O Homem da Minha Vida
2 Um Casal "Fictício"
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Will acordou antes do despertador. O coração batia acelerado só de lembrar das palavras da mãe e, principalmente, da aula de gramática. Ele se sentou na cama, abraçou Klaus por alguns segundos — um ritual silencioso de coragem — e depois se levantou.
Na escola, tudo parecia igual… e diferente ao mesmo tempo.
Quando Will entrou na sala, Mike já estava lá, sentado de qualquer jeito na carteira, rabiscando algo no caderno. Assim que viu Will, abriu um sorriso espontâneo, daquele que sempre fazia o estômago dele revirar.
— Ei! — Mike disse. — Dormiu bem?
— Dormi… — Will respondeu baixo, sentando-se ao lado dele. — E você?
— Mais ou menos. A Eleven ficou me mandando bilhetes ontem à noite — comentou, rindo.
Will forçou um sorriso. Não era ciúmes exatamente — era mais uma dor silenciosa, conhecida demais.
A professora entrou e bateu palmas para chamar atenção.
— Certo, turma. Hoje vocês vão trabalhar em duplas. Quero uma biografia curta de um casal famoso. Pode ser real ou fictício, desde que seja bem escrita.
Mike virou-se imediatamente para Will.
— A gente, né?
Will assentiu, sentindo o rosto esquentar.
— Claro.
Eles puxaram as cadeiras para mais perto. Will tentava se concentrar no papel, mas era impossível ignorar o braço de Mike quase encostando no seu, o jeito como ele mordia a tampa da caneta quando pensava.
— Quem a gente escolhe? — Mike perguntou.
Will hesitou.
— Pode ser… algum casal que ficou junto apesar de tudo — disse, sem perceber o quanto aquilo soava pessoal.
Mike olhou para ele por um instante mais longo do que o normal.
— Gosto disso — respondeu. — Que tal um casal que começou como amigos?
Will engoliu em seco.
— É… é uma boa ideia.
Enquanto escreviam, Mike lia em voz alta o que Will anotava, elogiando aqui e ali.
— Você escreve muito bem, sabia? — ele disse de repente. — Sempre soube, mas… sei lá. Você devia escrever mais.
Will sorriu, pequeno, sincero.
— Obrigado.
Por alguns segundos, o mundo parecia só os dois, o papel entre eles e aquele sentimento estranho e quente no peito de Will. Ele sabia que talvez Mike nunca sentisse o mesmo. Mas, naquele momento, estar ali já era suficiente.
Quando a professora começou a chamar as duplas para apresentarem, Will sentiu as mãos ficarem frias. Ele apertou a caneta com força, como se aquilo pudesse ancorá-lo à realidade. Mike percebeu.
— Ei — sussurrou. — Vai dar tudo certo. A gente fez um bom trabalho.
Will assentiu, mas o nó em sua garganta não desfez.
— Mike Wheeler e Will Byers — anunciou a professora.
O coração de Will disparou.
Eles caminharam até a frente da sala. Mike ficou ao lado dele, próximo o suficiente para que Will sentisse o calor do seu braço. A professora fez um gesto para que começassem.
— Eu posso começar — Mike disse, confiante como sempre.
Will ficou com o papel nas mãos, tremendo levemente, enquanto Mike explicava a introdução: um casal que começou como amigos, que se apoiava, que cresceu junto apesar das dificuldades. Cada palavra parecia bater direto no peito de Will, como se aquela biografia fosse, de alguma forma, sobre eles.
— Agora o Will vai continuar — Mike falou, virando-se para ele com um sorriso encorajador.
Todos os olhares recaíram sobre Will.
Ele respirou fundo.
— A… a relação deles — começou, a voz baixa, mas firme o suficiente — não era perfeita. Eles brigavam, discordavam… mas sempre voltavam um para o outro. Porque, acima de tudo, havia confiança. E carinho. Um carinho que às vezes demorava a ser percebido.
Alguns alunos cochicharam. A professora observava atenta.
Will continuou, engolindo em seco.
— O amor deles não começou de repente. Ele foi crescendo… aos poucos. Nos detalhes. Nos momentos simples. Como dividir um caderno, ou… ficar em silêncio juntos.
Sem perceber, Will levantou os olhos do papel.
E encontrou Mike olhando para ele.
Não era um olhar qualquer. Não era distraído. Era atento. Profundo. Como se Mike estivesse entendendo algo novo naquele exato momento.
Will terminou a apresentação quase sem perceber o que dizia. Quando a professora pediu aplausos, a sala bateu palmas, mas tudo que ele conseguia ouvir era o próprio coração.
Ao voltarem para os lugares, Mike se inclinou e sussurrou:
— Will… isso foi… muito bonito.
Will sentiu o rosto queimar.
— Obrigado — respondeu, quase inaudível.
Mike ficou em silêncio por alguns segundos, pensativo demais para alguém como ele. Antes da aula acabar, murmurou:
— A gente pode… conversar depois?
O estômago de Will revirou.
— Pode — ele disse.
E, pela primeira vez, o “depois” não parecia tão assustador assim.
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