O Inesperado - Tsunami
3 Círculo Dourado
Notas iniciais
Mahatan, Illinois – Junho de 2004.
– Por que você tem que ir? – perguntou ao rapaz de camiseta preta e jeans azul desgastado, uma senhora de meia idade, que estava a sua frente, e que, como ele, era loira e muito bonita. Ela usava um vestido vinho de mangas longas e ombros caídos, o que lhe dava um ar sério e ao mesmo tempo casual. Os dois tinham uma grande semelhança física: os cabelos ondulados castanhos, a pele alva como leite e as mesmas feições que lhes conferiam um ar aristocrático; exceto pelos olhos. Os dela eram castanhos claros, já os dele, possuíam a íris envolta por um fino circulo dourado, que depois se transformava em verde Jade e preenchia todo o restante da pupila provocando um efeito meio hipnótico em quem os observava.
A mulher o observou atentamente enquanto tentava conter as lágrimas que teimavam em rolar de seu rosto. – Por que tem que ser você?
– Mamãe, nós já conversamos sobre isso – respondeu o jovem de uns vinte e poucos anos, num tom compreensivo e gentil. Produzindo ênfase nas palavras, mas com cuidado para não parecer grosseiro. – A senhora sabe que eu tenho que fazer isso.
– Elisabeth, deixe o garoto. Ele já tem idade o suficiente para tomar as próprias decisões. – argumentou, ao lado da mulher, Benjamim. Um velhinho de cabelos grisalhos, não muito alto, com olhos verdes e bondosos, iguais aos do jovem. – Se o nosso filho quer ir, deixe que vá.
– Ora essa! Não me venha com esse discurso clichê que nós já conhecemos, Benjamim. – Elisa fez uma breve pausa deixando o olhar perder o foco por alguns instantes – Mas é que... – disse pressionando a mão direita sobre o peito. Ela tinha tido um pesadelo durante aquela noite e, a possibilidade de que algo ruim acontecesse a angustiava. – Eu não estou com uma sensação muito boa.
Edward era a melhor coisa que Elisabeth já tinha feito na vida. Como ela o amava. O menino que ela vira crescer e se transformar em um homem justo, bom e generoso. Foi exatamente por essas qualidades, que ela não sentiu nenhuma surpresa quando o jovem disse que iria fazer medicina e, seis anos mais tarde, o viu voltar para casa com um diploma de baixo do braço, fazendo-a sentir um orgulho imenso.
Medicina parecia ser a profissão perfeita para alguém tão determinado a ajudar o próximo como seu filho. Contudo, Elisabeth nunca imaginou que o veria partir para um lugar tão longe quanto à Indonésia. Não, quando ela sabia que verdadeira causa dessa fuga, era um trauma profundo que o jovem evocara para si depois da trágica morte de Philip, seu filho caçula. Para ela, era como se houvesse um vazio a atormentando sem dó nem piedade, dia após dia, sem dar trégua nem descanso, em todos os longos meses daquele inverno. Mãe nenhuma se acostuma em perder um filho. Mas Edward não. Ele era jovem, tinha um futuro brilhante pela frente e não precisava ficar se martirizando para o resto da vida.
Procurando algum subterfúgio das lembranças, Elisabeth contemplou ao redor do aeroporto e começou a observar as pessoas. Eram todas de várias partes do mundo: famílias como a dela, despedindo-se de alguém, ou indo viajar junto. Casais, jovens, crianças e idosos. Todos, indo ou chegando de algum lugar. Então, ela olhou para Edward se perguntando quando veria seu filho novamente.
– Não precisa se preocupar. São apenas alguns meses – disse o rapaz com um sorriso tranquilizador a interrompendo de seus devaneios – Volto logo. Eu prometo.
– Eu só acho que a responsabilidade não é sua. Edward, você não precisa tentar salvar o mundo só porque... – Elisabeth parou sem conseguir dar continuidade à frase.
Todos ficaram sérios. Aquele era um assunto muito delicado e doloroso para aquela família.
Voo 1266 com destino a Dempasar, Indonésia. Última chamada... Passageiros, por favor, dirijam-se ao salão de embarque...
Edward olhou para o painel de controle, depois para os pais e disse:
– Chegou a hora. Eu tenho que ir.
– Pois então vá logo, ou você vai perder o voo – Ben abraçou o rapaz dando leves batidos por detrás de seu ombro – Até breve marujo.
Assim que se desvencilharam, Edward se aproximou de sua mãe, que a essa altura já não conseguia mais conter as lágrimas. Ela o beijou ternamente a face, afagou seus cabelos e sorriu com serenidade.
– Você é a coisa mais importante da minha vida. E se você decidiu ir para outro país distante tentar ajudar pessoas, saiba que eu admiro muito a pessoa que você é. E que mesmo não querendo você longe de mim, eu vou sempre te apoiar – Elisabeth fez uma pausa curta e depois finalizou dizendo com a voz rouca: – Querido, nunca esqueça que eu te amo. Se cuida, tá.
– Não se preocupe. São apenas alguns meses. Eu volto logo.
Ao dizer isso, o jovem colocou os óculos escuros rain band no rosto, deu um último sorriso e acenou para os pais – Até breve! – despediu-se.
Edward caminhou rumo ao salão de embarque. Passou, mais adiante, por um corredor estreito onde se dirigiu às escadarias do avião, nas quais subiu até adentrar e ficar acomodado em uma poltrona confortável próximo a janela. Era um hábito viajar apreciando a paisagem, observando a vista se esvair, à medida que fossem tomando altitude e as nuvens a encobrissem.
Depois disso, o jovem médico em missão humanitária cochilou tranquilamente.
Oklahoma, Del City – Outubro de 2004.
Sozinha em seu quarto, Isabella não fez esforço nenhum para lutar contra as lágrimas que brotavam de sua face e materializavam toda a decepção que a moça sentia.
Ela sentou-se na cama de casal, onde tinha passado vários momentos com o namorado, ou na nostalgia de sua ausência, e chorou. Chorou sim. Chorou sem pudor. Mas não de tristeza, e sim de raiva. Raiva por ter sido tão idiota e não ter percebido antes que Mike Newton era um safado cretino. Raiva por ter feito tantos planos. Raiva porque todos os seus amigos tinham assistido tudo. Tanta raiva que lhe deu vontade de quebrar alguma coisa. Mas ele não merecia isso. O cretino não merecia que ela quebrasse as próprias coisas e se machucasse, ou gastasse qualquer energia com ele.
Isabella mantinha os punhos cerrados, quando, por relance, viu seu reflexo no espelho da porta do guarda-roupa. A maquiagem estava borrada. O cabelo desgrenhado e os olhos avermelhados borrados por causa do rímel. Ela era a imagem perfeita da noiva cadáver, com exceção do vestido preto.
– É melhor parar. – disse a jovem para si mesma – Controle-se Isabella Swan. Você vai acabar com rugas antes do tempo. Aquele idiota não vale tudo isso – A jovem respirou fundo, enchendo e esvaziando os pulmões (Aprendera essa técnica com o pai quando era criança e fazia isso sempre que estava muito nervosa). Quando terminou, consultou o relógio no pulso esquerdo – Eu ainda tenho um jantar a caminho. – Então, secou as lágrimas e passou um pouco de maquiagem no rosto, tentando ao máximo esconder o vestígio de seu pranto.
A moça, após alguns minutos, dirigiu-se à sala calmamente e viu que os seus amigos já iam embora.
– Para aonde vocês pensam que estão indo? – A garota surpreendeu a todos, quando eles se voltaram para o corredor que dava acesso aos quartos a viram com o peso do corpo concentrado em uma das pernas, com os braços cruzados, usando um vestido laranja de alças, com os cabelos soltos caídos pelos ombros e uma maquiagem mal feita.
– É que nós pensamos que... Bem, que talvez você quisesse ficar sozinha. – respondeu Sam dando de ombros como porta-voz do grupo.
– Se vocês realmente acham que eu vou comer todo esse jantar sozinha, estão redondamente enganados – falou colocando as mãos na cintura e balançando a cabeça em desaprovação – Eu e Mike rompemos, mas isso não significa que vou comer muito e ficar gorda. Aí, depois, vou ter que gastar dinheiro comprando roupas novas, porque não vou caber mais nas antigas. E aí vai ser quando eu vou entrar em depressão porque não vou ter nenhum centavo para pagar o psicanalista que vai cobrar os meus dois olhos da cara e o meu rim direito – ela transferiu o peso do corpo para a outra perna – Nem pensar. Então podem tratando de dar meia volta. – Bella deu as costas e foi em direção à cozinha.
Os convidados ficaram perplexos com a reação da moça, porém nenhum deles ousou questionar sua atitude. Todos adentraram no apartamento novamente para apreciar o banquete.
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