O Herdeiro Da Luz
7 Um irmão
Notas iniciais
A paisagem a nossa frente fedia. O buraco pareceu maior, olhando agora. Provavelmente porque grande parte das rochas transformou-se em pequenas serpentes assassinas que queriam a nossa carne para o café da manhã. Ou seria jantar? Perdi a noção do tempo, até do espaço. Eu nem mesmo sabia se estávamos realmente no submundo.
Aiacos seguia na frente, com duas lanternas amarradas numa coleira improvisada. Uma iluminava o caminho a seguir, a outra nos iluminava, garantindo que nada fosse nos surpreender. Eu estava logo atrás de Aiacos, Diana no meio e Pietro guardando a retaguarda. O túnel era bem simples, apenas pedra e mais pedra. E retangular, o tamanho nunca variava.
- Isso é estranho, vocês não acham? – Diana perguntou, quebrando o silêncio.
- O quê? – Pietro perguntou em resposta.
- Essa passagem é exatamente igual em todos os pontos, ela sobe desce. Nenhuma decoração, nenhuma irregularidade. É como se, simplesmente, a terra tivesse aberto essa passagem.
- É estranho você falar isso quando sabemos que Gaia está acordando. – falei.
- Eu não descarto a possibilidade de ela estar envolvida nisso. Digo, quem iria querer roubar a lira de Apolo? Eu não sei exatamente qual a finalidade dela, mas ela é o símbolo do poder de um deus. Isso pode significar alguma coisa, algo que nem os semideuses sabem. Ou, se sabem, esqueceram de compartilhar esse conhecimento com a gente. – Pietro pigarreou e se preparou para falar mais alguma coisa, mas Aiacos miou e parou.
- O que foi amigão? – me abaixei ao seu lado. Ele apontou com o focinho para o caminho a frente, fazendo uma careta. – O que tem lá?
- Vocês não estão sentindo? — Diana colocou a mão direita sobre o nariz. – Esse cheiro horrível?
Pietro olhou para frente, estreitando os olhos e inspirando um aroma bem fétido. Fiz o mesmo. Aiacos avançou um pouco mais, iluminando um cruzamento de dois túneis. A diferença do outro túnel para o nosso é ele era circular e tinha uns dois metros de comprimento. E outra coisa, ele estava bem melecado.
- O que diabos é isto? – acocorei-me próximo ao cruzamento dos túneis.
Pietro foi ainda mais para frente, ficando no meio do túnel.
- Provavelmente veio do mesmo ser de onde vieram essas peles. – ele apontou para as paredes, que continham, além de um muco amarelo-esverdeado, alguns finos pedaços de pele de réptil.
- Uma cobra. Uma cobra gigante. Que legal. – Diana ficou mais atrás, abraçando-se.
- Acho melhor a gente seguir em frente. Não quero encontrar esse bicho caso ele volte rápido para cá. – falei, temendo que tal cobra fosse a dona da voz reptiliana que falava na minha mente.
Seguimos o caminho. Queria saber as horas, mas todos os relógios haviam parado quando caímos. E, para piorar a situação, estávamos no subsolo do submundo. A única coisa mais profunda do que isso que consegui imaginar foi o próprio tártaro.
O túnel se estendeu por mais uns vinte metros. Qual distância já havíamos percorrido? Provavelmente uns quinhentos metros desde que assamos as cobrinhas. Aiacos parou novamente.
- O que foi dessa vez Aiacos? – acariciei seu pescoço e olhei para frente.
- Acho que isso é um local para descansarmos. – Pietro falou.
O túnel se abria numa pequena clareira (se é que posso chamar assim) perfeitamente quadrada, então havia a continuação do túnel mais a frente.
- Acha mesmo que podemos dormir aqui? – Diana perguntou.
- Não digo dormir exatamente, mas descansar um pouco seria bom. Minhas pernas estão doendo demais. Temos de guardar as energias para os futuros desafios, pois não sabemos que vira pela frente.
- Então tudo bem, por mim. Febo?
- Concordo. Meus pés também estão doloridos.
Diana tirou de sua mochila um lençol rosa e estendeu sobre o chão, como se fôssemos fazer um piquenique. Sentamos num canto, próximo a parede. Eu fiquei encostado na parede ao lado de Diana, enquanto Pietro ficou na parede ao lado, eu com minhas pernas em cima dele.
- Folgado você não? – ele apenas sorriu.
- Acho que deveríamos comer. Agora me dei conta que estou faminta.
- Eu não deveria ter feito isso, mas foi para o nosso bem. Pedi ao pessoal do chalé de Hermes para pegar umas coisinhas para nós. – abri minha mochila e tirei de lá pratos e copos mágicos do acampamento, distribui um pra cada um, até Aiacos ganhou – Bom apetite!
Comemos o que tivemos vontade, literalmente. Depois, guardamos as coisas e ficamos calados por um tempo. Observei o braço de Diana, que havia sarado tão rápido quanto o meu devido a um remédio que Pietro havia passado nos cortes.
- Pietro, o que era aquela malinha vermelha? – perguntei para enfim matar a minha curiosidade.
- Um presente de Ares.
- Não sabia que os filhos de Ares podiam fazer magia. Interessante.
- Tão interessante que sua namorada dormiu. – ele olhou para ela, rindo.
Ajudei Diana a se deitar usando uma mochila como travesseiro e me afastei para que ela pudesse deitar tranquila. Ela estava tão cansada que nem acordou enquanto eu a movia. Sentei ao lado de Pietro.
- O que mais veio nessa sua bolsa mágica? Até parece uma caixa de Pandora do tanto de coisas que você já tirou daí.
- Tinha também uma carta. Descobri que tenho uma família de semideuses e que fui adotado. O livrinho e a mala eram da minha mãe. Ela era filha de Hécate. Minha bisavó era filha de Atena. E por aí vai. Meu pai disse que esses são os poderes que mais se desenvolveram em mim.
- Você não parece muito abalado por ter sido adotado. Está tudo bem mesmo?
- Sim, sim. Fui criado pela minha tia, mas nunca soube que ela era minha tia. Até estranhei o fato de eu ser um semideus, já que eu tinha um pai mortal. Ares disse que enganou os dois com névoa para que eu pudesse ter uma vida normal. Bem, normal pelo menos o mínimo do normal. – ele soltou uma leve risada e olhou para mim, parecendo feliz.
- Você parece contente com essa história toda. Por quê?
- Porque descobri que tenho um irmão. Quando terminarmos essa missão eu vou atrás dele. Vou cuidar dele e ser o melhor irmão do mundo.
- Outro filho de Ares? Acho que o acampamento já está muito cheio deles. – sorri enquanto ele me dava um leve soco no braço.
- Cala a boca. – ele bocejou – Além de inteligente e briguento, eu sou mágico. Posso fazer você piar que nem uma galinha.
- Tenta, aí você vira churrasquinho de mágico.
Rimos um pouco, então comecei a fitar o teto. Aiacos se deitou no meu colo.
- Acho que vou dormir um pouco. Você pode ficar de guarda?
- Será mesmo que podemos dormir? Que horas são? Que dia é hoje?
Ele tirou um pote da mochila, com uma espécie de gelatina vermelha.
- Hoje é 20 de dezembro, são três da manhã.
- O que é isso, pelos deuses?!
- Um relógio mágico. Eu mal dormir depois de ganhar essa mochila, estava me preparando muito para essa missão, por isso já sei tanta coisa de magia. Além de ler, treinei muito com os filhos de Hécate.
- Que bom. Estou me sentindo protegido tendo um semideus tão poderoso ao meu lado. – o cutuquei com o cotovelo.
- Tudo bem, vou dormir agora. Aiacos, você fica de patrulha tigrão? – ele passou a mão sobre a cabeça do gato, que miou em reposta.
Ele desceu do meu colo e se transformou num imenso tigre.
- Muito bem, agora sim me sinto protegido. – encostei-me à parede e fechei os olhos.
- Pode dormir no meu ombro se quiser. – Pietro falou me cutucando, encostei minha cabeça no seu ombro e fechei os olhos, ele encostou sua cabeça a minha e dormimos. – Pretendo cuidar do meu irmão assim quando finalmente contar para ele.
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