O Herói de Gulliver Holanda
1 O Herói de Gulliver Holanda
Esses corredores repletos de armários sucumbem à escuridão cada vez mais, e os alunos já não se sentem seguros nem para ir até a cantina. Essa escola precisa de um herói. Essa escola precisa de mim.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Quando eu estava na sétima série, a coordenadora da minha classe perdeu todas minhas atividades e provas registradas, e isso resultou com que eu ficasse de recuperação em todas as matérias. Foi horrível. Desde aquele dia, jurei que nunca mais permitiria que aquilo acontecesse com ninguém, ocupei meus dias estudando a matéria de todas as provas até o colegial e treinando meu corpo para todas as aulas de educação física que estivessem por vir. (Claro que depois de ficar umas três semanas inteiras de castigo).
Para os olhos do aluno e professor comuns, eu sou Malcon Heine, um aluno comum com notas ligeiramente acima da média, mas, na escuridão dos corredores, no tocar do sinal e quando você mais precisar, eu serei Recman, o herói que essa escola precisa.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Com o sinal que indica o fim da terceira aula, saio da classe junto dos outros alunos da oitava série para nossa merecida hora de intervalo.
-Malcon, venha jogar basquete conosco. – Jorge Pedro Palha me convida.
-Me desculpa, não sou muito fã de basquete. – Recuso educadamente.
Afasto-me do pessoal da minha classe e logo encontro a multidão da oitava série B.
-Malcon. – Tábata Stephan me chama.
Tábata é a única pessoa nessa escola que conhece meu segredo, e ela é responsável por intermediar minhas ações, geralmente ela é quem traz os problemas do colégio a meu conhecimento.
-Algum problema, senhorita Tábata?
-Na verdade sim. – Os grandes olhos sempre delineados de cor preta de Tábata deixavam claro quando ela sentia preocupação. – Temos um código B na ala 27. – Disse categoricamente.
-Obrigado. – Sorri.
Tábata e eu compartilhamos o mesmo senso de justiça, por isso ela me ajuda.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
-Quanto é a grana do lanche hoje, babaca?
-Esse dinheiro é para eu comer, Jeferson.
Jeferson Almeida, tem quase dez detenções, vive na sala da diretora, se auto intitula “funkeiro ostentador”. O tipo de criminoso mais comum daqui, e o tipo de criminoso do qual eu prometi livrar essa escola.
-Vamos, pode passar tudo, otário. – Antes que Jeferson arrancasse o dinheiro das mãos de sua vítima, é interrompido por três lápis de cor que voam em sua direção e se prendem na parede ao seu lado. – O... O que é isso?
-Recman! – O garoto que estava sendo extorquido me reconhece, mas é claro, não consegue enxergar quem sou por debaixo de minha máscara e meu uniforme.
-R... Recman?! – Jeferson exclama confuso. – Você existe mesmo?
Imediatamente saco dois esquadros de minha cintura e começo a girá-los em meus dedos, enquanto me aproximo do agressor.
-O solte. – O garoto obedece, aterrorizado.
-Agora você vai se entregar para a diretoria.
-Isso nunca! – Jeferson corre pelos corredores, fugindo de mim.
Desde que me tornei Recman, jamais deixei que um criminoso fugisse de meu julgamento, e esse não seria exceção. Corri atrás dele, trazendo as cores negras de meu uniforme de justiceiro comigo.
Atirei meus esquadros afiados contra ele, mas a velocidade da fuga de Jeferson inutilizou minha mira, fazendo com que ambos atingissem a parede.
-Com licença. – Pego das mãos de um aluno que anda pelos corredores um esqueite que carregava e subo no veículo, dando impulsos poderosos.
Começo a perseguí-lo incessantemente, investindo todo meu fôlego nos impulsos que dava para arrastar o esqueite preto. Fazia todas as curvas com maestria, acompanhando Jeferson na troca de corredores e alas da escola, mas mesmo assim, era difícil de alcança-lo. Uma pessoa desesperada consegue tirar forças de qualquer lugar.
Rapidamente, a distância entre nós dois diminui, mas o garoto ainda está conseguindo fugir. Decido me jogar para trás e cair no chão, dando, desta maneira, o máximo de impulso possível para que o esqueite avance sozinho, visto que estávamos em um corredor completamente reto.
“Eu conheço cada corredor dessa escola”. Penso, estirado ao chão, enquanto meu esqueite corre até Jeferson e dá uma rasteira nele, fazendo-o tropeçar e cair. No instante seguinte, estou em cima dele, impedindo que se levante.
Tábata aparece, acompanhada da inspetora de corredor, Roseta, algumas pessoas estão em volta também, inclusive Julio Cécil, o garoto que estava sendo extorquido por Jeferson.
-Ele estava roubando dinheiro de um colega, senhorita Roseta.
-Quem é você? – Ela pergunta meio hipnotizada.
Levanto-me e pego o esqueite que estava caído na cena do crime.
-Senhorita Tábata, por favor, entregue isto para o senhor Gabriel Agnes da oitava série A. – Entrego o esqueite para minha amiga Tábata e então me viro para Roseta. – Quem sou eu? Eu sou seu amigo de todas as horas. Eu sou Recman. – E desapareci por entre a confusão que se formava no local.
Jeferson Almeida foi devidamente punido, pegou detenção e levou uma baita bronca de seus pais, Júlio Cécil nunca mais foi importunado depois que a notícia de que ele tinha a proteção de Recman se espalhou, até conseguiu fazer novos amigos. E quanto a mim? Bem, eu continuo com Tábata a varrer o mal que assola os corredores do colégio Gulliver Holanda, e farei isso até o fim.
Fale com o autor