O Herói da Profecia
7 Vilarejo
O calor do sol aquecia a colina, e os pássaros nos arredores começaram a cantar. Arya acordou ouvindo aquele som melodioso, era a primeira vez que acordava assim, "é maravilhoso!" Ela se levantou, enquanto apreciava a linda música, mas logo escutou alguns ruídos que vinham do lado de fora, e saiu da tenda curiosa. Era Alex, que já estava de pé, andando de um lado para o outro, arrumando as coisas para partirem, mas parou ao vê-la.
— Ah, você já acordou...
— Você não dormiu? — Ela espreguiçou os braços.
Ele se aproximou dela e começou a desarmar a tenda.
— Um pouco... — Ele dobrava o tecido. — Não estamos muito longe do vilarejo, chegaremos bem rápido lá.
— Isso é muito bom.
Arya olhou para ele, seu braço ainda estava enfaixado, exatamente do mesmo jeito que ela havia deixado na noite anterior. Mas ele parecia não se incomodar nem um pouco com o machucado, fazendo tudo normalmente, sem a menor dificuldade. "Ele deve estar acostumado a esse tipo de coisa, já que é um guerreiro." Por um instante, as imagens da noite passada começaram a percorrer sua mente, e então ela se deu conta de que estava fitando-o com o olhar. Com um breve sobressalto, ela se apressou e foi ajudá-lo a arrumar o restante das coisas.
Depois de terem recolhido tudo e colocarem nos cavalos, os dois finalmente montaram e seguiram a viagem. Eles andavam calmamente pela estrada, e um silêncio sepulcral pairava no ar, exatamente como a primeira parte do trajeto. Os únicos sons que podiam distinguir, eram os cantos de pássaros nas redondezas, ou algum inseto que de vez em quando passava por eles. Mesmo sendo apenas para investigar o problema dos Drakmons, Arya estava gostando da viagem. Fazia tanto tempo que ela não saía em passeio assim. Desde a morte de sua mãe, seu pai havia se tornado extremamente protetor, de tal modo que quase não permitia que ela deixasse o castelo. "Me surpreende ele ainda não ter mandado um esquadrão atrás de mim..." Ela pensava enquanto cavalgavam.
Era por volta do meio dia, quando Alex parou no meio da estrada.
— Chegamos — ele disse.
Arya estava tão distraída que quase não percebeu, mas já era possível ver o vilarejo estrada abaixo. Visto de longe, era um lugar muito pequeno e pobre. À medida que se aproximavam, conseguiu distinguir não mais do que vinte ou trinta casas, e em comparação a Fairth, não passava do tamanho de um bairro. Chegando perto da entrada do vilarejo, Alex fez um sinal para que ela descesse do cavalo, e então os dois seguiram caminhando lado a lado, cada um segurando seu cavalo pela rédea.
Ao entrarem na pequena vila, Arya observou de perto as casa, todas com marcas horríveis de destruição, muito piores do que as casas mais pobres de Fairth.
— Nossa... O que é isso? — Ela olhava para as casas.
— É o que você está vendo... O resultado dos ataques.
— É horrível.
Enquanto caminhavam devagar, ela prestava atenção em cada detalhe do lugar.
— Alex! — Uma voz gritou ao longe.
Arya virou a cabeça para a fonte do grito, e foi quando percebeu que algumas crianças do vilarejo vinham correndo na direção deles, com grandes sorrisos no rosto. Pararam na frente de Alex, completamente vidradas nele.
— Alex você voltou! — Elas abraçavam ele enquanto gritavam euforicamente.
Arya ficou apenas observando, enquanto as crianças se acalmavam e começaram a se dispersar pouco a pouco. Mas um pouco mais longe, ela pôde ver um garotinho, correndo até eles.
— Alec! Alec! Você chegou! — O garotinho chegou perto deles.
Ela achou engraçado a maneira que ele chamava por Alex. O garoto devia ter por volta de 4 ou 5 anos, tinha o cabelo marrom-avermelhado, todo bagunçado e carregava uma pequena espada de madeira em sua mão.
— Luca! — Alex se abaixou e abraçou o garoto.
— E quem é ela? É sua namorada? — Ele apontou para Arya, que olhou para ele surpresa com a pergunta inesperada.
— Não Luca! E-ela não é minha namorada... — Ele respondeu meio sem jeito. — Ela é a princesa.
— Princesa? De verdade? Você é muito bonita! — Ele parecia maravilhado com ela.
— Ah, muito obrigada! E você parece ser um rapazinho muito forte! — Ela se abaixou na frente dele.
— Sim. Eu estou treinando, para ser como o Alec! — Ele mostrou a espada, fazendo pose. — Olha só Alec! Papai disse que ela era sua! Agora eu posso ser como você e proteger o vilarejo!
Luca olhou para eles contente, e logo saiu andando na direção de uma casa.
— Espera só até papai saber que você voltou! — Ele falou antes de entrar em casa.
Arya se levantou sorrindo, ela achava cômico, e de certa forma fofo, ver como Alex era tão estimado pelas crianças, principalmente o Luca. Aliás, uma dúvida atravessava sua mente agora, "Será que Alex e Luca são irmãos?"
— Me desculpa por isso...
— Tudo bem. — Ela disse enquanto caminhavam.
Eles caminharam devagar até uma espécie de poste, feito para amarrar as rédeas dos cavalos, e após prender os animais, foram em direção à casa em que Luca havia entrado. Mas Arya queria saber a resposta para sua pergunta.
— O Luca... É seu irmão? — Ela não aguentou a curiosidade.
— Na verdade... — Ele começou a dizer, mas foi interrompido.
A porta da casa se abriu de repente. Um homem alto e forte, de barba e cabelos marrom-avermelhados como os de Luca, saiu com um sorriso no rosto. Ele veio até Alex, que estava a apenas uns poucos metros da casa.
— Alex! — O homem estendeu as mãos.
— Horst! — Alex o cumprimentou com um grande aperto de mão.
— Achei que não ia mais voltar.
— Me desculpa, tive que resolver umas coisas...
— Princesa Arya! — Ele se ajoelhou em reverência, ao perceber a princesa.
— Por favor... Não precisa se ajoelhar — ela disse.
— O que traz vossa alteza aqui? Não temos muito o que oferecer agora que sofremos ataques constantes de Drakmons.
— Não se preocupe, estou aqui para tentar ajudar. Um carregamento de mantimentos sairá de Fairth amanhã no máximo. -Ela fez uma breve pausa. — Mas eu vim aqui para investigar o motivo dos Drakmons estarem atacando tão perto de Fairth.
— Em nome de todo o vilarejo, eu agradeço muito... — Ele abriu a porta da casa, fazendo gesto para entrarem. — Por favor, entrem.
Arya entrou, seguida por Alex e Horst. No geral a casa não era nem muito grande, nem muito pequena. Os móveis, assim como o piso, eram feitos de madeira, e na sua maioria, tinham uma aparência antiga. O cômodo que ela se encontrava, a sala, era espaçosa e simples, continha apenas um sofá e uma pequena lareira, e em um canto mais afastado, ela pôde ver uma mesa de jantar. No lado oposto da sala, uma escada levava ao andar de cima. Mas ela percebeu que a medida que entrava na sala, a expressão no rosto de Alex começava a mudar.
— E como estão todos... Depois que...
— Ah... Você sabe... O vilarejo nunca mais foi o mesmo depois que Kassandra morreu...
— Eu vou sair. — Alex estava claramente irritado. — Vou procurar vestígios desses monstros!
Alex saiu da casa novamente, Arya não entendeu o porquê de tal atitude repentina dele. "Seria por causa da tal Kassandra?" Era evidente que ele ficou nervoso ao escutar aquele nome. "Mas quem era Kassandra?... Há tantas coisas que eu não sei sobre ele..." Ela se apressou foi atrás dele, que já caminhava na direção da floresta que rodeava o vilarejo.
— Eu vou com você!
— Não! Fique aqui, é mais seguro. — Ele tinha um tom severo.
Ela parou e observou enquanto ele desaparecia em seu campo de vista. Horst estava na porta de casa, vendo tudo acontecer.
— Não se preocupe... Ele vai ficar bem. — Ele abriu mais a porta, indicando para ela entrar. — Ele sempre teve esse jeito de querer proteger todo mundo.
— Horst... — Arya se aproximou do sofá e sentou, pensativa. — Quem era Kassandra?
— Era minha filha... — O rosto de Horst se entristeceu. — Ela se feriu gravemente em um dos ataques de Drakmons há um ano, e acabou morrendo... Alex não estava aqui, e se culpa por isso.
— Eu entendo, é difícil perder alguém da família...
— Sim... E Alex sabe disso mais do que qualquer um de nós.
— O que quer dizer?
— Os pais dele morreram quando era recém nascido... Nunca teve a chance de conhecê-los.
— Então quer dizer que ele não é...
— Meu filho? Não... Mas eu o criei como se fosse.
A sala ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto Arya processava todas as informações que acabara de descobrir.
— Ele gostava dela...?
— Eles cresceram juntos... Eram como irmãos... Mesmo sendo um ano e meio mais velho, Alex tinha uma grande admiração por ela. Aos 18 anos, Kassandra já se preocupava com os problemas do vilarejo, e estava ensinando as crianças a ler e escrever...
Eles continuaram conversando por algum tempo, e quando ela percebeu, o céu lá fora já estava escuro, e o dia chegava ao fim. Alex finalmente retornou da floresta, e entrou em casa. Arya e Horst ainda estavam na sala e levantaram assim que ele entrou, para ouvir as novidades.
— Eu encontrei vestígios dos Drakmons! Dezenas deles passaram por perto daqui! — Alex parecia irritado.
— Alex... Já está tarde, por que não tratamos disso amanhã?
— Eu tenho um quarto vazio, além do de Alex, podem ficar aqui se vocês quiserem.
— Nós aceitamos, obrigada.
Arya percebeu que ele continuava nervoso, por isso quis deixar aquele assunto de lado por enquanto, até que ele se acalmasse. Além disso, ele certamente deveria estar cansado, após viajar a manhã inteira e vasculhar a floresta procurando pistas dos Drakmons. Pelo menos ela, estava se sentindo exausta.
Subindo as escadas e seguindo as instruções de Horst, entrou no segundo quarto à esquerda, onde ela passaria a noite. Como o resto da casa, era espaçoso, no entanto, em comparação com seu quarto no castelo, era bem pequeno, mas ela não se importava com isso. Andando até a janela, começou a observar o céu já cheio de estrelas. Ela ouviu uma batida na porta, mas apenas teve tempo de se virar. A porta se abriu e uma mulher entrou no quarto, carregando algumas roupas e cobertores.
— Com licença, princesa Arya! — Ela disse enquanto colocava as coisas na cama.
— Você deve ser a mulher do Horst, Elga. Certo?
— Isso mesmo! — Ela olhou para Arya sorrindo.– Desculpe os meus modos... É um prazer conhece-la. — Ela fez uma pequena reverência.
— Ah... Não se preocupe com isso.
— Bom... Eu trouxe cobertores e algumas roupas. Eram de minha filha, mas acho que vão servir bem se quiser.... — Ela voltou para porta. — Vou deixar você descansar agora.
Elga saiu e fechou a porta do quarto. Arya se aproximou da cama e observou as roupas. Haviam dois vestidos, um azul-escuro e o outro rosa claro, ambos eram simples se comparados aos vestidos que estava acostumada a usar, mas tinham lindos detalhes feitos à mão. "Esses eram os vestidos de Kassandra..." Junto com os vestidos havia também uma camisola. Cansada e já atormentada pelo sono, tirou seu vestido e vestiu a camisola, colocou os outros vestidos em cima da mesa de cabeceira, e deitou-se na cama, se entregando ao sono.
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