O Homem que observa
1 O Homem que observa
O homem que observa
Ele está em sua sala, observando sua criação. A havia criado há muito tempo. Quando pensa em quando a criou e não consegue determinar com exatidão, conclui que talvez ela esteja ali por toda a eternidade.
É algo esférico. Possui certo brilho emitido por pequenos pontos luminosos em seu interior. Esses pontos de luz, formas sólidas, poeiras e muitos outros corpos, agrupam-se em inúmeros amontoados que se movimentam incessantemente em um bailado encantador, perfeitamente sincronizados, ainda que haja algumas colisões.
Com lentes especiais ele observa o interior dessa esfera. Vê as ebulições aleatórias que ocorrem e os acidentes que acontecem. Algumas vezes observa amontoados de corpos colidindo. É maravilhoso.
Aquela criação tem seu ciclo. Em tempos se torna tão diminuto que é invisível aos olhos nus do observador. Mas com suas lentes ele consegue ver um pequenino átomo. Aquele mesmo átomo que ele criou há tanto tempo. Então ele vê o maior espetáculo de sua criação: a explosão daquele átomo e o início da expansão. É um momento mágico. Enquanto expande, formações aleatórias ocorrem em seu interior. São formados pontos de luz, matéria, energia. E a esfera expande até que a força daquela explosão inicial se esvai. Quando a força expansiva perde sua potência, tudo começa a retroceder. Pontos de luz, matéria, poeira. Tudo vai agrupando e retrocedendo àquele ponto inicial. Novamente um átomo. Depois ocorre a pequena explosão e o ciclo iniciava novamente. Novos acontecimentos aleatórios irão ocorrer.
Um visitante, caso existisse, poderia perguntar ao observador o motivo daquela esfera sempre voltar ao ponto inicial. Porque ela não expande indefinidamente até se esvair. Mas ao observador é muito simples: ele criou algo que não existe em seu plano. Algo que é incompatível com o seu habitat. E assim como o que ele criou não existe para seu plano, o seu plano também não existe para sua criação. Então aquele átomo, a cada ciclo, tem que abrir espaço na inexistência. Tem que se fazer existir no inexistente, romper a barreira do nada. E o nada, o inexistente, sempre o quer extinguir.
E o observador não tem apenas uma daquela forma esférica. Existem outras em sua morada e muitas outras em seu galpão. Criações que ele observa com curiosidade. Elas o distraem em sua solitária monotonia. Aprecia o aleatório e os acontecimentos acidentais. Seu trabalho foi apenas criar. Agora ele observa e nada mais.
Com suas lentes especiais mais potentes, em algumas pequeninas formas sólidas que circundam pequenos pontos de luz, o observador identifica minúsculas criaturas insignificantes. Em seus devaneios ele imagina que aquelas criaturas podem estar crendo ser a razão da existência de tudo aquilo, que tudo foi criado para elas. Então ele ri. Descontroladamente.
Então aponta sua lente em outra direção e continua a observar os outros acontecimentos acidentais de sua criação.
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