Notas iniciais
ATUALIZAÇÃO 11.06.26: Senhoras e senhores, é bom estar de volta. Segue o segundo capítulo reescrito. Boa leitura a todos!

Depois de deixar os dois companheiros de time a sós novamente, Sakura apertou o passo, dobrou a esquina e seguiu seu caminho. Próxima parada: o mercadinho Haruzora. Assim que abriu a porta, a primeira coisa que fez foi olhar para o relógio na parede do fundo da loja. “Ótimo. Ainda tenho tempo”, concluiu aliviada. Não que sua lista de compras fosse grande coisa, mas Sakura ainda teria que levar tudo para seu apartamento, preparar o almoço, deixar comida pronta para o jantar, tomar banho e sair para o trabalho.

Aos dezoito anos Sakura já morava sozinha e tinha uma verdadeira vida de mulher adulta. Após voltar da guerra como uma heroína e uma kunoichi mundialmente reconhecida tanto por feitos em batalha quanto por seu talento médico, Sakura rapidamente subiu dentro da hierarquia do Hospital da Folha, tornando-se a médica-chefe do setor de Regeneração Avançada e Cirurgia de Alta Complexidade, o que lhe garantiu um salário muito melhor.

No mesmo período, veio também sua promoção à patente de Jounin. Sakura a conseguira por meio do Exame Jounin — que, ao contrário do muito popular Exame Chuunin, costumava ser realizado por meio de um processo seletivo interno na própria vila oculta, sem a participação de ninjas de outras vilas. A Quinta Hokage, junto com o Conselho da Folha e o Corpo Jounin, selecionara os candidatos dentre os Chuunin que mais haviam se destacado na guerra. Três meses depois, quando a vila já respirava em relativa normalidade, o exame teve início. Sakura passou por avaliações escritas e orais, participou de missões simuladas, uma de Rank A e outra de Rank S — esta última durando dez dias inteiros —, e, por fim, de um torneio de batalhas individuais contra outros candidatos. Em sua luta, Sakura acabou sendo emparelhada com Hinata Hyuuga. A batalha das duas terminou em um empate e nenhuma delas avançou para a grande final, vencida por Rock Lee em um duelo memorável contra Shino Aburame. Apesar disso, Tsunade e as demais lideranças ficaram tão impressionadas com o desempenho dos participantes que entenderam por bem promover a todos.

Com os salários de médica-chefe e Jounin, após seis meses, Sakura havia conseguido conquistar seu primeiro patrimônio: um apartamento localizado no Distrito Central da vila. Era pequeno e modesto, mas era só seu.

Por outro lado, às vezes, e não poucas, Sakura também sentia falta do conforto que a casa dos pais lhe proporcionava. Naqueles dias, as responsabilidades eram menores e o tempo lhe sobrava. Cozinhar, faxinar a casa e lavar roupas, por exemplo, eram atividades excepcionais; seu foco e energia estavam, quase exclusivamente, voltados para a carreira de ninja. Ainda assim, Sakura não se arrependia de nada. Ela sabia que o amadurecimento traria consigo novos desafios e sentia-se orgulhosa de ter dado mais alguns passos.

E não somente isso. Sakura também se sentia grata, pois, se conseguira coragem e determinação para deixar uma vida confortável para trás e crescer, havia sido graças a ele.

“Naruto... tudo o que estou vivendo agora você já sabia quando éramos crianças”, refletiu Sakura enquanto escolhia rabanetes.

Por um momento, a mente de Sakura viajou longe no tempo, relembrando tudo o que seu amigo e parceiro de time já fizera por ela. Em vários aspectos Naruto Uzumaki era alguém mais maduro do que ela própria, e uma pessoa a quem Sakura havia aprendido a reconhecer e a admirar; e isso muito antes de ele tornar-se o grande Herói do Mundo Ninja e o salvador do mundo. Não, quando ele ainda era o pequeno e irritante Ninja Hiperativo Número Um e Cabeça-Oca, Naruto já era para Sakura uma fonte de inspiração, bem como um amigo precioso e fiel.

E ela o amava por isso.

Contudo, Sakura também se lamentava por não ser capaz de corresponder-lhe da forma como Naruto desejava. Sim, ela havia entendido perfeitamente as intenções dele ao convidá-la para sair. Talvez em outra época Sakura pudesse ter cogitado a possibilidade de tentar dar certo com ele, quando Sasuke não passava de uma figura distante e dolorosa, e Naruto acabara de voltar para sua vida, após três anos fora da vila em treinamento com Jiraiya. Ainda assim, lá em seu íntimo, Sakura saberia que, se fizesse isso, estaria não só traindo seus próprios sentimentos — pois nunca havia deixado de amar Sasuke Uchiha —, como também sendo desonesta para com Naruto. Outra vez.

A lembrança da confissão falsa que fizera no passado ainda lhe queimava a consciência. Como pudera ser tão estúpida e egoísta? Achara que dessa maneira poderia ter aliviado o fardo dele, quando, na realidade, Sakura apenas estava considerando o peso da própria culpa de ter feito Naruto jurar que cumpriria sua promessa; sequer havia pensado que Naruto, tanto quanto ela, queria trazer Sasuke de volta por conta própria. E, no fim, foi isso que aconteceu. Naruto cumpriu sua palavra. Sem mentiras.

Talvez ela nunca fosse capaz de expressar o quanto era grata a Naruto Uzumaki. Por isso, Sakura prometera a si mesma que jamais mentiria para ele novamente. Era verdade que o amava. Naruto fora o que mais se aproximara de ser um irmão para ela. Em função disso, Sakura não poderia jamais dar a ele falsas esperanças. Naruto merecia mais, muito mais; alguém que pudesse amá-lo de uma forma que ela jamais conseguiria.

E Sakura sabia quem poderia fazer isso.

— Ah, Naruto, será que você não percebe? — murmurou para si mesma, os olhos distraídos na seção de cereais. — Como pode ser tão tapado?

— Olha só... jamais imaginei que te veria suspirando pelo Naruto, Sakura.

Reconhecendo imediatamente aquela voz doce e provocadora, Sakura girou os calcanhares. Lá estava Ino Yamanaka — e, como era de se esperar, parecia ter saído de uma revista. Ino também usava roupas de musculação: um top esportivo branco que realçava um decote generoso e aquela cintura fina que irritava qualquer mulher sensata; shorts brancos curtos marcando as coxas torneadas e o abdômen definido que os anos de treino como kunoichi haviam esculpido com perfeição. O cabelo loiro e sedoso estava elegantemente arrumado em um rabo de cavalo longo. Ao vê-la, Sakura suprimiu o velho apertinho de inveja misturada com admiração genuína; afinal, por mais que se matasse na academia e vivesse em guerra com as dietas, não conseguia chegar nem perto da “Srta. Beleza”, cujo corpo parecia feito para ser admirado.

Mas o que realmente deixava Sakura indignada era o seguinte: mesmo com a aparência de quem dormia oito horas por dia, fazia skincare e tinha todo o tempo do mundo para respirar, Ino Yamanaka era provavelmente a pessoa mais ocupada em toda a Vila Oculta da Folha. Pelo que Sakura tinha conhecimento, sua amiga acumulava seis ocupações: era a atual líder do clã Yamanaka; chefe do setor de Psiquiatria Ninja e Neurologia de Chakra do Hospital da Folha; capitã da Divisão Sensorial, nomeada por Tsunade logo após a guerra; integrante da Divisão de Inteligência, ao lado de Ibiki Morino, no lugar de seu falecido pai, Inoichi; gerente da Floricultura Yamanaka, inclusive trabalhando na loja aos fins de semana; e integrante ativa do Corpo Jounin, realizando missões ocasionalmente em nome da vila.

Para completar, Ino estava namorando Sai havia dois meses.

A menos que tivesse aprendido o jutsu Clones das Sombras, Sakura não fazia a menor ideia de como diabos Ino conseguia fazer tanta coisa... e ainda aparecer linda e perfeita, com tempo para ir à academia, como parecia ser o caso.

— Ino — Sakura cumprimentou, resignada.

— Anda, me conta. — A loira apoiou uma mão no quadril, sorrindo ao mesmo tempo que dirigia a Sakura um olhar desconfiado. — Por que está aí parada pensando no Naruto?

— Você entendeu tudo errado. — Sakura revirou os olhos. — Eu não estava pensando no Naruto. Quero dizer, não exatamente nele.

Ino ergueu uma sobrancelha.

— Testa-de-marquise, se eu não te conhecesse, diria que está tentando me enrolar. — Deu de ombros. — Muito bem. O que era, então?

Sakura deu um longo suspiro e contou. E Ino ouviu sem interromper, com sua rara expressão séria — a expressão de alguém treinado para ler pessoas como livros abertos. Quando Sakura terminou, a loira apenas balançou a cabeça.

— Entendo.

— O Naruto não percebe que eu não sou a pessoa certa para ele — disse Sakura, enquanto colocava algumas porções de sushi embalado no carrinho de compras. — Essa pessoa é a Hinata. Você acredita que aquele idiota ainda não conversou com ela até agora? Quase um ano depois!

— Acredito — respondeu Ino com naturalidade —, afinal, é do Naruto que estamos falando. E da Hinata.

— Mas não faz sentido! — Sakura rebateu. E imediatamente olhou ao redor, constrangida por pensar ter falado alto demais. — O Naruto jamais se esqueceria de algo tão significativo quanto a confissão de uma garota. E não estamos falando de qualquer garota, Ino.

— O que quer dizer?

— Que o Naruto tem um enorme carinho pela Hinata. Ele mesmo já me disse isso.

Ino franziu a testa, pensativa.

— Talvez ele só não tenha entendido o que ela realmente quis dizer naquele dia. — Cruzou os braços. — E, convenhamos, o silêncio dela depois da guerra não ajuda nada.

— A Hinata ficou bem abalada com a morte do Neji... e distante — retrucou Sakura, suspirando. — Acho que ela ainda se culpa pelo que aconteceu.

— É... e conviver com aqueles velhacos só deve piorar tudo. — Em uma visita formal a Hiashi Hyuuga, já como líder do clã Yamanaka, Ino teve a oportunidade de observar e saber mais sobre o clã de Hinata. A impressão que tivera ao sair do Distrito Hyuuga foi que a maioria dos membros era bastante cortês, o que já era esperado. Mas os anciãos do Pequeno Conselho, para sua surpresa, eram a exceção.

Sakura assentiu.

— Mas, por outro lado, o Naruto acabou se aproximando ainda mais dela — lembrou. — Sempre que pode, ele vai até o Distrito Hyuuga só para ver como a Hinata está.

— O Naruto é um fofo. — Ino deu um risinho. — Eu me pergunto como Hiashi-sama tem deixado o Naruto ir até lá com tanta frequência...

— Hiashi-sama gosta do Naruto, acredite se quiser — disse Sakura —, assim como a Hanabi-chan.

— Ora, então está tudo encaminhado!

Sakura fez que não, desesperançosa.

— É como eu te disse, já tem quase um ano e nada mudou entre eles.

— Você acha que o Naruto ainda te ama? — Ino questionou sem rodeios, encarando Sakura com um olhar firme e clínico.

Sakura balbuciou, levemente surpresa.

— Bom, sim... — mas hesitou no instante em que percebeu a seriedade com que Ino a observava. Aquela, talvez, não fosse uma pergunta que tivesse uma resposta óbvia. Outra vez Sakura se pegou pensando no convite que Naruto lhe havia feito minutos atrás e na reação dele com a negativa. Depois, em tudo o que haviam vivido juntos ao longo daqueles anos: as missões completadas, os erros e acertos, o fardo envolvido na redenção de Sasuke... e como cada uma dessas coisas havia contribuído para que mudassem tanto.

Sakura não encontrou uma resposta sólida.

— Eu... acho que sim. Talvez.

Talvez — repetiu Ino, inclinando o rosto, avaliando Sakura. — Você não tem mais certeza, Sakura?

— Sendo bem justa, não — admitiu.

— Então, é bem provável que nem mesmo o Naruto tenha essa resposta. — Ino sorriu para a amiga. — Por isso, ele está hesitante em relação à Hinata. E talvez seja por isso que ele tenha te chamado para sair hoje.

Sakura ficou em silêncio.

Ino continuou:

— O Naruto está tentando entender os próprios sentimentos. E, do jeito torto dele, talvez você seja a chave para isso, Sakura.

— Eu? — Sakura engoliu em seco. — Por que acha isso?

— Porque, para o Naruto, você é bem mais do que uma amiga, companheira de time e o primeiro amor dele; é também a primeira mulher com quem ele se relacionou. — Ino encolheu os ombros. — Sakura, o Naruto cresceu sem a mãe. Ele não teve qualquer referência feminina.

Sakura pousou a mão no carrinho, pensativa. A ideia de Naruto estar perdido nos próprios sentimentos — logo ele, tão direto, tão forte, tão independente — mexia com ela de um jeito incômodo. Ainda mais se fosse ela a peça deslocada naquela confusão toda. “Naruto...”, Sakura suspirou.

— Ino... você tem certeza do que está dizendo? — perguntou.

— Ei, Testa-de-marquise, eu trabalho com mentes, já se esqueceu? — Ino fez uma careta, fingindo estar ofendida. — Emoções e padrões de comportamento, eu lido com essas coisas com frequência quando estou com meus pacientes. Sobre o Naruto, meu palpite é que ele está um pouco perdido. Ele gosta da Hinata, mas o fato de ainda pensar em você o impede de seguir adiante. E, para não ser um patife com ela, manter-se como um amigo próximo é uma posição bem segura para ele.

Sakura permaneceu em silêncio por alguns segundos.

O burburinho do mercadinho pareceu distante de repente — o tilintar do caixa, o ranger de carrinhos passando aqui e ali, o farfalhar de pessoas andando. Tudo continuava normal ao redor delas, mas aquela possibilidade recém-dita por Ino pesava diferente.

— Então... — Sakura murmurou, desviando o olhar para as prateleiras de cereais — eu sou o problema.

— Eu não disse isso. — Ino foi rápida. — Você não é um obstáculo, Sakura. Você é parte da história dele. É diferente.

Sakura fechou a mão sobre a alça do carrinho.

— Mas, se for isso... se ele ainda estiver preso a mim... então a culpa é minha.

Ino suspirou, aproximando-se um pouco.

— Testa-de-marquise, para de carregar o mundo nas costas. — Seu tom não era sarcástico; era firme. — O Naruto não faz nada porque alguém o obriga. Ele escolhe. Sempre escolheu.

Sakura sabia disso. Melhor do que ninguém.

Ainda assim, a ideia de que pudesse estar, mesmo sem querer, atrasando algo que talvez fosse inevitável entre Naruto e Hinata, incomodava-a profundamente.

— Eu não quero ser a razão para ele hesitar — disse, por fim.

— Então não seja — respondeu Ino, simples.

Sakura ergueu o olhar.

— Como?

Ino deu de ombros.

— Você já fez sua parte. Foi honesta com ele. Agora, deixa que aquele cabeça-oca descubra o resto sozinho.

Sakura respirou fundo. Talvez Ino estivesse certa — de novo. Odiava admitir, mas não era surpresa que, entre as quatro, Ino tivesse sido a primeira a conseguir um namorado. Ino Yamanaka podia ser insuportavelmente convencida às vezes... mas dificilmente estava errada quando o assunto era rapazes.

“Naruto... pelo visto vou ter que confiar em você para isso também”, pensou. “Ainda assim...”

Sakura segurou firmemente a alça do carrinho.

— Nós duas somos amigas da Hinata — disse, mudando ligeiramente o tom. — Não podemos simplesmente assistir de camarote.

Ino arqueou uma sobrancelha.

— Está propondo que juntemos aqueles dois?

— Estou propondo... facilitar as coisas.

A loira soltou uma risadinha.

— Como diria o Shikamaru, isso vai ser complicado.

Sakura sorriu de canto.

— Mas você está dentro.

— É claro.

As duas se dirigiram ao caixa, pagaram as compras e deixaram o Haruzora para trás. O sol já estava mais alto, iluminando as ruas, já movimentadas e cheias de vida, com uma claridade suave, refletindo nos telhados vermelhos e nas vitrines recém-abertas.

Ino se propôs a acompanhar Sakura até em casa, que aceitou a oferta. Elas caminharam juntas pelo centro da vila, passando por alguns quarteirões enquanto conversavam e riam entre si.

Chegaram a uma praça na qual uma feirinha havia sido montada. Sakura e Ino, inclusive, já haviam passado por ela algumas vezes. Era organizada por um grupo de pequenos produtores rurais que moravam em vilarejos nos arredores da Vila Oculta da Folha. Uma vez por semana, sempre no mesmo dia bem cedinho, traziam frutas frescas, legumes e verduras de todo o tipo, além de mel, leite, ovos, peixes e uma variedade de produtos artesanais.

Foi Sakura quem desacelerou primeiro.

— Ei, Ino... — cochichou. — Olha lá.

A loira acompanhou o olhar da amiga. Bem ali, debaixo do toldo de uma das barracas de frutas, Hinata Hyuuga escolhia peras com uma atenção serena.

Ino abriu um sorriso travesso.

— Uau... parece que o destino está a nosso favor.

— Sim — confirmou Sakura, otimista. — Vamos lá falar com ela.

Enquanto as outras duas atravessavam a rua em direção à feira, Hinata continuava escolhendo meticulosamente aquilo que levaria para casa. O feirante lhe disse algo; ela respondeu com um sorriso pequeno, educado, que curvou seus lábios com timidez quase imperceptível. Hinata se vestia de maneira simples, quase doméstica: uma blusa rosa suave, de mangas curtas; e uma saia branca, longa e fluida, que caía reta até as canelas; nos pés, sandálias pretas simples completavam seu visual. O cabelo longo descia em uma onda escura pelas costas da garota. Nada ali lembrava a primogênita da família principal do clã mais nobre da Folha — e, ainda assim, havia nela uma postura silenciosa, um modo contido de ocupar o espaço que denunciava graça e disciplina.

— Hinata! — exclamou Ino, assim que cruzaram a rua. — Ei, há quanto tempo!

Hinata se virou para as duas garotas e abriu um sorriso gentil.

— Bom dia, Sakura-san. Bom dia, Ino-san — cumprimentou, inclinando-se suavemente. — Sim. Tenho estado bastante ocupada.

Sakura sentiu um aperto leve no peito. Não de culpa. De responsabilidade. Disfarçou.

— Sabemos bem como é isso, acredite — respondeu ela. — É o preço que se paga por virarmos adultas.

— Eu acho que ainda estou me acostumando — disse Hinata, encolhendo os ombros.

— Como assim? — perguntou Ino, estudando-a com os olhos.

Hinata hesitou por um segundo, mas acabou assentindo.

— Depois que a guerra acabou, meu pai convocou uma reunião com os membros do Pequeno Conselho de nosso clã — contou. — Depois, no dia seguinte, Hanabi e eu fomos chamadas à presença dos anciãos e... bom, meu pai reconsiderou minha posição como sua herdeira e sucessora na liderança do clã Hyuuga.

Os olhos de Sakura e Ino se iluminaram.

— Hinata, isso é ótimo!

Um leve rubor subiu às faces da Hyuuga.

— Eu fiquei feliz. Mas preciso me esforçar para provar a todos que sou digna.

— Você sempre foi, Hinata! — disse Sakura, pondo uma das mãos sobre o ombro da garota. — Caramba! Eu estou tão feliz por você!

— Nós duas estamos — acrescentou Ino, sorrindo gentilmente. — Mas isso não é justificativa para a senhorita sumir de repente. Eu também sou líder de clã e tenho vida social.

— E-eu também tenho... — Hinata encolheu-se, embaraçada.

— Sei... — Ino dirigia-lhe um olhar analítico. — Então, que tal treinar com a Sakura e comigo qualquer dia desses?

Hinata piscou, surpresa.

— Treinar...?

— É isso aí. Musculação. A gente treina na Titan Core — completou Ino, apontando o polegar para Sakura. — Eu chamei essa aqui no mês passado e agora já não fala de outra coisa. Agora ela está na fase de medir as porções de cada refeição.

Hinata olhou para as outras duas e não pareceu muito convencida daquela ideia. Ela baixou os olhos para a própria roupa e trouxe a sacola um pouco mais junto ao corpo, como se apenas naquele instante se desse conta do contraste entre o que vestia e o que imaginava que precisaria usar, se quisesse acompanhar as duas amigas.

— Parece legal, mas... eu não sei se teria uma roupa apropriada.

Sakura e Ino se entreolharam. Depois caíram na gargalhada.

— Eu não acredito! — disse Sakura, entre risos. — Ino, ela acha que somos duas indecentes.

— N-não, eu não...

— É só top esportivo e shorts — acrescentou Ino, divertindo-se com a vergonha de Hinata. — Te deixam mais confortável e, depois de um bom treino, seu corpo parece que fica mais bonito quando você se olha no espelho.

— Sim, mas... — “é tão apertado! E se alguém ficar nos olhando?”, pensou Hinata, com o rosto cada vez mais vermelho.

Sakura balançou a cabeça.

— Não se preocupe, o ambiente lá é bem legal. Principalmente se nós formos bem cedinho — garantiu.

— Sakura tem razão. Nesse horário, a academia está vazia; não precisamos revezar equipamento nem contar com olhares inconvenientes — acrescentou Ino, segura. — Além disso, Tenten e Lee estão indo com a gente... — Ino deu uma leve cutucada em Sakura. — Conta para ela.

Sakura entendeu na mesma hora.

— A coitada da Tenten precisa garantir que o Lee não se esforce demais, mas é quase impossível! — disse Sakura, com um risinho. — Aqueles dois...

Hinata arregalou os olhos, surpresa.

— A Tenten-san e o Lee-kun estão...?

— Quase — antecipou-se Ino, ligeira —, mas é só uma questão de tempo.

Hinata deixou escapar um pequeno sorriso.

— Entendo.

— Vamos lá qualquer dia desses, que tal? — convidou Ino, observando Hinata com uma naturalidade estudada. — Também estou pensando em chamar o Naruto. Ei, Sakura, o que me diz?

Hinata piscou duas vezes.

— O Naruto-kun?

Sakura sorriu por dentro, entendendo tudo. Tinha que dar o braço a torcer para Ino, que soube exatamente a hora de mencionar Naruto Uzumaki naquela conversa: quando o próprio já havia dobrado a esquina e vinha caminhando, com as mãos nos bolsos e a expressão descontraída, em direção a elas. Sakura só percebeu quando viu o cabelo loiro e inconfundível de Naruto surgir ao longe. Ino, porém, como boa ninja sensorial que era, já devia tê-lo notado muito antes. “Timing perfeito, Ino”, pensou.

— Boa ideia — disse Sakura, com o rosto incapaz de esconder a empolgação —, e por falar nele, vejam quem está vindo lá! — e fez sinal para que Naruto as visse.

— Narutooo! — Ino ergueu a mão e o chamou com entusiasmo ao mesmo tempo em que fingia estar surpresa pela presença dele ali. — Ei, Naruto! Vem cá!

Hinata apertou a sacola de papel contra o peito, ainda sem se virar. O rosto dela corava — e muito. Era assim todas as vezes que se encontrava com Naruto Uzumaki sem estar devidamente preparada.

Em silêncio, Hinata contou até três.

Então, virou-se.

— Ei, Ino! Como vai? — Naruto acenou amigável, juntando-se ao trio. — E Sakura-chan... não esperava te ver de novo tão cedo.

Finalmente, Naruto pôs os olhos em Hinata e seu olhar desacelerou por um instante quase invisível. O sorriso que já estava ali pareceu se ampliar sozinho.

— Oi, Hinata... bom dia — ele a cumprimentou, coçando a cabeça meio sem jeito.

— Bom dia, Naruto-kun. — Hinata inclinou-se levemente, ainda segurando a sacola de papel contra o peito.

Para Sakura, ver Naruto Uzumaki se portar daquele jeito era simplesmente inacreditável. Ino apenas a cutucou de leve sem falar nada. Era uma forma de dizer que sempre tivera razão.

— A gente estava falando mesmo de você — disse Ino a Naruto. — O que acha de treinar com a gente? A Hinata também vai.

Naruto virou-se para a Hyuuga na mesma hora.

— O quê? A Hinata?

— Eu?! — O olhar de Hinata fugia para todas as direções. — Ino-san, eu não disse que—

— O que me diz, Naruto? — perguntou Ino.

— Não sei não, meninas — disse Naruto em tom hesitante. — A Vovó Tsunade me deu uma tarefa muito importante. Tenho que me dedicar.

Sakura sorriu.

— Você precisa se dedicar mesmo se quiser virar Jounin.

Naruto olhou-a surpreso e perguntou se ela já sabia de tudo. Sakura assentiu.

— Há muitas vantagens em ser discípula da Hokage — disse ela.

— Eu também já sabia — confessou Ino. — Achei que você pudesse conciliar o estudo com o treino... mas em se tratando de você, Naruto, é melhor não arriscar.

Naruto franziu a testa, mais confuso do que outra coisa.

— O que quer dizer, Ino?

— Nada. Te convido para a academia depois que você já tiver passado.

— Por falar nisso — Naruto olhou diretamente para a companheira de equipe —, Sakura-chan, será que você poderia... — mas parou no meio da frase.

— O que foi, Naruto? — perguntou Sakura.

Naruto olhou de soslaio para Hinata. Algo dentro dele não parecia certo.

— Esquece. — Sorriu como quem queria encerrar o assunto. — Não é nada.

Ino sacou na mesma hora.

— Bom, a gente já vai indo. Sakura e eu temos muito trabalho hoje. — Puxou a outra pelo braço. — Naruto, foi legal te ver. E Hinata, aparece lá em casa qualquer dia. Vamos tomar um chá juntas, que me diz?

Hinata sorriu docilmente.

— Eu adoraria, Ino-san.

— Naruto — Sakura o chamou em tom exigente —, se não tiver nada para fazer agora, quero que você leve a Hinata até em casa.

As bochechas de Naruto coraram.

— Mas eu já—

— Naruto!

Quando as outras duas finalmente os deixaram e Naruto se viu a sós com Hinata, a primeira reação dele foi coçar a cabeça enquanto desviava o olhar.

— Bom... — Naruto ia erguendo o rosto, sem jeito. — O que eu ia dizer é que eu já estava mesmo pensando em te acompanhar até em casa.

Hinata olhou para ele e travou. Ainda que Naruto já estivesse se mostrando bastante gentil e atencioso para com ela nos últimos meses, Hinata não estava totalmente acostumada. Desejava a companhia dele, mas, ao contrário de Ino, não sabia como se portar.

— Tem certeza? — ela perguntou timidamente. — Eu não quero incomodá-lo, Naruto-kun.

Naruto fez que não e estufou o peito, sorrindo.

— Anda, Hinata. Deixa que eu levo a sacola.



Caminharam bastante tempo em silêncio, apenas aproveitando a companhia um do outro. Naruto carregava as compras e Hinata acompanhava seus passos. Vez ou outra, de forma quase involuntária, Naruto virava o rosto apenas para se certificar de que Hinata permanecia andando ao seu lado.

Para Naruto, aquela era uma sensação estranha. Agradável, mas estranha. Ele conhecia Hinata desde os tempos da Academia e estivera ao lado dela incontáveis vezes; ainda assim, ultimamente, estar na presença dela despertava nele uma inquietação difícil de explicar. Perto dela, Naruto sentia que precisava ser melhor. Menos impulsivo. Menos idiota. Não porque Hinata exigisse isso dele, mas porque, de alguma forma que ele ainda não sabia explicar direito, ela havia se tornado importante demais. Mesmo sendo forte e capaz de lutar por si mesma, Hinata despertava nele uma vontade quase instintiva de protegê-la.

— E aquela história de academia... — ele comentou, tentando puxar assunto. — Você vai mesmo?

Hinata puxou uma mecha de cabelo para trás.

— A Ino-san foi bastante insistente.

— O Shikamaru já me disse uma vez que a Ino é bem mandona e não desiste fácil das coisas. Depois, o Sai me contou que ela pode ser bem persuasiva... e que isso o assustava às vezes.

Hinata soltou um pequeno riso.

— Alguma notícia do Sai-kun? — perguntou.

Naruto fez que não.

— A última vez que ele enviou um relatório à Vovó Tsunade foi há duas semanas — disse. — Eu não esperava que essa missão dele fosse demorar tanto.

— Tomara que ele volte logo.

— Sim. — Naruto fez uma longa pausa. Quando voltou a falar, havia algo diferente em sua voz. — Mas e você, Hinata... vai aceitar o convite da Ino e da Sakura-chan?

Hinata hesitou.

— Eu não sei. Parece interessante, mas...

— Mas...?

— Lá... — ela sentiu o calor subir devagar pelo rosto — as pessoas usam... aquelas roupas de treino, não é?

— Usam.

Hinata notou a veemência da resposta dele e piscou.

— Ino-san disse que é mais confortável daquele jeito.

E Naruto quase tropeçou. A imagem veio sem pedir licença: Hinata vestida como Ino estava naquela manhã. O mesmo tipo de top ajustado, os mesmos shorts marcando a silhueta. E, diferente de qualquer outra garota da vila, Hinata tinha uma delicadeza que tornava aquela ideia... perigosa. Não perigosa para ela, mas para ele mesmo. Isso porque Naruto não estava acostumado a pensar em Hinata daquele jeito.

E, pior, não gostava da ideia de outros pensarem.

— Ah — resmungou, olhando para frente. — Entendi.

Hinata observou-o com cuidado.

— Isso... incomoda você?

Naruto parou de andar por um instante.

— O quê? Não! Quer dizer... não é isso.

Ele respirou fundo, irritado consigo mesmo por não conseguir organizar a própria cabeça. “Estou bancando o idiota, droga”.

— Eu só... — franziu a testa, buscando as palavras certas — eu não curto a ideia de um monte de cara te olhando.

Hinata arregalou os olhos. Ela mesma se preocupar com olhares inconvenientes era uma coisa. Naruto também se preocupar com isso era outra completamente diferente.

— E-eu não entendi.

Naruto coçou a nuca, visivelmente constrangido. Aquela conversa estava tomando um rumo completamente inesperado, e dali para frente não parecia haver volta.

— É que você é... — ele começou, mas travou. Nunca tivera dificuldade em elogiar alguém. Mas aquilo era diferente. — Você chama atenção.

Hinata não respondeu. Apenas o fitou, esperando.

Naruto desviou os olhos, sentindo o rosto esquentar.

— Quer dizer... é óbvio, não é? Você é muito bonita.

Depois daquelas palavras, o mundo pareceu encolher ao redor deles. Hinata sentiu o rosto arder. Já Naruto desviou o olhar imediatamente depois de dizer aquilo, como se tivesse revelado mais do que pretendia.

— Não que isso seja um problema... — ele gesticulou, confuso. — É claro que você pode usar o que quiser. Eu só... não gosto da ideia de alguém olhando para você do jeito errado.

Hinata baixou os olhos por um instante, tentando processar aquilo. “O Naruto-kun está com ciúmes?”, o pensamento a assustou quase tanto quanto a alegrou.

— Não se preocupe — acrescentou ela, de pronto. — Eu sei me cuidar.

Naruto sorriu. Naquele momento, sentiu parte da tensão deixar seus ombros.

— Eu sei que sim.

O silêncio que se formou entre os dois enquanto retomavam a caminhada não era igual ao de antes. Havia algo novo ali, algo que nenhum dos dois parecia saber onde exatamente colocar.

Hinata olhou de relance para Naruto e deu um sorrisinho.

— Mesmo assim... obrigada.

— Hã? Pelo quê?

— Por se preocupar.

Naruto abriu a boca para responder, mas nenhuma frase pareceu boa o bastante. No fim, apenas deu de ombros, tentando recuperar alguma naturalidade.

— Eu sempre me preocupo com você.

Hinata sentiu o coração acelerar outra vez. E Naruto percebeu tarde demais o peso do que havia dito.

— Quero dizer... somos amigos, não é mesmo? — acrescentou depressa. — É algo natural.

Hinata sorriu, e havia algo de doce naquele sorriso, mas também algo levemente divertido.

— É claro que sim, Naruto-kun.

Naruto não soube dizer se ela havia acreditado de verdade. Pela forma como Hinata sorria — tímida, sim, mas com um brilho quase travesso escondido no olhar —, talvez não. E isso, por algum motivo, o deixou ainda mais sem jeito.

Ele pigarreou.

— Então... você anda ocupada mesmo, né?

Hinata pareceu grata pela mudança de assunto. O caminho para o Distrito Hyuuga ficava mais calmo à medida que se afastavam do centro da vila. As ruas largas davam lugar a vielas mais silenciosas, cercadas por muros bem cuidados, árvores antigas e casarões de uma elegância austera. Naruto conhecia aquele trajeto melhor do que antes da guerra, mas ainda sentia que o ar mudava quando se aproximava dali. Tudo era mais quieto. Mais rígido.

Hinata acompanhou o olhar dele por um instante.

— Um pouco — ela respondeu.

— A Sakura-chan e a Ino falaram como se você tivesse sumido.

— Eu não queria preocupar ninguém. Mesmo.

— Isso geralmente é o que as pessoas dizem quando estão preocupando todo mundo.

Hinata abaixou os olhos, mas sorriu.

— Talvez você tenha razão.

Naruto a observou atentamente.

— É por causa do seu pai? Ou daqueles conselheiros idiotas?

Hinata demorou um segundo para responder.

— Um pouco dos dois, eu acho.

Naruto reduziu o passo.

— Ei, aconteceu alguma coisa?

Ela respirou fundo e contou tudo o que já havia dito às meninas sobre a decisão do pai de reconsiderar sua posição como herdeira legítima do clã. Quando terminou de falar, Hinata viu Naruto encarando-a com aquele par de olhos azuis-safira arregalados, como se tivesse acabado de ouvir a melhor notícia do dia.

Então o rosto dele se abriu em um sorriso enorme.

— Isso é incrível!

A reação dele foi tão imediata, tão limpa de qualquer dúvida, que Hinata sentiu o peito aquecer.

— Ainda não é definitivo — ela ressaltou. — Meu pai reconsiderou, mas os anciãos observam tudo. Preciso provar que sou capaz.

Naruto franziu a testa.

— Você já fez isso. Mais de uma vez. Ora, o que mais eles querem?

— Eu fui considerada fraca durante muito tempo — Hinata suspirou. — Esse tipo de estigma não desaparece de um dia para o outro, principalmente no meu clã.

— Mas não é verdade! — disse Naruto, impaciente. — Você é corajosa, determinada e bem forte. E provou isso para todos na guerra.

O jeito simples como ele falava fez Hinata sorrir. Para Naruto, certas coisas pareciam óbvias demais. Se alguém lutara, se levantara, se recusara a desistir, então aquilo bastava. O mundo, porém, nem sempre funcionava com a mesma clareza do coração dele.

E Hinata, bem mais do que Naruto, sabia como o Pequeno Conselho do clã Hyuuga funcionava.

— Para algumas pessoas, a guerra não mudou tudo — “e isso também está relacionado a você, Naruto-kun”, completou em pensamentos.

— O que quer dizer? — Naruto perguntou, como se tivesse lido os pensamentos dela.

Hinata olhou-o com pesar.

— Que o Pequeno Conselho também não te vê com bons olhos, Naruto-kun — disse ela, por fim. — Sabe a que me refiro, não sabe?

Naruto assentiu, o semblante fechado.

— Sei sim. — Naruto pousou a mão livre sobre o estômago. — Para eles, eu não passo de um Jinchuuriki.

Hinata abaixou os olhos, envergonhada. Como filha da Casa Principal, já ouvira de tudo. Para alguns dos anciãos, Naruto ainda era uma criatura instável e repulsiva, que se tornara muito mais perigosa após receber o chakra de todas as demais Bestas com Caudas. Para outros, uma arma que poderia ser manipulada em nome dos interesses da Folha, quiçá do próprio clã Hyuuga — até porque a proximidade entre Naruto e Hinata já era percebida pelos demais membros do clã; e para os anciãos do Pequeno Conselho, a primogênita da Casa Principal se relacionar com o Herói do Mundo Ninja e futuro candidato a Hokage era uma oportunidade de ouro.

O Pequeno Conselho dos Hyuuga estava dividido acerca de Naruto Uzumaki; e nenhum dos lados o enxergava como ser humano.

— Eu quero mudar tudo isso — disse Hinata, olhando Naruto nos olhos. — Quero honrar a confiança do meu pai. E a memória do Neji-niisan.

Naruto desviou o olhar para o horizonte. Por alguns segundos, a lembrança do campo de batalha voltou com nitidez demais: estacas de madeira por toda parte, o corpo frio de Neji diante dele, o sangue, e a mão de Hinata segurando a dele quando ele mesmo quase se perdeu.

— Neji... ele acreditava em nós dois — disse Naruto, voltando à realidade. — Não podemos decepcioná-lo, não é mesmo, Hinata?

Ele conseguiu arrancar um sorriso dela.

— Sim. Vamos nos esforçar, Naruto-kun.

Seguiram em silêncio por mais alguns passos. Dessa vez, não era um silêncio constrangido. Era memória compartilhada. Um laço que Naruto e Hinata compartilhavam apenas entre si.

Naruto ajustou a sacola de compras na mão.

— Então, se quiser treinar para impressionar seu pai e aqueles velhos, eu dou uma força.

Hinata piscou.

— Você?

— O que foi? — Naruto fez uma careta. — Eu sou bom de treino!

Ela riu baixinho.

— Eu sei. Não estou fazendo desfeita. É que isso é diferente.

— Sabe — Naruto coçou a nuca —, eu não entendo nada desse negócio de sucessão de clã, mas posso te ajudar a ficar mais forte. E, se algum velho desse tal Pequeno Conselho disser alguma coisa, eu vou lá e—

— Naruto-kun — Hinata o interrompeu gentilmente.

— O quê?

— Acho melhor não ameaçar os anciãos do meu clã.

Naruto deu de ombros.

— Justo. Vou esperar você virar a líder Hyuuga primeiro.

Hinata soltou outro riso, e Naruto sentiu aquela mesma sensação estranhamente agradável de antes. Naruto gostava de ouvir Hinata rir. Parecia música. Era como se ele estivesse diante de uma porta que sempre estivera ali, mas que só agora ele começava a notar.

— Mas eu falo sério — disse ele. — Se precisar de ajuda, pode me chamar.

Hinata sustentou o olhar dele por um instante.

— Eu vou me lembrar disso.

Naruto assentiu, satisfeito. Depois, como se a notícia dela tivesse puxado outra coisa de sua mente, ele acrescentou:

— Na verdade... eu também queria te pedir ajuda com uma coisa.

Hinata inclinou levemente a cabeça.

— Claro. O que precisa?

— Sabe, é sobre o Exame Jounin.

Hinata esperou-o pacientemente.

— A Vovó Tsunade disse que a primeira fase vai ser teórica — explicou Naruto, fazendo uma careta. — Uma prova escrita, entende?

— Entendo.

— Pois bem, eu queria saber se... — “Droga, por que eu estou nervoso? É a Hinata!”, pensou Naruto — se a gente poderia, bom, estudar junto. Digo, se você poderia me ajudar a entender algumas coisas, se isso não fosse te atrapalhar, é claro.

Naruto pretendia pedir esse favor à Sakura, até porque, estando a sós com ela, poderia esclarecer algumas coisas. Quando teve a chance, porém, não se atreveu a falar. Não na presença de Hinata. Agora, estava pedindo esse favor para a própria Hinata. Naruto não compreendia exatamente por que fizera aquilo, mas sentiu que precisava fazê-lo. E não se arrependeu da escolha que tomara.

Hinata ficou em silêncio.

— Então... — Naruto respirou profundamente — você me ajuda?

Hinata demorou a responder. Não porque estivesse com dúvida, mas porque estava realmente surpresa.

— Eu posso tentar — respondeu ela, por fim.

Tentar? — Naruto abriu um largo sorriso. — Nada disso. Você vai me ajudar. Sei que também é ótima com essas coisas. No primeiro Exame Chuunin que fizemos, só você e a Sakura-chan responderam todas as questões.

— Você ainda se lembra disso? — surpreendeu-se Hinata.

Naruto fez que sim.

— Sei que é tão inteligente quanto a Sakura-chan e o preguiçoso do Shikamaru — disse ele. — Além disso, confio em você.

As bochechas de Hinata coraram.

— Tudo bem, Naruto-kun. Mas, se for assim, vou precisar ser um pouco rigorosa.

O sorriso dele vacilou.

— Rigorosa quanto?

— Não sei — disse Hinata calmamente. — Isso vai depender do seu desempenho.

— Isso não ajudou muito.

Hinata riu, e Naruto soube que falara a coisa certa mais uma vez. Ser a razão do sorriso dela era algo com o qual Naruto já estava se acostumando.

— Então está combinado — disse ele. — Você me ajuda com a parte escrita. E eu te ajudo com o treino, se você precisar.

— Combinado.

Quando chegaram ao portão do complexo Hyuuga, o sol já estava um pouco mais alto. O Distrito Hyuuga se erguia diante deles com a mesma elegância silenciosa de sempre: muros altos, telhados escuros de beirais curvados, jardins meticulosamente aparados e caminhos de pedra tão limpos que pareciam varridos pelo próprio vento. Diferente do centro da vila, onde vozes, passos e risadas se misturavam sem cerimônia, ali tudo parecia obedecer a uma ordem invisível. As casas eram amplas, tradicionais e bem cuidadas; os pátios internos, discretos; as árvores, posicionadas como se também conhecessem seu lugar. Havia beleza em cada detalhe, mas uma beleza contida, quase severa, do tipo que não convidava qualquer um a entrar. Toda vez que passava por lá, Naruto ficava impressionado com o modo como os Hyuuga conseguiram reconstruir um distrito daquele tamanho em tão pouco tempo, logo após o ataque de Pain.

Hinata e Naruto pararam diante da entrada principal da família principal.

— Chegamos.

— Sim, obrigada por me acompanhar, Naruto-kun.

Hinata estendeu as mãos para receber a sacola, que Naruto entregou com cuidado. Os dedos dos dois se tocaram por um instante, e ambos pareceram sentir uma espécie de eletricidade com o toque; mas não comentaram nada.

— Não foi nada. — Naruto enfiou as mãos imediatamente nos bolsos, tentando disfarçar o ocorrido. — E... obrigado por aceitar me ajudar, Hinata.

— Mas eu ainda nem comecei.

— Já é melhor do que eu tentando estudar sozinho.

Hinata sorriu.

— Então, quando começamos?

— Você já quer marcar o dia? — Naruto arregalou os olhos.

— O exame é em três meses, não é?

— Bom... sim.

Hinata inclinou a cabeça, divertida.

— Amanhã às duas da tarde?

Naruto quase protestou. Quase. Se queria virar Jounin, precisaria levar os estudos a sério, e isso começava pelos horários. Além disso, a ideia de encontrar Hinata novamente já no dia seguinte não parecia ruim.

Na verdade, era boa demais para ser recusada.

— Amanhã às duas da tarde — confirmou.

Hinata assentiu.

— Então, até amanhã, Naruto-kun.

— Até amanhã, Hinata.

Ele deu alguns passos para trás antes de se virar, como se demorasse um pouco mais do que o necessário para ir embora. Hinata permaneceu junto à porta, acompanhando-o com os olhos enquanto ele se afastava pela rua arborizada.

Só então deixou o sorriso aparecer por completo.

— Vai ficar aí olhando seu namorado ir embora ou vai entrar?

Hinata deu um pulo quase imperceptível.

— H-Hanabi! — exclamou.

A irmã caçula havia deslizado a porta sem que Hinata sequer percebesse. Hanabi estava parada bem debaixo dos trilhos, de braços cruzados e uma expressão tranquila e divertida. Seu olhar astuto foi de Hinata para a figura loira que ia se afastando ao longe.

Um sorriso zombeteiro se formou nos lábios da irmã caçula.

— E então, quando vocês vão se assumir? — perguntou Hanabi sem a menor cerimônia.

O rosto de Hinata ficou vermelho num instante.

— N-não é nada disso!

Hanabi ergueu uma sobrancelha.

— Sei. Estou de olho em vocês dois, Hinata-neesama.

E, como se tivesse acabado de comentar sobre o clima, a garota virou-se para entrar na mansão.

Hinata ficou para trás por mais um segundo, apertando a sacola contra o corpo, o coração ainda acelerado.

Depois respirou fundo.

E entrou também.

Notas finais
Obrigado a todos por acompanharem até aqui! Como prometido, este capítulo é muito diferente (e, cá entre nós, melhor) em relação à versão original. Deu bastante trabalho, mas valeu a pena. :) O próximo capítulo deve ser postado na próxima quinzena, dia 25.06.26. Até o próximo capítulo! o/