O Herdeiro Malfoy
5 Capítulo 5 - Bruxos também fazem reformas e compras
Notas iniciais
As palavras de Hermione foram marcadas a ferro na mente de Draco. Ele já imaginava como ela se sentia em relação a ele, mas ouvir em voz alta foi doloroso. Lembrar de todo o mal que ele havia causado machucava-o.
Hermione tinha um ponto, como sempre. Ele percebeu que, mais uma vez, ele estava fugindo e não sendo corajoso, como ele esperava. A sensação de tristeza só prolongou-se. Blásio entrou no quarto, os olhos estavam afundados em olheiras profundas e ele estava com um ar preocupado.
— E ai, cara, como você está? — Disse Blásio acomodando-se na poltrona ao lado da cama.
— Bem.
— Disseram que amanhã você vai ter alta, vamos pra casa, Draco.
— "Nós"?
— Eu não vou deixar você sozinho em casa, isso não é uma opção.
Draco sentiu uma pontinha de felicidade em saber que não estaria abandonado novamente.
— Eu... obrigado. De verdade, cara.
Um longo silêncio instalou-se no quarto, os dois meninos estavam perdidos em seus próprios pensamentos.
— Eu sei o que você está passando, Draco — disse Blásio -, eu também olhei pra ela e senti tudo voltar. Todas aquelas coisas ruins. E todos os dias eu acordo gritando pelos meus pesadelos, que, na verdade, nada mais são do que fragmentos do passado.
Draco tinha perdido a vontade de falar com os outros ao longo do tempo, seus diálogos limitavam-se a responder perguntas com monossílabos. Porém, com Blásio ali, ele sabia que poderia dizer mais do que estava habituado.
— Ela me disse muitas coisas hoje.
— O que ela disse? — Perguntou Blásio intrigado.
— Coisas que eu precisava ouvir. Eu sempre soube que era covarde e fraco, mas achei que estava fazendo algo corajoso ao tentar suicídio, sabe? Um mundo sem mais nenhum Malfoy, este seria um mundo melhor. Minha família, incluindo-me nessa, fez tantas merdas ao longo da história... eu queria garantir que não fôssemos foder com o resto.
— Eu entendo, já pensei nisso também.
— Como você fez para não tentar?
— Não tentar suicídio? — Blásio refletiu — Em parte pelos meus pais, eles já estavam passando por muito, todos nós estávamos, eles não queriam ter tomado partido na guerra, mas temeram pelas suas vidas e pela minha, se eu me matasse, não faria sentido. No fim, descobrimos que precisávamos uns dos outros. Mas eu também nunca tive... coragem de seguir em frente. Parece que precisa ter um pouco de bolas pra tentar, não é mesmo?
Esse comentário fez Draco sorrir com os cantos da boca. Era o primeiro sorriso sincero em muito tempo. Draco parou alguns instantes e suspirou.
— Eu vou ter que fazer alguma coisa com a minha vida quando sair daqui, Blás.
— E você vai.
— Eu não sei nem por onde começar, cara.
— Você descobrirá. No momento, você tem que se preocupar em descansar, amanhã veremos para onde a vida nos jogará.
Draco assentiu, mas não fechou os olhos, pelo contrário, ficou com eles bem abertos pensando sobre o que faria depois de sair do hospital.
Draco ainda sentia a dor da perda da mãe e isso dificultava sua tentativa de sair do fundo do poço. Ele também sabia que Blásio não ficaria por perto para sempre, Malfoy precisava ajeitar-se na vida e em breve. Passou um bom tempo medindo suas habilidades, no que era bom? O que gostava de fazer?
Draco adormeceu em meio a reflexões.
No outro dia, acordou quando Blásio entrou em seu quarto e bateu a porta com mais força do que pretendia.
— Estamos indo para casa, Hermione acabou de assinar os papeis da sua alta.
Draco ficou feliz em ouvir aquilo. As enfermeiras deram as últimas poções restabelecedoras para garantir que ele estaria o melhor possível e deixaram o quarto. Blásio havia trazido roupas para ele vestir. Havia calças jeans pretas e um suéter preto com zíper, Blásio trouxera sapatos sociais para calçar. Draco arriscou uma olhada no espelho e, realmente, estava mais corado, mas ainda podiam ser vistas olheiras e ossos sobressalientes. Entretanto, Draco estava bem melhor do que quando chegara, seu pescoço, que estava escondido pela gola do suéter, ainda estava com hematomas, as enfermeiras havia sugerido que ele tomasse algo para melhorar as manchas, Draco recusara. Quanto mais tempos elas ficassem, mais tempo ele relembraria das suas decisões baseadas na covardia.
Quando estava pronto, saiu do quarto e encontrou Blásio esperando na saída no hospital.
— Está muito velho ou ainda consegue aparatar?
— Vou te mostrar o velho.
Draco aparatou ainda na porta do hospital. A sensação foi estranha depois de tanto tempo sem praticar, mas foi bem vinda. Ele parou no jardim da casa, este que estava morto, plantas daninhas haviam tomado o gramado e outras plantas haviam morrido. A mansão também estava tenebrosa. Draco decidiu que a casa pedia cuidados imediatos. Subiu as escadas e buscou sua varinha. Blásio estava arrumando-se no quarto de hóspedes.
— Essa casa precisa de uma reforma — declarou o loiro.
— Estava pensando a mesma coisa — concordou Blásio.
Ambos dirigiram-se às portas gigantescas da mansão. Saíram e encararam a paisagem morta. O dia estava frio e encoberto por nuvens, nada muito inspirador, mas isso não impedia a decisão de Draco de mudar algumas coisas. Iniciou por uma limpeza nos portões, reaplicou os encantamentos. Ele e Blásio fizeram o melhor que pudiam para limpar o jardim e deixar a terra minimamente preparada para receber novas árvores e flores. A pintura descascada da casa também exigia atenção. A mansão era gigantesca e os garotos necessitaram de longas horas para tirar toda a tinta velha, depois precisaram repintá-la.
Muitos outros reparos ainda precisavam ser feitos no teto e na parte interna, mas já estava tarde e ambos estavam exaustos.
Draco deixou que seus pensamentos guiassem-no até a sepultura de sua mãe. Nada havia mudado na paisagem. Blásio seguiu-o e fez uma guirlanda com flores surgir no túmulo de Narcisa Malfoy.
— Sinto muito pela sua perda — declarou Blásio.
— Eu também.
Os meninos deixaram o cemitério e foram para casa, procuraram o máximo de comida nos armários que conseguiram. Encontraram alguns biscoitos.
— Precisamos buscar mais comida ou vamos morrer de fome — gemeu Blásio. — Vamos ter que ir até Hogsmeade.
Draco congelou, não esperava ter que sair de casa tão cedo.
— Eu não sei se isso é uma boa ideia.
— É claro que não é, mas precisamos.
Draco sabia que era verdade, mas assustava-o.
Ambos aparataram na entrada do povoado. Obviamente, no momento em que surgiram as pessoas começaram a encará-los e cochichar.
— Só siga seu caminho, não vale a pena — falou Blásio resoluto.
Entraram no mercado mais próximo e compraram tantos suprimentos quanto os dois podiam carregar aparatando sem perder nada no caminho. Assim que estavam prontos voltaram para casa e guardaram tudo que haviam comprada, a não ser aquilo que iriam digerir.
— Nós nunca vamos ser aceitos — falou Draco.
— Não.
Eles terminaram de comer e cada um seguiu para seus quartos. Draco tomou um longo banho antes de cair na cama. Seus pensamentos flutuaram até Hermione e suas palavras.
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