O Guardião e a Raposa
14 Palavras não podem voltar atrás...tanto escritas quanto faladas...
Notas iniciais
– IIAAAAAAH!!!
– D-De-Desculpa e-eu...! – Ambos corremos para a porta, ele fica de fora e eu fecho e tranco a porta.
Ok! Eu estou num momento de desespero aqui! Já tentaram se imaginar na minha situação? Não?! Então continue lendo e fique quieto!
Eu sei que ele ainda está ali fora, posso ver a sombra de seus pés debaixo da porta e ouço a dificuldade que ele tem de respirar – já eu, tô o contrário, não consigo parar de respirar rápido pra ver se acalmo, certo não tá adiantando. – Ouço o barulho dele escorregando as costas na porta até sentar no chão, acabo fazendo o mesmo e me agarro aos joelhos. Só tem uma porta separando a gente, mas nenhum de nós faz nada pelos próximos 30 segundos mais longos da minha vida – até agora claro.
– Que —injustiça essa... – Ele é o primeiro a conseguir dizer alguma coisa.
– O-O que?!
– Você — consegue encher os pulmões de ar — e eu aqui quase morrendo pra conseguir — fôlego se quer. – Ele começa a rir, ainda quase sem fôlego algum.
– C-Como é que é? – Estou surpresa cm isso, mas o que vem depois é o que realmente me deixou sem palavras.
– Eu tenho uma audição um tanto apurada, puxei da minha mãe...A-Além do mais...q-qualquer um ficaria desse jeito depois de algo assim. – Ele parece nervoso, mas acho q eu estou mais. – Ele faz uma pausa, ri um pouco, acho que a respiração dele voltou ao normal, depois volta a falar. – Apesar de tudo... – Ele hesita, mas fala. – V-Você é muito mais bonita do que eu imaginei.
A blusa amarela que ainda estava na minha mão caiu no chão com o choque dessas palavras, ainda estou processando e com a mente em branco fica meio difícil.
– “E-Ele...” – Certo eu não consigo nem pensar direito.
Por mais que eu não tivesse entendido – ou sei lá o que – eu me senti bem e, além do rubor nas minhas bochechas, acabei deixando um sorriso escapar.
– Eu já vou tomar café, se você quiser eu posso esperar... – Ele aguarda a resposta, como sempre.
– A-Ah! Não tudo bem eu já vou...! – Só depois eu percebi que a resposta foi imediata e que vou ter que encará-lo logo depois disso.
– Ok então. – Posso ouvi-lo se levantar e deixar a porta do quarto.
– “Tô frita! Não vou conseguir encarar ele depois de uma coisa dessas!” – Pode não parecer, mas estou gritando por dentro. Não aguento a pressão de saber que em poucos minutos eu vou ter que encará-lo de um jeito ou de outro, me levanto do chão, começo a rodear o quarto tentado me acalmar...é isso não tá funcionando! – “Só tem um jeito...” – Me recordo de algo que talvez possa me ajudar, começo a fuçar nas malas. – “Eu sei de trouxe aquilo comigo! CADÊ?!” – Estou cada vez mais nervosa, até que... – ACHEI! – Grito sem querer.
– O que? – Ouço Ame do lado de fora do quarto, não está muito perto, mas parece se aproximar.
– N-Nada não! Eu já vou. – Respondo voltando a olhar para o pingente e a corrente dourada em minhas mãos.
Um pingente pequeno em forma de uma gota alaranjada, com o desenho de uma máscara de raposa. Uso ele desde pequena como uma forma de me acalmar já que esse é o seu verdadeiro propósito. Meu pai que me deu quando descobriu que eu seria uma mestiça e me disse para usá-lo sempre que ficasse nervosa. Nunca liguei muito pra ele, mas ajuda quando não tenho força suficiente para me controlar.
Coloco o pingente na corrente dourada e prendo no pescoço. Visto uma blusa amarela clara rendada nas costas enquanto jogo a outra que ficou toda amassada no meio das roupas para passar.
– “Acho que assim está bom...” – Termino de me arrumar e já posso sentir o efeito do colar funcionar em mim, já me sinto mais calma e sei que posso sair daqui, coloco o pingente para dentro da blusa de forma que fique o mais escondido possível, não é difícil já que ele é pequeno. Saio do quarto e vou direto para a mesa onde o café da manhã já está posto e Ame está prestes a se sentar quando me vê chegar.
– Agora acho que dá pra gente começar um dia normal. – Ele sorri e me chama para a mesa com um gesto da mão.
Por mais que eu esteja com o colar ainda me sinto um pouco nervosa, mas evito ao máximo mostrar isso, ele também parece estar tentando não tocar no assunto.
– E então...o que vai querer? – Pergunta.
– N-Não...pode deixar que eu sirvo. – Ele parece se surpreender então assente com a cabeça e se senta. – Café ou chá? – Pergunto me levantando enquanto ele se senta.
– Café...obrigado... – Ele parece um pouco sem graça perto de mim, não sei bem descrever o motivo exato, mas acho que é uma mistura de tudo o que já aconteceu nos últimos dias.
– Eu acabei esquecendo de perguntar...como foi com seu pai? – Pergunto colocando chá na minha xícara depois de servir a Ame.
– É mesmo, já havia esquecido disso... – Ele derrama uma colher de chá de açúcar na xícara com o café, mistura, bebe um gole e depois volta a falar. – Meu pai não é muito a favor disso como eu já tinha imaginado, ele acredita que Kori seja uma herdeira boa já que assim poderemos formar uma aliança com o Reino das Monarca do Vento...Também citou outras coisas, mas não são muito boas...
Fico em silêncio encarando a xícara de chá nas minhas mãos, por alguns segundos senti o coração apertar novamente, mas...por que?
– Por mais que ele não goste muito da ideia eu meio que recebi permissão para te apresentar à ele ao menos uma vez. – Agora começo a me sentir aliviada com a notícia.
– A-Acho que isso é bom não?! – Comento sem olhar para ele ainda encarando a xícara, mesmo tentando me acalmar e com o pingente comigo posso sentir o rubor começar a se formar nas minhas bochechas.
– A-Acho que sim... – Ele parece ficar do mesmo jeito, desvio o olhar para ele por dois segundos, foi o suficiente para ver que ele também estava ruborizado e mexendo numa mecha de seu longo cabelo. Volto a encarar o chá.
– “Ok. Isso está ficando estranho bebe o chá!” – Dou ordens para mim mesma pela mente e começo a beber todo o chá de uma vez, terminando, Ame retorna a falar.
– Tem uma coisa que me deixou curioso... – Ele comenta chamando a minha atenção. – Se não quiser não precisa responder mas... Por que você estava deitada na frente da lareira ontem à noite sem nenhuma coberta? Se não tivesse me respondido eu ia pensar que você estava morta congelada... – Ele está realmente preocupado, posso ver isso em sua expressão.
– Ah... aquilo... – Coloco a xícara, agora vazia, de volta no pirex, respiro fundo e começo a falar. – É que desde pequena quando eu me sinto meio sozinha eu tenho essa mania de ficar na frente de uma lareira ou de pedir alguém pra ficar comigo por um tempo...minha mãe diz que eu puxei isso do meu pai... – Faço uma pausa. – E quanto ao estar sem coberta nenhuma...bem eu acho que já estou me acostumando com o clima gelado daqui. – Solto uma risada baixa tentando descontrair.
– Isso é quase estranho... – Ame comenta.
– O que? – E eu estou tentando entender.
– Eu também tinha esse costume...desde criança sou assim... – Diz com um sorriso tímido no rosto. O silêncio fica no ar por mais alguns segundos até que ele retorna a falar. – Eu vou dar uma olhada na vila... – Se levanta e já vai direto para a porta.
– M-Mas...
– Eu não demoro...pode confiar. – Fiquei até sem graça, mas é verdade que eu não queria que ele saísse agora, não posso fazer nada a não ser terminar de comer e arrumar a cozinha, que a muito não tem tanta coisa pra se lavar.
Pouco depois que terminei de lavar a louça, já estava começando a guardar os talheres quando ouvi o barulho na porta da frente e fui ver, Ame havia acabado de chegar, está com uma cara meio estranha e carrega um envelope em sua mão.
– O que foi? – Pergunto.
– Uma carta... – Ele diz retirando os calçados, calça as pantufas e vai para a sala. O acompanho.
– De quem? – É eu to meio curiosa sim.
– Do meu pai...outra vez... – Ele põe a carta na minha mão, o envelope já foi aberto então presumo que ele já tenha lido, isso me preocupa um pouco e temerosa eu começo a ler a carta, nas últimas palavras já estou com as mãos tremendo e fico repetindo aquelas últimas frases na minha mente.
“Não pense que trazer sua noiva aqui vai me fazer mudar de ideia, nunca vou concordar que você se case com uma Raposa e tenha o mesmo destino que o de seu tio, por mais que você ame essa garota ela nunca será sua esposa oficialmente...”
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