Notas iniciais
O tão esperado diálogo

Nunca estive tão confuso em toda a minha vida. O caderno que eu havia recebido de Voldemort, ou melhor, do meu pai, eu deixei trancado no malão. Na verdade, eu tentava esquecê-lo para não sucumbir à vontade de escrever nele, embora todas as minhas tentativas para isso tenham sido em vão. Eu pensava no caderno o tempo inteiro, inclusive tendo sonhos com ele.

Eu me sentia mal em esconder isso de Dumbledore, mas ao mesmo tempo, eu não poderia contar a ele porque ele tentaria me proibir de me comunicar com ele, e depois o meu pai usou palavras tão gentis para me abordar, mas tão gentis que por incrível que pareça, eram as palavras que eu precisava. Será que ele também se sentia sozinho?

Não, ele era Voldemort, ele não tinha sentimentos bons e nunca quis ter um amigo. Ele era um homicida cruel, sim, ele era um maluco.

Neville seguia sem falar comigo direito, apesar de eu achar que tenhamos feito progresso nesses últimos dias, já que até então ele não falava mais comigo e agora a gente se cumprimentava e falávamos brevemente sobre alguma coisa relacionada às matérias quando nos esbarrávamos pelos corredores da escola.

Por outro lado, para piorar a minha situação, a história de eu ser filho de Voldemort se espalhou pela escola de uma forma assombrosa. Agora todos ou me temiam ou diziam que eu era tão louco quanto o Potter, inclusive chegaram a apertar o meu nariz para eles saberem se era de verdade ou não, mas creio que essa última parte tenha sido ideia dos gêmeos Weasley.

Draco agora tinha um medo descomunal de mim, inclusive me evitava nos corredores. Já os alunos da Sonserina passaram a me cumprimentar e a tentar puxar algum assunto comigo, seria isso obra do meu pai já que a maioria dos pais dos sonserinos eram comensais?

Esse era o tipo de coisa que eu nunca me atreveria a perguntar.

Hoje era a aula de Trato de criaturas mágicas, e era a minha aula favorita, e para aumentar a minha alegria, Hagrid havia retornado à escola, embora estivesse em estado deplorável. Parecia que ele havia brigado com cinco gigantes e perdido a briga. Eu até pensei em me aproximar dele e perguntar o que havia acontecido, mas de repente um borburinho começou e eu vi Dolores Umbridge fazer um pigarro com a garganta para interromper Hagrid da mesma maneira que ela fazia com todos os outros professores.

—Hen, hen, hen... – ela começou.

Hagrid que já havia começado a aula, a ignorou apesar de não ter sido proposital, mas isso não pareceu ser bem recebido por Dolores que foi ainda mais incisiva na interrupção. No fim, Hagrid percebeu e deixou que ela falasse.

Eu não gostei nem um pouco da maneira que ela falava com ele como se ele fosse um ignorante, e talvez isso tenha ficado claro no meu olhar porque assim que Dolores me notou ali, ela pareceu recuar, se afastando dos alunos da Grifinória e indo em direção aos alunos da Sonserina para ouví-los difamar o meu professor favorito. Cada palavra que os alunos da Sonserina diziam me machucava profundamente porque só eu sabia o quanto Hagrid era boa pessoa e não merecia aquele tipo de perseguição.

Foi então que um instinto raivoso tomou conta de mim e eu fui andando em direção àqueles traiçoeiros, e talvez pelo fato de já saberem quem era o meu pai, todos se calavam e se afastavam quando eu me aproximava. O mais irônico foi que até Dolores ficava incomodada com a minha aproximação.

— Algum problema, senhor Harris? Por que não volta para junto de seus amigos? – ela me perguntou com a voz meio vacilante. Eu não precisei usar o pouco da legilimência que eu havia aprendido para concluir que aquela mulher desprezível estava com medo de mim.

— Não senhora, mas é difícil se concentrar na aula com tantas interrupções assim. A senhora não deveria atrapalhar o nosso aprendizado... – eu respondi com atrevimento e todos me olharam boquiabertos. A melhor parte foi constatar que entre todos os que me olhavam daquele jeito estava a minha Hermione Granger. Eu sempre quis chamar a atenção dela com alguma demonstração de ousadia.

— O senhor é muito atrevido! Detenção hoje à noite! – ela me respondeu com a voz meio trêmula como se estivesse indecisa entre me dar a detenção mesmo ou não.

— Claro, estarei lá! – eu respondi com coragem – só irei escrever uma carta para o meu pai antes de ir, professora. – eu concluí a minha resposta e todos pareceram se encolher ainda mais, inclusive ela que tremeu levemente.

O efeito foi melhor do que eu esperava porque ela se virou e saiu antes de me dizer a hora que era para eu aparecer para cumprir a detenção. Certamente eu adoraria abordá-la mais tarde para saber.

A aula continuou e talvez Hagrid tenha dado a melhor aula da vida dele porque não pudemos ouvir nenhum comentário maldoso dos alunos da Sonserina e eu me adiantei para responder todas as perguntas que eram feitas na frente de qualquer um que soubesse a resposta. Hermione podia ser o amor da minha vida, mas ela não brilharia mais do que eu na minha aula favorita.

O restante da aula foi tranquilo e se eu não estivesse tão ocupado, eu teria percebido os olhares medrosos que todos me lançavam. No fim, Hagrid passou um trabalho em duplas e ninguém quis trabalhar comigo. Provavelmente eu faria dupla com quem sobrasse.

Então Hagrid dispensou todos os alunos e eu fui até ele para conversar. Eu sempre fazia isso.

— Senti muito a sua falta, professor, por onde esteve? – eu perguntei animado e Hagrid estremeceu assim que ouviu a minha voz.

— Ocupado. – ele se apressou a responder.

— E o que aconteceu com o seu rosto? – eu tornei a perguntar – parece que você lutou com cinco gigantes e perdeu. Você foi visitar algum clã de gigantes?

— Como sabe disso, garoto? Seu pai já está lhe passando informações? – ele me devolveu a pergunta com arranco e medo e eu a recebi como um tapa na minha cara.

— Como assim? Até você vai me julgar, Hagrid? Logo você? Eu não tenho culpa de ser quem sou ou de ter o pai que eu tenho... eu só estava preocupado... – eu respondi e ele me avaliou por alguns segundos.

— Me desculpe, Jason, mas é que essa era uma missão sigilosa e você já sabia da informação... ai, eu não devia ter falado isso. – ele se repreendeu – mas é verdade mesmo? Essa história de você ser filho de... bom... de você-sabe-quem?

— É o que Dumbledore diz. – eu respondo sacudindo os ombros – fique tranquilo que eu não vou comentar sobre onde você esteve com ninguém. Eu não sou o meu pai, Hagrid, eu sou só um garoto que teve o azar de ter sido gerado por ele.

— Me desculpe, mas sabe como são essas coisas... nunca é demais se precaver, mas bem... eu sei que você é um bom menino, e será um bom explorador do jeito que eu não pude ser. – ele diz se desculpando.

— E não pôde ser justamente por causa dele: do meu pai. Eu sinto muito, Hagrid. – eu me desculpo e ele apenas dá uma batidinha em meu ombro como se dissesse que estava tudo bem.

Então começamos a conversar sobre criaturas mágicas, nosso assunto favorito e Hagrid jurou que já havia visto um dragão de oito cabeças. É claro que eu não acreditei, mas eu fiquei imaginando como seria maravilhoso se uma criatura dessas existisse.

Fiquei um bom tempo ali, tanto que perdi a aula de feitiços, mas eu daria um jeito de recuperar a matéria depois com algum aluno Sonserino já que eles estavam sendo tão solícitos ultimamente.

Eu estava me sentindo bastante feliz porque depois detanto tempo eu pude saber como era poder conversar com um amigo que era o Hagrid, mas toda a minha alegria se foi quando voltei até a sala comunal da Grifinória e encontrei o trio de ouro aos cochichos.

Hermione estava ainda mais bonita do que de costume, então sem me conter, fui até ela.

— Oi. – eu disse e os três me cumprimentaram mecanicamente – Hermione, poderia me emprestar as suas anotações de hoje da aula de feitiços. Acontece que perdi a hora conversando com o Hagid. Se você puder me ajudar...

— Pra quê? Pra você impregnar o pergaminho dela com magia negra? – Rony me interrompeu – fique longe da gente! Fique longe da Mione! Agora nós sabemos que você só quis se aproximar para matá-la por ser uma nascida trouxa! Aposto que tudo a mando do seu pai!

— Ron! – Hermione o repreendeu – acontece que eu já as emprestei para Simas porque ele não entendeu muito bem a aula...

— Tudo bem, eu já entendi. – eu respondi de cabeça baixa, no fundo Hermione realmente acreditava nas coisas que Rony disse.

— Se já entendeu, por que ainda insiste em falar com a gente? – Harry me perguntou e eu vi que não adiantava discutir. Rony me olhava com raiva e Hermione parecia indecisa entre apoiá-los ou parar de me tratar daquele jeito, mas no fim ela optou por apoiar os amigos.

— Me desculpem. – eu pedi e me afastei, indo correndo em direção ao meu quarto.

Todos me desprezavam, mas a pior parte foi ver que Hermione tinha medo de mim. Eu estava completamente sozinho. Eu queria sair daqui e ir para algum lugar que ninguém soubesse quem eu sou, nem que eu tivesse que ir viver com os trouxas.

Sentei em minha cama e tive vontade de chorar, mas então eu encarei o malão por um momento e pensei no caderno e na possibilidade de trocar umas palavras com o meu pai. O que de pior poderia acontecer?

Enquanto eu listava as consequência em minha cabeça, eu abri o malão e peguei o caderno que estava escondido bem ao fundo.

Então eu abri o caderno, peguei uma pena qualquer e comecei a escrever nas folhas.

— Oi. – eu escrevi e observei a caligrafia desaparecer. Era tão parecido com o esquema do diário de Riddle que Dumbledore havia me contado.

— Finalmente! Pensei que nunca escreveria. Você também teme a mim, meu filho? – o caderno respondeu. Era incrível como a caligrafia do meu pai era bem parecida com a minha, apesar de ser bem mais elegante e imaculada que a minha.

— Acho que metade do mundo bruxo o teme, a outra metade não o conhece. – eu respondi – Na verdade, estou curioso...

— É natural estar curioso quando se sabe tão pouco sobre as próprias origens. Eu também era assim na sua idade, mas diferente de mim, você tem alguém para responder todas as perguntas que você tiver. Estou aqui para satisfazê-lo. – ele respondeu. Ele era tão polido que eu me sentia um ignorante falando com ele.

— Por que não quer me matar? – eu perguntei e dessa vez a resposta demorou alguns segundos para vir – é algum truque? – eu tornei a perguntar.

— Porque você é o meu filho! – foi a resposta que ele deu e eu decidi que era a hora de fechar o caderno, mas antes que eu o fizesse, outra mensagem apareceu pra mim – Sempre que precisar, estarei aqui para conversar e aconselhar, ainda que o assunto seja essa sangue ruim por quem você anda apaixonado. Aguente firme, meu filho.

Aquilo foi o suficiente para que eu fechasse o caderno com pressa e o metesse no malão. Eu estava em choque porque a vida toda eu escutei falarem que o meu pai era um homem ardiloso e cruel, e que nunca havia sido gentil com ninguém, mas agora ele havia sido a melhor parte do meu dia e provavelmente da minha semana toda. Eu não sabia se era certo ou errado, mas à essa altura, mas a essa altura, tudo o que eu sabia é que eu iria querer falar com ele muitas mais vezes. Talvez eu até o convencesse a deixar de ser maligno, e falando em malignidade, eu precisava procurar Umbridge para saber da minha detenção desta noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.