O Herdeiro Da Luz
6 Fôtiá
Notas iniciais
Acordei com Aiacos lambendo meu rosto. Olhei para os lados, ainda meio sonolento, e vi Pietro e Diana, sentados. Ela estava limpando alguns ferimentos na perna direita dele. Senti uma dor tremenda nas costas.
- Enfim você acordou, Bela Adormecida. – Diana zombou de mim.
- Onde nós estamos? – perguntei.
- Acho que isso é o submundo. Não vejo sinal de vida, nem mesmo o céu de Hollywood. Não aconteceu nada desde que acordei. Fui o primeiro. – respondeu Pietro.
Acariciei a cabeça de Aiacos e observei ao redor. O local onde estávamos parecia um deserto rochoso, algo parecido com o Grand Canyon, entretanto, as pedras desse local eram um pouco arroxeadas. Tudo que vi foram rochas.
Observei a perna de Pietro, que tinha alguns cortes, e seu rosto estava um pouco cortado. Diana tinha um pequeno corte no antebraço esquerdo e seu rosto estava sujo.
- Vou ajudar vocês. – concentrei-me em ajudar meus amigos e exerci sobre seus ferimentos o meu poder de cura.
- Isso pode ser uma ótima habilidade, mas é muito estranha. – Diana comentou e Pietro riu.
Por eu ser filho de Apolo, meu corpo tinha uma regeneração mais acelerada do que a dos outros semideuses. Em caso de pequenos danos, como cortes rasos e pequenas lesões, era questão de um dia para tudo sarar. As vantagens de ser filho dele, pensei. Droga. Isso me fez lembrar as palavras naquele bilhete: Não me decepcione. De novo, um calafrio percorreu minha espinha.
O sol não brilha aqui em baixo, pequena luz. De novo, a voz reptiliana soou na minha mente.
Aiacos miou. Outra vez. Mais uma vez. Ele parecia inquieto, como se algo o estivesse perturbando. Ele mirava o vazio à nossa esquerda. Reparei que estávamos dentro de um buraco, ou algo assim. As rochas erguiam-se bem altas ao nosso redor. O único local que pareci ter uma abertura, uma passagem para fora, era para onde Aiacos estava olhando.
- O que foi amigão? O que tem lá?
Aiacos me olhou, demonstrando preocupação, e logo depois voltou a olhar o mesmo local.
- Acho que não é nada bom. – Pietro comentou.
- Pessoal, — disse Diana – acho melhor você sacarem suas armas.
Quando me virei para perguntar o porquê daquilo, vi algumas cobras descendo o paredão de rocha. Algumas verdes, outras pretas.
Para falar a verdade, percebi que elas não estavam deslizando as rochas. Elas vinham das rochas. Os paredões começaram a se desfazer em várias cobras.
Elas vinham rapidamente em nossa direção. Aiacos transformou-se e Pietro sacou espadas duplas e foi fatiando cada uma das cobras que ele conseguiu. Diana puxou a rosa de seu cabelo e bateu com seu chicote naquelas que chegavam mais perto, espantando algumas outras. Saquei meu arco e minha aljava e comecei a disparar rapidamente.
Ok. Eu sabia que quando matávamos monstros eles não morriam, mas aquilo para mim era novidade. As cobras não morriam com nossas aramas. Cada vez que elas eram cortadas, cada pedaço originava uma nova cobra, além do que os pequenos ferimentos saravam rápido demais.
- Acho que não temos chance. – comentei.
- Muito bem, positivismo é isso cara. — Pietro falou meio que zangado.
Diana pegou minha mão, talvez para me acalmar, mas ela mesma estava tremendo bastante.
- Acalme-se Febo. – ela falou numa voz trêmula e sem o seu charme.
Puxei-a e ficamos frente a frente.
- Nós vamos ficar bem! Não vamos morrer aqui. – acariciei sua face com minha mão e lhe dei um rápido beijo.
- Tudo bem... – ela ainda parecia um pouco insegura, mas sacou sua adaga e ficou com ela numa mão e o chicote na outra.
- Alguma ideia, sabichão? — perguntei a Pietro.
- Ainda estou analisando a situação. – uma cobra avançou para dar o bote nele, mas ele a atingiu com a ponta romba de uma das espadas, jogando-a bem longe.
Continuei disparando flechas, cada vez mais rápido, mas as cobras não paravam de vir. Mesmo em grande quantidade, elas mantinham certa distância de nós, talvez esperando que nos cansássemos e lhes dessem a chance de nos abocanhar.
- Diana, você é descendente de Hefesto, certo? – Pietro perguntou.
- Como você sabe disso? – ela ficou um pouco espantada.
- Habilidade minha. Sei reconhecer os poderes dos oponentes, se eu analisá-los bem. E convivi muito com você nos últimos dias. Deuses! Há quanto tempo estamos aqui!?
- Não sei, mas o que tem Diana ser descendente de Hefesto? – perguntei.
- Alguns filhos de Hefesto podem controlar o fogo, como Leo. Mesmo Diana não podendo fazer isso diretamente, devido à raridade desse poder na prole direta de Hefesto, vocês dois podem combinar os ataques e fritar essas coisinhas.
- Como assim? – ela perguntou chicoteando um pequeno grupo de cobras que avançou um pouco mais que as outras.
- Febo pode emanar calor do corpo e acredito que vocês podem combinar o poder e fazer uma tremenda labareda aqui. Caso vocês não tenham percebido, esses monstrinhos são semelhantes à Hidra. Ou seja, elas só vão morrer se forem queimadas.
- Entendi essa parte, mas como vamos combinar poder se eu nem sabia que podia fazer isso? – ela perguntou.
- Eu também não sei se você consegue fazer isso, é uma suposição. Mas é a única chance que temos de sair vivos dessa.
- Tudo bem, mas mesmo que consigamos fazer isso, se fizermos aqui no meio, nem todas elas vão morrer.
Aiacos rugiu enquanto pisoteava algumas cobras. As presas delas faziam apenas arranhões nos seus pelos dourados, mas talvez o veneno pudesse entrar em seu corpo.
- Pietro, tive uma ideia, eu acho. – falei.
- O quê? – ele respondeu.
Não falei nada, guardei o arco e a aljava e puxei Pietro e Diana pelos pulsos, indo na direção de Aiacos. Ele provavelmente entendeu o que eu estava pensando, então chutou mais algumas cobras para longe e se aproximou mais de nós. Subimos nele.
- Para onde nós vamos? – Pietro perguntou, agarrando a minha cintura logo atrás de Diana, enquanto Aiacos rugia e saltava aquelas pequenas assassinas.
- Achar uma saída.
- Onde?
Apontei para o local que Aiacos estava observando antes. Pude perceber apenas quando olhei mais atentamente, mas havia lá duas colunas de rochas, uma espécie de portal monumental, depois de uma escada naturalmente esculpida. A diferença é que essa parte da rocha não estava se desfazendo em pedras.
Pietro segurava em com uma mão e com a outra ele segurava uma espada comprida, provavelmente ele trocou de arma, afastando e cortando as cobras. Diana ia fazendo o mesmo com seu chicote. Chegamos ao local rapidamente e descemos do meu tigre.
- E agora o que a gente faz Pietro? – Diana perguntou.
- Aiacos, nos dê cobertura, ok? – Pietro perguntou e ele rugiu baixinho, assentindo e ficando na ponta da nossa escada, batendo as patas sobre as cobras.
- Então? – perguntei.
Ele sacou uma adaga do seu bolso e fez um corte no meu braço esquerdo de uns dez centímetros, tão rápido o golpe que não tive reação.
- Ai! Você está ficando louco cara? – coloquei a mão sobre o ferimento.
- Desculpa, mas temos de fazer isso. Espero que o feitiço dê certo. Me dá seu braço aqui. – ele estendeu a mão. – Diana, você também.
Ela se abaixou do meu lado e fez ela mesma o corte no seu braço direito. Sorriu para mim, obviamente com medo, eu também estava. Pietro abriu sua bolsa e tirou de lá uma malinha vermelha. Quando a abriu, pude ver todo seu conteúdo. Um livro velho e alguns potes pequenos, uns com líquidos, outros com folhas.
- O que é isso? – Diana perguntou.
- Um presente de Ares. A guerra não se faz só com armas, palavras do próprio. Febo, você tem ataduras aí, certo?
- Tenho sim. – dei minha mochila a ele.
- Ótimo. – ele tirou as ataduras de dentro da bolsa e pegou dois potes de dentro da malinha, e também o livro. – Estiquem os braços.
Assim fizemos. Ele despejou um líquido azul sobre os nossos cortes. Aquilo era extremamente gelado. Depois, despejou um pó preto, espalhando com os dedos. Aquilo começou a reagir com nosso sangue, formando um líquido vermelho-arroxeado.
- Cara, o que é isso? – perguntei.
- Nitrogênio líquido concentrado e pólvora. Relaxem, tudo isso tem a benção do meu pai, vocês não vão morrer. Só espero que isso dê certo. – ele passou uma pasta verde sobre a mistura, algo bem quente, e uniu nossos braços, envolvendo-os com a atadura.
- O que era isso verde? — perguntei.
- Acredito que seja fogo grego, eu não sei tudo, ok?
- Mas fogo grego não é instável? – Diana falou, assustada, talvez porque a região do corte estava começando a esquentar.
- Está numa forma mais pastosa e menos reativa, — ele abriu o livro numa página e começou a ler o grego antigo ali escrito – Bem, só falta isso agora. – ele furou a ponta do dedo e fez um delta com seu sangue sobre aquelas ataduras.
Olhei para a abertura logo atrás de nós. Era um corredor de pedra, no tamanho indicado para uma pessoa adulta passar. Se fôssemos entrar ali, Aiacos teria de se transformar em um gato de novo.
- E se isso não funcionar? – perguntei a Pietro.
- A gente escolhe onde quer morrer cheio de picada de cobra: aqui ou dentro daquele beco ali.
Aiacos rugiu.
- Aguenta só mais um pouco aí tigrão. Bem... Achei o feitiço. Levantem-se.
Ele ajudou-nos a levantar e se pôs atrás de nós. Começou a recitar o feitiço em grego, nos dirigindo até a ponta da rocha. Aiacos foi se afastando devagar, rugindo para as cobras.
Meu braço esquerdo estava unido ao braço direito de Diana, enquanto o delta brilhava vermelho sobre a atadura branca e eu sentia nossos braços se aquecerem.
- Pietro, tem certeza disso? – perguntei, talvez aquelas fossem minhas últimas palavras.
Ele parou o feitiço e disse:
- Não. Se isso não der certo, todos nós morreremos, pelo feitiço ou pelas cobras. Não custar nada tentar.
Diana puxou minha cabeça com a mão esquerda e me deu um selinho.
- Prontos? – ele perguntou.
Olhei para Diana e assentimos simultaneamente e apontamos as mãos na direção das cobras.
- Fôtiá – ele pronunciou em grego e o ar ao redor das nossas mãos começou a girar.
Φωτιά apareceu escrito dentro daquele círculo.
- Imaginem o fogo saindo de vocês. – Pietro falou, apontando a mão para o círculo, como se ele o controlasse.
Concentrei-me como sempre fazia para emanar calor, imaginei se Diana sabia o que fazer. Fechei os olhos e imaginei o sol.
Pietro colocou uma mão sobre meu ombro e a outra sobre o de Diana. Senti por ela. Foi como se nós três estivéssemos conectados.
Vocês são o fogo. Nós somos o fogo. Pietro falou na minha mente, na nossa mente.
Escutei milhares de sibilos ao mesmo tempo.
Agora, explodam. Ele apertou nossos ombros e eu abri os olhos.
Tudo que consegui enxergar foi um jato verde e vermelho saindo das nossas mãos. Diana gritou, as cobras também. Sim, gritaram. Como humanos.
Nunca imaginei que cobra assada iria feder tanto.
Notas finais
Ah é mesmo, o carinha encapuzado não apareceu aqui, mas ele é bem importante! Beijos e até a próxima!!!
Fale com o autor