O Homem Invencível

6 Capítulo 5: Viagens


Notas iniciais
Conan e Declan seguem sozinhos por caminhos inóspitos.

Após a fuga de Dassama, nossos heróis seguiram viagem para bem longe. Haviam perdido seus melhores amigos e alguns dos mais valentes e heróicos guerreiros que já tinham conhecido. Aqueles homens haviam escolhido morrer em combate, pois aquele era seu reino. Seus amigos e familiares estavam tombados no chão ensangüentado, enquanto Dassama ardia em chamas, não parecendo leal e nobre a eles que pudessem ou devessem escapar com vida. Conan respeitava isso, mas ele e Declan escolheram sobreviver.

_Conan, acho que deveríamos dar uma trégua para os cavalos. Eles não agüentarão mais nesse ritmo.

Declan estava cansado. Seu cavalo estava cansado. Sabia que a vontade de Conan era férrea. Por ela, eles iriam cavalgar sem parar por dois dias contínuos, mas até mesmo Conan sabia que os cavalos não agüentariam.

_Está bem Declan. Pararemos no sopé daquela montanha.

Declan estava barbudo, crostoso e suas roupas podres. Seu cavalo não estava em melhor estado. Conan também estava barbudo. Quando os insetos passaram a circundar suas roupas encharcadas de sangue ressecado, ele simplesmente despiu-se e queimou-as. Improvisou sua capa de pele de animais para criar uma tanga rústica, que amarrou com tiras de couro e metal. Não se incomodou em fazer uma camisa, ficando com o torso nu.

Os animais estavam muito cansados de tanto cavalgar. Conan sabia que eles poderiam morrer de exaustão. Antes de Declan lamuriar-se, Conan já havia se decidido por aquela parada. Pararam no sopé da montanha. Conan deu água para seu cavalo, sendo imitado por Declan. A seguir ele foi procurar caça para preparar uma refeição. Logo mais trouxe um coelho. Estripou-o e assou-o em um espeto. Declan se viu obrigado a retirar suas roupas podres e jogá-las longe. Enrolou-se em sua capa de pele de animal e saiu amarrando o corpo com tiras de couro. Ficou parecido com um urso todo amarrado. Conan não conteve o riso ao vê-lo daquele jeito.

_Pode rir Conan, mas não serei eu que irei tiritar de frio por não ter camisa. — Declan resmungou.

_Declan, eu sou um homem das montanhas do norte, eu não sinto frio.

Conan pegou sua faca e passou-a no rosto, retirando a barba. Declan olhou-o e pensou em fazer o mesmo, mas tinha medo de se ferir. Achou melhor fazê-lo quando chegassem a uma cidade, onde um servo treinado poderia fazer um barbear decente.

No dia seguinte, Conan resolveu subir a montanha. Saiu puxando seu cavalo por uma trilha improvisada, montanha acima. Declan vinha logo atrás. Subiram tão alto que logo havia névoas no meio do caminho, dando a impressão de que andavam sobre nuvens. O clima era bem frio e Declan sentia intimamente feliz que estivesse todo coberto de peles e Conan não.

Então começou a neblinar. Conan raciocinou que logo todos ficariam encharcados e passariam a noite enregelados. Procurou então um abrigo natural para proteger-se daquela chuvinha fina. Encontrou uma caverna na parede da montanha. Era espaçosa o suficiente para caberem inclusive os cavalos. Passaram o resto do dia e a noite ali. Conan conseguiu fazer uma fogueira e isso diminuiu o frio.

Declan teria rido dele, se ele mesmo não estivesse todo molhado e tiritando de frio. Conan achou melhor ficar de guarda durante a noite, pois outros animais poderiam querer usar a caverna como abrigo natural. Apenas lobos apareceram, mas eles não ousaram aproximar-se.

Quando Conan achou que Declan já havia dormido o suficiente, ele o chamou para que ficasse de vigia enquanto Conan iria dormir. Declan ainda estava sonolento, e pensava em voltar a dormir, quando ouviu o uivo de um lobo. Despertou de vez. Achou melhor acordar Conan, caso houvesse uma matilha.

_Conan, acorde. Há lobos aqui.

_Eu sei. — Disse um sonolento Conan.

_Então acorde homem, eles podem nos atacar a qualquer momento.

_Se eles fizerem isso, mate-os e não me amole mais. — Conan disse isso e virou-se para o outro lado.

_Você é um imprestável, hein Conan? Eu sozinho tenho que dar conta de uma matilha de lobos famintos e carniceiros.

_Pare de resmungar Siobhan. — Conan reclamou sonolento antes de começar a roncar.

Declan percebeu que ele o comparara com o amigo morto. Interessante que quando em vida, ele nunca tolerara Siobhan, e agora depois de sua morte, estava assumindo o típico comportamento do amigo. Será que o espírito do amigo o acompanhava? Não, eles viviam brigando o tempo todo. Por que será que Siobhan escolheria justamente ele para acompanhar? E Sprague? Por onde andaria o espírito do nobre amigo? E a amazona Theres, que deu sua vida para proteger Conan? O cerco de Dassama permaneceria ainda por muito tempo em sua mente.

Declan piscou e sentiu o cheiro de carniça e urina forte. Instintivamente brandiu sua espada em volta, antes mesmo de ver no que acertava. A cabeça do lobo rolou aos seus pés. Declan continuou usando sua espada e matando mais lobos, enquanto a matilha o rodeava e rosnava para ele, com a saliva grossa e fedida escorrendo por suas presas. Logo mais o chão estava todo encharcado de sangue e restos de animais. Conan acordou com os ganidos e rosnados.

_Declan, você tinha que fazer essa sujeira perto da minha cama? — Reclamou Conan já empunhando sua espada para matar mais lobos.

_Pare de resmungar Conan, eu que fiz todo o serviço sujo para que você dormisse.

_É, mas agora teremos que ir embora de madrugada, antes que todo esse sangue atraia outros animais.

Dizendo isso Conan recolheu suas coisas e amarrou tudo em sua montaria. Declan o imitou. Logo estavam se retirando com os cavalos, enquanto a matilha remanescente devorava os restos dos outros lobos. Eles saíram então para a noite congelante, negra e silenciosa. Não havia lua. Algum tempo depois o sol nasceu e as coisas pareceram melhores.

Conan estava com os lábios roxos e sua pele parecia azulada. Freqüentemente dava tapas no próprio peito e em sua face, para que o sangue circulasse. Declan sentia-se um pouco melhor que Conan, pois estava completamente envolto em peles, mas não tinha ânimo de rir da desgraça do amigo. Alcançaram o outro lado da montanha e começaram a descida.

Caçaram outro animalzinho para comerem naquele dia. Ainda estavam na montanha quando a noite os alcançou novamente. Procuraram outra caverna para passarem mais essa noite. Conan fez uma fogueira no interior da caverna e estranhou a ausência de ruídos e cheiros de animais. Resolveu permanecer de guarda pela maior parte do tempo.

Muitas horas depois, seu sangue ferveu em suas veias. Ele podia sentir que estava em perigo. Estava sentado próximo à fogueira. Desembainhou a espada e não perdeu tempo acordando Declan. Seja lá o que fosse, estava perto. Conan podia sentir o bote se aproximando. Instintivamente jogou-se para o lado, rolou e ficou de pé em posição de luta. Foi bem a tempo. Uma lança passara no local onde antes estava sua cabeça.

_Declan! Estamos sendo atacados.

Mal deu tempo de falar, outra lança fora arremessada contra Conan que se desviou e a aparou com a mão. Virou-a e arremessou-a na direção de onde viera. Logo se ouviu um "Uhhh", e um barulho surdo de corpo que cai. Declan já se levantara e fora empurrado por Conan para que se desviasse de outra possível lança.

Então o velho espírito guerreiro falou mais forte. Declan gritou como um urso feroz e arremeteu de espada em punho contra os agressores que ainda estavam na escuridão. Conan imitou-lhe o gesto, mesmo o achando idiota. Logo estavam frente a frente com guerreiros vestidos com peles de animais e armados de lanças e porretes. Eles eram barbudos e tinham dentes negros. Poderiam dizer que pareciam crias de lobos. Eles eram ferozes, mas não se comparavam a selvageria de Conan e Declan. Cedo estavam todos mortos.

Conan e Declan seguiram caminho montanha abaixo. Logo atingiram o sopé e depararam-se com campos verdejantes. Pararam o tempo suficiente para que os cavalos se alimentassem e Declan pudesse remodelar sua roupa, agora visivelmente muito quente. Ele adotou o modelo de tanga de Conan. Caçaram para comer e pernoitaram por lá. Pela manhã seguiram viagem.

Quando encontraram um lago de águas cristalinas, encheram os cantis, deixaram os cavalos matarem a sede e tomaram o primeiro banho em semanas. A barba de Declan já estava dura e seus cabelos pareciam tijolos. Os longos e lisos cabelos de Conan pareciam ser imunes a acumular sujeira, mas ele banhou-se com gosto. Quando estavam descansados, limpos e alimentados, seguiram viagem rumo ao oeste.

Muito longe dali, uma ex-escrava fazia um ritual de imolação de um gamo para o Deus dos infernos, pedindo proteção para seu amado Conan. Um pouco mais perto dali, um homem vestido de capa andrajosa e cajado, indumentária de pobre mendigo, andava lentamente por estradas de chão batido, faminto e sedento, quando foi abordado por ladrões. Foi surrado e morto a pauladas. Sua única posse era um anel de ouro com a insígnia do extinto reino de Dassama. Os ladrões não suspeitaram que tivessem assassinado um monarca.

Fim do Capítulo

Notas finais
A fic está empacada, mas tentarei escrever os capítulos aos poucos, para não degringolar de vez.