O Herói Homogêneo
2 Casa nova, vida nova
Notas iniciais
A vida era boa quando as lições de matemática eram seu único problema. Na verdade, ele tinha vários outros problemas, tais como déficit de atenção com hiperatividade, dislexia, problemas sérios com relação ao parentesco, vendo que a mãe trabalhava feito uma escrava, o pai era ausente e nem o conhecia, e fora praticamente criado por um homem de meia idade com a aparência de um matador de aluguel que tirou férias no “Castelo dos coelhinhos felpudos amantes de café e palavras cruzadas”, que nem da família era. Pensando bem, Nathan nem se lembrava de tê-lo conhecido, muito menos de quando ele começou a morar no apartamento acima do dele. Era como se ele simplesmente sempre houvesse morado lá, e estado do seu lado. O que era aterrorizantemente estranho, e deixava o garoto com uma família inteira de pulgas atrás da orelha.
Essas eram algumas das dúvidas que assolavam a mente do jovem, durante o passeio mais logo de sua vida. E a velha caminhonete de Hector não ajudava em nada, enquanto os dois amigos balançavam na caçamba do carro. Desde que haviam saído do show, Richard não conseguia ficar calado. Contava histórias sobre ninfas bonitas correndo por bosques, lutas de armas das mais variadas, furtos de morangos em um campo aromatizado, todas elas com um mesmo cenário: o Acampamento Meio-Sangue. Era para lá que o levariam, para que pudesse ficar em segurança, e ser treinado para matar monstros como a mulher asquerosa daquela mesma noite. Mas na verdade, poucas daquelas histórias prendiam a atenção do menino. Ele só conseguia pensar em quem seria seu pai, se aquela história de ele ser filho de um deus fosse verdade. E no por que a mãe dele nunca tê-lo contado. E como ela ficaria furiosa quando descobrisse que ele foi a algum lugar sem que ela ficasse sabendo. Normalmente, Hector ligaria para ela, como sempre. Mas ele não tinha celular, e obrigara Nathan a tacar o seu em um bueiro ali perto por ser “perigoso”. Ou seja, ela teria um ataque. Mas teria que perceber a falta dele primeiro, o que dava-lhe algum tempo. Perfeito.
— Ei cara – cutucou Richard – Não fica com essa cara. Vai ficar tudo bem agora, ok? Estará seguro lá. Sua mãe vai ficar bem, também. E o melhor... Eu estarei lá com você! Para te proteger das gatinhas e dos caras maus.
— Valeu, herói. – retrucou ele, conseguindo arquear um leve sorriso com a brincadeira. Ele estava certo, afinal. Pelo que disse, os monstros sentiam seu cheiro, então com ele longe, a mãe estaria segura. Ele estaria seguro. E agora, estava mais próximo de se pai do que nunca estivera.
— Chegamos – disse Hector, pela janelinha que dividia a parte interna e externa do carro, enquanto parava o mesmo. A frente, via-se uma longa estrada de terra, assim como atrás. Ao lado, estendia-se uma colina alta, com um pinheiro no topo.
— No meio do nada? – indagou Nathan.
— Não, olhe com mais atenção. Lá em cima, — indicou o motorista, para o pinheiro.
Se olhasse com atenção, conseguia perceber que era como se houvesse luz do outro lado. Algo a iluminando por trás.
— Vem, vou te levar lá. – exclamou Richard, animado, pulando para fora do carro mais rápido do que alguém comum. Algo bem estranho para um aleijado.
— Ok... Vai com calma, cara! – pediu ele, virando-se para o banco da frente ao sair da caminhonete. – Não vem conosco?
— Não, não... Essa jornada não é minha. Vou voltar pra casa e me certificar que esteja tudo em ordem lá em cima. – disse Hector, apontando para cima. Deveria ser alguma metáfora, vinda dele.
— Tudo bem. Comunique minha mão, ta? – falou Nathan, tendo a voz abafada pelos gritos do amigo para que ele fosse, e seguido de um sinal positivo do homem grisalho, que não tardou em engatar a ré, e voltar para a cidade.
Os passos seguintes foram em direção ao pinheiro. Enquanto ele subia pesadamente, Richard parecia conseguir energia do além para saltitar por ai feito um cabrito.
— Como faz isso? – perguntou Nathan, seguido da expressão de dúvida do rapaz. – Quero dizer, pular por ai. Não precisava de muletas a, sei lá... Horas atrás?
Gargalhada. Uma gargalhada alta o bastante para que os vizinhos de Nathan gritassem e ligassem para a portaria. O problema era que o prédio se encontrava a quilômetros de lá.
— Esqueci de te contar a maior, certo? – falou Richard, segurando a risada. Ele começou a desabotoar as calças e, quando o “semideus” estava a ponto de se virar para não ver aquela cena, o amigo se revelou felpudo da cintura para baixo. Cascos ocupavam o lugar dos pés em um susto que quase fez Nathan rolar montanha abaixo. Parecia que não era apenas os pulos de Richard que o faziam parecer com um cabrito.
— Eu sou um sátiro. Metade bode, metade humano. Surpresa!
— Podia ter guardado essa para o Natal... – disse, sarcástico. – As pessoas montam em você?
— Pare de falar e continue andando, engraçadinho. Estamos entrando.
A vista do alto daquela colina era quase tão assustadora quanto a das pernas de Richard. Dali, podia-se ver um campo enorme que emanava o cheiro de morangos, uma casa grande que era a cara do Texas, alguns outros edifícios em semicírculo e, mais a frente, uma robusta floresta fechada. Tochas espalhadas por todo o lugar e, acima de tudo: Jovens. Muitos e muitos jovens correndo em direções diferentes, alguns trajando roupas comuns, outros com armaduras de couro simples e alguma arma presa ao cinto e, por fim, algumas poucas com a armadura completa, se exibindo para os colegas.
— E ai, o que achou? – perguntou o sátiro.
— Grande. Legal. Levemente assustador.
— Você vai gostar daqui. – concluiu. – Venha, temos que falar com o chefão daqui.
Pela primeira vez na vida, o garoto não se sentia um excluído total. Estava acostumado com olhares de reprovação ou deboche quando passava por pessoas em uma escola nova, mas não era bem assim que o acampamento havia recebido-o. As pessoas pareciam ocupadas demais com seus afazeres para se preocuparem com um novato, e poucas eram aquelas que sequer dirigiam-no um olhar de dúvida. O que, inicialmente, era incrível. Antes que isso pudesse mudar, os dois companheiros chegaram na tal Casa Grande que o aspirante a bode mencionou. Ao se aproximarem, Nathan se deparou com um homem que parecia ser tão vagabundo quanto Hector: Vestia uma camisa florida daquela que se usa no Havaí, bermuda larga e farta, sandálias comuns. Ao seu lado, uma pilha de latas de refrigerante diet vazias e um semblante típico de atendente de fast-food que quer dizer “Volte mais tarde quando eu estiver a fim de atender você, ou arranco seu fígado com dois hashis”, enquanto ele se balançava em uma cadeira de balanço no deque da casa.
— Sr. D. – começou Richard. – Aqui estou, e trouxe comigo o jovem do qual estava encarregado.
O tal do “Sr. D” analisou Nathan de cima a baixo e fez com o dedo para que ele se aproximasse.
— Nome?
— Nathan Smith Parker.
— Paternidade?
— Indeterminado. – respondeu Richard em seu lugar, depois de uma longa pausa.
— Ok, senhor Schmidt, vai ficar no Chalé 11, enquanto seu pai/mãe não o reconhece. Bem vindo, parabéns por chegar vivo, blá blá blá... Aquela coisa toda.
— É Smith.
— Ta, ta, tanto faz... Se decorasse todos os nomes dos heróis, eu não teria tempo para acabar com a vida deles. Sátiro.
- Sim? – indagou Richard.
— Leve ele para conhecer o acampamento, mostre para ele onde vai dormir, enfim, faça tudo isso.
— Tudo bem. Vem, Parker. – proferiu ele, enquanto se afastavam dali
— Cara, como agüentam viver no mesmo lugar que esse cara? Ele é péssimo.
— Sabe, com o tempo você se acostuma com ele. Vem, vou te mostrar as coisas.
Se o acampamento já parecia grande de longe, de perto era ainda maior. Tinham algumas coisas que algumas árvores escondiam de cima: tais como o campo de arco e flecha, uma arena para a prática de esgrima e armas brancas, um lago, a enfermaria, e mais uma dúzia de coisas. Já outras, pareciam ainda maiores, como os prédios em forma de U, que agora descobria ser a Área dos Chalés, junto com um grande gramado no centro, que continha várias estátuas em mármore, uma fogueira que parecia emanar vida ao centro e uma quadra de basquete, onde alguns caras realmente altos faziam enterrar uma brincadeira tão fácil quanto peteca. Ao fim da caminhada, ambos se encontravam a frente do Chalé 11, de Hermes, que de especial, não parecia possuir nada, diferente dos outros. Parecia apenas um chalé de acampamento comum, com um caduceu talhado na frente.
— É aqui que nos despedimos, herói. Agora entra aí, procure pelo Conselheiro do chalé e veja o que ele pode fazer por você. Uma boa seria uma roupa, porque essa aí já esta com aquele cheiro. E esconda muito bem suas coisas durante o banho! Não é a toa que Hermes é o Deus dos Ladrões. Boa sorte! – desejou Richard que, com um aperto de mão, se afastou aos saltos.
— Valeu! Nos vemos no jantar...? – aquilo tinha sido mais uma pergunta que uma afirmação, e pelo grito do outro, a resposta deveria ser sim.
Ao subir as escadas e abrir a porta, Nathan teve de admitir que levou um susto. Era bem maior do que parecia, o que lhe deu uma pacata sensação de esperança quanto a uma cama boa. Tal que logo se esvaiu, vendo o número de pessoas que faziam fila para tomar banho no banheiro, ao fim do quarto. Beliches desarrumados se espalhavam pelos dois lados, o que tornava o chalé um semi-corredor. Vendo a gritaria dali e a bagunça que a maioria fazia, a presença do novato ali mal foi notada, o que o incentivou a caminhar por ali até encontrar uma cama aparentemente sem dono. Não demorou muito até que avistasse um beliche de cima com o jogo de lençóis padrão, que combinavam com o chalé, o que fez Nathan atravessar o campo de batalha da guerra dos travesseiros em um instante, e alcançar seu objetivo. Nem pensou duas vezes antes de subir na cama em um pulo e se deitar na mesma. Tinha sido um dia longo, e ele estava louco por uma soneca. Só a fome o mantinha acordado. Falando nisso, teria de procurar o... Qual era o nome mesmo?
— O que te faz pensar que pode chegar pulando em cima da cama das pessoas, mocinho? – disse uma voz feminina da cama abaixo dele, que fez um frio percorrer-lhe a espinha. Alerta de encrenca, ativado.
— Essa cama é sua? Desculpe... – desculpou-se ele, encarando o teto, até que uma cabeça surgiu ao lado dele e o encarou. Era uma menina que deveria ter a idade dele, seus olhos possuíam a cor de um azul extremamente claro, assim como sua pele branca e seus cabelos lisos, totalmente brancos, presos por um arco negro. Ela parecia ser quase albina.
— Não é minha, não. A de baixo, sim. E se você pula aí em cima, treme tudo aqui em baixo. Inclusive eu. Mas não foi nada demais, na verdade só queria roubar sua carteira. – completou a menina, demonstrando um sorriso travesso ao exibir seu prêmio bem na frente dele. Como ela tinha feito aquilo? Bem que Richard tinha avisado, ele teria mesmo de tomar cuidado.
— Parabéns, conseguiu. Agora me devolve isso aqui. – resmungou Nathan, tentando arrancar a própria carteira das mãos hábeis da menina, que desviava com facilidade.
— Ei, vai com calma, apressadinho. É novo por aqui, né? Da para ver pelos seus reflexos nada apurados. Pode descartar ser filho de Hermes, meu amigo. – completou ela, brincando com a carteira e logo depois a jogando de volta para seu dono, e rindo em seguida. – Prazer, me chamo Agnes. Le Blanc. Agnes Le Blanc. Sou a Conselheira daqui.
— Nathan. Smith Parker. Nathan Smith Parker. — brincou ele, imitando-a, e logo depois estendendo seu braço para um aperto de mão comum. – Ah! Você é a conselheira... Um amigo me disse que poderia me arranjar algumas roupas, já que essas estão... assim.
— Então você que é o cara que matou uma górgona com uma pancada de escudo... Richard me falou de você. Toma aqui. – disse Agnes, entregando-lhe uma camisa laranja com o símbolo do acampamento, uma jeans comum, um par de botas do exército meias e... tinha até uma cueca ali. – Eu te indico o banheiro comunitário, porque se for esperar para tomar aqui, vai terminar esse banho só ao amanhecer. Você tem quinze minutos. Vai, vai! – exigiu ela, empurrando-o pelo ombro na direção da saída do chalé, e abrindo um meio-sorriso durante sua saída. Ele já sentia como se fossem velhos amigos.
O único problema daquele banheiro comunitário era a higiene. O problema mais comum dentre os banheiros comunitários espalhados pelo mundo, sim. Porém, havia um bom motivo para que ninguém tomasse banho lá. O local estava infestado de ratos. Pelo bem de Nathan, nenhum deles entrou em sua roupa durante o banho, o que já foi um milagre. Agradeceria aos deuses depois. O importante era que, agora, ele estava se sentindo bem melhor. A roupa coube bem, o que facilitou bastante sua volta ao chalé, onde a menina de cabelos brancos e o garoto bode o esperavam, conversando próximos a sua nova cama. Aparentemente, os três estavam sozinhos por lá. Ao ouvir o barulho que o solo emitia às passadas pesadas do semideus e perceber sua presença, Agnes estremeceu, apontando para o relógio em seu pulso.
— Eu disse quinze minutos. QUINZE. Não ouviu a trombeta? Sabe quanto tempo demorou?
— Dez? – realmente não tinha ouvido.
— Vinte. – completou Richard. – Vamos logo, estamos atrasados.
O refeitório era simplesmente incrível. A instalação que ele mais tinha gostado até agora? Talvez. Troncos enormes se estendiam às alturas, e as copas das árvores eram suficientes para tampar uniformemente o céu estrelado. Algumas bandeiras com símbolos desconhecidos estavam penduradas nos galhos das árvores acima de onde todos se reuniam, distribuídos em doze mesas compridas, cada uma pertencendo a um chalé diferente, todas alinhadas paralelamente. Na frente das demais, uma mesa comprida era organizada perpendicular as outras, com todos os lugares dispostos de frente para o resto dos campistas. Esta parecia ser a mesa das pessoas importantes e dos diretores do acampamento. Sabia disso, porque o tal do Sr. D estava lá, sentado ao lado de um homem metade humano, metade cavalo que chamavam de... Centauro? Sim, isso mesmo. De acordo com Agnes, ele se chamava Quíron, nome não muito estranho para aquele jovem, e era o Diretor de Atividades. Ele deve ser bem importante pois, assim que se levantou, o silêncio rapidamente tomou conta da sala e os campistas, de seus lugares.
— Boa noite, campistas. Gostaria de desejar a todos uma boa refeição e lembrar a vocês que, daqui a menos de uma semana, será celebrado o jogo da Caça a Bandeira, então se prontifiquem e organizem suas equipes. Avisos posteriores e os Horários das Aulas serão colocados no Quadro de Avisos, na Área Comum. Bom apetite!
Bastou o cessar das palavras do centauro, que ninfas entraram no local com bandejas repletas de comida. Algumas fatias de pão, uvas e fatias suculentas de churrasco estava a ponto de descer pela garganta do meio-sangue quando uma mão nervosa impediu o movimento.
— Ainda não. – advertiu Agnes. – Venha.
Ela se levantou e se dirigiu a uma fogueira que crepitava ao centro do pavilhão, com o companheiro na cola. Jogou um pouco de sua comida, o que parecia o melhor pedaço de carne, e sussurrou algo sobre Hermes, seu pai. Então, ele provavelmente teria de fazer o mesmo.
— A você, pai. Seja lá quem você for. Não se esqueça desse seu filho aqui.
E com isso, voltou para sua mesa. Assim que a maioria dos campistas terminou de se deliciar, o Sr. D chamou a atenção novamente.
— Gostaria só de dar as boas vindas ao novo campista, Nathan Schmidt, e...
Quíron interrompeu-o para um murmúrio.
— Nathan Smith – continuou – E... Ah, que seja. Estão liberados.
Palmas e festa. Logo após o fim do jantar, todos foram conduzidos ao Anfiteatro, um lugar espaçoso onde arquibancadas são dispostas de uma maneira bem específica, e lá alguns jovens fizeram a festa, tocando vários instrumentos musicais, e Nathan não demorou muito a se enturmar por lá. Beberam, cantaram, dançaram, se divertiram, e ao final da festa, trombetas anunciaram o toque de recolher, que levou cada semideus a seu respectivo chalé.
Ao deitar-se na cama, não conseguiu contar até dez para que adormecesse. Estava morto de cansaço desde sua pequena batalha com a górgona, e aquela cantoria no final contribuiu para seu sono. Pelo menos, dormia tranqüilo. Começou a perceber que, talvez, aquele realmente fosse o local para onde ele deveria ir. Talvez, ele estivesse em casa ali. Porém, por hora, teria de se descansar. E, pelo que ouvira dos novos companheiros, o dia seguinte seria bem atarefado.
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