O Idiota do Meu Vizinho
2 Brunch e Um Vestido Molhado
Notas iniciais
Coloquei o imã no calendário. Doze dias para eu ingressar na Columbia e a contagem não parava um segundo. Quando eu ia experimentar um sapato, me vinham os números na mente, o tanto de horas que faltava para chegar no dia seguinte e ser menos um dia. Quando eu estava comendo tacos na minha nova taqueria favorita, a Cascabel, eu me perguntava quanto tempo tinha passado desde a última vez que fiz as contas. A minha vida no Upper East Side estava sendo uma verdadeira contagem, e olha que eu sempre preferi humanas.
Decidi passear um pouco pela cidade a pé, nada de taxi, aliás, os carros em NY eram extremamente baratos comparados aos da Austrália. Como eu não saía muito do UES, não tive problemas com isso, mas aposto que quando começasse a Columbia ia rapidamente precisar de um.
Apesar do meu pai ser o dono majoritário de uma das maiores empresas de serviços financeiros da Austrália, nós nunca fomos acostumados com todas essas regalias que eu via aqui em NY. Na verdade, a população australiana e principalmente em Sydney, prefere muito mais uma boa caminhada na Bondi Beach do que ser levado ao shopping por um chofer.
Eu não via quase ninguém dirigindo seu próprio carro aqui no Upper East Side e a quantidade de limusines era muito grande, então eu geralmente pegava um taxi para ir a Times Square.
A cobertura que eu morava já era da minha família há algum tempo, mas meus pais me deixaram redecora-la, o que não me levou mais de uma semana, porém sempre que eu saía encontrava algo a mais para decorar por aí. Era o que eu mais gostava em NY e no UES, havia de tudo e mais um pouco do que eu gostava!
Dizem que o primeiro dia numa cidade nova é uma verdadeira porcaria. É extremamente frustrante não ter com quem ir às compras ou simplesmente tomar um café. Em Sydney eu até me dava bem sozinha, mas esses poucos dias em Manhattan já estavam sendo tediosos e eu não via a hora de ir para a faculdade.
É verdade que NY tem várias boates, museus e o UPS é lotado das melhores lojas de roupas já vistas na história dos USA, mas eu estava praticamente colecionando sacolas dentro da cobertura e sair pra dançar sozinha não tinha graça nenhuma.
Sentada num dos bancos na frente da minha cobertura, me senti totalmente desolada e solitária, sentindo uma falta tremenda de Sydney e dos meus pais.
– Vejo que você é nova aqui – uma voz rouca e atenciosa disse.
Era um garoto alto, estava em pá do meu lado direito, seus cabelos loiros combinavam perfeitamente com o par de olhos azuis. Um nativo americano, a julgar pelo sotaque. Ele sorria, um sorriso singelo e com dentes perfeitos.
– Sim... – falei, ainda meio sem graça – eu mudei para essa cobertura a pouco tempo.
Ele sentou-se ao meu lado e estendeu a mão.
– Eu sou Mark, Mark Montayn.
– Montayn? – questionei – então você...
– Sim, meus pais são os donos da cobertura – sorriu e eu balancei a cabeça, como quem concorda. – e você? Tem nome? – Mark perguntou sorrindo.
E que sorriso ele tinha! NY, Upper East Side e todos os Estados Unidos podiam ser iluminados por aquele lindo sorriso.
– Tenho – balbuciei, um pouco atrapalhada – eu me chamo Jones. Não! – voltei – eu me chamo Savannah, Savannah Jones – tentei sorrir. Como eu era péssima naquilo – desculpe, é que na Austrália não nos apresentamos assim, então eu fico meio sem jeito... Na verdade você é a primeira pessoa que eu falo aqui e que por sinal deve estar cansando de ouvir.
Finalmente calei a matraca e Montayn parecia divertido com a minha trapalhada toda. A grande verdade é que dificilmente eu me sentia intimidada, mas aqueles olhos, e de quebra uma cidade nova tinham feito minha cabeça pirar.
– Austrália? – questionou – eu já fui lá umas duas vezes, é muito legal para passar as férias – enfatizou – você vai notar que NY é o lugar ideal para se morar.
– É... – falei um pouco ofendida. Eu amava a Austrália – vim para a universidade. Columbia.
Mark sorriu de novo. Qual é, era mania dele, agora?
– Eu conheço a Columbia, quem não conhece? – caçoou de si mesmo – eu tô indo encontrar uns amigos para um brunch, topa? É no Helton Hotel, aqui do lado.
Eu estava receosa, mas me misturar com meus vizinhos seria ótimo, pelo menos eu teria alguém para conversar.
– Por que não? – sorri.
(...)
Depois de me trocar e tentar me vestir adequadamente para um brunch com os jovens ricos de NY, me encontrei com Mark na entrada do Montayn. Fomos andando e agradeci por ter calçado o Louboutin azul turquesa e um vestido salmão Michael Kors que havia comprado há dois dias assim que entrei no salão do brunch.
O que era um brunch em Sydney perto daquela enorme sala lotada com as carinhas mais famosas do Upper East Side? As garotas pareciam ter saído de alguma capa de revista, de preferência alguma edição da Vogue Paris. Mas era só um brunch!
Pelo visto elegância ali nunca era demais... As bolsas brilhantes da nova coleção Dior pareciam se multiplicar. Quase todas as garotas tinham uma, de diversificadas cores. Hello! Acorda, Savannah, você está em NY!
Os garotos tomavam coquetéis e centenas de frutas exóticas preenchiam as mesas do buffet. A maioria parecia estar se divertindo.
Andei ao lado de Mark, enquanto ele provavelmente procurava seu pessoal, até que senti um par de ombros e um liquido gelado na minha barriga.
– Meu Deus! – exclamei ao ver quase todo o meu vestido molhado com alguma coisa azul – olha só isso!
Olhei para encarar quem foi a pessoa imbecil e desastrada que fez isso.
– Olha, agora combina com o sapato – falou, o garoto com um tom irritante, à minha frente. – foi mal.
Todos pareciam prestar atenção na gente.
– Tyler! – repreendeu Mark
– Aliás, quem é ela? – o tal do Tyler perguntou ao Mark – quem é você?
– Não te interessa – falei irritada e ele ergueu as duas sobrancelhas, caçoando da minha reação. – Mark, desculpa, mas preciso ir.
– Não! – ouvi uma voz feminina, um tanto aguda – o Tyler é um idiota, mas você é amiga do Mark... – ela falou.
A garota tinha cabelos castanhos escuros, quase pretos, na altura dos ombros. O corte era long bob, o que estava na moda ultimamente. Seus olhos eram verdes e seu vestido um legitimo Marc Jacobs, que eu quase comprei semana passada.
– Eu sou Mary Anne – respondeu com um mini sorriso – você é?
– Encharcada – respirei fundo e brinquei – prazer, Mary Anne.
Quase todos riram, menos o idiota do Tyler, que estava ocupado demais mexendo no celular. Depois ele olhou por cima, deu de ombros e saiu.
– Vem, eu tenho um quarto reservado aqui – Mary Anne me puxou – eu te empresto alguma coisa, aliás, eu adorei o seu Louboutin, tenho dois pares deles. Qual é mesmo o seu nome?
– Eu me chamo Savannah – falei dentro do elevador – aquele Tyler é sempre tão idiota assim?
– Não – ela suspirou – nem sempre, só ficou assim depois que terminamos – sorriu, mostrando que era brincadeira.
– Ele devia ser um péssimo namorado – falei, brincando também. Se bem que no fundo eu pensava isso mesmo. – eu sou da Austrália, moro na cobertura do Montayn – expliquei antes que ela perguntasse.
Entramos no quarto e Mary Anne abriu a enorme cortina, mostrando o bairro. Estávamos no décimo oitão andar e eu podia ver até mesmo a Barney’s dali.
– Ele nem sempre foi tão idiota e eu nem sempre sou tão boazinha – ela disse sorrindo – seja bem vinda à New York, Savannah.
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