O Horizonte de Claire
18 Joia de Lâfrer
A notícia da princesa que abandonou o trono para seguir o coração pelos mares espalhou-se mais rápido que os ventos alísios. Por onde o Horizonte Negro passava, a curiosidade era imensa. Claire não era mais apenas uma Lâfrer; ela era a personificação de uma lenda viva.
Nos portos mais imponentes do mundo, o cenário se repetia: o navio pirata atracava sob olhares de espanto, mas logo era recebido por carruagens reais e convites lacrados com cera de ouro.
No Reino de Solis: O Recontro com as Origens de Elisandra
O Reino de Solis, terra natal da família de Elisandra, foi a primeira parada oficial. O Rei de Solis, um homem de barbas brancas e olhar sábio, recebeu Claire e Yaman em um banquete nos jardins suspensos.
— Então esta é a famosa Claire Lâfrer — disse o Rei, observando-a. Claire usava o broche de seu pai sobre um traje de navegação elegante, mantendo a postura real mesmo com o sol queimando sua pele. — Minha sobrinha Elisandra escreveu sobre sua bravura. Mas confesso que esperava ver uma mulher cansada da vida difícil do mar.
Claire sorriu, segurando a mão de Yaman por baixo da mesa.
— Pelo contrário, Majestade. O mar não me cansou, ele me poliu. No palácio, eu era um diamante guardado no escuro. Aqui fora, eu descobri que as facetas do mundo são o que realmente nos faz brilhar.
— E o Capitão? — o Rei de Solis dirigiu-se a Yaman. — Como é carregar a joia mais preciosa de Lâfrer em um navio de guerra?
— Eu não a carrego, Majestade — Yaman respondeu, com um orgulho calmo. — Nós navegamos lado a lado. Claire conhece as estrelas melhor do que meus navegadores e tem uma língua mais afiada que qualquer adaga. Eu não sou o dono dela; sou o homem sortudo o suficiente para ser seu porto.
No Império de Jade: O Respeito pela Força
Meses depois, o navio chegou ao distante Império de Jade, onde as tradições eram milenares. A Imperatriz, conhecida por sua rigidez, ficou fascinada pela "Princesa Pirata".
— Em meu império, as mulheres são como o bambu: flexíveis e fortes — disse a Imperatriz, enquanto tomavam chá em um pavilhão de seda. — Mas você, Claire, é como a água. Você se adapta a qualquer recipiente, mas tem a força de uma inundação quando tentam te cercar.
— Eu aprendi que o medo é o único muro que realmente nos prende — Claire explicou, gesticulando para as cicatrizes leves que agora tinha nas mãos, fruto do trabalho no convés. — Quando eu era apenas a filha do Rei Richard, eu tinha tudo, mas não possuía nada. Hoje, possuo apenas o que cabe neste navio, mas sinto que o mundo inteiro me pertence.
A Imperatriz olhou para Yaman, que observava Claire de longe, conversando com os generais sobre táticas de defesa costeira.
— Ele te olha como se você fosse o sol, e ele, o oceano que só existe para refletir sua luz.
— Ele é o meu horizonte — Claire disse, com os olhos brilhando. — E eu sou o vento que o leva para casa.
No Porto de Tortuga: A Rainha dos Rejeitados
Nem só de palácios vivia a jornada. Em portos onde a lei não chegava, Claire era respeitada não pelo sangue, mas pela atitude. Em uma taverna barulhenta, ela se sentou à mesa com Kaelen e outros capitães.
— Uma princesa bebendo rum barato conosco? — zombou um pirata de tapa-olho. — O que o Rei Richard diria se visse isso?
Claire bateu sua caneca na mesa, encarando o homem sem vacilar.
— Meu pai diria que eu estou desperdiçando um bom vinho. Mas eu digo que o rum de Tortuga tem o gosto da verdade que o palácio nunca teve coragem de provar.
Yaman aproximou-se, colocando a mão no ombro dela, e o silêncio se fez na taverna por puro respeito.
— Ela não é uma princesa aqui — Yaman anunciou para todos. — Ela é parte da tripulação do Horizonte. E quem não respeitar a senhora Olivier, terá que se entender com o capitão... e garanto que ela atira melhor do que eu.
Claire riu, puxando Yaman para um beijo rápido antes de voltar ao mapa sobre a mesa.
— Menos ameaças, Capitão. Temos uma rota para traçar. O mundo é grande demais para ficarmos parados conversando.
A cada porto, a cada jantar real e a cada noite sob as estrelas, a história de Claire e Yaman crescia. Eles tornaram-se o símbolo de que a nobreza não está no título, mas na coragem de buscar o que é real. Claire Lâfrer não era mais uma fugitiva; ela era a embaixadora de um novo tipo de realeza — aquela que não precisa de tronos para governar o próprio destino.
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