O Salão de Cristal estava mergulhado em uma sinfonia de violinos e no perfume das flores de cerejeira. Sob o brilho de mil velas, a nobreza de Lâfrer desfilava suas sedas e títulos, mas o clima mudou drasticamente quando a pesada porta de carvalho se abriu.

​Yaman Olivier entrou com um andar que ignorava a rigidez da corte. Suas roupas de couro escuro e adornos metálicos contrastavam com a opulência pastel do baile. No seu ombro, o pequeno mico observava tudo com olhos atentos, imitando a curiosidade de seu dono.

​— Pelo visto, não somos os únicos convidados exóticos da noite — comentou James Lâfrer, aproximando-se com um sorriso amigável, acompanhado de sua noiva, Elisandra.

​Yaman parou, encarando o príncipe.

— Acredito que o mar me deu um senso de direção um pouco diferente do mapa de vocês, cavalheiro. Sou o capitão Yaman Olivier.

​— Um capitão com um mico no ombro no meio de um baile de primavera? — James riu, genuinamente intrigado. — Sou o Príncipe James. Venha, meu pai e minha mãe precisam conhecer o homem que teve a audácia de entrar assim no Salão de Cristal.

​James conduziu Yaman até o trono elevado. O Rei Richard e a Rainha Catarina observavam o estranho com uma mistura de autoridade e fascínio.

​— Um pirata em nossas terras, e ainda por cima um com modos de viajante? — perguntou o Rei Richard, inclinando-se para frente. — O que o traz ao porto de Lâfrer?

​— Apenas suprimentos, Majestade — respondeu Yaman, com uma reverência breve, mas respeitosa. — Mas a beleza da sua arquitetura quase supera a das tempestades que enfrentei.

​— Sua coragem é interessante, Capitão — disse a Rainha Catarina, trocando um olhar com o marido. — O mar deve ter histórias que nossas bibliotecas desconhecem. Richard, por que não permitimos que o Capitão descanse da vida no convés por alguns dias?

​O Rei assentiu.

— Considere-se nosso convidado, Olivier. Uma temporada no palácio em troca de algumas de suas histórias de além-mar. O que me diz?

​— Será uma honra, Majestade — Yaman aceitou, embora seus instintos de liberdade desconfiassem de paredes tão altas.

​Ao se virar para retornar ao salão e observar a "fauna" da nobreza, o mundo ao redor de Yaman pareceu silenciar. O barulho dos talheres e a música tornaram-se um ruído distante.

​Perto da mesa de refrescos, Claire ria de algo que Elisandra acabara de dizer. Ela segurava uma taça de cristal, e o azul de seu vestido parecia capturar toda a luz do ambiente. Ela parecia uma criatura feita de sonho, tão pura que chegava a ser surreal.

​Claire sentiu o peso de um olhar e, movida por uma curiosidade súbita, virou o rosto.

​O encontro de olhos foi imediato e arrebatador. De um lado, o azul profundo e inocente da princesa; do outro, o olhar intenso, selvagem e experiente do pirata. Por um segundo eterno, o tempo parou. Claire sentiu o coração falhar uma batida, uma eletricidade percorrendo sua espinha que ela nunca soube explicar. Yaman, que já tinha visto todas as maravilhas dos sete mares, percebeu naquele instante que nunca tinha visto o horizonte de verdade até olhar para ela.

​— Quem é ele, Margot? — sussurrou Claire, sem conseguir desviar o olhar, sentindo que o amor que ela tanto esperava acabara de entrar no salão com cheiro de sal e mistério.

O silêncio visual entre os dois foi quebrado apenas quando o mico no ombro de Yaman soltou um pequeno guincho, saltando para o aparador de doces próximo. O movimento brusco trouxe ambos de volta à realidade, mas o impacto permanecia gravado no peito de Claire.

​Yaman, acostumado a enfrentar monstros marinhos e tempestades sem piscar, sentiu algo que não sentia há anos: hesitação. Ele caminhou lentamente na direção dela, enquanto o burburinho da corte voltava a subir de tom ao redor.

​O Primeiro Contato

​— Parece que o mar trouxe um tesouro que não estava no meu mapa — disse Yaman, a voz grave e aveludada, parando a uma distância respeitosa, mas com uma intensidade que fazia as bochechas de Claire corarem instantaneamente.

​Claire, ainda segurando a taça com as mãos levemente trêmulas, tentou recuperar a compostura de princesa.

— O senhor deve ser o capitão de quem todos estão sussurrando. Me disseram que piratas eram... — ela hesitou, buscando a palavra certa — ... mais assustadores.

​Yaman deu um sorriso de canto, aquele que prometia perigo e aventura ao mesmo tempo.

— E somos, princesa. Mas até o vento mais forte se acalma diante de uma calmaria tão bela quanto a sua.

​Elisandra, percebendo a tensão elétrica entre os dois, sorriu de forma cúmplice para James, que se aproximava.

— Capitão Olivier, vejo que já conheceu minha irmã — disse o príncipe, colocando a mão no ombro de Yaman. — Claire, o Capitão passará uma temporada conosco. O rei ficou encantado com suas histórias.

​— Espero que as histórias sejam reais — comentou Claire, recuperando sua doçura meiga. — Sempre li sobre o horizonte, mas nunca conheci ninguém que realmente o tivesse tocado.

​— O horizonte não é um lugar, Alteza — Yaman deu um passo à frente, baixando o tom de voz apenas para ela ouvir. — É uma promessa. E se me permitir, durante minha estadia, posso mostrar que o mundo é muito maior do que as paredes deste castelo.

​A Dança das Intenções

​A música mudou para uma valsa lenta. James e Elisandra foram para o centro do salão. Yaman estendeu a mão, a palma marcada pelas cordas dos navios, contrastando com a pele alva de Claire.

​— Piratas dançam, Capitão? — perguntou ela, timidamente, colocando sua mão sobre a dele.

​— Aprendemos a manter o equilíbrio em conveses balançando sob furacões, princesa. Um chão de mármore será um passeio tranquilo.

​Enquanto rodopiavam pelo salão, os olhos de Claire não abandonavam os dele. Ela sentia o cheiro de sândalo e mar que emanava de suas roupas, algo tão diferente do perfume de lavanda e talco dos nobres locais. Yaman, por sua vez, sentia que a ingenuidade dela não era fraqueza, mas uma luz que ele não via há muito tempo no mundo sombrio da pirataria.

​Longe dali, no balcão superior, o Rei Richard observava a cena com uma expressão séria.

— Ele é perigoso, Catarina — sussurrou o rei para a rainha.

— Ele é o destino, Richard — respondeu ela, com um olhar enigmático. — E o destino nunca pede permissão para atracar.