O Inferno de Lizzie Horn
12 Capítulo 11
Os olhos dela eram dessa cor mesmo? – Lizzie cochichou perto ao ouvido de Zack. Estavam os dois no fundo do quarto observando Lucy deitada na cama recebendo os carinhos do pai. Talvez o freqüente uso de óculos escuros, ou o fato de Lizzie evitar olhar diretamente nos olhos de Lucy tivessem criado aquela dúvida em sua cabeça, a questão é que a ex garota cega tinha incríveis olhos castanhos avermelhados. A principio é uma cor comum, mas não com todo aquele brilho. Era quase hipnotizante.
Grande também era o sorriso de Martin, aliviado e estonteante de felicidade com a recuperação milagrosa da filha. Abraçava-a o tempo todo e agradecia a Deus à todo momento. “Não é a ele que você deve agradecer”— Lizzie pensava. Zack também exibia um sorriso reconfortante, e já havia cumprimentado a recém acordada Lucy. Só faltava Lizzie abraçar Lucy e expressar seu contentamento pela recuperação da garota, mas Martin parecia não querer soltá-la. Quando finalmente o fez, Lizzie se aproximou, sentou-se na beira da cama e se inclinou para envolver os braços levemente em torno de Lucy.
— Estou tão feliz que esteja bem! Você é uma guerreira – exclamou num tom tímido, se afastando – Como é voltar a ver? – perguntou curiosa.
Lucy respirou fundo, esboçou um sorriso enorme e olhei diretamente nos olhos de Lizzie.
— Não tenho palavras pra definir, mas é tão prazeroso que nem parece que um dia fui cega. O que importa é que agora me sinto incrivelmente bem e que posso ver todos vocês... Especialmente você Lizzie – respondeu com uma estranha ênfase na última frase. Os grandes olhos amendoados de Lucy penetravam os de Lizzie como se tentasse dizer alguma coisa mentalmente, o que deixou a menina até um pouco incomodada. Não havia entendido o que Lucy insinuava com o “especialmente você Lizzie”, já que não via nenhum motivo especial em alguém poder vê-la.
Sorriu sem graça, se levantou e voltou para o fundo do quarto, onde Zack continuava parado.
— Isso dá até medo, você não acha? – Zack perguntou num tom quase inaudível.
— O quê?
— Esse... Esse milagre da Lucy! Quase morreu por um tipo de incidente que raramente acontece em casos como o dela, ficar em coma, quase morrer de novo e, no entanto, acordar e ainda voltar a enxergar – Zack falava balançando a cabeça negativamente como se negasse a acreditar na possibilidade de aquilo acontecer – Não consigo compreender algumas atitudes de Deus.
— E porque você tem tanta certeza de que isso tenha sido obra dele? Ou de que tudo que acontece é da vontade dele? – Lizzie franziu o cenho, irritada. Este tipo de conversas cristãs realmente a deixavam impaciente.
— O que você quer dizer com isso?
— Sei lá, mas se ele existe, o mal também existe. Nem todas as coisas aparentemente boas talvez sejam resultado de atitudes de Deus, mas sim do demônio... Claro que com outros interesses.
Zack ouvia quieto, encarando-a confuso. Lizzie não tinha certeza do que falava, mas era o tipo de coisa que já havia parado pra pensar a respeito. Sabia que Deus não havia causado aquilo à Lucy, e sim ela, mas em outras situações, ela não conseguia enxergar a mão de um ser tão justo e bom como a Bíblia noticia.
— Desculpe interromper esse momento, mas eu queria saber Baby, se teremos que voltar ao pedágio!? – Zack perguntou depois de um tempo pensando sobre o que Lizzie dissera.
— Você não. Eu te dispenso por hoje! Mas eu retornarei daqui a pouco. Só vou conversar com o doutor antes de ir!
— Então se vocês não se incomodam, eu vou dar uma saída... Preciso fazer uma coisa! – disse antes de se despedir de Lucy com um beijo na testa e com um tapinha nas costas de Martin. Chegou perto de Lizzie e sussurrou em seu ouvido: “Vamos lá fora!”, saindo do quarto em seguida. Sem entender nada, Lizzie ainda ficou alguns segundos parada pensando, mas ao perceber que Lucy e Martin conversavam intimamente e que sua presença não faria diferença alguma, saiu sem fazer barulho. Não encontrou Zack ainda no corredor, então, instintivamente, desceu até o estacionamento, achando que o encontraria próximo ao seu carro. Na mosca! O rapaz estava sentado no capô da Huyndai, preparando-se para acender um cigarro que retirara do bolso do macacão.
— Eu não sabia que você fumava! – Lizzie exclamou surpresa quando sentou ao seu lado.
— Tem muita coisa que você não sabe sobre mim – indagou enquanto tragava o cigarro.
— Isso é verdade... – respondeu lembrando-se imediatamente do que Summer lhe dissera outro dia.
— Me desculpe pelo... você sabe, nosso programa não ter acontecido... – Zack olhava para o céu com um dos braços apoiando seu corpo inclinado pra trás e o outro levava o cigarro até seus lábios. Ele parecia absorto, e não totalmente focado na conversa. Lizzie o observava, notando alguns detalhes em sua aparência, como alguns pequenos respingos de alguma coisa amarela na parte debaixo do macacão dele, ou então os primeiros três botões da parte de cima desabotoados. O cheiro de fragrância masculina e óleo de carro vindo de Zack era uma mistura bizarramente exótica.
— Relaxa! Eu já tinha até esquecido – mentiu na tentativa de parecer indiferente. Zack olhou-a com um sorriso de canto, que ficou ainda mais charmoso quando ele soltou a fumaça do cigarro. Seus olhos verdes foram do rosto de Lizzie até seu vestido preto com rendas.
— Prefiro você assim a como estava vestida ontem! – exclamou. Lizzie sorriu corada. Levou algumas madeixas de cabelo que voavam ao ritmo da brisa para trás da orelha direita.
— Mas e aí, a festa foi boa? – ela perguntou tentando fazer um tom descontraído; Evitou encará-lo, então se restringiu a observar o prédio do hospital.
— Que festa?
— A que você foi com a Summer. A da faculdade!
— Ah... Foi legal... – respondeu desanimado.
— Aliás, eu não sabia que você era universitário...
— Não sou mais.
— Porque? – Lizzie voltou a olhá-lo, tentando ver sinceridade nos olhos dele quando respondesse, no entanto, ele desviou o olhar; Abaixou a cabeça e antes de responder deu uma ultima tragada antes de jogar o cigarro fora ainda na metade.
— Sabe... Eu estou faminto! Que tal a gente comprar uma pizza no Maninno’s e comermos lá na casa do Martin? – desconversou com um sorriso forçado. Desceu do capô e se posicionou na frente de Lizzie. Ainda incomodada em ele não ter respondido, Lizzie somente assentiu e seguiu-o, entrando em seguida no carro.
Zack, diferente do normal, falou bastante durante o percurso. Tudo bem que não era nenhuma longa viagem já que a pizzaria Maninno’s era logo em frente na Hamilton Ave e de carro não levava nem 1 minuto, mas o tempo em que ficaram na espera do preparo da pizza grande de mussarela, o rapaz fez questão de falar sobre diferentes assuntos e fazer várias perguntas à Lizzie sobre sua vida. A maioria delas, obviamente, Lizzie mentiu ou tentou responder com outra pergunta em vão, já que Zack continuava desconversando quando questionado sobre seu passado escolar ou amoroso.
— Qual sua história com a Summer? – perguntou Lizzie quanto enfim tomou coragem. Estavam sentados na mesa de fundo da pizzaria, que naquela hora de inicio de noite, retornava a fichar cheio. Era um recinto simples com um aspecto caseiro, luminárias potentes, mesas quadradas e assentos duplos; Um grande balcão se entendia à frente e os letreiros informando os sabores e preço das pizzas era suspenso à cima. Era ainda possível ver parte da cozinha, especialmente os fornos, atrás do balcão.
— Como assim? – deu uma risadinha. Em nenhum momento da conversa, até mesmo quando ignorava as perguntas de Lizzie, Zack deixou de encará-la.
— Bom, não sei. Vocês parecem se conhecer muito bem... Parecem ter uma conexão, mas ao mesmo tempo, percebi que você não fica totalmente confortável na presença dela! – explicou sincera.
— Conexão?! – gargalhou. Lizzie não entendia a reação dele. Obviamente ele queria fugir da resposta, mas ela não deixaria. Não daquela vez! Summer havia implantado bem a curiosidade a respeito de Zack em sua cabeça, e mesmo não sendo a favor desse tipo de ‘invasão’ na vida de outra pessoa, já que ela torcia para que não fizessem com ela, Lizzie não conseguia evitar. A vontade de saber era maior.
— É uma pergunta simples, Zack! Porque simplesmente não responde? Você não deve nada a mim, estamos apenas conversando – insistiu impaciente. O rapaz parou com as risadas, mas continuou encarando-a, dessa vez, sério.
— O que a Summer falou pra você? Porque está tão interessada no meu passado? – franziu o cenho.
— O que? Eu? O que te faz pensar isso? – Lizzie arregalou os olhos — Você é muito paranóico.
Zack tentou se controlar e respirou fundo; Girou os olhos pela pizzaria a fim de fugir do rosto interrogativo de Lizzie e umedeceu os lábios. Permaneceu em silêncios por alguns segundos e ficou aliviado quando viu o garçom se aproximar com o pedido deles. Levantou-se, ergueu a pizza com uma mão e com a outra puxou uma nota de vinte dólares do bolso do macacão, deixando o troco de gorjeta para o garçom. Agradeceu e fez sinal para Lizzie em direção ao carro, indicando para irem embora.
O percurso até a casa de Martin não durou nem 2 minutos.
Era realmente agradável o fato de tudo ali ser tão perto andando de carro. Isso, claro, porque a rua em que Martin residia era uma das travessias com a Hamilton Ave, o centro comercial mais próximo.
Zack puxou a mesa de centro da sala para perto do sofá e repousou a pizza na mesma; Pegou ketchup e mostarda na geladeira e um resto de refrigerante que havia sobrado do jantar de outro dia. Lizzie mesmo ficou sentada no sofá, observando. Não deixou de estranhar a forma como Zack agia livremente na casa de seu ‘patrão’.
— Você e Martin são íntimos, é? – brincou.
— O suficiente para ele confiar em mim e me deixar ficar em sua casa sem problemas – respondeu sarcástico. Por fim, depois de também pegar dois garfos e entregar um à Lizzie, sentou-se ao seu lado no sofá. Sorriu e espetou um pedaço de pizza, devidamente cortada à francesa. Lizzie imitou o gesto.
— Nosso passeio não rolou, mas hoje podemos relaxar tranqüilos aqui! – exclamou antes de enfiar outro pedaço de pizza na boca. Lizzie sorriu de canto arqueando a sobrancelha.
— Talvez você seja suficientemente de confiança do Martin pra “relaxar tranqüilo” aqui, mas não sei você se lembra que eu sou só uma estranha recebida carinhosamente a menos de uma semana! Não sei se consigo me sentir tão à vontade como você está sugerindo! – ambos riram.
— Com certeza eles não te acham nenhuma ameaça! Cara, eles te entregaram uma chave! Hahahahaha! Martin já praticamente te adotou... Eu não sei o que você tem ou fez, mas todos simplesmente te adoraram – falou terminando com um tom gentil. Lizzie mordeu os lábios e corou. De certa forma, as palavras de Zack a deixaram reconfortada e ela sentiu-se estranhamente boba. Ser adorada e recebida daquela forma estava além do que jamais imaginara que seria. Uma voz no fundo de sua consciência sempre a lembrava de não se apegar ou de pensar que era significante, mas ao ouvir aquelas palavras, ela não ligava. E como poderia? Passara a vida toda em ambientes infelizes e rodeados de insanidade ou então atacada por brincadeiras maldosas e humilhantes. Era de se esperar que tendo a oportunidade de se sentir parte de um lar normal e afetuoso, ela simplesmente não ia se importar com o que a razão dizia.
Falado isto, ambos ficaram num estranho silêncio por uns segundos. Comeram mais alguns pedaços de pizza e beberam o resto de refrigerante. Satisfeita, Lizzie jogou o garfo sob o papelão da embalagem da pizza e recostou-se no sofá massageando a barriga cheia.
— Aliás, o que você quis dizer com relaxar tranqüilos aqui?– perguntou olhando para o teto. Zack terminou de mastigar o pedaço que estava em sua boca para também abandonar o garfo e encostar o corpo no sofá. Alguns fios de cabelo caíram sobre seu rosto virado na direção de Lizzie. Ele olhava-a, mas parecia pensativo.
— Você parece tão autêntica e frágil, mas quando eu paro pra te analisar, eu vejo certa escuridão nos seus olhos... Enxergo algum tipo de dor até nos seus mais raros sorrisos – Zack sussurrava, encarando-a. Lizzie escondeu o sorriso e também ficou séria.
— Eu digo o mesmo a você – retrucou.
— Então acho que nós dois vivemos alguma coisa bem traumática ou triste...
— Eu sei que eu vivi, mas como eu poderia saber de você já que nunca responde nada?
— O dia que você dizer a verdade sobre o seu passado, eu conto sobre o meu – exclamou. Lizzie estremeceu diante das palavras dele. Zack então desconfiava das histórias que ela contara sobre sua vida? Se sim, por quê? Ou ela não tinha sido convincente o suficiente, ou ele era um bom analisador. Talvez os dois! Desde o dia que Martin encontrou Lizzie no pedágio, ela reparara que Zack a avaliava de uma forma estranha, sempre ouvindo suas explicações sem expressar pena ou surpresa.
— Você está querendo insinuar que eu sou mentirosa? – perguntou com um tom bravo.
— Só acho que você não foi totalmente verdadeira sobre sua vida... E não sei, mas parece que você omitiu coisas.
— E o que te faz pensar isso? Só porque eu sou mais reservada ou que não sou muito extrovertida? – Lizzie não queria mostrar medo, mas começava a se irritar. Não da semi acusação correta de mentir, mas porque o rapaz, ao seu ponto de vista, estava sendo hipócrita – E se você acha isso de mim, eu posso pensar o mesmo sobre seu respeito!
— E pensa, correto? – ele deu uma risadinha. Lizzie, sem ação ou o que dizer, voltou a se recostar no sofá e olhar para o teto. Os dois ficaram sem falar por alguns minutos, até que Lizzie quebrou o silêncio com uma voz melancólica.
— Porque a vida parece tão injusta para aqueles que praticamente não fazem mal algum? – perguntou pensativa. Zack observava-a e reparou que os olhos da garota estavam marejados.
— Sabe porque eu não gosto de pensar ou falar sobre o passado? Porque se não eu não consigo viver o presente ou fazer planos para o futuro. Viva o agora Lizzie! Deixe tudo pra trás, onde ele está – respondeu carinhosamente.
— Não consigo! Simplesmente não há como... – a voz de Lizzie tremia, tentava segurar-se, mas os sentimentos dentro de si estavam inquietos tentando explodir para desmoroná-la. Estava cabisbaixa para esconder a fraqueza estampada em seu rosto atrás do cabelo escorrido sobre ele.
— Sempre há segundas chances Lizzie. Você está tendo a sua! Aproveite – exclamou. Zack levou uma mão até o queixo da garota, erguendo seu rosto. Uma lágrima corria em sua face pálida. Uma lágrima de vergonha, de alívio e de uma dor que tentou reprimir de si mesma à anos.
Zack compartilhava aquela atmosfera de sensibilidade com ela, e sem perceber, seus olhos também ficaram lacrimejados. Lizzie mantinha a respiração pesada quando levantou o olhar em direção ao de Zack.
— Porque você está sendo legal comigo? Porque todos vocês estão sendo tão generosos? – questionou.
— E porque não seríamos? – franziu o cenho.
— Ninguem é assim! E você mesmo disse que eu estou mentindo... E ainda assim, continua me tratando bem!
— Todos mentem Lizzie. Uns mentem por maldade, outros por oportunismo... E outros mentem para não sofrer, porque não conseguem lidar com a verdade sem se machucar. E eu acho que isso se aplica a você – respondeu sincero.
— E porque você acha isso?
— Porque eu faço isso, e eu vejo muito de mim em você.
Outra lágrima escorreu sob seu rosto, mas ela sorria, assim com Zack. Era um sorriso tímido, de agradecimento e compreensão, que expressava tudo o que ela sentia naquele momento sem precisar dizer nada.
E os dois ficaram ali se olhando com a cabeça repousada sobre o sofá por longos minutos como se conversassem sem palavras, até que uma hora, sem nem perceberem, adormeceram.
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