O Hóspede.
13 Confiança.
Notas iniciais
O H Ó S P E D E
Ainda atordoada com o pedido de Patch, fui para minha próxima aula depois que o sinal do término do intervalo soou. Não tinha visto mais a Vee e eu torcia internamente para que ela estivesse bem, que Scott não estragasse tudo de vez com o seu ego egocêntrico.
Patch não apareceu na aula de química, deixando seu espaço vazio ao meu lado. Eu queria saber o porquê de ele ter faltado à aula, mas eu não me surpreendia, já que ele tinha cara de que fazia isso com frequência. Sabia que aquele papo de estudar numa escola melhor para entrar numa boa faculdade era tudo uma fachada. Aquilo era um meio que ele tinha para ocultar o que ele era realmente: um vagabundo.
A próxima aula seguiu normalmente e entediante, e na aula de educação física eu pude ver o meu hóspede em pé, ao lado de Scott que ria feito um porco.
Patch estava usando aquele seu boné azul desbotado de baseball com aquela cara de paisagem que ele sempre fazia. E como se o meu olhar fosse uma espécie de ímã, ele ergueu seu olhar diretamente para mim, como se soubesse onde eu estava.
Senti meu estômago dar cambalhotas por dentro, e aquela sensação de querer estar perto dele se apossou em mim novamente. Eu não estava mais me reconhecendo. Eu não estava conseguindo manter mais o controle dos sentimentos que eu sentia por ele sem o meu consentimento.
Eu estava sendo traída por mim mesma.
Mas foi ali, naquele exato momento, que eu soube que eu não tinha mais para onde fugir. O que eu estava tentando a todo custo evitar havia me alcançado sem eu ao menos perceber. Chegando pelas beiradas, se arrastando lentamente.
Eu estava me apaixonando por Patch.
Era difícil eu admitir para mim mesma que estava gostando de um completo desconhecido que havia se aproveitado da bondade de meu pai para se instalar em minha casa, e assim ganhando o território. E mesmo consciente de que ele não era um cara comum e que escondia segredos, e principalmente quando o meu sistema de defesa me pedia para eu ficar longe dele, eu queria estar perto.
Depois daquele dia desgastante com aulas chatas e pensando se eu iria ou não ao seu encontro no estacionamento, eu optei pela primeira opção. Eu iria. Mas a minha mente sempre mantinha o foco que eu só queria saber o que ele queria comigo, e mais nada. Mas eu sabia que minha real intenção era outra. Eu queria vê-lo.
Depois da última aula e do sinal do término tocar, eu fui para meu armário guardar meus livros que eu não precisaria e pegar o que eu iria estudar hoje em casa. Os alunos zapeavam pelos corredores, rindo e falando com seus amigos, o que deixava a falação alta para os ouvidos.
Fechei a porta do armário e comecei a andar, seguindo o amontoado de alunos nos corredores cheio. De longe eu vi a cabeleira loira de Vee. Pensei em chamá-la, mas ao seu lado estava Scott.
Eu não sabia o que havia acontecido com eles dois, até por que, não vi mais Vee depois disso. E foi por isso que resolvi deixar os dois ali sozinhos e segui um caminho diferente, virando o próximo corredor, em direção aos banheiros.
Fechei a porta assim que entrei, ele estava vazio e as cabines estavam todas abertas. Coloquei minha mochila em cima da pia e ergui meu rosto, vendo meu reflexo pelo espelho. Meus cabelos estavam arrepiados e mais descontrolados que o normal. Meu rosto estava com uma coloração levemente avermelhada, e minha boca ressecada.
Rapidamente abri a torneira e levei um pouco de água ao meu rosto. Peguei o papel toalha ao lado e o sequei. Passei minhas mãos pelos meus fios cacheados, tentando de alguma forma abaixá-los, mas aquilo era impossível. Eu nunca gostei de meus cabelos cacheados, eu sempre os detestei. Molhei minhas mãos novamente na corrente de água que saía da torneira e os levei aos cabelos, e assim os domando aos poucos. Umedeci meus lábios para tirar aquele ressecado e passei as mãos pelo rosto, amenizando o pequeno rubro em minhas bochechas.
Por que eu estava fazendo aquilo realmente? Aquilo era uma estupidez de minha parte, eu não estava acreditando que eu estava tentando ficar mais apresentável para me encontrar com Patch no estacionamento. Aquilo era ridículo.
Balancei minha cabeça para os lados e fui arrebatada um uma decisão de incerteza. Eu realmente deveria ir? Eu podia deixá-lo lá me esperando e ir para minha casa, a pé.
Droga! Por um momento eu tinha me esquecido que eu havia vindo para a escola com meus próprios pés. Eu poderia pegar um ônibus, mas eu mal havia trazido dinheiro, e o que eu tinha na mochila não daria nem para pagar um sorvete.
Acho que era melhor ter atrapalhado o momento de Vee com Scott. E quem sabe um dos dois me daria uma carona? Mas agora era tarde, eles completamente haviam ido embora, e se pelo menos eu tivesse um celular. Nem sei como contaria para meu pai que eu perdi o meu. Ele iria buzinar no meu ouvido por uma semana.
Suspirei.
Peguei minha mochila na pia e a coloquei no ombro e saí do banheiro. Não havia nada o que fazer a não ser ver o que realmente Patch queria comigo.
Os corredores estavam vazios quando passei por eles antes de sair do prédio. Caminhei pelo lado de fora, indo em direção ao estacionamento completamente vazio. Eu havia demorado tempo demais no banheiro com meus devaneios inertes e confusos. Patch completamente deveria ter se cansado de me esperar e ido embora. Eu não o culparia, pois se caso fosse eu em seu lugar eu não hesitaria de deixá-lo para trás.
Entrei no estacionamento e olhei para os lados. Só havia uns cinco carros estacionados. Sua motocicleta preta e grande não estava mais li. Mordi meu lábio e fechei os olhos enquanto soltava um suspiro.
Patch tinha ido embora.
Resolvi sair de lá, voltando o caminho para o portão da frente do colégio. O inspetor estava no portão, o fechando. Corri e chamei por sua atenção que me olhou com uma sobrancelha arqueada, voltando a abri o portão e me deixando passar.
— Obrigada.
Comecei a andar pela calçada em passos lentos e totalmente sem vontade de andar aquele quilômetro até minha casa. Eu olhava o chão vendo meus tênis chutar de vez em quando umas pedrinhas aleatórias que estavam espalhadas. Ergui minha cabeça para cima quando de repente escutei uma voz estranhamente familiar:
— Ei!
Olhei para os lados até encontrar Patch do outro lado da rua, ao lado de sua motocicleta monstruosa. Parei de andar e continuei o olhando, enquanto o meu coração estúpido não parava de bater desenfreado.
Ele fez um gesto, me chamando com o dedo indicador. Hesitei por um instante, me perguntando se eu queria realmente ir até lá. Ele havia me esperado enquanto eu pensei que ele tinha ido embora.
Decidida depois de saber que ele havia mesmo me esperado, olhei para os dois lados e esperei três caros e uma moto passar para eu atravessar a rua, indo a seu encontro.
Patch acompanhava meus movimentos até ele com um olhar, sem desviá-los nenhum segundo sequer. À medida que eu me aproximava dele, percebia que ele reprimia um pequeno sorriso no canto direto de sua boca.
Terminei de atravessar a rua, parando a sua frente, na calçada. Olhei para seus olhos negros como a noite, sentindo-me a garota mais estúpida do mundo. Ele era lindo, com aquela mecha de cabelo que caía em seu olho, o que o deixava mais charmoso.
Foco Nora. Foco!
Recobrei minha sanidade que de uns tempos para cá eu a perdia com mais frequência, e logo a minha voz soou, quebrando os vestígios do silêncio irritante entre nós.
— Eu pensei que você tinha ido embora.
Seus olhos ficaram mais pretos.
— E por um momento eu pensei que você tivesse me dado um bolo.
— Eu estava no banheiro. — disse com minha voz soando um pouco tímida.
Droga!
Seu olhar me avaliou de cima a baixo, totalmente felino, o que me deu a sensação de estar sendo despida.
— O que você quer falar comigo? — perguntei, colocando todo o meu peso para a minha perna direita, sentindo-me estranhamente intimidada com seu olhara avaliador.
Patch subiu seu olhar até parar em meus olhos. De repente ele caminhou até sua moto, e tira de lá o capacete reserva e o estende para mim.
— Pegue.
Não peguei. E eu olhei para o capacete sem entender aquela atitude, e voltei a olhar para sua cara, enquanto sentia minha testa franzir.
— Estou esperando. O que você quer falar comigo? — voltei a perguntar enquanto cruzei meus braços abaixo de meus seios.
Ele ainda estendia o capacete para mim.
— Pegue. — ele insistiu.
— Não. — franzi a boca.
Ele queria o que comigo afinal? Então por que ele não fala logo o que quer antes de ficar enrolando?
Mas sua frase a seguir havia me pegado de surpresa:
— Eu vou levá-la para casa.
— O quê?
Olhava para ele que mantinha seu rosto sereno, enquanto me olhava de volta. Senti os pelos dos meus braços arrepiarem.
— A partir de hoje você vai ir e vim comigo para escola.
— Como é que é?
Será mesmo que eu escutei isso? Não consegui controlar de soltar uma risada sarcástica.
— É isso que você escutou. — ele não parecia que estava brincando.
Franzi o cenho.
— Eu não vou a lugar nenhum com você nessa máquina de destruição. — apontei com o queixo sua motocicleta atrás dele, enquanto meu íntimo borbulhava de excitação por sentir mais uma vez suas costas quentes e largas, e seu cheiro...
Chega!
Patch continuou:
— Eu não vou deixar você andando sozinha por aí com um maníaco andando solto te perseguindo.
— Isso foi ontem. Até parece que isso vai acontecer de novo. Estava de noite. — era o que eu dizia toda hora para mim, mas na verdade eu estava acanhada com a possibilidade de alguém querendo me pegar. E o pior, eu nem sabia o porquê disso.
— As coisas não são tão simples como parece, Nora.
— Estão explique. — exigi. — Você parece que sabe mais do que aparenta saber.
Vi os lábios de Patch franzirem mais, enquanto ele balançava sua cabeça para os lados.
— Não tenho nada de concretizado ainda.
— Então você sabe quem está atrás de mim?
Ele balançou a cabeça para os lados novamente.
O que realmente ele sabe a respeito dessas coisas estranhas que estão acontecendo ultimamente?
Ele ergueu o capacete novamente.
— Pegue.
— Eu já disse eu vou a pé.
— Você não vai. — ele parecia um pouco zangado.
— Você não pode me obrigar. — minha voz elevou um décimo.
— Eu posso contar para o seu pai.
Olhei-o alarmada.
— Você não faria isso. Você prometeu!
— Mas eu posso quebra a promessa se isso for para mantê-la segura.
Prendi a respiração com a sua última afirmação. Ele disse aquilo com tanta segurança, com um convencimento tão grande que por um momento eu pensei que ele realmente me quer bem.
Patch aproximou-se mais de mim, ficando a centímetros longe de meu corpo. Eu pude sentir seu cheio masculino me deixando levemente embriagada. Ele pôs uma mão em meu ombro, e o apertou levemente e olhando em meus olhos ele disse:
— Confie em mim, Anjo.
— É difícil. — minha voz saiu como um miado de tão baixa.
Minhas mãos estavam soadas e trêmulas, meu estômago parecia que havia borboleta nele. Patch aproximou seu rosto do meu, e prendi minha respiração e meus olhos se fecharam automaticamente.
Senti seu nariz roçando meu pescoço, e sua respiração batendo em minha pele me causava arrepios naquela área sensível. Ele me cheirou, subindo com sua boca roçando a minha pele até chegar a minha orelha.
— Você precisa saber confiar um pouco mais em mim. — ele disse, e deu uma leve mordida no lóbulo de minha orelha. Reprimi um pequeno gemido.
Ele se afastou um pouco de mim. Abri meus olhos, e o vi com um sorriso convencido nos lábios. Ele... ele estava me testando? Ele tinha feito aquilo de propósito. Ele tirou a prova que eu era vulnerável a seus toques.
Cachorro!
Cretino!
O empurrei com toda a minha força para longe de mim, mas parecia que eu era tão fraca, pois ele só havia dado um passo para trás.
— Uou.
— Você é um canalha! — declarei realmente irritada, minhas bochechas vermelhas.
Ele arqueou as sobrancelhas, parecia confuso.
— Não entendi o motivo do insulto.
Eu fiquei mais vermelha. Eu queria o que afinal? Que ele me beijasse naquele momento? Que fora maldade ele ter me deixado só na vontade naquele roçar de lábio no meu pescoço?
Definitivamente Patch está me deixando maluca.
Ele ergueu mais uma vez o capacete em sua mão esquerda para mim.
Não havia mais nada para eu fazer.
Puxei com força o capacete de suas mãos com pirraça. Queria que ele soubesse o quanto eu estava zangada com aquilo tudo. Pude ver o canto de sua boca se erguer novamente num sorriso torto, satisfeito enquanto pegava o outro capacete e colocava na cabeça. E fiz o mesmo com o meu.
Patch realmente conseguia me tirar do sério. E eu me odiava por estar gostando desse cretino chantagista. Eu queria enforcá-lo.
Ele subiu em sua moto a equilibrando com seu corpo. Coloquei minhas mãos em seu ombro largo, tomando impulso para subir na moto. E como da outra vez, levei minhas mãos ainda um pouco tímida até sua cintura, o abraçando. Pude sentir novamente seu perfume másculo entrando em minhas narinas e me deixando totalmente entorpecida.
Senti um pequeno tremor em suas costas, enquanto elas ficaram um pouco tencionadas. Era a segunda vez que aquilo acontecia. Ele se recompôs rapidamente e logo deu a partida. Patch corria, o que me fez agarrar mais seu corpo contra o meu. Desgraçado, ele sabia que eu tinha medo quando ele corre assim, e ainda assim ele corria.
Cinco minutos depois ele estacionou na garagem debaixo do restaurante de papai. Saí rapidamente de cima da moto e quase caí por causa de meu ato totalmente destrambelhado. Atrapalhei-me para tirar o capacete, e quando o finalmente tirei aquilo da minha cabeça, a primeira coisa que vejo é o sorriso totalmente debochado de Patch. Aquilo me deixou mais zangada.
— Você faz isso de propósito, não é? — ralhei, jogando o capacete nele que pegou antes que acertasse sua barriga.
Ele me olhou, tentava parecer sério, mas o brilho de zombaria em seus olhos o denunciava que ele não estava levando a sério.
— Não sei por que você está tão brava, Nora. — ele saiu da moto.
Ele estava se fazendo de desentendido, só pode.
— Você é um idiota! Sabe perfeitamente o que eu estou falando... quer saber, que se dane você.
Virei meus calcanhares e saí de lá indo em direção as escadas em passos rápidos. Senti que ele vinha atrás de mim, quase emparelhando os meus passos, e quando viramos o corredor das escadas à voz de meu pai soou, o chamando. Virei um pouco meu rosto para o lado podendo o ver parado enquanto meu pai se aproximava dele.
Aproveitei a deixa e subi correndo para casa. Eu tinha que colocar meus pensamentos em ordem, e principalmente digerir que a partir de amanhã eu iria ir e vim da escola com Patch.
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