O Horizonte de Claire

9 ​O Porto de Tortuga


O mar, que sempre fora o refúgio de Yaman, agora parecia um deserto azul. O balanço das ondas no casco do navio, que antes soava como uma canção de ninar para o pirata, agora era apenas um ruído monótono que o lembrava da distância crescente entre ele e o Reino de Lâfrer.

​A bordo do navio, o clima era estranho. A tripulação, acostumada com as gargalhadas altas e o comando vibrante do capitão, agora trabalhava sob um silêncio pesado. Yaman passava horas no tombadilho, olhando para o horizonte com olhos perdidos, a mão inconscientemente tocando o mico que parecia tão desanimado quanto o dono.


​Ao atracarem em um dos portos mais agitados da costa, o contraste ficou evidente. O cheiro de rum, pólvora e festa preenchia o ar. Assim que desceram, o grupo foi cercado pela costumeira recepção calorosa das tavernas locais.

​Uma mulher de cabelos escuros e olhar audacioso, uma velha conhecida de Yaman chamada Rosa, aproximou-se dele com um sorriso sinuoso, encostando-se ao seu braço.

​— Capitão Olivier! — exclamou ela, a voz carregada de segundas intenções. — O mar deve ter sido cruel com você, está mais pálido do que o normal. Venha, tenho uma garrafa do melhor rum das Antilhas e uma mesa reservada só para nós dois.

​Yaman olhou para ela, mas seus olhos pareciam atravessá-la, como se procurasse por um par de olhos claros e ingênuos que não estavam ali. Ele afastou o braço com uma rispidez que surpreendeu até Kaelen.

​— Não hoje, Rosa — disse ele, a voz seca. — Só quero os mapas de navegação e silêncio.

​— O que houve com você, Yaman? — Rosa riu, mas havia confusão em seu rosto. — Ficou santo ou o ouro acabou?

​— Só não estou com paciência — ele rosnou, passando por ela sem olhar para trás e entrando na parte mais escura da taverna.

​O Confronto com Kaelen

​Kaelen observou a cena e seguiu o amigo. Ele bateu com força uma caneca de cerveja na mesa de madeira onde Yaman se sentara sozinho.

​— Já chega, Yaman! — Kaelen disse, sentando-se à frente dele. — Estamos há semanas navegando com um fantasma no comando. Você rejeitou a Rosa, rejeitou o banquete no convés e mal fala com os homens. Se queria ficar com a princesa, deveria ter ficado no castelo!

​Yaman levantou o olhar, uma fúria contida brilhando nas pupilas.

— Você não sabe do que está falando, Kaelen. Eu fiz o que tinha que fazer. Ela é uma criança, uma herdeira... eu sou um homem marcado pelo crime. O pai dela tinha razão.

​— O pai dela tinha razão sobre os negócios dele, não sobre os seus sentimentos! — rebateu Kaelen, baixando o tom, mas mantendo a intensidade. — Eu vi como você olhava para ela. E vi como você ficou depois que foi grosso daquele jeito. Você tentou salvar a menina de você, mas acabou matando o que havia de vivo em você mesmo.

​Yaman apertou os punhos sobre a mesa, as juntas brancas.

— Eu a quebrei, Kaelen. Eu vi as lágrimas dela. Fui um animal com ela para que ela me odiasse. É melhor que ela me odeie em um palácio seguro do que me ame no meio de uma batalha naval onde ela pode morrer.

​— E olha para você agora — Kaelen apontou para o amigo. — Você está vivendo, Yaman? Porque parece que você morreu naquele porto e esqueceu de avisar ao seu corpo. O mar não aceita homens que têm o coração preso em terra firme. Ou você volta lá e resolve isso, ou você vai acabar afundando este navio com a sua amargura.

​Yaman não respondeu. Ele pegou a caneca, mas não bebeu. Sua mente viajou de volta àquela biblioteca, ao cheiro de lavanda e ao som do soluço de Claire. Ele tentava se convencer de que fora um herói ao ser um vilão, mas a solidão do mar nunca pareceu tão opressora quanto agora, cercado por amigos e distrações que não significavam absolutamente nada diante da lembrança de uma princesa meiga que ele, por "amor", decidiu destruir.

​— O horizonte é uma promessa, Kaelen... — sussurrou Yaman, amargo. — Mas eu descobri que algumas promessas são apenas mentiras que contamos a nós mesmos para continuar navegando.