Notas iniciais
Hey pessoal! Aqui vai um capítulo bem soft para você HAHAHA Enfim, em breve o casamento aurieta nessa fanfic estará chegando (UHUUUL), então me digam, o que vocês esperam desse casamento? Vocês podem me dizer isso aqui nos comentários, no twitter (@ dixonfanfic) ou no curious cart (curiouscat.me/dixonfanfic). Espero que gostem dessa dinâmica familiar que eu trouxe nesse capítulo ♥ OBS¹: Essa fanfic provavelmente só terá mais dois ou três capítulos, então por favor, não desistam dela. OBS²: Desculpem qualquer erro ortográfico.

Ema Cavalcante Pricelli estava deitada na cama do seu quarto na fazenda da Rainha do Café, olhava para o teto com um sorriso nos lábios enquanto contemplava as próprias reflexões.

A jovem tinha chegado ao Vale do Café uma semana após o noivado. Ela se encheu de alegria quando o pai confidenciou por telefone que pediria Julieta Bittencourt em casamento e ainda mais, o coração se aqueceu quando ele contou como seria a preparação do pedido, seu genitor era um homem muito romântico, isso fazia com que a menina o admirasse ainda mais. Porem lamentou quando soube que não poderia estar lá para ajudar, pois, estava lançando uma nova coleção de vestidos para festas e naquela semana seria a exposição dos trajes, sendo assim, François fez questão de que a jovem estivesse presente no dia para que ambos pudessem comunicar a imprensa.

A Baronesinha agora era uma mulher de sucesso e de negócios, os vestidos que desenhou ficaram conhecidos por toda a São Paulo e logo, se tornou a estilista mais requisitada pela alta sociedade. Ela nunca imaginou que isso pudesse acontecer e que ao aceitar trabalhar a sua vida se tornaria completamente diferente, que deixaria de ser apenas uma menina mimada, mas se tornaria uma mulher madura, dona de um negócio, respeitada e admirada pelos demais e até mesmo um exemplo para as meninas mais jovens. Sentia-se orgulhosa de quem se tornou e como batalhou para chegar até ali.

Nunca se esqueceria do dia em que a Rainha do Café a incentivou a se tornar uma mulher de fibra, de conquistar o seu espaço e não se permitir ser subjulgada. Na época, Ema achou loucura às palavras ditas pela mulher, além de achá-la fria e calculista. Mas não demorou muito para perceber que a empresária foi à única e a primeira a acreditar nela, em ver a capacidade que possuía antes mesmo que ela própria percebesse isso. Lembrou-se que seguiu os conselhos da mulher e nos primeiros dias se arrependeu amargamente, se questionava o porquê de tê-la ouvido, pois aquela missão era muito mais difícil do que imaginava. Hoje, ao olhar para tal conselho é tomada de alegria por ter tido coragem de seguir aquelas palavras, pois apesar dos momentos turbulentos, ela superou todas as dificuldades e se tornou quem é.

Por isso, quando a sua primeira coleção foi lançada e todos os vestidos venderam no mesmo dia, a primeira pessoa para quem contou foi Julieta. Recordou que ligou para a namorada do seu pai e relatou o acontecido, a mulher ficou mais animada do que ela mesma. As palavras que ela lhe falou naquele dia, naquela ligação, ainda estão gravadas em sua memória, a maneira com que disse o quão orgulhosa estava dela e as várias perguntas que fez pedindo que a menina contasse cada detalhe, fez como que Ema se sentisse como filha dela. E, quando Julieta afirmou que estavam imediatamente indo para São Paulo para comemorar esta vitoria junto dela, a jovem teve a certeza de que agora a vida a tinha recompensado com uma nova mãe, não uma biológica, mas uma mãe de coração.

Desde então, ela já não era mais a Rainha do Café aos olhos da moça, sequer era apenas Julieta Bittencourt, ou tão somente a namorado de seu pai, mas sim uma nova Julieta, aquela que representava um papel materno na sua vida, aquela que torcia por ela e comemorava quando a mesma atingia as conquistas, que se preocupava e se importava, aquela que a abraçava com um calor, com um amor que só abraço de mãe tem.

Julieta a mimava da mesma forma que mimava Camilo. Fez questão de que Ema ficasse sempre hospedada em sua casa quando viesse para o Vale, porque ali poderia se sentir mais confortável do que se estivesse na casa de Brandão, que era onde o pai estava. Até mesmo fez um quarto exclusivo na fazenda para a filha do namorado, onde esta pode enfeitar e decorar da maneira que queria.

O acolhimento, os carinhos e os beijos de mãe que ela tanto lamentava não ter quando era jovem, agora estavam presentes e recorrentes em sua vida. Era assim o relacionamento de ambas atualmente, cheia de amor, amizade, respeito e carinho, tinham liberdade para isso e sequer perceberam como conquistaram. Os pensamentos da jovem foram interrompidos por uma batida na porta.

— Posso entrar, minha filha? — Aurélio abriu calmamente a porta e espreitou, o sorriso no rosto não negava a alegria de saber que a filha estava no Vale, o visitando. Observou a maneira em que a menina virou a cabeça para olhá-lo.

— Claro, papai. — Ema exibiu um sorriso iluminado enquanto fitava o homem entrar no cômodo. — Venha, deite aqui comigo. — Ela se ajeitou na cama, indo mais para o lado e bateu delicadamente algumas vezes com a mão no colchão, indicando onde era para o genitor se deitar. O botânico sem demora deitou-se ao lado da sua herdeira e passou o braço em baixo da cabeça da mesma, a trazendo para si e a aninhando em seus braços.

Lembrou-se de quando ela era apenas uma criança e os dois deitavam assim, enquanto ele esperava que Ema pegasse no sono. Muitas vezes dormiu no quarto dela, com a menina em seus braços, porque era incapaz de deixá-la. Ele precisava mais dela do que ela dele, sempre foi assim. Hoje, já era uma mulher adulta e madura, mas para Aurélio sempre seria a menininha dos seus olhos, aquela que corria pelos campos com os cavalos, que fazia desenhos do sol, riscava as paredes da casa deixando o Barão ensandecido e que corria para os seu colo quando se machucava brincando.

— Lembra-se de quando era pequenina e se aconchegava assim, juntinho de mim? — Aurélio falou nostálgico, inconscientemente trazendo-a para mais perto dele. Ás vezes queria poder voltar no tempo e ter Ema criança de novo, brincando e pulando ao seu redor.

— Claro que lembro, papai. — Ela soltou uma pequena risada com a doce lembrança que invadiu a mente. — Eu ficava o dia inteiro esperando que a noite chegasse para que pudéssemos dormir com o senhor. — Quando criança, sentia-se segura nos braços do pai, como se pudesse ser protegida de todo o mal, de todos os pesadelos com monstros que a capturavam durante a noite, dos meninos chatos que insistiam em incomodá-la e da saudade da mãe, que com a sua crueldade a fazia chorar. Engraçado como algumas coisas nunca mudam, porque continuava se sentindo da mesma maneira quando estava no aconchego do pai.

— Eu também esperava o dia inteiro para tê-la em meus braços e protegê-la do mundo. — Ele depositou um beijo demorado na testa da menina, que exibiu um sorriso terno, repleto de carinho. — Você era tão pequena. Tinha umas mãozinhas delicadas e minúsculas. — Aurélio pegou a mão dela e depositou um beijo, em seguida, desenhou com os próprios dedos o formato das mãos da filha. — Tinha pézinhos também. Lembro-me de que quando você era bebê eu vivia a beijar os seus pequenos pézinhos, e sua mãe me dizia: ‘‘Não faça isso Aurélio, a menina crescerá esnobe e mandona”. Mas assim que ela virava as costas, eu voltava a beijá-los. — Ema soltou um riso divertido ao escutar a história, que já tinha sido lhe contada outras vezes mas que nunca perdia o encanto. — Eu acho que sua mãe tinha razão. Você não cresceu esnobe, mas cresceu mandona.

— Papai, eu não sou mandona! — Ema exclamou revolta, dando um leve tapa no peito do pai, fazendo que o mesmo gargalhasse. Tentou deixar a cara emburrada e se esforçou ao máximo para esconder o riso que insistia em aparecer nos seus lábios.

— Diga isso a Ernesto. — Falou entre risadas e mais uma vez sentiu um leve tapa em seu peito, mas a risada da herdeira veio logo em seguida, denunciando a diversão da mesma. Após alguns segundos o riso se desfez, deixando um silêncio confortável habitar no ambiente, mas que não demorou muito para ser preenchido pelo botânico. — Agora veja, você já é uma mulher feita. É um empresaria e estilista de sucesso, e ainda, é uma mulher casada. E não é casada com qualquer um não, é casada com um Carcamano e anarquista! — Mais uma gargalhada saiu da garganta de pai e filha, que parecia contagiar cada parte daquele cômodo com a alegria deles.

— Quem diria não é mesmo, papai? — Ema contemplou as peças que o destino pregou em todos, principalmente nela, porque ela menos do que todo mundo imaginava que se casaria com um homem com a aparência e a personalidade de Ernesto. — Eu casada com um italiano anarquista!

— Ninguém jamais poderia dizer. — Aurélio concordou com a menina em meio a um pequeno riso. Recordou-se do dia em que a mesma o comunicou que estavam namorando, assim como o restante, ele foi tomado pela surpresa ao saber de tal noticia. — Mas estou contente que esteja casada com ele. Ernesto é um bom homem e a ama profundamente. É bom saber que entreguei a minha filha a alguém que a zela e protege. Mas o principal é vê-la casada com o homem que ama e sendo feliz ao lado dele. — Ele passou as mãos pelos cabelos da filha e os acarinhou delicadamente. O homem referia-se ainda ao episódio em que a jovem queria casar-se com um rapaz afortunado para dar a família novamente posses e uma vida confortável, ideia esta que ele tinha plantado na cabecinha dela e que até hoje se arrependia amargamente de ter dito aquelas palavras horrendas.

— Eu sou muito feliz ao lado de Ernesto. — A jovem exibia um sorriso amoroso nos lábios ao pensar do marido e na vida conjugal que dividiam. Fazia oito meses que ela e o italiano haviam se casado, e poderia afirmar com certeza e com todas as letras que esses eram os oito meses mais felizes da sua vida. — Assim como senhor será ao lado de Julieta. — Referia-se ao casamento do genitor com a empresária, que estava prestes a acontecer.

— Eu já sou feliz ao lado dela. Imensamente feliz. — Aurélio respondeu com um sorriso apaixonado nos lábios, fazendo com que a menina erguesse um pouco o rosto para fitá-lo, ficou fascinada ao ver o amor superabundar nos olhos do pai.

Desde que a mãe de Ema faleceu, o pai nunca mais se interessou por uma mulher, até Dona Julieta Bittencourt chegar a suas vidas. Ela veio como um turbilhão, arrancando todas as certezas da família Cavalcante, os levando a ter responsabilidade e a assumir os erros, e onde ninguém jamais imaginaria, surgiu o amor entre o filho do Barão falido e a Rainha do Café. Um amor que a jovem não sabe dizer onde efetivamente se iniciou, mas que agora a deixava encantada e admirada com a cumplicidade dos dois, com a devoção do casal com essa paixão. Jamais pensou em ver seu pai com outra mulher, mas ao vê-lo com Julieta, não pode negar, os dois eram feitos um para o outro e faziam um lindo casal. Também era muito bom vê-lo apaixonado, amando e sendo correspondido da mesma maneira.

— E assim como eu, Julieta também é mandona. O que tem a dizer sobre isso, Senhor Aurélio Cavalcante? — A menina o questionou com as sobrancelhas erguidas e um olhar soberbo no rosto, desafiando-o a encontrar respostas para tal pergunta.

— O que posso fazer se eu amo estar cercado por mulheres fortes e encantadoras? — Ele disse referindo-se a Ema e Julieta, e mais um riso dos dois ecoou pelo quarto.

Julieta pode ouvir os risos de pai e filha do corredor, fazendo com que ela própria abrisse um sorriso imediatamente. Sabia que Aurélio estava lá, pois depois de Ema subir para descansar no quarto, ele também subiu, já que ansiava passar um tempo a sós com a herdeira e Julieta entendia isso, acima de tudo achava tão bonito esse amor e a união dos dois.

Caminhou até ficar frente à porta do quarto e ficou parada, apreciando o som dos risos. Onde quer que aqueles dois estivessem, eles estariam desfrutando e celebrando a vida, de uma maneira única, da forma que apenas Ema e Aurélio eram capazes de fazer. Sentiu-se desconfortável ao saber que interromperia o momento de pai e filha, mas o noivo pediu que assim que o almoço estivesse quase pronto ela os chamasse, e bem, o almoço estava quase pronto.

Levou os dedos até a porta de madeira e deu pequenas batidas, logo em seguida abrindo a porta timidamente e colocando apenas parte do corpo dentro do cômodo. Somente os avisaria que o almoço estava prestes a ser servido e se retiraria, deixando para os dois decidirem se desceriam ou não, de maneira alguma queria interromper esse momento, que agora parecia ser raro já que Ema estava casada e ela e Ernesto dificilmente se desgrudavam, sendo hoje a única exceção, já que o genro de Aurélio tinha ido a cachoeira aproveitar a manhã com os irmãos.

— Desculpe atrapalhar. — Julieta disse com um sorriso acanhado, assistindo a menina aconchegada nos braços do pai e ambos com um sorriso amoroso nos lábios. Eles a fitavam com aqueles olhos únicos, especiais, cheios de afeto. — O almoço está quase pronto. Eu só vim avisar porque Aurélio me pediu, mas sintam-se a vontade para aproveitarem o momento e desceram quando quiserem. — Ela terminou de falar e já estava pronta para se retirar, iria começar a fechar a porta novamente quando escutou chamarem por ela.

— Julieta. — Ema disse, levantando-se um pouco dos braços do pai, para que pudesse olhar adequadamente a mais velha. — Por que não se junta e aproveita esse momento conosco? — Exibiu um olhar brilhante e mimado, com um sorriso de expectativas nos lábios.

— Eu não quero atrapalhar o momento de vocês, querida. — A Rainha do Café pronunciou as palavras com um sorriso educado. Queria que ambos aproveitassem o máximo para fazer aquilo que costumavam fazer antes dela e Ernesto chegarem às suas vidas. Além do mais, sabia a falta que Aurélio sentia de ter a sua menininha sempre com ele, e também sabia que moça compartilhava do mesmo sentimento.

— Você não estará atrapalhando. — Ema sentou-se na cama e a olhou com os olhos de uma criança mimada, como se estivesse fazendo a melhor cara manhosa que podia para pedir um novo brinquedo para os pais. — Muito pelo contrário, estará acrescentando. — A jovem levou a mão para o espaço vazio ao seu lado do colchão e deu novamente pequenas batidinhas, chamando a madrasta para se aninhar ali, junto deles.

— Venha, meu amor. Você jamais vai atrapalhar. — Aurélio conhecia bem Julieta e sabia que ela estava se sentindo como uma intrusa atrapalhando um momento em família. Ela ainda tinha certa dificuldade para entender que era sempre bem vinda entre eles, mas sabe que em breve a noiva entenderia que agora, ela também fazia parte daquela família, mesmo antes de casarem.

Julieta adentrou completamente no cômodo e apertou as mãos nervosamente. Não sabia se a menina realmente a queria lá, ou se apenas estava sendo educada. Sentia-se como uma estranha, uma intrometida, atrapalhando momentos que não deveriam ser interrompidos. Os olhos correram e encontraram os do noivo, que a fitavam com aquelas íris azuis esperançosas e um sorriso bobo nos lábios. Ao olhar para Ema, encontrou a mesma expressão, o mesmo olhar. Era incrível como os dois poderiam ser tão diferentes fisicamente, mas ao mesmo tempo iguais.

No momento em que viu ambas as expressões soube que realmente eles a queriam lá, queriam que ela fizesse parte daquele momento, isso fez com que o coração de Julieta se enchesse de alegria e olhos de lágrimas. Por isso, mesmo sentindo-se ainda desconfortável com a situação, caminhou timidamente até a cama e deitou-se ao lado da enteada, que tinha voltado a se aconchegar nos braços do pai.

— Estávamos mesmo falando de você. — O filho do Barão declarou. Julieta apoiou-se em um dos cotovelos, e em seguida, posicionou a cabeça em cima da mão, deixando o corpo virado de lado para que pudesse fitar Ema e Aurélio. A mais jovem estava deitada entre o casal, como se fosse uma criança que teve um pesadelo durante a noite e correu para a cama dos pais, buscando carinho e conforto.

— É mesmo? — Julieta exibiu um sorriso aberto, ao ver o pai e filha concordarem com a cabeça. — E o que estavam falando? — Perguntou curiosa, desejando que fosse algo bom.

— Ema disse que você é mandona. — Aurélio declarou e sentiu imediatamente um tapa mais forte do que os outros em seu peito, a filha dessa vez não estava para brincadeira, mas isso não impediu que o mesmo soltasse um riso. Julieta por sua vez, ergueu as sobrancelhas e entreabriu a boca, como se estivesse chocada com a descoberta.

— Julieta, não é verdade. — Ema disse rapidamente e um pouco apavorada, saindo dos braços do pai e rolando na cama, para ficar de frente com a futura madrasta. — Bem, é verdade, mas não dessa maneira. — A menina se enrolou nas palavras, enquanto tentava explicar para a Rainha do Café o que havia acontecido. — Era em um contexto diferente.

— E existe contexto diferente para isso? — Julieta questionou divertida, enquanto notava a enteada nervosa em sua frente, buscando por explicações. Os olhos encontraram Aurélio, que ria silenciosamente da situação em que tinha colocado a filha.

— Sim... E não. — A menina franziu as sobrancelhas, como se estivesse se sentindo culpada e novamente virou o corpo para o do genitor. — Papai, não era essa a parte que o senhor devia ter contado! — Ema o advertiu, referindo-se que era para o pai ter dito do momento em que falavam o quanto ele era feliz ao lado da noiva.

— Ema, está tudo bem. — Julieta falou, e a menina deitou o corpo reto na cama, virando apenas o rosto para fitar a madrasta. A mais velha levou a mão sobre a da jovem e a apertou, em forma de demonstrar que não estava chateada com o comentário. — Você está certa, eu sou mesmo mandona. — Admitiu e viu um sorriso aliviado nascer nos lábios da enteada. — E também, eu tenho certeza que o Senhor Aurélio teve algum envolvimento nessa história para você dizer isso de mim. — Os olhos dela deixaram os de Ema e imediatamente foram para os do noivo, que parou de rir imediatamente quando viu a expressão de aviso da amada.

— O que? Eu? — O futuro Barão questionou, levando a mão até o peito e fazendo uma expressão exagerada de choque, como se não acreditasse que ela o estava acusando. — Você sabe que eu jamais diria isso da minha noiva.

— Conversaremos sobre isso depois. — Julieta o advertiu e inclinou a cabeça um pouco, olhando por cima com os olhos, com a expressão típica de negociadora indomável. Ema assistia a cena com um sorriso nos lábios, enquanto reprimia o riso que insistia em querer escapar, estava encantada pela dinâmica do casal na sua frente.

— Está vendo? — O botânico olhou para a filha com as sobrancelhas erguidas. — Mandona. — Ele disse, apontando para a noiva e confirmando o que tinham falado sobre ela. Dessa vez, a estilista não foi capaz de segurar o riso quando ouviu as palavras do pai, enquanto a expressão da madrasta era de inconformada.

— Está rindo não é mesmo Ema? — Julieta a questionou enquanto observava a garota gargalhar e Aurélio acompanha-la no riso. Ela não se importava que a menina reagisse assim sobre isso, mas resolveu entrar na brincadeira também. — Pois saiba, que a senhorita também é uma mandona! — Ela falou e levou o dedo indicador no nariz da jovem, o tocando levemente e rapidamente, com um sorriso nos lábios.

— Hey! E a solidariedade feminina? — A jovem imediatamente parou de rir e protestou, ela jamais admitiria isso, por mais que soubesse que era verdade. E apelou para uma das coisas das quais a Rainha do Café tinha ensinado para a Baronesinha, era que mulheres deveriam ajudar mulheres.

— Eu acho que podemos usar a nossa solidariedade feminina e armar um complô contra o seu pai, que foi quem armou toda essa confusão e até agora está ileso. — A mais velha propôs para a estilista e rapidamente recebeu uma resposta positiva. Antes que Aurélio pudesse protestar, alguém os interrompeu. Era Camilo. O rapaz estava parado na porta com um olhar culpado.

Ele tinha recém chegado na fazenda. Havia saído logo cedo, deixando a esposa na casa da sogra para aproveitar a manhã com a família e ido até uma reunião de negócios com um dos fazendeiros da pequena cidade, era sobre o café Três Mosqueteiros, e por isso a sua mãe não o tinha acompanhado.

Assim que chegou, foi comunicado por Mercedes de que o almoço iria ser servido e ao não ver nenhum dos residentes da casa sentados à mesa, como era de costume, resolveu chamá-los. Subiu as escadas e ao chegar no corredor escutou vozes e risos.

Camilo notou que a porta do quarto de Ema estava aberto, deduziu que era de lá vinha o barulho e por isso aproximou-se e espiou. Observou por algum tempo a dinâmica dos três, que dividiam a cama, brincadeiras e sorrisos, o seu coração desejou estar ali com eles, participar daquele momento, mas ao mesmo tempo sentia-se incomodado, pareciam uma família e ele, parecia um desconhecido. Lembrou-se que seu objetivo era avisar que o almoço estava sendo posto à mesa e resolveu cumpri-lo, mas assim que fizesse iria voltar para a sala de estar e deixá-los se divertir.

— Eu só vim avisar que Mercedes disse que o almoço está sendo servido. — O menino pronunciou as palavras quase sussurradas, com o olhar apontado para baixo e um sorriso acanhado.

Julieta observou a expressão corporal de Camilo, ele estava constrangido e mexia levemente o corpo de um lado para outro, enquanto as mãos estavam postas atrás do seu corpo, escondendo-as. Permitiu por um momento que lembranças invadissem a sua mente. Recordou-se de quando o filho era criança e escondia-se atrás dela quando as pessoas vinham falar com ambos. Camilo sempre foi um menino encabulado, envergonhado e normalmente se ocultava dos outros quando era um menininho, e mesmo não recebendo o contato físico e o carinho através do toque da mãe, ele posicionava o seu pequeno corpinho atrás do dela e lá buscava o seu esconderijo, a sua segurança.

A empresária buscou os olhos de Ema e viu a menina fazendo um sinal, para que ela convidasse o Príncipe do Café para se juntar a eles. E assim ela o fez, não apenas porque a enteada pediu, mas também porque desejava com todo o coração que o herdeiro também vivenciasse esse momento maravilhoso com eles.

— Venha, meu filho. Se junte a nós, o almoço pode esperar. — Julieta exibiu um sorriso aberto e convidativo, o coração torcia e ansiava com todas as forças para que o rapaz dissesse sim.

— Eu acho que essa cama é muito pequena para nós quatro. — O filho da empresária declarou e finalmente ergueu os olhos do chão, analisando o tamanho da cama e o espaço que havia nela.

— Isso não é um problema. — Declarou Aurélio, fitando o menino com um sorriso nos lábios. Mesmo sem olhar para a noiva, ele sabia o quanto ela estava torcendo para que o menino se juntasse a eles. — Nós nos esprememos.

— Eu não quero atrapa... — Camilo iniciou a mesma fala que sua genitora antes havia dito, mas sequer pode terminá-la, já que foi interrompido pela jovem que estava deitada entre o casal.

— Ora Camilo, não venha com o mesmo discurso que a sua mãe! — A menina exclamou, deixando toda a doçura que era comum na sua voz de lado. — Se o estamos convidando é porque queremos que se junte a nós. Deixe de conversa e venha imediatamente para cá! — Ema ordenou, enquanto Camilo arregalou os olhos, assustados. Jamais tinha visto a Baronesa falar daquela maneira. Aurélio e Julieta por sua vez, trocavam olhares e viam a diversão descritas neles.

— Já você está pedindo com tanto jeitinho! — Após pronunciar as palavras, o mais novo empresário da região se pôs a andar.

Aurélio mexeu-se na cama e deitou mais para a beirada, trazendo a filha junto consigo. Julieta também mexeu-se e fez mais espaço ao seu lado, para que o filho ali repousasse e assim ele o fez. A mulher passou o braço ao redor do rapaz e o trouxe para perto de si, fazendo com que se aconchegasse nela da mesma maneira que Ema estava aconchegada em Aurélio.

Para Julieta, não havia nada melhor no mundo do que poder finalmente tocar o seu filho, aconchegá-lo, acariciar os seus cabelos e ficar perto dele, assim como estavam, coladinhos. Infelizmente, ela perdeu essa oportunidade quando ele era ainda criança, os medos e traumas a impediam de fazer isso, a impediam de amar adequadamente o seu bebê, mas agora tudo já estava superado e apesar de não poder mais voltar no tempo, ela podia e iria aproveitar cada instante daqui pra frente, sem se importar de que o herdeiro já era um homem casado e feito.

Levou os dedos até os cabelos loiros e macios de Camilo e ali perdeu-se, os acariciou e fechou os olhos, sentindo aquele amor que jamais existiria igual. Já fazia um bom tempo que haviam se reconciliado e desde então, o relacionamento dos dois iniciou-se do zero. Tinham agora por costume trocar caricias, abraços e dividir tudo aquilo de bom na vida dos dois. Esse era o relacionamento que ambos sempre sonharam em ter e que finalmente tinham conquistado.

— Camilo, estávamos falando de como Julieta e Ema são autoritárias. — Aurélio iniciou novamente a conversa, fazendo com que Ema bufasse e Rainha do Café revirasse os olhos.

— Antes éramos mandonas, agora somos autoritárias. Há algo mais que queira dizer antes da sua revanche chegar, querido? — Julieta ergueu as sobrancelhas e fitou o noivo que continuava a sorrir, divertido.

— É bom pensar no que vai dizer Camilo, porque papai com certeza não sairá ileso depois dessa afronta. — Ema o advertiu e olhou com olhos brincalhões para o menino, que exibia um sorriso ao contemplar o diálogo em sua frente.

— Vocês? Mandonas e autoritárias? — Camilo questionou enquanto corria com os olhos da sua genitora para a esposa de Ernesto. — Eu não poderia discordar mais das suas palavras, Aurélio! — O jovem falou, fazendo com que as duas mulheres soltassem um riso e o botânico ficasse com uma expressão surpresa no rosto. — Desculpe meu amigo, mas você terá que lidar com a solidariedade feminina sozinho.

— Camilo, você se juntou as cascáveis? — Ao falar a última palavra, Aurélio imitou a voz do Barão, reproduzindo a maneira com a qual ele se referia a Julieta ou qualquer outra mulher que ousasse o desafiar, e por isso, mais um coro de risadas ecoou para pelo quarto.

Os quatro ficaram ali deitados na cama por um bom tempo, apenas conversando, rindo, dividindo histórias e brincadeiras. Estavam apertadinhos e colados um no outro, mas imensamente felizes. A sensação de amor e de carinho era forte, tão presente que eles sentiam que podiam tocar.

Por vezes, Camilo invejou a dinâmica familiar da sua esposa, como as irmãs eram tão unidas, e como facilmente dividiam carinhos com os pais e umas para com as outras. Desejava que algum dia pudesse ter a sua família, para que assim pudesse experimentar a mesma sensação. Mas agora ele se deu conta que não precisava iniciar uma família para experimentar isso, pois ele já tinha uma, e eram a sua mãe, Ema e o seu futuro padrasto, Aurélio. Estava completa e perfeita assim, dessa maneira, sem ter o que tirar e nada a acrescentar.

Porem, as barrigas começaram a roncar e o almoço pareceu mais atrativo do que dividir uma cama, sendo assim, os quatros foram até a mesa de jantar e lá se fartaram da boa comida de Mercedes. O clima familiar permaneceu, bem como os risos e brincadeiras e por um momento foram apenas eles, sem esposas e esposos. Ema e Camilo sentiam-se como duas crianças almoçando e sendo mimados pelos pais, o coração deles se sentiam cheios de alegria e amor, e mal podiam esperar para contar e compartilhar esses momentos com os seus cônjuges.

Entretanto, o dia seguia e cada um deles tinha os seus compromissos e afazeres, então, logo após almoçarem cada um tomou o seu rumo. Camilo precisou reunir-se com Ernesto e Januário na casa de chá, para fazerem os relatórios sobre a produção do café nobre deles. Aurélio precisava cuidar dos gados e verificar os cavalos, ver se estavam sendo devidamente tratados e se estavam livres de qualquer doença. Julieta foi para o escritório, precisava rever alguns contratos e verificar uns novos que tinham sido entregues pelo seu advogado, que estavam prestes a serem assinados.

Quanto a Ema, a menina havia pedido para a madrasta se poderia utilizar um dos quartos da casa que não estavam sendo ocupados para trabalhar na nova coleção que estava fazendo, e obviamente que Julieta consentiu. Orgulhava-se de ver a enteada ser tão dedicada e compromissada com o trabalho e consequentemente, com o seu sonho.

Durante o dia, pode escutar a movimentação na casa. Ema havia chamado Elisabeta, Ludmila e Jane para a ajudarem, provavelmente precisaria de modelos para experimentar os vestidos e ajustá-los antes de efetivamente colocá-los na vitrine em São Paulo. Também escutava as meninas cochichando, subindo e descendo as escadas da residência, pensou que elas levassem os instrumentos de trabalho que a estilista precisava ocupar para trabalhar, não deu muito atenção a isso e sequer foi ver o que faziam, resolveu deixar que as meninas aproveitassem o dia e se divertissem, achava tão linda a amizade e a pareceria entre as jovens.

A tarde passou sem grandes acontecimentos, estava completamente envolvida e concentrada nos papéis a sua frente, mas quando era por volta das quatro horas da tarde foi interrompida por batidas na porta do escritório. Ao olhar, encontrou a sua nora, já dentro do escritório, com as mãos cruzadas em frente ao corpo e um olhar preocupado no rosto.

— Jane, querida, está tudo bem? — Julieta perguntou preocupada, a esposa de Camilo parecia abalada. Não entendeu porque ela aparentava estar aflita, escutou os risos o dia inteiro pela casa, pensou que estavam se divertindo.

— Minha sogra, eu gostaria de falar com a senhora. — A loira levou aos mãos para o lado do corpo e as esfregou ali, em nervosismo. — Mas não gostaria que fosse aqui, pois a qualquer momento um dos seus funcionários pode chegar, ou até mesmo Camilo e Aurélio.

— Claro, minha querida. — Julieta imediatamente se levantou e se pôs a frente da menina, pegou as mãos dela e as cariciou, em uma tentativa de trazer conforto para as angustias da nora. — Conversaremos onde você se sentir mais segura e confortável. Onde quer ir?

— Pode ser em um dos quarto lá em cima. — Jane respondeu logo após ser questionada.

A Rainha do Café assentiu e as duas iniciaram a caminhada. Subiram as escadas em silêncio, e Julieta se perdeu nos próprios pensamentos e preocupações com a Benedito. O que será que tinha acontecido? Será que as quatro amigas haviam se desentendido e isso deixou Jane aflita? Afinal de contas, todas elas tinham personalidades muito distintas e seria natural que houvesse discordâncias, assim como outras vezes já havia acontecido. Independente do que fosse ela estava feliz que a jovem tinha a procurado para conversar sobre coisas que perturbavam o seu coração e ela, por sua vez, faria de tudo para ajudar.

Permitiu que a esposa do filho a guiasse e escolhesse o cômodo para conversar, e quando a menina o fez, ela adentrou primeiro no quarto e Julieta a seguiu. Quando colocou o primeiro pé dentro do quarto, deparou-se com Elisabeta, Ema e Ludmila, todas com sorrisos abertos para ela. Os seus olhos correram para a nora, e a encontrou da mesma maneira, sorridente, toda a aflição no rosto da menina havia sumido e dado lugar para um brilho de felicidade. Imediatamente ela soube que as jovens haviam aprontado alguma coisa para ela, só não sabia o que.

Franziu a testa e olhou ao redor do ambiente. Estava completamente mudado, já não existia mais a cama, penteadeira e o guarda-roupa que ali ficava, tudo tinha sido retirado e substituído por várias araras, todas repletas de cabides com vestidos pendurados, bem como, havia um enorme espelho de corpo e alguns enfeites, deixando o lugar mais leve. Parecia uma loja de roupas, daquelas que Ludmila e Ema possuíam em São Paulo. Mais alguns passos por ela foram dados, ficando no meio do quarto, e escutou Elisa fechando a porta atrás dela.

— Meninas, o que está acontecendo? — Julieta questionou com a expressão ainda confusa. Sabia que a enteada estava criando uma nova coleção, mas não sabia que eram tantos vestidos assim. Será que a herdeira do seu noivo queria que ela provasse alguns daqueles vestidos? Talvez uma coleção de vestidos para mulheres mais maduras?

— Julieta, um passarinho verde me contou que a senhora não iria escolher um vestido de noiva, que pegaria um dos seus vestidos, e iria usá-lo no seu casamento... em um dos dias mais memoráveis e especiais da sua vida. — Ema deu ênfase na última parte do discurso. Julieta abriu a boca para tentar explicar a sua escolha, mas sequer pode começar, já que a enteada iniciou a fala novamente. — Mas a senhora esqueceu-se que agora é a madrasta de uma estilista temperamental, e que esta jamais permitiria tal atrocidade! — A menina falou indignada com a situação, estava decidida. Pelo menos, daria a oportunidade da noiva do pai experimentar vestidos diferentes daqueles que ela tinha, quem sabe ela gostasse de algum.

— Ema... — Julieta suspirou para a estilista, não queria decepcioná-la de forma alguma, mas simplesmente não poderia se imaginar escolhendo um vestido de noiva.

No mesmo dia em que foi pedida em casamento por Aurélio, ela comentou com Elisabeta que não iria comprar uma nova vestimenta para o casamento. Com a sua idade, achava que seria patético entrar em uma loja de roupas a procura de um vestido de noiva, bem como, sentia-se envergonhada por isso, não queria ser uma adulta que se comportasse como uma jovem. Também, seria uma cerimônia pequena, apenas para os mais íntimos, todos já a conheciam e provavelmente não ficariam chocados com a sua escolha de trajar um vestido que já tinha. Mas claro, não se lembrou que isso soaria como o fim do mundo para a enteada.

— Julieta... — Elisabeta colocou-se na frente da amiga mais velha, tentando interceder na situação, na esperança de convecê-la. — Apenas tente experimentar alguns vestidos, sem compromisso nenhum. Se não quiser ficar com nenhum deles, não precisa. Não iremos e não queremos te obrigar a nada.

— Isso, Dona Julieta. — Dessa vez foi à voz de Ludmila que soou pelo quarto, tentando de alguma forma ajudar na situação. — Nós trouxemos a loja até a senhora, para que se sinta confortável em experimentar e negar os vestidos que quiser. Queríamos apenas te dar a oportunidade de ter outras opções de escolha, sem ter a obrigação de escolher nenhum deles.

— E também queríamos a oportunidade de brincar de boneca mais uma vez e enfeitar uma linda dama, assim como quando éramos criança. — Jane disse com a voz suave e um sorriso doce, fazendo com que a sogra soltasse um leve riso.

— Você me enganou certinho, Dona Jane. — Julieta falou brincalhona para a nora, fazendo com que um coro de risadas retumbasse no cômodo. A loira apenas sussurrou um pedido de desculpas, exibindo um olhar culpado. — Tudo bem, eu experimentarei os vestidos. — Julieta disse em um suspiro, fazendo com que as quatro jovens comemorassem a vitória. — Mas sem compromisso. — Advertiu por último, e as quatro balançaram a cabeça positivamente, se comprometendo como se fosse uma promessa.

— Venha, Julieta. Nós temos vestidos de todas as cores, com rendas e sem rendas, rodados ou lisos, de todos os tipos e formas. — Ema agarrou a mão da madrasta e começou animadamente a percorrer com a mesma pelas araras do quarto, fazendo com que todas, principalmente Julieta, explodissem em risadas.

Foi definido que a Rainha do Café gostaria de se casar com um vestido de cores fortes, já não era mais uma menina e também não era adequado que se casasse de branco, já que já tinha sido casada. Ela escolheu alguns vestidos para experimentar e as jovens também separaram alguns, conforme os detalhes que ela deu de como gostaria que fosse. Haviam vários vestidos separados, agora só restava experimentá-los.

— Desculpe. — Elisa sussurrou no ouvida da empresária, enquanto a ajudava colocar no corpo da mulher um dos tantos vestidos separados por elas. — Eu deixei escapar para Ema sobre a história do vestido. — A jornalista disse envergonhada. Quando contou para a jovem estilista sobre a decisão da madrasta foi completamente sem querer, agora, sentia-se culpada de ter colocado Julieta nessa situação.

— Está tudo bem, Elisa. Eu não pedi nenhum segredo em relação a isso. — A mais velha falou exibindo um sorriso reconfortante para a Benedito, não queria de que ela se sentisse culpada. Afinal, uma hora ou outra a enteada ficaria sabendo da sua escolha e o resultado provavelmente seria o mesmo. — E também, eu estou me divertindo. — Declarou, abrindo ainda mais o sorriso.

Muitas risadas inundaram o cômodo, enquanto vários vestidos foram experimentados por Julieta, todas eram lindos, as cores a agradavam, os detalhes também, e alem do mais, ficavam bonitos no corpo dela, entretanto, ela não sabia dizer o que era, mas não conseguia se ver entrando na igreja com nenhum daqueles trajes. Já estava cansada de tirar e colocar vestido e tinha certeza que as jovens estavam. Ela se observava agora no espelho, enquanto alisava o último vestido da seleção que haviam separado.

— Desculpe meninas, mas eu não consigo me imaginar casando com nenhum desses vestidos. — Julieta suspirou frustrada consigo mesma, odiava estar sentindo isso, odiava estar decepcionado as jovens que tanto tinham se dedicado para deixá-la feliz. — Eu sinto muito. Vocês tiveram todo esse trabalho, arrumaram tudo isso para mim e agora eu estou as decepcionando. — Escutou um coro negando que ela as estava desapontando, mas isso não diminuía a culpa que sentia. O que mais doía era ter de decepcionar a sua enteada, sabia o que isso significava para ela. Virou-se para ficar de frente com Ema e encontrou um olhar triste e desanimado. — Ema, querida, eu realmente sinto muito. Mas...

— Julieta, não sinta. — Ema disse compreensiva e pegou as mãos da mulher mais velha, as acariciando. — Será o seu dia e será muito especial e maravilhoso, independente de que vestido esteja usando. Eu não quero você triste por achar que está me desiludindo, estamos combinadas? — A menina questionou, mas recebeu silêncio em troca. A madrasta sequer olhava para ela, o olhar estava voltando para algo atrás do corpo da estilista. — Julieta? — Ela questionou para saber o que estava acontecendo, sem se preocupar em olhar para trás.

— Eu não tinha visto esse vestido. — A noiva pronunciou as palavras ao avistar uma veste que a encantou imediatamente. Soltou as mãos da enteada e caminhou até a arara em que ele estava, o observando. Em meio a tantos vestidos, como aquele havia passado despercebido? Talvez a pressa e animação a impediram de ver, mas agradecia ao céus por agora tê-lo encontrado antes que desistisse.

Era um vestido longo, a cor dele era azul, mas não um azul fraco e qualquer, era um azul esverdeado forte, trazendo consigo uma essência diferente, uma essência de força, de superação, assim como a que ela tinha. Ele tinha brilhos da mesma cor espalhado por cada parte do tecido, como se quisesse manifestar a vida que renascia, assim como ela havia renascido e brilhado novamente. As mangas eram compridas e exibiam uma certa transparência, como se quisesse demonstrar que nada mais ali seria oculto, assim como Julieta havia prometido para si mesma que não esconderia mais verdades sobre os seus sentimentos ou sobre ela para mais ninguém, principalmente, para ela mesma.

Dedilhou delicadamente o vestido, apreciando e sentindo sobre as pontas dos dedos a textura do tecido que parecia ser pesado, mas confortável ao mesmo tempo. Tirou o mesmo da arara, virou-se com ele em mãos e se pôs em frente ao espelho, com o mesmo colado ao seu corpo, tentando ver como ficaria. Inclinou a cabeça um pouco para o lado e exibiu um sorriso encantado, definitivamente, podia se imaginar casando com aquele vestido.

— Eu vou experimentá-lo. — Ela declarou, fazendo com que todas as meninas se olhassem com sorrisos estampados nos rostos, mas havia algo mais no olhar delas, algo que Julieta não conseguia decifrar. — Ema, você quer me ajudar? — Virou-se para a menina que apenas balançou a cabeça positivamente, sem dizer uma palavra, uma atitude estranha já que até agora a jovem não tinha parado de tagalerar um minuto sequer. Todas as jovens tinham se revezado para ajudar a mais velha a trocar as vestes, mas em nenhum momento a enteada tinha ido junto, apenas ficou comandando.

Ambas se retirarem e foram para trás do vestuário. Ema escutava a voz de Julieta falar com ela, enquanto a ajudava trocar a roupa, mas não podia ouvir uma palavra sequer do que a mulher dizia. Permitiu que a emoção e os pensamentos tomassem conta do seu coração e da sua cabeça.

Acontece que aquele vestido tinha sido desenhado por ela, exclusivamente para Julieta. Assim que a menina ficou sabendo que o pai iria pedir a Rainha do Café em casamento, começou a produzir um vestido com as próprias mãos para a madrasta. Passou horas desenhando e mais horas ainda costurando cada detalhe nele, mas não importava, queria que fosse especial, que fosse único. Tinha nitidamente a imagem de Julieta adentrando na igreja com aquele vestido para encontrar com o seu pai. Trouxe para o vestido cada traço que admirava na mulher, a superação dela, a força, a chance de renascer e se permitir brilhar novamente, por mais escuro e medonho que tinha sido o passado. Quando terminou o vestido, em uma conversa com Jane e Elisa ficou sabendo a madrasta não pretendia comprar outra vestimenta para o casamento, e então, ela declarou para as amigas que daria um vestido de casamento para a noiva do seu genitor, um vestido criado especialmente por ela, para Julieta Bittencourt.

Entretanto, Jane contou que na véspera do seu casamento com Camilo, Julieta relatou para ela que não pode escolher o vestido de casamento com Osório, que casou com um vestido imposto pela sogra, já que a mesma era uma tirana. Nesse momento, Ema decidiu que não entregaria o vestido para a madrasta, não queria também impor a ela que usasse um vestido, e sabia que a partir do momento que o desse para a mulher, essa se sentiria na obrigação de usá-lo. Ema não queria que mais uma vez, Julieta se casasse com o vestido que não fosse da escolha dela, do agrado dela.

Por isso, decidiu fazer uma sala repleta de vestido, para que a noiva do pai pudesse escolher aquele que desejasse, sem ninguém a impondo nada. Quando o vestido que criou especialmente para ela não chegou nem a ser selecionado para os que seriam experimentados, a jovem sentiu uma pontada de tristeza no coração, mas logo resolveu esquecê-la, ali só existia espaço para a alegria e nada mais.

Agora, estava ali alisando aquele vestido no corpo da futura madrasta, que o avistou e imediatamente pediu para experimentá-lo. Ema podia sentir o seu coração batendo forte, estava com medo de que assim como todos os outros, esse vestido também não a agradasse.

— Ema, querida, você já o alisou e ajustou diversas vezes. Eu acredito que está ótimo assim. — Julieta disse em meio ao um sorriso, enquanto sentiu a menina parar o que estava fazendo.

— Desculpe. — Ela endireitou a postura e observou a noiva, estava deslumbrante, esplendida. — A senhora está linda, assim como eu imaginei. — A estilista pronunciou as palavras envergonhada e a mais velha imediatamente franziu a testa, estranhando a última frase, mas antes que pudesse dizer algo a menina pegou na mão dela e acariciou. — Ande, venha ver.

Ema puxou Julieta pela mão, até que estivessem fora do vestuário. Todos os olhares caíram sobre ela e os sorrisos se abriram ao verem como o vestido tinha ficado em seu corpo, as mais jovens estavam impressionadas com a beleza dela e daquele vestido.

A Rainha do Café colocou-se na frente do espelho e ficou surpreendida. O vestido não estava adequadamente encaixado em seu corpo, pois ainda precisavam ser feitos alguns ajustes nas medidas, mas mesmo assim ele já ficou esplendoroso. Levou as mãos até o coque no cabelo e os desfez, fazendo com que os mesmo caíssem um pouco bagunçados sobre os seus ombros e a deixassem ainda mais estupenda, mais jovial. Ela podia se ver caminhando até o altar assim, vendo o sorriso de Aurélio no rosto e dizendo "sim" para aquele que era o homem da sua vida. Os olhos ficaram marejados e um sorriso nasceu nos lábios, enquanto escutava os elogios feitos pelas jovens ecoarem pelo quarto.

— É lindo! É mais que lindo, é perfeito. — Julieta pronunciou com a voz embargada. Nunca imaginou que um dia estaria se emocionando ao se ver em um vestido de noiva. Ela levou os dedos e alisou vagarosamente o vestido, o sentindo sobre o seu corpo. — É como se ele tivesse sido feito para mim. — A noiva sussurrou e um olhar foi trocado entre as garotas novamente, principalmente quando olhavam Ema.

— É porque foi. — Elisabeta que estava sentada em uma das cadeira se pôs de pé e ficou atrás da empresária, começando a arrumar os cabelos soltos da mesma sobre os ombros dela.

— Elisa! — Ema exclamou em forma de advertência, mas a amiga a ignorou. Julieta franziu as sobrancelhas em meio a confusão, e procurou os olhos da amiga mais nova, em busca de resposta.

— Ema fez esse vestido especialmente para a senhora. Foi desenhado e costurado cada detalhe para você, pensando em você. — Elisa falava cada palavra com imensa delicadeza e um grande sorriso nos lábios.

— Ema, por que não me contou? — Julieta virou-se novamente para a menina com as sobrancelhas erguidas e os olhos cheios de lágrima. A enteada tinha feito um vestido especialmente para ela, pensando nela, e isso o deixava ainda mais bonito, mais especial e o coração dela mais repleto de amor e carinho.

— Eu não queria que a senhora se sentisse obrigada a usá-lo. — A menina abaixou os olhos, envergonhada. — Eu fiz ele pensando na senhora e em como a sua história me incentiva, me encanta. Mas, acima de tudo, eu queria que usasse algo que te deixasse feliz.

— Bem... — Julieta levou uma de suas mãos até o queixo da menina e delicadamente o levantou, fazendo com que os olhos esverdeados se encontrassem com os seus. — Esse é o vestido que me faz feliz. — Julieta declarou com um sorriso nos lábios e uma lágrima de felicidade escorreu pela face.

Ela depositou um beijo na bochecha rosada da enteada e a puxou para um abraço apertado, cheio de amor e aconchego. Ema tinha sido um presente na vida da mulher, nunca sonhou em ter mais filhos depois de Camilo, mas agora a vida resolveu a presentear com uma filha crescida, uma menina doce, cheia de bondade e luz, assim como o pai. As duas se perderam no abraço uma da outra por alguns minutos e Julieta permitiu que mais lágrimas escorressem dos olhos, Ema também estava a chorar. A cena emocionou todos naquela sala.

Elas se separaram e Julieta secou delicadamente as lágrimas da menina, logo em seguida, secando as própria. Virou-se e ficou novamente de frente para o espelho, todas as demais se posicionaram atrás dela e era possível ver a expressão de cada uma refletida.

— Meninas, boas novas: eu encontrei o meu vestido de noiva. — Julieta falou com um dos maiores sorrisos já vistos em seu rosto e pode ver as meninas compartilharem risos também. Suspirou feliz. O pensamento de que em alguns dia seria Julieta Cavalcante fez o seu coração bater acelerar e os seus olhos voltarem a lacrimejar. Ela estava prestes a se casar com o homem que amava, com o amor da sua vida.

Notas finais
Emazinha é uma fofa não é mesmo? Quero apertar ela! O que acharam da descrição do vestido? Em breve estarei trazendo a imagem dele, para ver se vão realmente gostar. Vocês sabem que comentários são sempre bem vindos, não é mesmo? ♥ Beijokas e até mais, pessoal!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.