O Inferno dos Anjos

2 Que a Caçada Comece


Notas iniciais
Boa leitura!

“E Os gritos pararam. Ninguém mais, ali, pedia por perdão ou socorro. O sofrimento daquele lugar, por um breve momento, deixou de existir. E com ‘daquele lugar’, eu me refiro ao Inferno. Por um breve momento o Inferno se fez Céu.”

O primeiro aviso foi de uma maneira formal. Quando Miguel contou para Deus o relato da missão, informou que Aline estava morta e que Juridiel escapara com a criança para o inferno, a fúria se manifestou na santidade. Um fato interessante sobre a ira de Deus: ela nunca é perceptível. A expressão do rosto divino nunca é alterada, seja os sentimentos que vagueiam por ela a dor, o rancor, o ódio, a fúria, ou até mesmo o amor, a face é sempre a mesma.

Claro que isso, para nós, é uma informação desnecessária. Isso se deve ao fato de que o único ser em todo o universo capaz de ver a face de Deus ser Miguel. Para nós, meros mortais, o simples fato de falarmos de uma entidade qualquer, nomeando-a de Deus, já gera polêmica, imagine ver sua face.

E sua face era o perfeito significado da calma.

E seu sentimento era o perfeito significado da ira.

E com tamanha calmaria irada, o único manifestar foi a voz santa, que cortou o silêncio que habitava naquela sala, dizendo:

–-- Eu a quero.

*****

Lúcifer estava segurando um bebê.

Eu poderia descrevê-lo como o mais horripilante dos seres, com seis chifres retorcidos e um olhar negro, sendo da cintura para baixo com algo similar a parte inferior de um touro e com um tridente feito das almas amaldiçoadas de seus compatriotas. Mas a verdade é que ele não era assim.

Lúcifer era lindo. Trajava uma blusa preta justa, que contornava cada músculo avantajado de seu corpo. Possuía duas linhas tatuadas, que partiam das orelhas, se escondia sob o pano da blusa, e apareciam novamente até as mãos, onde, nesta parte, as linhas se ramificavam até os dedos. Estava usando um All Star surrado e jeans preto.

Seu cabelo era negro como o universo, marca que recebera de Deus quando fora exilado do céu. Antes era de um louro intenso, digno apenas dos anjos, e, bem, como ele deixara de ser um, perdeu sua maestria dourada e ganhou algo mais compatível com sua personalidade. Seus olhos castanhos eram redondos e afeminados, e carregavam consigo a malícia feminina também. Era, de fato, lindo.

Segurava o bebê erguendo-o para cima, como se estivesse o examinando. E de fato o estava.

–-- Não, não, não. Essa coisinha não parece ser capaz de fazer tudo o que você me contou – disse Lúcifer, com um tom de insatisfação.

Outra curiosidade sobre Lúcifer: ele não é tão assustador como todos falam. Na verdade ele é sim, mas não todo o tempo. Ele, que já fora o maior dos anjos, sabia se comportar sem expor todo seu potencial. De fato era capaz de coisas terrível, capaz de destruir toda a terra, capaz de se levantar em guerra contra os céus quando quisesse, e era capaz de fazer isso a qualquer momento, mas não expunha isso. Para exemplificar melhor, é como se o espírito indomável de Aquiles estivesse dentro de uma pequena garota de 6 anos. Ela é capaz de te destruir a qualquer momento; mas não aparenta.

–-- Meu Senhor, juro que tudo o que lhe contei foi real. Juro que ela, antes mesmo de nascer, matou uma Serafim.

–-- Isso é o que você enxerga – rebateu Lúcifer.

–-- Foi o que aconteceu, meu Rei.

–-- Não, isso é o que você enxerga – rebateu Lúcifer novamente, já entediado.

–-- E o que o senhor enxerga?

–-- Você vê uma criança que matou uma Serafim antes mesmo de nascer. Eu vejo uma criança que matou a própria mãe antes mesmo de nascer.

–-- No final não dá no mesmo, minha Alteza? – disse Chrueldor, um demônio serviçal que estava no mesmo salão onde a conversa estava acontecendo.

Junto com Chrueldor, Juridiel e Lúcifer, haviam mais 5 demônios no salão. Todos curiosos para desvendar a pequena criaturinha que acabara de chegar. Tanto ao mundo quanto ao Inferno.

Lúcifer olhou para Chrueldor com todo o desdém existente no Inferno. Aquele insolente ousara o interromper para indagar algo tão estúpido assim? Sério mesmo que ele teve essa coragem?

Em sua cabeça já se passavam milhares de formas de castigo e tortura para cuidar do demônio intrometido. E então ele escolheu uma.

Foi quando Chrueldor literalmente explodiu.

E foi quando também, em algum lugar do Céu, um ser disse “Eu a quero”.

Como se fosse uma regra a ser cumprida quando alguém explode, todos os olhares se arregalaram e voltaram-se para Lúcifer. Não seria a primeira vez que ele explodiria alguém por ter o interrompido, ele explodira um demônio obeso uma vez só para provar que era possível se divertir com um gordo. Sim, Lúcifer tinha lá seu senso de humor. Era um humor doentio, mas ainda assim era humor.

O sangue do demônio que acabara de explodido jorrou por todo o salão, deixando todos os presentes sujos, inclusive a pequena criaturinha.

–-- Ó, nem olhem pra mim porque dessa vez não fui eu não, heim – disse lúcifer levantando a mão direita, como se estivesse dando sua palavra.

Quase todos estavam o olhando, exceto por Juridiel. Entretanto ele era o que mais estava assustado.

–-- Eu acredito em você, minha Alteza. Mas queria que estivesse mentindo – disse Juridiel, apontando o dedo para o teto, mais precisamente para o lustre feito com crânios humanos – Olhe ali.

Ao ver do que se tratava, o senhor do Inferno levantou as duas sobrancelhas, e em seguida, deu um sorriso de orelha a orelha.

No teto, ao lado do lustre feito com crânios humanos, estava escrito com o sangue do demônio que acabara de explodir os seguintes dizeres: “Eu a quero.

“Sabe Juridiel, com toda certeza do mundo eu acredito que essa coisinha matou uma Serafim. E como acredito.”

Esse foi o primeiro aviso. Um aviso formal.

O segundo aviso não foi tão formal assim. Aconteceu dois dias após o primeiro, quando todo o Vale da Floresta dos Suicidas pegou fogo. Uma chama que nem mesmo o Inferno já tinha visto antes. O interior da chama – e digo ‘chama’, no singular, porque era isso o que havia ali, uma única chama que cobriu todo o vale – era de uma luz capaz de cegar, já seu exterior, de uma negritude capaz de tirar, também, a visão. No entanto a negritude e a luz se opunham, fazendo com que ambos perdessem a força. A chama não se apagou até que todo o Vale se transformasse em cinzas.

Lúcifer sabia que haveria um terceiro aviso, e que este seria pior que os dois anteriores, o que só podia ser uma única coisa. E sabendo o que seria, não podia ficar de braços cruzados vendo tudo se desdobrar a sua frente.

Ele tinha um plano.

Só que, infelizmente para ele, Deus também tinha um.

*****

Dois dias se passaram desde que o Vale das Florestas Suicidas – lugar onde as almas dos suicidas eram transformadas em árvores e passavam o resto da existência a se lamentarem – havia pegado fogo. O Inferno não era o mesmo lugar sem aquele Vale. Os gritos que eram emanados de lá eram como músicas para os ouvidos dos demônios. Perfeita sinfonia. Claro que gritos era o que não faltava no Inferno, mas nenhum se igualava à aqueles.

Juridiel, Lúcifer e a coisinha estavam dentro do Palácio de Sangue discutindo os últimos detalhes do plano. Plano este que Juridiel detestara, mas reconhecia que era a única saída.

Foi quando tudo se fez silêncio, todos os gritos se calaram, todos os demônios que estavam torturando almas miseráveis congelaram. Todo o sofrimento oriundo do Inferno parou.

Foi quando a luz mais brilhante já vista no Inferno brilhou sobre o rio de metal derretido.

Foi quando Miguel chegou ao Inferno.

“Ops... Lembra quando disse que ainda teríamos um dia até a execução do plano? Eu estava errado. É agora ou nunca.”

*****

Demônio nenhum ousou encarar os olhos de Miguel. Eles sequer encararam sua luz, e os poucos que o fizeram, perderam para sempre a visão.

O anjo caminhava tranquilamente em direção ao Palácio de Sangue, e aqueles demônios que estavam em seu caminho, davam passos largos para o lado, deixando o anjo caminhar livremente pelo Inferno. E ele caminhava, até que parou.

–-- Miguel, que surpresa! Quanto tempo não te vejo. Como andam as coisas lá em cima? Faz bastante tempo que eu não vou lá. Por sinal, tenho uma reclamação: por que você pode vir aqui e eu não posso ir lá? Como Deus é injusto... eu até tentei dizer isso milhares de anos atrás, mas você me escutou? Não!

–-- Não vim até aqui para escutares teu veneno. Meu Senhor a quer. Dê-me enquanto ainda pode escolher por isso.

–-- Seu Senhor quer quem?

–-- A menina, dê-me logo, serpente!

–-- Então é uma menina? Apostei com Chrueldor que era um garoto japonês, por isso o “volume”. Pelo menos seu Senhor o explodiu, odiaria ter de pagar a aposta.

E, de repente, Miguel não estava mais onde estava. Estava agora diante de Lúcifer. Ele não caminhou, não voou, não correu, simplesmente apareceu lá. Sua mão esquerda estava segurando o pescoço do Senhor do Inferno, e em sua mão direita estava empunhada sua espada de fogo.

–-- Já te expulsei de sua casa uma vez, não me faça fazer isso de novo. Só vou falar mais uma vez: dê-me a menina.

Lúcifer desfez toda a serenidade e calma que estavam em seu rosto. Se a face de Deus é imutável, a do Rei do Inferno é bastante mutável. Diria que ele possui várias faces. E com sua face astuta, ele disse:

–-- Você está em meu domínio, Arcanjo – e ao dizer isso, a espada de fogo, que antes estava na mão do Anjo, agora saiu bailando pelos ares – Seu poder não se compara ao meu aqui.

E agora, ao terminar de dizer, Lúcifer segurou o pulso da mão esquerda de Miguel, a mão que apertava seu pescoço. O pulso do Anjo escureceu tão rápido quanto fechamos os olhos, e sua mão caiu tão rápido quanto os abrimos.

–-- Entretanto – adiantou-se em dizer – não quero travar uma grande batalha agora.

E tão rápido quanto um piscar de olhos, tanto a mão quanto a espada, voltaram ao seu respectivos lugares. Lúcifer odiava admitir, mas os poderes de Miguel se comparavam aos dele em qualquer lugar existente no Universo.

–-- A garota está com o pai dentro de meu palácio, pode ir lá, batalhar contra ele, mata-lo, e levar a garota.

–-- E se eles não estiverem lá?

–-- Então aproveitamos o pudim que estava comendo antes de você chegar. Ele já está em cima da mesa, é só servir.

E, assim como Miguel se movimentara para chegar até Lúcifer antes, ambos se movimentaram até a sala de estar do Palácio de Sangue.

E mais uma vez Miguel viu um portal se fechando diante de si. Só que dessa vez o portal levava até a Terra.

“Poxa, chegamos tarde. Bom, o pudim está ali, a proposta de te dar um pedaço ainda está de pé. Que tal?”

*****

Era de noite na Terra, mais precisamente em São Paulo. Uma forte tempestade castigava os moradores e os fortes raios castigavam as árvores.

A porta do grande Orfanato Getúlio Prestes se abriu. E diante dela havia uma criança dentro de uma cesta. A velha senhora Clotilde, dona do orfanato, pegou a criança da cesta, e junto da criança, pegou o bilhete que a acompanhara. E leu.

“Está é Serafina. Faça por ela o que eu não pude fazer. Cuide dela, proteja ela. E faça com que ela saiba que seu pai a ama e sempre vai amar. ASS: Juridiel.”

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentem o que acharam. Caso tenham gostado, favoritem. Fiquem com Deus, beijos seus lindos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.