Notas iniciais
Olá! Espero que curtam o capítulo. Boa Leitura.

O H Ó S P E D E

Nora. – a voz de papai me fez voltar em órbita e o fitar, ainda atordoada. – Ele mora com a gente agora.

Franzi meu cenho.

— Como assim mora com a gente? – fiz questão de demonstrar o quanto eu estava odiando aquela notícia. Apontei para o intruso. – Pai, você colocou um estranho dentro da nossa casa, e quer que eu fique calma?

— Patch não é nenhum estranho. – ele defendeu, o que me deixou mais irritada. – Ele veio de uma cidade pequena do Texas para terminar os estudos aqui em Coldwater e entrar numa faculdade.

Desviei meus olhos de papai para o estranho que ainda continuava nos fitando.

— Não acho uma ideia inteligente sair de uma cidade pequena do Texas e ter parado aqui em Coldwater.

Ter parado no meu banheiro, eu quis dizer.

— Nora, não seja indelicada. – papai me repreendeu.

— Tudo bem, Harrison. – aquele estranho se pronunciou depois de alguns segundos calado. – Eu entendo a sua filha. Acho que começamos com o pé esquerdo, Nora. – ele estendeu a mão para mim. – Pode me chamar de Patch.

Patch? Que diabos de nome era aquele? Quer dizer, se esse for um nome. Parece mais com apelido ou algum tipo de nome que se dar para os cães.

Eu não apertei a sua mão e franzi mais a minha boca.

O tal Patch abaixou sua mão, não parecia abalado com a minha falta de educação.

— Bom, respondendo à sua pergunta, eu gostei da cidade. – ele disse. — Ela é calma e boa de se viver. É um bom lugar para começar uma vida.

Seus olhos fitavam os meus, me fazendo sentir uma sensação de desconforto. Não havia me convencido nem um terço do que ele dizia. E antes de desviar meus olhos dos dele, ele desviou o dele primeiro e fitou papai.

— Vou voltar ao trabalho.

Ele passou por mim, mas pude ver ele dar uma olhada discreta pelo canto de seu olho antes de se afastar, deixando eu e meu pai sozinhos naquele estreito corredor e um clima estranho pairado entre nós.

Precisei de dois segundos para me recuperar mentalmente antes de voltar minha atenção para papai.

— Eu não posso acreditar que você colocou aquele estranho dentro de casa.

— Patch não é nenhum estranho, já disse. – papai logo saiu na defensiva como um bom advogado daquele intruso. – Ele é de minha total confiança, e não há nada com que você possa se preocupar.

— Confiança? – eu estava incrédula. – Pai, onde você tirou esse cara?

Não estava acreditando que só passei algumas semanas longe de casa e quando chego, as coisas estão tudo fora do lugar.

Papai suspirou, cansado.

— Querida, vamos subir, aqui não é lugar para ficar discutindo isso.

Concordei com ele, até por que, eu estava falando alto o suficiente para chamar atenção de algumas pessoas para aquele pequeno corredor.

Subimos as escadas e logo já estávamos na sala. E não dei tempo de ele sentar no sofá e logo o abordei:

— Agora pode explicar.

— Conheci Patch dois dias depois que você viajou para Roma. Foi numa quarta-feira à tarde, eu havia ido a distribuidora em Port Angeles pegar alguns engradados de bebidas para repor o estoque do restaurante. Eu estava fechando o porta-malas quando fui abordado por dois caras de capuz. – meu interior entrou em alerta. — Eles decretaram assalto. Eu não sabia o que fazer. Eles estavam armados. Eles iriam levar as encomendas e o carro. Eu levaria um baita de um prejuízo, sem contar no carro que é um quebra galho. Mas o pior, eles poderiam me matar.

— O quê?

— A minha sorte foi Patch. Ele estava passando por aquelas bandas e achou estranho dois caras robustos me intimidando. — ele deu uma pausa. — Confesso que achei a atitude de Patch errada, quando ele se aproximou e comprou briga com os caras. Mas se ele não tivesse feito aquilo, eu não sei o que poderia ter acontecido.

Eu não consegui dizer nada, estava chocada o suficiente para formular alguma coisa. Papai continuou:

— Eu o agradeci, e descobri que ele tinha acabado de chegar à cidade e não tinha onde morar. Estava procurando algum pensionato para alugar. E como ele tinha salvado a minha vida eu o convidei a ficar conosco. Era o mínimo que eu podia fazer. Bom, no começo ele ficou acanhado em aceitar, não queria morar de graça, ele não achava justo. Então entramos num acordo. Eu aluguei aquele quarto de frente ao seu que estava vazio para ele. E ofereci uma vaga de ajudante de garçom.

Soltei uma risada sarcástica. Não estava acreditando no que estava ouvindo. Meu pai havia pirado, esse era o motivo. Ele nunca colocaria alguém em nossa casa, um estranho para falar a verdade, morando conosco em sã consciência. Mesmo que ele tivesse o ajudado. Isso não era motivo o suficiente. Nem Dante que trabalhava para ele há alguns anos nunca tinha entrado em nossa casa. E agora um cara que vem de não sei onde, e do nada já conquista a confiança de meu pai para chegar ao ponto de morar no mesmo teto que nós? Isso era muito estranho.

— Porque você não me contou o que tinha lhe acontecido quando eu te ligava? Você correu risco de vida. Você poderia ter...

— Nora, se acalma. Está tudo bem. — meu pai me interrompeu. — Graças ao Patch eu estou bem.

— Eu gostei dele.

— Querida, com o tempo você se acostuma. Eu sei que você está se sentindo acanhada com o fato de ter alguém estranho em casa, mas filha, Patch é um bom rapaz. Ele é sério e trabalhador. Não é como aquele seu amigo Scott que vive para cima e para baixo vagabundado. Ele já tem responsabilidades. E você sabe que eu admiro muito isso nas pessoas.

Fechei meus olhos por um breve segundo, e suspirei cansada. Não iria conseguir tirar aquela ideia absurda da cabeça dele até eu provar o contrário. Aquele cara era muito estranho, e não pelo fato do acidente no meu banheiro, e nem por ele ser bonito... mas não gostei da sensação estranha que senti quando ele estava por perto, e muito menos aquele olhar que parecia meio debochado e meio sombrio.

Papai se levantou do sofá e olhou para mim.

— Dê uma chance a ele, você vai ver que é um cara legal. — fiquei calada. Ele olhou seu relógio de pulso. — Tenho que voltar lá para baixo. — olhou para mim. — Daqui a pouco eu mando seu almoço. Não tem nada pronto aqui. E presumo que você esteja faminta.

Eu olhava para o chão, tentando processar aquela situação. Escutei o som da porta fechar, papai havia saído. Continuei parada, processando toda aquela informação. Desde que coloquei os pés em casa eu havia sentido como se algo estava fora de lugar, e estava. Papai estava agindo estranho, o clima em casa estava estranho como se a minha privacidade tivesse sido usurpada. E tudo isso por culpa dele.

Peguei minhas roupas enroladas na toalha e fui para o banheiro. Ele costumava ser somente meu, agora não era mais. Havia uma tolha molhada pendurada num dos ganchos da parede, o chão estava úmido o que me fez voltar nas lembranças do corpo forte molhado seminu a alguns minutos atrás. Balancei a cabeça, espantando aquelas imagens, e começando a ignorar aquele pequeno detalhe irritante de que aquele banheiro não era mais meu.

❊ ❊ ❊

Saí do banheiro vestida, a toalha estava enrolada na minha cabeça. E descalça, caminhei até a lavanderia que ficava depois da cozinha. Abri a porta e entrei no pequeno cômodo onde havia coisas de limpeza, assim como a máquina de lavar, um pequeno tanque na parede e um armário para sabão, pano de chão, detergentes e assim se vai...

Joguei minhas roupas sujas no cesto de roupas sujas e entrei na cozinha dando de cara com Patch em frente à mesa. Levei um susto, pois não havia percebido ele entrar na casa. Ele olhava para mim, captando qualquer movimento que eu fazia, o menor possível.

— O que você está fazendo aqui? – perguntei, começando a ficar incomodada com aquele olhar astuto.

— Trouxe o seu almoço.

Olhei para um prato coberto por um papel laminado em cima da mesa. Voltei minha atenção para ele que não havia tirado os olhos de mim.

— Obrigada.

Minhas pernas se movimentaram para frente, eu tinha que sair dali. Meu sensor de proteção exigia para eu ficar longe dele. Eu sentia que Patch não era boa coisa.

Antes que eu atravessasse a porta da cozinha ele se pronunciou:

— Acho que nós começamos com o pé esquerdo.

Virei-me para ele o encontrando próximo de mim, bem próximo. Como? Como ele havia chegado tão perto sem que eu percebesse?

Dei um passo para trás, tentando recuperar o meu espaço pessoal.

Patch ergueu as sobrancelhas.

— Parece que você tem medo de mim.

— Eu não tenho medo de você. – a pesar das sensações esquisitas, eu consegui fazer com que minha voz saísse firme. — Para falar a verdade eu não consegui entender como você veio parar aqui. Meu pai não é de colocar estranhos dentro de casa. Eu não sei o que você fez, mas você conseguiu conquistá-lo rapidamente.

Resolvi confrontá-lo, de propósito, queria saber qual era a dele. Eu não havia engolido aquela história que meu pai o abrigava por agradecimento. Era tão óbvio que ali havia coisa.

A expressão de Patch era indecifrável. Os contornos de seu rosto estavam relaxados e a linha reta de sua boca deu uma pequena curvada para cima. Seus olhos não deixavam os meus, nem por um momento.

— Seu pai é um homem bom. Ele está me ajudando muito. Devo muito a ele.

— É mesmo? – meu tom saiu sarcástico. – Pena que eu não acredito em você. Não confio em você.

Ele deu um passo para frente ao mesmo tempo dei um passo para trás. Estávamos menos de um metro de distância um do outro. Perto o bastante para sentir seu cheiro de hortelã.

— Esse pode ser um problema que pode virar uma fraqueza mais tarde. A confiança pode te tirar de muitas enrascadas, mas como também pode colocar em muitas. – ele sorriu. – Mas isso só depende de quem você confia. E como você não sabe confiar nas pessoas isso complica para você. – e avançou um passo, e dei outro para trás.

— Você está invadindo meu espaço pessoal. – declarei, a mão estendida à sua frente. Seu sorriso aumentou enquanto levantava as mãos para cima, em sinal de redenção. — Por que Coldwater?

— Eu já disse. Vim para estudar.

— Isso é o que sua boca diz, mas seus olhos dizem outra. Você esconde coisas.

Patch inclinou para frente, seus olhos estavam mais negros quanto um buraco escuro, e a mecha de seu cabelo preto caindo sobre eles o deixava mais sombrio. Ele olhou bem no fundo dos meus olhos, o que me fez sentir arrepios na espinha. Sua voz soou baixa:

— Eu escondo muitas coisas.

Meu coração estava tão acelerado que eu podia escutá-lo batendo. Patch tinha acabado de confessar que escondia coisas, segredos.

— Eu tenho que descer. — ele passou por mim em passos rápidos. E num ato impensado, agindo diante a adrenalina de me sentir ameaçada agarrei seu braço, o impedindo de sair.

— Espere!

Senti os músculos de seu braço ficar rígido. Patch estava parado como estátua, olhando para a portal como se estivesse em transe. Segundos depois ele virou seu corpo para mim. Seu rosto estava com uma expressão incrédula, como se eu tivesse cometido o maior pecado da humanidade. Seu olhar desceu para minha mão segurando seu braço. Segui seu olhar e rapidamente tirei minha mão de seu braço, um pouco constrangida.

Ele olhou para mim novamente, seu rosto agora estava sério. Senti minhas mãos ficarem soadas, isso acontecia quando eu ficava nervosa.

Patch me deu as costas e se afastou, logo ouvi o som da porta da sala sendo fechada.

Fitei minha mão, além de soada ela estava formigando.

Que estranho? Parecia que não havia gostado de tê-lo tocado. Parecia que meu toque... balancei a cabeça. Você está ficando maluca, Nora. Ele é só mais um cara estranho. Disse para mim mesma. Mas algo me dizia que ele era mais do que um cara estranho.

Notas finais
Gostaram? Por que Patch ficara desse jeito depois que Nora o tocou? Quem se arrisca dá um palpite? Beijinhos *^_^*