O Imaginário de Vincent Allen
5 Tragédia
Vincent correu pelos fundos da escola, seus amigos não estavam no local combinado. Seguiu mata á dentro, alguma coisa sobrenatural o guiava. Avistou-os próximos a um precipício, cercados por quatro seres encapuzados como Comensais da Morte. Dois deles batiam vorazmente em Victor enquanto o garoto cuspia sangue. Vincent olhou para si mesmo, ele era Vincent Colegard e aquilo não era sua imaginação, era real.
Suas pernas bambearam e ele teve medo.
— Sujeitinha de pele suja — Disse um dos encapuzados, Vincent descobriu pela voz que era uma garota. — Que direito você acha que tem de frequentar nossa escola?
Acertou Abigail com um tabefe no rosto.
— Você me da ânsia — Disse o garoto encapuzado que a segurava pelos braços.
O garoto soltou-a e ela tentou correr, mas ele segurou-lhe os cabelos e puxou com força. Abigail chorava.
— O que eu posso fazer? — Perguntava Vincent para si mesmo. — Eles são todos mais velhos e mais fortes.
Ele identificou Erica, Tiffany, um garoto apelidado de Thor e outro chamado Enrico.
— Não é hora disso — Disse endireitando as pernas, elas imediatamente pararam de tremer. — Eles estão torturando minha dama. Sou Vincent Allen e eles escolheram o inimigo errado.
Vincent pegou uma faca que roubara na festa de suas vestes e passou a caminhar lentamente enquanto assobiava de forma sombria.
— Olha quem apareceu — Disse Thor soltando os cabelos de Abigail e segurando-a como refém pelo pescoço. — O grande Vincent Allen — Riu.
— Você a fez chorar — Disse Vincent com um sorriso assustador e um brilho no olhar, ele puxou a faca e olhou para ela encantado.
— O que você vai fazer com isso? — Perguntou Thor assustado. — Não se aproxime ou eu a mato! — O garoto tirou uma pistola velha da cintura e colocou na cabeça de Abigail. — Sua mãe nos pagou para tira-la do caminho.
Vincent segurou a grande faca pelo cabo e jogou cravando-a em cheio na testa do garoto que tombou para trás, assim caindo no precipício. Erica e Tiffany gritaram. O assassino correu até um Enrico agachado para que pudesse prender Victor no chão e chutou-o e chutou e chutou até que o garoto também caísse.
Erica e Tiffany ficaram próximas uma da outra e choravam enquanto Vincent se aproximava, mas o garoto estacou. Ele não podia machucar nem uma dama sequer, por pior que ela fosse. Era um cavalheiro.
— Eu não posso machuca-las...
— Mas eu sim — Disse Abigail servindo um belo soco no nariz de Tiffany seguido de um chute que fez com que a garota se desequilibrasse e caísse.
Victor levantou-se com cara de quem havia bebido barris de rum e estava com uma ressaca braba. Aproximou-se de Erica e simplesmente a empurrou.
— O que foi? — Perguntou ao ser encarado por Vincent e Abigail. — Já estamos ferrados mesmo. E eu não sou um cavalheiro, sou um bruto!
Limparam o sangue de Victor e correram até a casa de Abigail na comunidade ribeirinha. Subiram até o quarto da menina deixando o senhor e a senhora Swin confusos para trás.
— Que foi que fizemos? — Perguntou Abigail ainda chorando.
— Nós nos protegemos! — Disse Vincent, sem remorso. — Eu sinto que o pior ainda está por vir... — Completou olhando pela janela. — Temos um problema maior agora.
Os dois imitaram Vincent e também olharam pela janela, viram a bruxa loira acompanhada de dois trolls gigantescos.
— Tenho que sair daqui — Disse Vincent. — A bruxa vem atrás de mim, se ela me encontrar aqui as coisas vão ficar feias — Foi até a pequena janela que tinha nos fundos e saiu. — Você fica com Abigail, Victor — Respondeu o garoto quando ele tentou segui-lo. — Preciso que a proteja, meu irmão.
Então ele saiu. Saiu para nunca mais voltar á aquele lugar. A vida não é um conto de fadas e nem sempre os finais são felizes.
Vincent Allen corria, a bruxa o perseguia e ele havia de chegar a sua casa antes dela retornar. Passava pela ponte — Aquela linda ponte negra enfeitada com ossos e rubis. — Quando algo inusitado aconteceu. O concreto quebrou em baixo de seus pés.
Com um choque de realidade Vincent se viu com a perna presa á beira de cair de uma altura impossível de se sobreviver. Não era uma ponte magnifica feita com concreto, ossos e rubis. Era velha feita com corda e madeira podre. Ele nunca se sentiu tão triste. Estava preso e nada podia fazer além de observar a madeira que rangia e rachava cada vez mais a cada movimento seu.
Depois de alguns minutos surgiu um Murgaror. Caminhava pela ponte cautelosamente enquanto salivava, provavelmente já podia sentir o gosto de Vincent.
— Saia daqui!
O cachorro se aproximou, mordeu o sobretudo de Vincent e tentou puxar o garoto. Em vão. Logo a ponte cedeu e os dois caíram. A vida era cruel, pois ela sempre carregava todos para o mesmo destino. A morte. Vincent não era diferente, teve o corpo estatelado no chão, assim como o cachorro. Morreram no mesmo instante.
Neste exato momento os Swin conversavam com a bruxa loira á sua porta. A mãe de Vincent os ameaçava para tirar Abigail da escola, esta sentiu uma forte pontada no coração e desmaiou. Seus pais, dotados de enorme preocupação, bateram a porta no nariz torto da bruxa e carregaram sua filha para deitar-se no sofá. Ela acordou logo, mas parecia muito abatida.
— Algo aconteceu com o meu Vincent.
Um silêncio mórbido tomou conta do lugar. Ninguém disse mais nada.
Abigail sabia que seria impedida pela Sra. Colegard de ir ao velório, ficou limitada a ir até a ponte, observar o buraco e imaginar o corpo de Vincent estirado lá em baixo. O sangue ainda estava lá.
— Aquele garoto andava por esta ponte praticamente aos pulos! — Disse o homem que certo dia avistara Vincent na ponte. Não era um corcunda e sim um mochileiro barbudo — Eu o alertei que deveria tomar cuidado, ele vivia no mundo da lua — Encarou Abigail que olhava lá para baixo toda de preto e com os olhos cheios d'água. — Em tudo á uma beleza, inclusive na morte. Ela não significa um fim.
Abigail desceu até lá em baixo e fez uma lápide para Vincent com os dizeres: "Tudo o que vemos ou parecemos, não passa de um sonho dentro de um sonho — Edgar Allan Poe".
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