O Herói Homogêneo
1 O Encontro Com A Mulher dos Cabelos Dançantes
Ao longe, diversas luzes cintilavam espalhadas por entre os prédios e edifícios em geral, de forma que, com o auxílio das estrelas que decoravam os céus ao lado da Lua, iluminavam a cidade. Como se ela já não fosse luminosa o suficiente. De qualquer forma, não podia negar que tudo aquilo era lindo: principalmente da vista de seu apartamento, no sétimo andar. Amava aquele local, sempre o tivera como casa, e não esperava que isso mudasse. Era tão belo que poderia ficar apreciando o local a noite toda, apoiado na borda da varanda como sempre fazia, não fosse um pequeno “problema”.
– Para alguém que estava tão entusiasmado, você não esta com tanta pressa assim não é, garoto? – disse alguém, logo atrás dele. E nem meio olhar seria necessário para que percebesse que a voz vinha de Hector, o inquilino do outro apartamento que Nathan e a mãe possuíam no prédio, no andar de cima (mas que parecia passar mais tempo na casa deles no que na alugada). Ambos trocaram sorrisos e apertos de mão enquanto o jovem se segurava para não rir da situação do próximo. Estava vestindo uma pantufa de coelhinhos, um roupão rosa que devia ser da mãe de Nathan e uma xícara de leite com chocolate. Se ele fosse trinta anos mais novo, aquilo poderia convencer algum adulto de que ele era fofinho. O que não era o caso.
– Ainda faltam alguns minutos para eu sair, o show só começa às nove horas. Oficialmente. Ou seja, umas nove e meia eu saio daqui. – proferiu, como se houvesse programado tudo de antecedência...
– Certo. Então você vai ter que sair daqui a menos cinco minutos. -... o que não ocorrera. O homem apoiava-se em uma das cadeiras que ali haviam enquanto falava. – Você devia usar seu relógio de pulso. Sabe, aquele que eu te dei de Natal? Tem um despertador, e já percebi que precisa de um.
– Ok, vou me lembrar disso. – assentiu, pegando e colocando o relógio G-Shock no pulso esquerdo, seguindo para colocar a jaqueta que estava na mesa da sala. – Algum outro conselho?
– Olha, sabe que não sou da sua família para poder te falar o que é certo e errado...
– Como meu pai deveria fazer. Deveria, né. Também deveria ter ficado aqui e ajudado mamãe. Deveria ter feito muitas coisas. – cortou o moreno, deixando bem claro sobre qual era a opinião dele sobre aquilo, enquanto um tom de amargura tomava conta de seu tom de voz.
– Mas sabe que ele não podia. Sua mãe já conversou com você sobre isso.
– Pois é. Ele trabalha muito, que nem ela. Não pode vir aqui nem visitar a gente. Nem sei se ele ainda está vivo... – dizia, voltando o olhar para o chão.
– Levante essa cabeça, menino. – expressava Hector, enquanto levantava a cabeça de Nathan com a ponta da xícara. – Seu pai com certeza não está morto. É verdade que ele anda muito ocupado, mas um dia, ele vai voltar para te ver, cedo ou tarde. Agora, voltando ao assunto principal, eu tenho um conselho sim. Sabe o relógio? Então, mantenha-o sempre consigo. E se lembre, se você se meter em alguma enrascada, aperte o botão vermelho. Você vai precisar dele.
O rapaz não gostava nem um pouco da maneira como ele disse “precisar”, mas assentiu. Usar um relógio em uma enrascada? Uma ótima idéia. É super normal um ladrão armado querer saber as horas. Talvez pudesse discutir sobre a idéia, mas antes de qualquer coisa, algo começou a vibrar no bolso de sua jeans, e ele nem precisava olhar para o celular para saber quem era.
– Fala, cara. Ta, ta... Atrasado? Esta ai há quinze minutos? Ah, isso é normal. Artistas nunca chegam na hora, certo? – brincou ele com o amigo, rindo em seguida. – Vou descer, até.
– Vai pegar carona com o Richard? – Pois é, parecia que todos sabiam com quem ele estava falando, não só ele.
– É, vou sim. – proferiu, enquanto girava as chaves na fechadura da porta.
– É sério, como o pessoal da auto-escola permitiu que alguém que precisa de muletas para andar pudesse dirigir? – Disse o homem, arqueando uma sobrancelha de uma forma um tanto exagerada.
– Boa pergunta. Fui. – E lá se foi Nathan, batendo a porta atrás de si.
– Nossa cara, precisava passar tanta maquiagem assim para demorar tanto? – caçoou Richard, rindo, enquanto o outro entrava no carro.
– É que não queria ficar menos maquiado que você. — Devolveu Nathan, logo depois cumprimentando o companheiro, que ligava o motor e começava a acelerar, entrando logo após na avenida principal.
– Ta, agora é sério, o que estava fazendo?
– Acabei perdendo a hora enquanto conversava com o Hector.
– Tinha que ser. Ele deu alguma lição de moral, não é? Bom, não posso falar nada. Ele é meio coruja, mas é gente boa.
Aquilo também irritava o carona, mas ele sabia que era verdade. Hector podia ser um vagabundo que só andava de pijamas e não trabalhava, mas era uma pessoa muito virtuosa. Além de ser um ótimo amigo, fazia companhia a Nathan na maior parte do tempo (já que a mãe tem de trabalhar muito para manter os dois vivos e pagar as contas). Não era seu pai, deixava isso sempre bem claro, mas era um ótimo confidente e substituía-o muito bem.
– Está certo. – Uma nova vibração veio do celular do adolescente, onde se lia “Não esqueça: Botão vermelho = Somente em enrascada! De Hector”. – Não morre tão cedo. Agora acelera essa lata-velha aí, não quero perder o show. – E foram.
Era exatamente como ele esperava. Uma massa enorme de pessoas indo de lá para cá constantemente, luzes tão fortes que faziam a noite parecer dia e um som alto o bastante para acordar um urso que estava hibernando. Os olhos claros procuravam percorrer cada canto do grande terreno, na esperança de fixar bem aquele momento em sua memória. Era o festival de música mais esperado do ano, e estava lá. Ele estava mesmo lá, e nem podia acreditar.
– Se liga ai! Vamos ficar perto, ok? Nada de nos separarmos. – exigiu o motorista, enquanto andavam em meio a multidão, rumo ao palco.
Chegaram a um bom ponto para que vissem bem de perto a banda que se apresentava agora, um estilo de country com reggae, que ficou realmente bem estranho, mas mesmo assim a animação de Nathan não se foi, já que o próximo grupo a se apresentar seria o que ele mais queria ouvir, o real motivo de sua ida ali. Batia o pé no ritmo só de pensar nisso, e não conseguia parar mais, um grande mal de crianças hiperativas como ele. Depois de algum tempo, a banda country & reggae se despediu e houve um pequeno intervalo entre as apresentações, que era o tempo de um grupo sair e o outro se preparar no backstage. A essa altura do campeonato, ele simplesmente não conseguia parar quieto. Ninguém o tiraria de lá por nada. Se virou para que pudesse contar como era demais o trabalho de sua banda preferida para o amigo, quando percebeu que este não parava de rodar sobre os próprios pés e cheirar o ar, como se um perfume que o irritasse estivesse no ar.
– O que houve? – indagou Nathan.
– Não sei... – disse Richard entre as cheiradas, até que uma expressão de surpresa tomou conta do rosto dele, que rapidamente se voltou para o companheiro, enquanto pegava o braço dele com uma das mãos e puxava, usando a outra para se equilibrar com uma das muletas.
– Temos que sair daqui, e é agora! Ouviu, Nathan? Agora! – exclamou, puxando-o com toda a força que devia ter. E o ouvinte estava quase aderindo à idéia quando a música começou a tocar. A animação era tanta que ele não agüentou e se soltou do outro, voltando toda a atenção para o palco.
– Eu disse agora!
– Não! O show acabou de começar, se sairmos depois não vai dar para voltar, a galera vai tomar nosso espaço e...
– É importante! — Cortou.
– Para você! Para mim, o importante é ver o show. – teimou Nathan.
– Pelos Deuses... Ok, mas não saia daqui, ouviu?! – falou, antes de largar as duas muletas e sair saltitando por ai. Ele não entendia para que o colega usava muletas, se conseguia correr sem elas. Mas nada daquilo importava agora, tinha que se deliciar ao som que vinha das gigantes caixas por volta do local.
E assim foi durante apenas vinte minutos. Lá estava ele, cantando com a banda e pulando como uma criancinha, quando esbarrou em alguém atrás dele. Como sentiu que foi um esbarrão forte, parou de fazer o que estava fazendo e se virou, dando de cara com uma mulher que parecia ter saído do Museu de Cera, com uma pele com a aparência oleosa e estranhamente verde.
– Você precisa vir comigo. – proferiu ela, na maior calma do mundo, porém com um tom imponente. Estava de terno preto, o cabelo preso e em seu crachá lia-se “GAERASR – GRUNSÇA”, onde depois de algumas tentativas de um disléxico, leu-se “GREASER – SEGURANÇA”.
– Tem certeza que não pode ser aqui?
– Ou você vem ou chamo a segurança para te jogar para fora do show. – Ela não estava para brincadeira, e sair do show estava fora de cogitação.
– Ei, vai com calma, já estou indo... – E assim, se foram.
Nathan a seguiu até uma área do estacionamento onde se localizavam as empresas que transmitiriam a apresentação na TV, parando logo atrás de alguns daqueles caminhões. Estavam longe o bastante para que ele não conseguisse ver os guitarristas, mas pelo menos conseguia ouvir algo da música.
– Olha, pode me dizer o que é? Eu quero voltar para lá... – depois da fala, ele voltava novamente o olhar para ela, que agora estava de costas para ele.
– Pare de brincadeira, herói. Eu vi quando chegou com seu amigo peludo, não tente me enganar.
– O que? – Ou ele entendera errado, ou estava tendo alucinações.
– Não se faça de sonso. – enquanto falava, ela ia desembaraçando os cabelos, que pareciam tremer com o vento. O problema era que não estava ventando. – Foi corajoso de vir até aqui, mas agora vai sofrer por sua ousadia!
Ela já não era bonita de início, mas o garoto realmente tomara um susto quando ela se voltara para ele. A pele verde agora parecia coberta de escamas, onde haviam pernas agora só se via uma cauda de serpente e os cabelos que antes pareciam se mover ao vento, se mostravam um belo ninho de mini cobras.
– Ainda posso considerar a idéia de ser expulso do show? – disse, tentando enrolar a mulher-cobra ali, enquanto se afastava a passos apressados.
Não demorou muito até que ele estivesse correndo e, o monstro, logo atrás dele. Era notável que “aquilo”, seja lá o que fosse, era mais rápido que ele. Tal que, se não fosse um rolamento para a direita de sua parte, a criatura teria o atingido com uma bela rajada de veneno-mutante-radioativo-não-sei-o-que-lá. Agora, se via encostado em um dos ônibus e com aquele bicho bem a sua frente, e sem saída. Não tinha chances de sair de lá. Já estava quase entregando os pontos quando se lembrou de um detalhe. O relógio. Aquilo parecia uma ótima hora para testar o botão de enrascada. Será que...
– Esta na hora de dizer tchau! – disse o protótipo de réptil, enquanto voltava a toda velocidade na direção dele.
Tinha de tentar. Esticou o braço na direção do relógio e apertou o botão vermelho, impressionando-se ao perceber que um leve brilho começava a sair do aparelho. Como em um passe de mágica, onde havia um relógio agora jazia um escudo redondo do tamanho de um travesseiro e do peso de uma escada, aparentemente de metal, mas não importava. O rapaz o levantou a tempo de ver a expressão surpresa da mulher-cobra, antes que ela desse de cara com um escudo, e caísse atordoada. E ele já estava preparado para defender outro ataque, caso ocorresse, mas ao invés de ela cair desmaiada com o impacto, esta simplesmente explodiu em um pó amarelado e nada agradável.
Enfim, estava sozinho novamente. Depois da experiência que acabara de ter, não sabia mais em que acreditar, e com um conflito a ponto de estourar em sua mente, ele se recostou em um dos estúdios ambulantes e escorregou até que caísse sentado no chão, prendendo sua atenção no aparato de defesa que segurava. Não era todo o dia que uma segurança de show se transforma em uma serpente asquerosa e tenta arrancar seu couro com os dentes. Depois de alguns minutos daquela forma, na tentativa de se recuperar do choque e da fadiga, Nathan grudava suas orbes no palco, ao longe. Com certeza, havia perdido o show.
Contudo, teve uma boa notícia ao olhar para aquela direção, afinal. Duas figuras conhecidas dele se destacavam dentre alguns repórteres ou camera mans, que passavam por ali, entrando em seus devidos caminhões.
– Parker! – gritou Richard, se aproximando trotando deste. – O que houve?!
– Você se meteu em enrascada mesmo, afinal. – concluiu Hector, como se aquilo fosse a situação mais natural do mundo. – Temos que levá-lo. Agora. Se um já conseguiu farejá-lo... Outros estão por vir.
– Tem certeza sobre isso? Uma vez que ele souber, nunca mais vai ter volta.
– Já não tem mais volta.
Aquele cochicho descarado entre os dois realmente o irritava. É como se tentassem esconder algo dele, mas ao mesmo tempo, deixassem margens para que ele descobrisse. Ao fim da pequena conversa, o adulto se agachou próximo ao portador do escudo, direcionando sua atenção a ele.
– Nathan. Olha, de início isso vai parecer loucura, mas... Lembra daquela vez que te ajudei com seu dever de história sobre Mitologia? Agora, imagine que tudo aquilo fosse verdade. Deuses, monstros, semideuses... Tudo isso. Bom, é melhor começar a se acostumar com esse mundo, porque é nele que vivemos.
Enquanto a explicação fluía, o jovem cada vez mais adquiria um semblante confuso até que, quando finalmente percebeu, cedeu a expressão impressionada que veio a tona.
– Espera aí... Você disse deuses, e semideuses. Metade humanos, metade deuses... – dizia, enquanto forçava a mente a se lembrar daquilo. Nunca fora muito bom de memória. – Minha mãe é humana, e eu não conheço meu pai. Esta querendo dizer que...
– Exatamente, garoto. – afirmou Hector. – Seu pai é um deus. E você é um semideus. Bem vindo à realidade.
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