamente. Dessa vez não foi diferente.

No final do jantar, estávamos ao redor da lareira lá de casa, e era véspera de Natal. Um homem gordo, baixo, com mais que um palmo de bigode − bem penteado com o final em espiral − entrou em nossa casa, fazendo um estardalhaço enorme e trazendo toda a neve possível em suas botas, traçando uma trilha até a lareira, onde tocou −mal, diga-se de passagem − uma corneta estridente, e anunciou:

_Michael Porcell, temos uma nova Missão Real para o Cavaleiro!−Meu pai, desanimado, olhou para minha mãe e para mim e eu quase pude ver lágrimas em seus olhos, mas com certeza vi muita tristeza em sua face. Então, solenemente se virou ao mensageiro e respondeu:

_Aceito a Missão− mas se você lêsse seus lábios você poderia acreditar que ele tinha dito "Não posso".

Então meu pai pegou seu cavalo e, com um desajeitado adeus, marchou seguindo o mensageiro.