Notas iniciais
Demorou, mas chegou.

Onde mora a sorte? Pois se eu soubesse seu endereço iria pessoalmente até sua “humilde” residência lhe dar um beijo, e quem sabe, talvez, pedi-la em casamento. Mas a sorte é como uma mulher traiçoeira, dessas que te usam para depois te abandonar.
Lembro-me de algumas vezes, em que a sorte já me abandonou. Quando eu tinha dezesseis anos foi quando eu finalmente criei coragem de pedir Sophie em namoro. Nós éramos “amigos” a mais de seis anos, desde que seus pais haviam se mudado para a vizinhança. Ela era cobiçada pelas pessoas, seus cabelos loiros e muitas vezes com mexas coloridas (ela mudava muitas vezes, variando de rosa, vermelho, azul, preto), e isso para os anos 90 era um pouco diferente. Nós não éramos tão próximos assim, afinal ela era uma garota popular, e eu era o “Dave Quatro Olhos”, tímido e sem coragem alguma de sequer chegar perto de uma mulher qualquer.

Eu passei a admirá-la a partir dos meus onze anos, depois de muitos comentários desnecessários de nossas famílias, como: “vocês ainda vão se casar um dia”, pois brincávamos muito juntos, pelo menos até nossos 12 anos. Depois disso, ela começou a se isolar, e eu passei apenas a observá-la quando ela passava em frente minha casa em direção a sua, e às vezes ela me acenava com a mão, e eu rapidamente acenava novamente e me escondia.

Aos 14 abandonei os óculos e coloquei lentes para tentar melhorar minha aparência; e realmente funcionou, pois depois disso algumas garotas do colégio passaram a ter olhos para mim.
Mas não a que eu queria que me notasse; então assim começou a busca pela atenção de Sophie Delthofh.

Consegui um emprego de entregar jornais, e aos finais se semana cortava a grama de várias pessoas na vizinhança, e às vezes fazia o jardim da casa de Sophie, pois seu pai George Delthofh gostava muito do meu trabalho como jardineiro.

Com o dinheiro, passei a comprar roupas mais bonitas, porém meu gosto para roupas nunca foi tão bom, e como morava apenas com meu pai, raramente passávamos as roupas, e então elas acabavam ficando amassadas ao corpo.

Com o dinheiro também, decidi comprar flores, porém nesse mesmo dia uma grande chuva começou enquanto eu corria com um buque de rosas encharcado nas mãos em direção a casa de Sophie. Mas quando enfim cheguei à frente de sua casa, eu olhava para o seu jardim, a porta branca da frente, e percebi o quão patético eu estava sendo; todo molhado e com um buque de rosas já estragado em mãos; e foi ai que, quando eu virava minhas costas, ouvi a porta da frente se abrir, e de lá veio uma doce e suave voz.

– Dave? — Era Sophie, e nesse momento ele me viu com um buque em mãos. Então eu estiquei meu braço com o buque em minhas mãos, e disse a ela:

– É para você. – E nesse momento, o buque se despedaçou e caiu ao chão.

Quando eu pensava que era um fracasso total, Sophie deixou o conforto quente de sua casa, e usando um pijama cinza com florzinhas cor de rosa, correu ao meio da chuva e me abraçou naquele fim de tarde, e enquanto a chuva aumentava sua força, eu pela primeira vez beijei Sophie Delthofh.

Aquele foi um grande momento de sorte em minha vida. Porém hoje ela me abandonava, junto com a mulher que julgava ser o amor de minha vida. Recebi uma mensagem de Sophie dizendo: “Precisamos conversar”.

– Conversar o que? – Eu pensei comigo mesmo.

Não havia o que conversar com Sophie, eu tentei trancá-la nos abismos mais profundos e vazios do meu coração, ou seja; eu perguntei aonde nos encontraríamos. Ela marcou comigo em frente ao café Queen’ of Shire, e mesmo pensando em qualquer tipo de besteira, e querendo amaldiçoá-la em vários idiomas diferentes, eu tomei um banho demorado, e me perfumei de forma exagerada, tanto que, ao sair de casa, meu pai soltou algum tipo de piada, e depois me perguntou se eu já havia visto a moto.

Ele perguntou de forma tão carente, que ao ver seus olhos brilhantes entre o rosto cheio de barba, tocou meu coração. Eu não queria magoá-lo dizendo que ainda não havia visto, então, abri um sorriso no rosto de disse a ele:

– Você e Walt fizeram um ótimo trabalho.

E então ele sorriu de volta. E assim, deixei a casa e fui até a garagem ver a moto, de verdade dessa vez. Liguei-a, coloquei um capacete sob a cabeça, um velho e branco, um pouco desbotado, que já não era usado há muito tempo, semelhante aqueles usados por entregadores de Pizza.

Ao chegar ao Queen’ of Shire, já era final de tarde; o sol já estava quase desaparecendo e ventava muito, tornando o dia mais gelado, e Sophie estava sentada em uma mesa ao lado de fora, com uma xícara sob a mesa, enquanto ela trocava mensagens com alguém, e acredito-me que seria seu querido amado.

– Olá, Dave. – disse ela dando um sorriso. Ela certamente não sabia que eu já havia descoberto as coisas que ela havia feito.

– Por onde esteve Sophie? – eu disse a ela com uma expressão séria no rosto. – Você sumiu por dias, e nem sequer me ligou, ou me avisou onde estava.

– Olha Dave, eu tenho uma noticia ruim para lhe dar. – disse ela, olhando para sua xícara de chá, que soltava uma fumaça em seu rosto.

Nesse momento, eu senti minhas pernas tremerem, meu coração bater forte e devagar, como se a notícia de que ela iria me deixar ou que nosso relacionamento acabaria fosse uma novidade. Eu já estava me preparando para esse momento desde que Josh me mostrou aquelas fotos, mas a dor no peito e o nó na garganta foram inevitáveis.

Mas eu engoli, e disse a ela:

– Eu sei, qual é o nome dele?

– Martin Salvatore. – respondeu ela sem hesitar.

Então, eu me virei e coloquei o capacete novamente em minha cabeça, e pude sentir o primeiro pingo da chuva, que iria começar a cair nessa noite.

– Dave. – disse Sophie. – Eu vou me mudar, e desaparecer de vez.

Então liguei minha moto, e fui em frente, e enquanto cruzava a esquina seguinte, pude ver um jovem garoto anônimo, de aparentemente quinze anos, correndo na chuva com uma roupa social e carregando um buque de rosas na chuva. Olhei para frente, e percebi que chovia dentro de meu capacete, especialmente em meus olhos.

A chuva continuava e eu já estava ensopado, acelerei a moto o quanto consegui. Tudo que eu queria aquele momento era entrar em frente a um caminhão e acabar com toda minha dor; mas como meu avô sempre dizia: “Suicídio não é livrar-se da dor; havia uma prima minha, que inventou de suicidar-se devido a um namorado que a abandonou. Ela tomou vários remédios que não deveria tomar, e então foi parar no hospital em coma, e sua é família claro, ficou desesperada. Porém quando ela acordou percebeu que todos que estavam a sua volta choravam uma dor que parecia ser maior do que a que ela sentiu quando foi deixada, e então percebeu que suicídio não é livra-se da dor, mas apenas passar ela para outra pessoa”.
Enxuguei minha lagrimas por dentro do capacete, e então a moto começou a falhar. Encostei ao lado para tentar ligá-la novamente, mas após várias tentativas finalmente desisti, e então me sentei no chão molhado, e não consegui conter mais o choro, e me senti novamente uma criança, suplicando por sua mãe.

Fiquei ali, chorando por um tempo, até um carro rapidamente passar em minha frente, jogando a água de uma poça de lama totalmente em mim. Levantei-me rapidamente para ofender em vão o motorista, mas desisti antes de fazer isso, pois percebi e tão patético eu estava naquele momento. Olhei para o lado, e então devido à fúria chutei a moto com pouca força, mas o suficiente para derrubá-la e quebrar o retrovisor. Levantei a moto novamente e decidi empurrar até a oficina mais próxima. Passei por duas que estavam fechadas, e então finalmente encontrei uma, após andar por vários minutos ao meio da chuva forte.

– Sabe qual é o problema com sua moto garoto? – disse o mecânico ao dar uma olhada nela. Ele era moreno e um pouco de idade, com uma barba branca desenhada em seu rosto, porém tinha uma aparência de amedrontar, além de ser um pouco arrogante. – Sua inexperiência.

– O que quer dizer? – eu perguntei com raiva.

– Ela está apenas sem gasolina. – disse ele. – Leve até o posto mais próximo que resolverá.

– E onde fica o posto mais próximo? – eu perguntei.

– Siga esta rua, tem um posto há umas dez quadras em frente.

Com certeza havia algum posto mais próximo do que dez quadras, porém ele não quis me dizer. E quando eu estava saindo, ele me parou.

– Aonde pensa que vai? – disse ele. – São cinco pratas pelo tempo perdido e pela informação.

– O que? Isso só pode ser uma piada.

– E eu tenho cara que faço piadas? – disse ele olhando seriamente para mim.

Retirei cinco pratas do bolso e entreguei ao patife, desejado que o mal e o pior acontecessem com ele.
Ao sair da oficina, novamente ao meio da chuva caminhei até o maldito posto, que ao finalmente chegar, coloquei a mão em meu bolso, retirei a carteira, e então percebi que às cinco pratas que havia entregado ao mecânico era as últimas em meu bolso.

Novamente coloquei as mãos no guidão e guiei a moto me retirando do posto, empurrando-a até minha casa, que ficava a aproximadamente um quilometro e meio dali.

– Que merda de dia. – eu disse para mim mesmo.

Quando cheguei a minha casa, a chuva já havia alagado o gramado, pisei com tudo em uma poça de barro ao meio do quintal, então joguei a moto ao chão com raiva, meu pai estava novamente sentado ao sofá em frente à Tv, porém provavelmente escutou o barulho e olhou pela janela.

Ele estava sentado e inclinado, e quando me viu entrar perguntou:

– Você está bem Dave? Parece um pouco abalado.

– Não enche velho. – eu disse a ele todo molhado e cheio de barro, principalmente em meu tênis all star. – Eu não podia estar melhor.

– O que houve com a moto? – eu perguntou em seguida virando-se para Tv.

Neste momento, eu pensei o quão patético eu seria em dizer que apenas a gasolina havia acabado. Olhei pela janela e a vi, jogada ao chão com o retrovisor quebrado, enquanto a chuva agora já mais fraca caia sob ela.

– Droga. – eu disse me retirando para fora novamente, peguei a moto e a levei para a garagem. Minha consciência pesou ao pensar em todo o trabalho que meu pai teve em concertá-la, e eu sendo ainda mais patético ao ponto de descontar toda minha raiva nela.

Voltei para dentro de casa, e quando estava prestes a entrar, meu pai soltou um “tire os sapatos antes de entrar”, e assim fim, pensando em xingá-lo.
Me aproximei do sofá onde ele estava, e então ele disse: Tem alguma coisa cheirando mal aqui. – disse se cheirando. – E não sou eu. Dave, você por acaso está com dor de barriga?

Olhei para ele com um olhar de deboche, e então ele disse espantado: Dave! – ele apontou para meu traseiro. – Tem merda em sua bunda!

Virei-me e olhei; e realmente, provavelmente quando me sentei ao chão durante chuva, eu basicamente sentei em uma mina, e provavelmente cruzei a cidade toda com isso em minha bunda.

– Te aconselho a tomar um banho nesse exato momento. – disse meu velho. – E eu não vou lavar isso, já vou avisando.

Entrei no banheiro para fazer o que meu pai havia pedido. A água quente caiu sob mim, e então novamente não me aguentei. Voltei a lembrar de momentos com Sophie, coisas antigas, momentos bons e ruins, até mesmo as várias vezes em que ela me virava às costas e me deixava falando sozinho, ou quando discutia comigo — e como ela ficava linda zangada. Lembrei de quando fizemos nosso primeiro aniversário de namoro; eu estava tão falido na época quanto um morador de rua, meu pai estava apertado e eu tive que ajudá-lo nas contas, faltou até mesmo dinheiro para as compras do mês, e tive que disfarçadamente almoçar várias vezes na casa dos Delthofh; algo que não era problema, pois a mãe de Sophie me adorava. Porém, quando o dia de nosso aniversário chegou, a única coisa que pude dar a ela foi um cartão, com palavras bonitas, onde tentei inutilmente descrever o que sentia; coisa que nunca fui bom, e perfumei o cartão com um perfume barato, que cheirava mais mal do que bem. Novamente me senti um fracassado, novamente pensei e desistir e não entregar, porém eu não podia deixar passar em branco esse dia; ao entregar, todo sem jeito, ela simplesmente sorriu e me disse que esse era o melhor presente que alguém poderia dar; que era algo que dinheiro algum no mundo compraria: O verdadeiro amor.
Já ela me deu uma camiseta de grife super cara, onde estava escrito em letras prateadas: “Be a Most.” – provavelmente um trocadilho ao meu sobrenome.

Depois de um longo banho, fui até a sala novamente para conversar com meu pai e pedir desculpas pelo que fiz com a moto. Sentei ao seu lado, e então ele me disse:

– Problemas com Sophie? – ele perguntou.

– Sim. Nós terminamos.

– É uma pena realmente. – disse meu pai. Ele gostava muito de Sophie, pois os dois sempre passavam um bom tempo fumando cigarros e falando sobre bandas de rock antigas. – Mas sabe Dave, eu e sua mãe também terminamos algumas vezes, porém quando amamos alguém de verdade, sempre há um momento em que as cosias voltam ao normal. Vocês são jovens, e vai pro mim; ainda vão voltar a ficar juntos. Experimente encontrá-la daqui algumas semanas, tenho certeza que ela vai voltar correndo e chorando para seus braços, afinal as mulheres são assim. É a natureza delas, apenas finja que não está ligando, saia com seus amigos, principalmente para lugares em que ela possa ver você se divertindo, então ela vai sentir uma dorzinha de cotovelo, e largará os chocolates para voltar com você.

– Bom, sua idei- ele me interrompeu e continuou.

– Então você irá dizer: “Não! Eu estou bem sem você agora”. Ai então ela começará a correr atrás de você, te ligar, mandar sms, correspondências. Coisas como “Estou morrendo de saudade”, com desenhos de corações partidos. Mulheres são assim.

– Bom pai, o problema é que- Eu queria dizer a ele que o problema era que Sophie havia encontrado um ricão, e iria sair da cidade com ele, porém meu pai novamente me interrompeu, pois o sorteio na TV havia começado.

– Espere só um momento, Dave. – disse ele olhando para a TV. – Vai começar o sorteio, e acredito que estou com sorte hoje. – Concluiu ele rindo.

E na TV, um homem de óculos apresentava o programa, com várias dançarinas usando roupas curtas fazendo uma coreografia sem sentido atrás com sorrisos extremamente forçados no rosto, fazendo pessoas como eu pensar o quanto deve ser horrível sorrir quando se está triste, ou pensando em magoas.

Então o apresentador começou a falar números:

– Vamos lá. – disse ele. – Os números são: 02, 08, 15

Então meu pai soltou um “Merda”, e disse que havia acertado os dois primeiros, então eu o mandei ele se calar.

– 22, — continuou o homem. – 37 e 58.

Nesse momento minha mente estava em choque, eu paralisei. Eu não estava com o bilhete em mãos, mas conhecia aqueles números perfeitamente, pois eram números que significavam algo em minha vida.

Eu havia me tornado um milionário.