O Guardião das Derwin
1 Ritual
Notas iniciais
"Você está indo à Feira de Scarborough?
Salsa, sálvia, alecrim e tomilho
Mande lembranças àquele que vive lá
Ele outrora foi o meu verdadeiro amor"
(Scarborough Fair)
A jovem bruxa não precisou usar seus talentos para saber que se tratava de uma ave incomum. A névoa, anormalmente densa no coração da floresta, aumentava o contraste de um par de olhos grandes que brilhavam em sua direção. Conforme se erguia no céu tingido pelas primeiras cores do crepúsculo, a lua refletia seu esplendor prateado nas penas alvas da coruja.
— Brianna Derwin — a garota ouviu o próprio nome ressoar no fundo de sua mente, entendendo que o chamado telepático emanava do ser mágico apresentando-se sob a forma do grande pássaro.
O coração da feiticeira saltou dentro do peito tão logo reconheceu a presença que a regera durante toda a vida, e com a qual se conectara diversas vezes de forma mística.
— Minha senhora! — exclamou ao baixar a cabeça em reverência.
— Trago uma mensagem importante. — prosseguiu a deidade, uma clara inflexão de urgência na afirmação — O clã Derwin corre perigo. Caçadores estarão a caminho em breve. É necessário entoar os cânticos. O protetor deve ser despertado. Não há tempo a perder.
— Agradeço o aviso. Aceitamos e obedecemos ao que for ordenado.
Satisfeita pela resposta, a imponente coruja de penas brancas alçou voo do galho onde estivera pousada.
Refazendo-se do choque inicial, Brianna retornou a passos rápidos para a cabana, contagiada pelo sentimento de inquietude expressado pela visitante inesperada. Empurrou com vigor a porta de madeira, e o par de sinos ali pendurado tilintou.
— Titia! — afoita, a moça colocou as travas na porta depois de entrar — Titia!
— Mas que gritaria é essa, minha filha? — resmungou Amarantha Derwin surgindo dos fundos para entender o motivo de tanta agitação.
A velha feiticeira franziu a sobrancelha ao ver a sobrinha de mãos vazias:
— Não encontrou as amoras-negras que pedi?
— Esqueça as amoras, tia! A Grande Deusa acabou de vir até mim.
— Abençoada seja! — arquejou a anciã de olhos arregalados — Qual foi o propósito da visita?
— Prevenir-nos de que aqueles que nos caçam logo chegarão.
— Malditos! — rugiu Amarantha, antes de acrescentar — Precisamos invocar o guardião.
— Esse é o desejo e a ordem da Deusa. — assentiu Brianna.
— Devemos nos apressar. — comentou a mulher mais velha, conferindo pela janela a posição da lua no céu já escuro — Temos muito a fazer.
Por contar com a força da juventude, Brianna deu a volta na casa por fora, passando pela cisterna para alcançar os dois barris de madeira coletores de chuva, que estavam cheios.
Chovera bastante nos últimos dias. Ali a jovem bruxa obteve a água que ela e a tia usavam em suas poções mágicas. Enquanto isso, Amarantha derramava sal ao redor de um punhado de velas de cera de abelha, a fim de purificá-las para o ritual poderoso de invocação que precisava ser realizado naquela noite. Ao passo em que a tia purificava as velas e entalhava runas nelas com seu athame, um punhal cerimonial de bruxas, Brianna reunia os ingredientes principais: ervas colhidas no primeiro orvalho da manhã, raízes escavadas no escuro de uma noite sem lua, cristais e óleos mágicos energizados pelos raios da lua crescente.
As duas Derwin tomaram banho de ervas e beberam infusões de flores que potencializavam sua capacidade de concentração, bem como aumentavam seus poderes. Estando os preparativos bastante adiantados, seguiram para o santuário bruxo da família: uma clareira na floresta não muito distante dos fundos da cabana. Ali elas faziam feitiços, criavam poções, dançavam sob a lua para celebrar o Sabá e veneravam os deuses. Acendendo um feixe que combinava sálvia e tomilho secos, Brianna incensou o local sagrado. Durante a defumação, a sálvia atuaria como purificadora, banindo qualquer deidade ou energia negativa capaz de interferir no ritual. Já o tomilho agiria como ponte entre os mundos, mostrando o caminho para uma ancestral Derwin.
Invocar o guardião da linhagem exigia, pelo menos, a presença de duas bruxas vivas e uma que já houvesse cruzado para o outro plano. Essa seria a primeira etapa do sortilégio. Amarantha ocupou-se em demarcar o centro da clareira com um amplo círculo no chão, derramando sal grosso e pó de ossos animais. O sal manteria a energia conjurada dentro do círculo místico, e o pó de ossos ajudaria na conexão com a animalidade do espírito de poder a ser invocado.
Depois de devidamente dispostas de forma circular dentro da área delimitada, as velas de cera de abelha foram acesas. No meio do círculo o imenso caldeirão da família já borbulhava. Trocando um olhar solene, as duas mulheres vestiram suas túnicas ritualísticas, adentraram o círculo mágico, posicionando-se ao redor do caldeirão. Inspiraram fundo, mentalizando a intenção do encantamento. Aquela seria sua única chance. Falhar estava fora de cogitação.
A feiticeira anciã abriu seu pesado livro de feitiços, onde leu as palavras arcanas que davam início ao ritual. Fazia pausas regulares, durante as quais a sobrinha se adiantava, acrescentando ao caldeirão os primeiros ingredientes: mechas de cabelo das duas, para conectá-las aos antepassados, um cristal de quartzo transparente, para amplificar a magia, gengibre, símbolo do elemento fogo e acelerador de resultados. Geralmente despertar o protetor demandava um processo mais longo e exaustivo, mas, por se tratar de uma emergência, o gengibre apressaria o efeito. Coroada por um enxame de estrelas, a lua cheia exuberante revelava a face materna da Grande Deusa, única testemunha do trabalho mágico das Derwin.
De repente, a temperatura no local caiu dez graus. Uma lufada de ar gelado varreu a clareira, provocando o bruxulear das velas. Embora oscilassem, as chamas resistiram. A fumaça emanada do caldeirão fervente cobriu o local com uma cortina de névoa. E esse foi o sinal de que uma alma atravessara o Véu. A silhueta feminina translúcida entrou no círculo, completando o trio de bruxas ao redor do caldeirão.
— Mãe? — sussurrou Brianna, arregalando os olhos, que marejaram no mesmo instante.
A figura diáfana esboçou um sorriso terno, pouco antes que uma brisa afagasse o rosto da jovem, onde uma lágrima teimosa insistia em rolar.
Fidelia Derwin morreu nos primeiros anos da infância de Brianna, enquanto protegia Amarantha de um caçador. Agora estava ali mais uma vez, pela força da magia, pronta para salvar a irmã e a filha.
Amarantha e ela trocaram um olhar amoroso. E então, concentraram-se no ritual. Ouvindo a mãe e a tia entoarem os cânticos sagrados, Brianna pronunciou o encantamento conforme adicionava os últimos ingredientes: duas pequenas gotas de sangue, uma sua e uma de Amarantha. O espírito de Fidelia, obviamente exangue, ofertou uma porção de sua energia. De um pequeno frasco, a jovem pingou um líquido escuro na mistura em ebulição. Sangue do guardião. Feito isso, munindo-se de uma colher de pau, Brianna mexeu a poção exatas treze vezes no sentido horário, sempre entoando o cântico. À sua volta, as vozes da mãe e da tia repetiam em um crescendo:
“Nosso sangue necessita
De um poderoso amigo
Deperta, tu que dormes;
Vem livrar-nos do perigo!”
As chamas das velas e do caldeirão aumentaram, se agitando com violência. A moça uniu sua voz à das outras bruxas. Passaram a dançar enquanto cantavam. A mistura borbulhava, prestes a transbordar. As Derwin agora sentiam um formigamento pelo corpo. Toda a magia concentrada culminou em uma estrondosa explosão de bolhas, a qual lançou parte da poção para fora do caldeirão, como em uma erupção vulcânica. E pontualmente à meia-noite, A Hora das Bruxas, uma densa nuvem de vapor se levantou do caldeirão, serpeando pelo ar como se tivesse vida própria, subindo em direção à lua cheia sob o olhar extasiado das feiticeiras.
Assim que o assombro inicial passou, percebendo que o espírito de Fidelia não se encontrava mais ali, Brianna louvou a Deusa em silêncio, grata pela oportunidade de rever a mãe.
— Agora, devemos esperar. — declarou Amarantha, solene. — Nosso destino está nas mãos dos deuses.
Longe dali, no seio da terra, olhos imensos se abriram no escuro.
***
— Saiam agora, ou atearemos fogo nessa cabana! — exigiu com um grito o chefe da guarda real.
Os soldados chegaram sob as primeiras luzes da manhã e rapidamente cercaram o lar das Derwin, inviabilizando qualquer possibilidade de fuga. Antes que a ameaça se concretizasse, a porta de madeira se abriu, dando passagem a Brianna e Amarantha. A mulher mais velha parecia tranquila e encarava os homens com altivez. A jovem, no entanto, trazia uma pequena ruga na testa. Ao contemplá-la, o príncipe Liam susteve a respiração, como sempre acontecia desde a primeira vez em que a vira, meses antes, na feira dominical do reino. Mesmo trajando um vestido de tecido tão simples e tendo os longos cabelos descendo livremente pelos ombros, sua beleza era estonteante, capaz de entorpecer os sentidos do herdeiro do trono.
— Por favor, Alteza, não olhe para os olhos delas. — alertou o capitão.
Ao seu lado, o arauto desenrolou um papiro com o selo real:
— Amarantha e Brianna Derwin, estão sendo presas sob acusação de bruxaria. Serão conduzidas à presença do Rei e submetidas a julgamento público.
— Amarrem os pulsos delas. — ordenou o chefe dos soldados — Mãos de bruxas não devem ficar livres; isso evitará que elas se sintam tentadas a nos lançar algum feitiço.
Amarantha inclinou a cabeça com um sorriso de desdém flutuando nos lábios finos.
— Do que está rindo, feiticeira? — quis saber o soldado que a amarrava — Vocês tiveram sorte. O capitão queria furar os olhos e cortar a língua de vocês para que não pedissem ajuda ao seu mestre das trevas. Mas o príncipe Liam impediu, alegando que ambas precisavam estar inteiras, a fim de serem purificadas pelo fogo, se essa for a vontade do Rei ao fim do julgamento.
— Tantos soldados para capturar apenas duas mulheres… — provocou a anciã — Eu devia estar lisonjeada.
— Devia mesmo. — respondeu um guarda em tom sarcástico — Agora, senhorita, poderia ter a gentileza de subir em sua carruagem? — fazendo uma mesura debochada, ele mostrou a carroça de apreensão de prisioneiros logo adiante, o que arrancou risadas de boa parte dos presentes.
Embora Amarantha não resistisse, o soldado a empurrou com alguma rispidez em direção ao transporte. Brianna começou a seguir os passos da tia, mas parou quando o príncipe Liam a segurou pelo braço para falar em tom baixo:
— Tudo isso pode ser evitado. Se aceitasse minha proposta, vocês receberiam o perdão de Sua Majestade, sua tia teria lugar de destaque na corte. Joias, roupas caras, boa comida, títulos, respeito, riquezas.
— Já temos tudo o que precisamos bem aqui, em nossa terra. — retrucou a moça com firmeza. — E jamais abandonaria minhas crenças para abraçar as suas, Alteza.
— É assim tão ruim pensar a respeito de se casar com um príncipe? — ele insistiu.
— Prefiro ser queimada viva. — Brianna respondeu e, sem esperar resposta, libertou-se com um puxão, caminhando até a carroça de prisioneiros.
— Cuidado com o que deseja, feiticeira. — ouviu o nobre rosnar às suas costas.
Ocupando seu lugar ao lado da tia no que parecia uma gaiola, a jovem se perguntou o que elas fizeram para merecer tal tratamento.
Durante muito tempo as Derwin tinham sido bem-vindas no reino. Na feira de domingo na cidade, as pessoas se amontoavam para comprar as tortas de nozes, os bolos de aveia, os pães de mel e os biscoitos de gengibre que ambas faziam. Muitos cidadãos disputavam seus tônicos para queda de cabelos, pomadas para dor nas costas e óleos que expectoravam os pulmões carregados das crianças.
Houve a vez em que uma dama de companhia visitou as Derwin em segredo, buscando ajuda porque a rainha não estava dormindo bem, então Amarantha receitou um chá de raiz de valeriana.
E veio depois um homem de confiança da corte, solicitando algo para reacender a paixão do monarca, que andava meio abatido, ao que Brianna tinha recomendado uma poção afrodisíaca, feita com alecrim e canela. Uma poção de fertilidade feita com salsa e lavanda ajudou a rainha a dar ao rei seu tão esperado herdeiro. E Amarantha até mesmo produziu um óleo de menta silvestre que aliviou as dores nas articulações de Vossa Reverendíssima durante seu bispado em Kafarnat.
Ao longo de gerações as bruxas serviram aos soberanos, seja como oráculos, seja como curandeiras ou parteiras, ou usando a projeção astral para espionar reinos inimigos. E agora estavam prestes a ser descartadas, queimadas em praça pública. A união de Brianna com um herdeiro do trono era impensável por diversas razões, entre as quais o fato de ser um clã de bruxas, os homens eram tomados apenas como amantes. Sob hipótese alguma a nobreza poderia ter sangue mágico correndo em suas veias. E uma Derwin nunca faria nada contra a sua vontade. Amarantha e Brianna eram as últimas de sua linhagem, não podiam se deixar exterminar apenas por caprichos da monarquia.
Por isso, quando a comitiva atravessava o Vale dos Peregrinos, uma ondulação incomum na terra se aproximou, fazendo os cavalos refugarem. O chão se fendeu, e das profundezas surgiu um dragão colossal, de faiscantes olhos amarelos e corpo predominantemente marrom. Aquele era Condred, o Guardião das Derwin. A fera alada elevou-se nos ares e guinchou de modo ameaçador. Os homens do príncipe estavam aterrorizados demais para esboçar alguma reação a princípio. Mas quando o dragão soprou uma rajada de fogo em direção à comitiva, incinerando metade da guarnição, muitos tentaram fugir e alguns poucos ficaram para lutar.
Lanças, flechas e virotes de bestas eram disparados, apenas para ricochetearem na couraça escamosa a qual revestia o corpo reptiliano. Era como tentar derrubar uma muralha de pedra. Condred agitou sua cauda e mais soldados morreram junto com suas montarias. Toda a presunção da guarda real se desfez sob o sopro abrasador do dragão. Homens gritavam e cavalos relinchavam ao serem queimados vivos. Soldados caiam derretendo dentro de suas armaduras. O nobre testemunhou a morte de todos os seus valetes.
— Bruxa! — gritou o transtornado príncipe Liam com um dedo acusador em riste apontado para Brianna, pouco antes que o hálito incandescente de Condred o cortasse do mundo dos vivos, transformando-o em um montículo de cinzas que o vento logo dispersou.
Ao fim do massacre, a besta recolheu suas asas majestosas e pousou próximo as mulheres, inclinando-se em um gesto servil. Em tempos remotos, ele tinha andado sobre duas pernas, sob a forma de um homem que encontrava na caça às bruxas o seu ofício. Como castigo, as Derwin o amaldiçoaram, transformando-o em um espírito de poder e obrigando-o a proteger por centenas de anos aquelas a quem costumava caçar. Transmutação era a especialidade mágica do clã. Brianna olhou em volta, chocada. O cheiro de carne humana e animal carbonizada era repulsivo, embrulhava o estômago.
— Não existem bruxas boas ou más. Existem bruxas. E é claro que nos defendemos quando preciso. — disse Amarantha subindo no dorso do dragão. Brianna a seguiu. Enquanto sobrevoavam o cenário caótico devastado pelas chamas, a jovem bruxa escondeu o rosto nas mãos e chorou.
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