O Informante
28 Missão 002: O Cálculo Errado
Notas iniciais
– Chegamos.
Modok andava desengonçado com seu enorme corpo bizarro pelos corredores apertados da base em Barbuda. Kate estava ao seu lado, os óculos escuros cobrindo seu rosto franzino e os cabelos negros bem presos em um rabo de cavalo bem feito. E ela sabia que não podia voltar atrás. Havia entrado para a IMA há alguns anos e aquela não era nem de longe sua primeira missão infiltrada. Poderia pedir pra sair, mas meio que estava fora de cogitação.
Ela sabia o que estava em jogo.
– Mais uma missão bem sucedida, Katiezinha! – Belova a cumprimentou, bagunçando seu cabelo com a mão espalmada. – A loira está recebendo o nosso presentinho agora mesmo.
– Onde ela está? – Katie perguntou, sem demonstrar qualquer animação.
– Ainda não. – Mentallo interveio, surgindo atrás de Belova. – Eu sei o quanto você ainda pode estar ligada emocionalmente a ela. Não podemos arriscar que você caia na tentação de salvá-la como fez com a sua outra amiguinha no ano passado.
– Só quero saber se ela está bem.
– Ela está viva.
– Não é o suficiente. – Kate aproximou-se de Mentallo, como se tivesse perdido a noção do perigo.
– Vai ter que se contentar com isso, no momento. – Marvin deu mais um passo na direção da garota, encurtando a distância entre eles. – A menos que você queira tomar o lugar dela.
Kate apenas virou as costas e pegou sua aljava que repousava no canto da parede. Nunca tivera vocação para a submissão. Ela seguia a passos largos para os seus aposentos, os punhos fervendo em desaprovação. Sabia que nunca deveria ter aceitado entrar para aquilo, mas no momento não estava em posição de reivindicar coisa alguma.
– Acha que podemos confiar nela? – Mentallo encarou Belova, com uma nítida dose de incômodo.
– Se a Katie pisar na bola novamente... Eu mesma me encarrego de cuidar dela.
– Ótimo. – Marvin deu um sorriso, encostando as palmas das mãos sem produzir som. – É melhor visitarmos nossa paciente especial. Já está quase na hora dela acordar, não acha?
– Sim, meu caro Marvin. Vamos ver como ela está.
– Ora, ora, ora... Se não são os meus dois agentes preferidos.
Uma voz fina e carregada adentrou a pequena sala, atraindo os olhares de Marvin e Yelena Belova.
– Raina... – Belova a olhou dos pés à cabeça, com desdém. – Pensei que tivesse ficado no laboratório do setor 4B.
– Você bem que queria isso, não?
– É você quem está dizendo.
Yelena deu de ombros, seguindo com Marvin pelo corredor em direção à sala onde estavam mantendo Bobbi. Raina apenas os assistiu com seu típico ar de superioridade, acompanhando-os mesmo sem ter sido convidada.
– Vejo que pretendem transformá-la em um de nós. – Raina observou, encostada à porta da Sala de Preparo.
– Raina – Belova a empurrou porta afora, deixando apena Mentallo na salinha. – O que raios você quer voltando aqui?
– Nós estamos do mesmo lado, querida.
– Não estamos não.
– Estamos aqui pela ciência. Eu entendo...
– Você é louca! – A mais alta retrucou. – Não temos lugar para pessoas como você aqui.
– Pessoas como eu? – Raina alterou o tom de voz. – Você já se olhou no espelho hoje?
– Não é esse o caso. – Yelena deu um passo à frente. – Você nunca descobrirá suas origens andando conosco. O que fazemos aqui é algo um pouco mais sério do que correr atrás de contos e enigmas de origens místicas. A S.H.I.E.L.D. desabou, Raina. Essa é a chance da IMA voltar ao mundo. Estamos testando milhares de possibilidades todos os dias, experimentos com compostos químicos, com raios gama... Desenvolvemos aparelhagem bélica de grande porte. Esses são os peixes que pescamos. Não estamos atrás de Sereias Encantadoras. Volte de onde você está.
Raina apenas observou o semblante de Yelena. Ela parecia blindada. Isenta de qualquer preocupação ou sentimento. Mesmo se não tivesse as habilidades que tinha, ela provavelmente não pareceria mais humana.
– Tudo bem. – Raina levantou as mãos em desistência. – Eu vou. Aprecio sua sinceridade. Poderíamos ter nos ajudado.
– Não, Raina. Nossa função política é dar suporte tecnológico e lutar ao lado da H.Y.D.R.A. Não trocaremos nossos valores por suas superstições.
– Eu já disse que estou indo. – A mulher do vestido florido parecia desapontada. – Mas lembre-se – ela aproximou o dedo indicador da mulher à sua frente. – Eu lhe dei a chance de participar de algo magnífico.
– Ótimo. Não esquecerei. Agora... Adeus.
Belova estendeu a mão para ela e Raina a cumprimentou, saindo pelo corredor logo em seguida.
– Voltei.
– Como foi com ela?
– Incrivelmente, ela reagiu até bem. Pensei que o discurso seria maior dessa vez.
– Ótimo. – Mentallo tocou o braço de Yelena, enquanto observava Raina sair da base pelas câmeras de segurança que rodeavam todos os corredores. – Seria realmente um grande problema pra nós se ela descobrisse que é uma Inumana.
– Mas isso não vai acontecer. – Belova sorriu para ele, repousando seu braço sobre o ombro de Marvin. – Temos o total controle da situ...
– Não! Não!
Um bipe violento eclodiu como se a pressão interna tivesse explodido a mil por hora. Bobbi se debatia sobre o leito, seus olhos pareciam ter virado do avesso. A máquina que bombeava o AIM-900 para o seu corpo parecia estar sentindo tanta dor quanto à mulher que estava agonizando na cama.
– O que está acontecendo? – Belova gritava, apertando os botões da máquina.
– Ela está sobrecarregada! – Marvin tentava segurar Bobbi em vão. – Se ela permanecer assim vai acabar tendo uma parada cardíaca!
– Precisamos parar isso!
Yelena afastou-se uns três metros da máquina antes de se transformar em uma criatura fortemente feroz. Marvin segurava Harpia com toda força que possuía enquanto Belova atacava a máquina como se fosse alguma presa. Suas garras afiadas romperam com os fios da caixa de força interna e a máquina começou a faiscar. Os dois arrancaram os tubos que prendiam Bobbi à máquina e a tiraram da sala, bem a tempo de ouvirem a explosão. Mais dois segundos lá dentro e os três teriam explodido juntamente com a máquina.
– Lembre-me de pedir uma revisão dessas coisas. – Marvin comentou, apoiando a cabeça de Bobbi. – Precisam colocar um botão de Desligamento Urgente Automático. Tipo aqueles botões vermelhos dos filmes, que sempre vem com o aviso: “Não aperte”.
– Muito engraçado. – Belova respirava com dificuldades, ainda caída no chão, ao lado de Marvin e Morse. – Lembre-me de te deixar na sala, da próxima vez.
– Qual é, Yel... Você sabe que é uma boa ideia.
– Eu não estou pensando nisso, no momento.
– Então o quê?
– O processo... Não foi finalizado. – ela dizia, olhando para Bobbi ainda desacordada. – A máquina pirou, tiramos a garota às pressas... Esse era um procedimento bastante específico, Marvin. Um único miligrama e todo o resultado seria afetado...
– Você acha que ela...
– Não, ela vai ficar bem. Viva, eu quero dizer.
– Mas...?
– Mas... Eu não faço a menor ideia do que ela pode ter se tornado.
– -
Kate sentiu o chão tremer debaixo de seus pés. Estava sentada na cama polindo suas flechas enquanto pensava numa forma de sair daquela roubada, quando viu a movimentação estranha pelos corredores. Agentes e mais agentes passavam às pressas em direção à sala em que a Harpia se encontrava. Percebeu na hora que não poderia ser coisa boa.
– A Cobaia número 7 foi comprometida após o procedimento! Repito: A Cobaia 7 foi comprometida!
Kate apertou os olhos e levou uma das mãos à testa. Ela não podia simplesmente assistir àquilo acontecer. Trancou-se no dormitório e pegou o celular. Olhou rapidamente para o Arco que Clint lhe dera de presente de aniversário. Não. Definitivamente não deixaria aquilo acontecer diante de seus olhos.
– Naty – ela pronunciou eufórica, mas ainda sentindo a culpa de tê-los enganado. – Está acontecendo. Venham pra Barbuda agora, ou a Bobbi morre.
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