O sol começava a se pôr, pintando o céu de Lâfrer com tons de laranja e violeta. Claire, ignorando as recomendações de Margot, escapou para a biblioteca real, onde sabia que Yaman costumava buscar mapas. Ela o encontrou em um canto afastado, debruçado sobre uma mesa de carvalho.

​Seu coração disparou. Com um sorriso doce e os olhos brilhando com a lembrança do café da manhã, ela se aproximou cautelosamente.

​— Capitão? — chamou ela, a voz suave como uma carícia. — Eu estava pensando sobre aquela história do Tubarão-Cicatriz... o senhor nunca disse como conseguiu sair da água antes que ele voltasse.

​Yaman não se virou de imediato. As palavras do Rei Richard ainda ecoavam em sua mente: "Mundos como os seus não se misturam; eles colidem". Ele fechou o mapa com força, o som do papel batendo na madeira ecoando como um tiro no silêncio da biblioteca.

​— Eu tenho trabalho a fazer, princesa — disse ele, a voz fria e cortante, sem olhar para ela.

​Claire parou, o sorriso vacilando levemente.

— Ah, eu não queria interromper. Só achei que... como o senhor disse que o horizonte era uma promessa, talvez pudesse me contar mais sobre o que viu além dele.

​Desta vez, Yaman se virou. Mas não era o homem que a olhara com ternura no jardim. Seus olhos estavam endurecidos, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de desprezo que Claire nunca vira.

​— Escute bem, menina — ele começou, usando o termo de forma depreciativa. — Eu não sou um dos seus livros de romance. Não estou aqui para ser o seu entretenimento de tarde ou o herói das suas fantasias infantis.

​Claire recuou um passo, como se tivesse levado um tapa físico.

— Eu... eu não quis dizer isso, Capitão. Eu só gosto de ouvir você.

​— Pois pare de gostar — ele deu um passo em direção a ela, invadindo seu espaço de forma agressiva, fazendo-a sentir-se subitamente pequena e vulnerável. — Você vive em um mundo de seda e leite morno. Eu vivo em um mundo de sangue, traição e lama. Você não sabe nada sobre a vida, Claire. Você é apenas uma criança protegida por muros altos, brincando de ser curiosa.

​— Por que está falando assim comigo? — a voz dela falhou, e seus olhos começaram a marejar. — Ontem, no jardim, parecia tão diferente...

​— Ontem eu estava entediado e o vinho do seu pai é forte — mentiu ele, cada palavra saindo como uma lâmina. — Mas a diversão acabou. Eu tenho um navio para comandar e uma vida real para retomar. Não tenho tempo para perder com uma princesa que não sabe nem amarrar as próprias botas sem ajuda de uma criada.

​Ele pegou seus pertences da mesa com brutalidade.

— Saia da minha frente. Volte para suas bonecas e seus bordados, e deixe que os homens de verdade cuidem do que importa.

​Claire sentiu as lágrimas escorrerem, quentes e dolorosas. A ingenuidade que o Rei tanto queria proteger fora ferida da forma mais cruel possível. Ela tentou dizer algo, mas o nó na garganta a impediu.

​Yaman passou por ela sem olhar para trás, seus ombros rígidos. Ele sentia o peso de cada lágrima que ela derramava, mas forçou-se a continuar andando. Ele preferia que ela o odiasse por ser um bruto do que deixá-la ser destruída pelo que ele realmente era.

​Para Claire, o mundo de sonhos que ela começara a construir desmoronou em segundos, deixando apenas o frio de uma biblioteca vazia e o som de seus próprios soluços.