O Guardião Cinzento
3 O Empresário
A sombra negra sobrevoou o carro negro que circulava pela longa rua a 67 km/h. Pulava sobre os prédios e entre eles como uma amiga, ouvidos atentos não eram capazes de ouvir os passos leves e singelos assim como olhos atentos distinguiriam uma forma humana correndo rapidamente e projetando uma sombra escura, para voltar a sumir entre sombras ainda maiores. Os mesmos olhos, olhos de deuses eternos, perceberiam que a figura caíra, descia vertiginosamente antes de pular rumo ao veículo, sem medo ou receio como se a morte fosse uma amiga e a vida uma esperança, mas sobretudo, como se o vento fosse um filho e a gravidade fosse um desafio, e faltando metros, uma longa corda de fibra elástica se esticou reduzindo sua velocidade de maneira que ele pudesse pousar calmamente sobre o carro sem um barulho que o delatasse. Colocou o pequeno explosivo elétrico no capô e saltou, utilizando a inérica para pousar com segurança e ver o carro perdendo a velocidade bruscamente.
“Valeu, Smith” pensou o vigilante “Agora vamos dar alguns socos” disse para os próprios punhos enquanto os mafiosos tentavam sair do veículo, embora toda vez que encostassem na lataria levassem um choque forte. Finalmente tiveram a ideia de pular do carro, fizeram aos poucos, tempo o bastante para a figura sacar as duas pistolas e atirar num ponto imobilizante, um ponto que não mataria, mas reduziria parcialmente a expectativa de vida do mafioso além de danificar a região cardíaca seriamente, mesmo que não chegasse a matá-lo algum dia, talvez matasse, mas aconteceria apenas caso ele comesse dois quilos de banha por um mês e o colesterol acabasse por ficar muito alto. Aí ele morreria, de uma maneira horrível.
– Onde está esse desgraçado? Eu pago dois litos de cerveja pra quem pegar ele!
– Sumiu o demônio.
– O filho da mãe aparece do nada, sumir é fácil — disse um dos quatro agitando a mão esquerda pela força do choque.
Um tiro atravessou a mão do primeiro mafioso, outro o ombro do segundo e o último atingiu o pé do terceiro. Se não caíram se agitaram nervosos mirando no escuro procurando um alvo irreconhecível, no ar surgiu a sombra justiceira com socos e golpes, imobilizando o quarto e o usando-o como um rápido escudo, voltou a desaparecer. Ficaram atônitos, atordoados pela dor lacitante que sentiam nas regiões atingidas particularmente, não se levantaram, tentariam voltar para o carro, mas não conseguiriam porque estava parado diante deles a figura acizentada do defensor, não era mais alta que todos os mafiosos, mas era alto com 1,90 no máximo, os braços eram fortes, mas não grossos, e tinha um desenvolvido porte atlético.
– Para onde vão, senhores?
Não ousaram atirar, as mãos da figura pendiam sobre as duas armas prateadas penduradas em coldres na cintura do traje cinzento. Perfeito para se esconder nas sombras e se camuflar no cinzento do concreto dos edifícios e da pintura padrão dos edifícios de aço de Nova, parecia na verdade levemente roxo antes de se tornar escuro, delatando que era um material inteligente que se adaptava a diferentes padrões de luz. Ele além disso era seguro de si para andar sem luvas, as mãos afinal estavam descobertas sem nada para protegê-las, assim como o rosto, coberto apenas por uma máscara simples preta cujas lentes brancas protegiam fraca e quase inutilmente a identidade do Homem.
O mafioso ergueu a arma em ameaça, o vigilante a desviou com um tapa.
– Não seja ridículo. Agora, sabem quem eu sou?
Cautelosos, responderam negativamente.
– Logo duvido que seus superiores saibam. Deixem-me apresentar — o mascaado tocou com calma o terno de um dos homens, soltando a lapela com calma antes de voltar a dizer — Eu sou, meus caros amigos, uma nova esperança de Nova, o inimigo de todo tipo de crime, incluindo os próprios senhores e seus superiores da Família Gonovi, que eu mesmo superei na noite passada. Eu sou afinal, o vigilante, o P…
Pensou num nome que lhe soou mais poético que Patriarca, os Patriarcas eram líderes das capitais, mas eles não era um líder. Ele era um comandante, ele era um guerreiro, lembrou-se então das longas lições de história com o pai, de tudo que aprendeu e então disse cautelosamente, imaginando a figura clássica de seu ídolo: Marcus Baltazar.
– Meu nome, senhores, é Estratego. E eu recomendo que fujam.
Correram finalmente, vítimas do medo, amigos dos próprios pés e fugitivos, antigos predadores de um mundo criminoso que acreditaram ser inabalável com a polícia corrupta e as estratégias de tráfico de álcool, caro desde a Lei Seca, e os acordos firmados entre as diferentes famílias da máfia italiana, francesa e alemã estabelecidas no país. Mas correram, sentindo que estavam sendo vigiados, e de fato estavam.
Na manhã seguinte o assunto não era outro: “Mafiosos Alvejados Fogem de Vigilante Cinzento!” dizia o Daily Post of Nova, “Mascarado Noturno Enfrenta a Máfia Italiana!” exclamava o Nova’s Topic e finalmente: “Estratego! O Carrasco da Máfia!” com um sutil: Veja a notícia na Página 4 do New City. Mesmo assim, Smith tinha refutado todos os artigos para ler a coluna de opinião, as exageradas exclamações de Ted Folks o irritaram e a passividade de Martha Mason o fez dormir, mas foram as palavras medidas, não geniais mas medidas, de Lerry Benson, era claro, um iniciante, mas representou geninuamente todo o conceito que queria passar o herói. Pelo menos o conceito entendido por Smith.
É interessante ver quantas pessoas são contra um salvador. Jason Hunter foi cuspido de seu batalhão por não ter porte físico, mesmo sendo genial e Marcus Baltazar? Preciso dizer algo do genial general limitado por um defeito na perna e por isso foi classificado como insuficiente para as tropas de frente e teve que trabalhar durante vinte anos como marceneiro numa loja de bengalas? Esse Estratego é um homem, não é um deus. Deuses existem, mas eles não são humanos, não se preocupam com seres que vão deixar de existir enquanto a onipotência da eternidade toma seus corpos, por isso não vejo motivo para temê-lo, tivemos medo dos Magos porque eles eram mais do que humanos, mas mesmo assim alguém percebeu que eles se tornaram humanos mais uma vez e os venceu. Yuri Polokov, que viveu uma vida de arrependimentos por não ter feito nada antes.
Esse homem é um salvador, ele veio nos proteger do crime, mas também veio para nos inspirar, para que percebessemos que somos mas do que aglomerados de carne, tecido e ossos e sim componentes biológicos racionais capazes de alcançar muito mais do que se espera de nós vistos dos céus etéreos que pertencem aos deuses, os mesmos que verão a humanidade crescer até seu apogeu antes de cair miseralvemente numa certa eternidade de discórdia e ódio que acabará com todos nós.
Mas não nos deixamos cair. Não foi assim na Queda do Homem, não foi assim na Conquista do Estado nem mesmo na Subordinação Vespúcia. E não nos deixamos cair porque a única coisa que há em comum em todos esses casos foi a presença de uma pessoa em especial capaz de manter ou reviver a ordem, de um herói. Sejam eles os Três Invictos, Joana Morse ou o próprio Estratego, são pessoas que mostram o melhor da humanidade na luta de todo dia contra algo maior, algo que parece rígido e poderoso, como um deus, algo vertiginoso que de tonturas aparante, mas cujas bases depois de tanta persistência são quebradas com um dedo. Hunter esmagou os Ibéricos, o Estratego então esmagará o crime.
O artigo fez Smith refletir, afinal, era ele um herói? Lutava a favor de si mesmo ou a favor de algo maior. Sua conclusão favoreceu a primeira, e isso o fez se sentir mal, não poupou nenhum esforço para se levantar mais forte focado em suas próprias causas, mas sendo que essas causas seriam boas causas. Para o inferno seus planos idiotas de casamento e produzir dinheiro até que os cofres arrebentassem, isso não era deixar um legado, era ser um idiota completo.
Mas foi justamente quando surgiu a fagulha foi chamado para um conferência. Quando a ligação foi encerrada, esqueceu a ideia que foi substituida por gráficos simples, tabelas de dados irrisórios e pouco fundados e especialmente informações desconexas mal organizadas das orientações de marketing e administração incompetentes das mais poderosas empresas de todo o mundo.
– Megan — chamou a mulher que limpava as roupas, ainda bem que estava lá, devia ser pra recolher a roupa — Minhas camisas brancas?
– Estão lá, passadas e tudo mais.
– Você é um anjo — disse andando até o armário e tomando três delas para si e ajudando na volta Megan a carregar o pesado saco até o carro e voltou finalmente vestindo sua blusa e amassando as outras duas que trazia nas mãos. Finalmente subiu as escadas e entrou no seu quarto, um pequeno cômodo cheio de estantes de livros e poltronas nos cantos.
Terminou de vestir o terno antes de implorar para Burnes levá-lo na conferência.
– Meu motorista está em Miami, eu não posso ir de taxi porque demoram demais, vamos lá, por favor.
– Por que não vai sozinho? — disse o caçador carregando dois coelhos.
– Eu não preparei minha apresentação.
– Ah, pare de frescura, vai lá.
– Mas…
– Nem vem que não têm, Howard me prometeu que ia carne de cordeiro, eu não vou perder me almoço por isso.
– Mas…
– Até logo, senhor Smith, boa reunião
“Eu preciso de um mordomo” pensou Smith “e de um motorista” continuou enquanto pegava as chaves do carro. Desceu a pequena escadaria da entrada da casa, avistou o conversível amarelo a e entrou, ligou-o e deu partida no carro tomando a pequena estrada que ia em direção a cidade de Nova, que podia ser avistada de londo como um extenso aglomerado de construções cuja altitude era permitida pelo aço e o ferro da cidade. Alcançou finalmente o edifício onde do alto era possível ver o enorme slogan da empresa criada por seu seu avô: Smith Investimentos, e o enorme S cursivo erguido há dez anos no topo do prédio. Entrou e foi bajuldo por todos que estavam no edifício, os que estavam no interior do elevador saíram para permitir que o chefe entrasse e alcançasse o andar de runiões.
Entrou na sala, sentou-se no lugar onde estava marcado seu nome enquanto analisava o lugar: Uma sala cumprida com uma mesa no centro e uma outra pequena onde uma mulher jovem de óculos e olhos castanhos escreveria a conversa, ela depois seria enviada para todos os presentes para que lessem e fizessem suas próprias conclusões.
– Senhores, podemos começar a reunião? — disse a mediadora.
– Sim — disseram todos.
Disse então a mediadora todos os nomes, especialmente o de Júlia Vasco, que Smith fitava com uma calma passiva, e o dele também, o assunto principal era a divisão de ações depois que a Benelux Company foi comprada pelas grandes corporações da cidade de maneira que cada um ficou com 33%, exceto a Diamond Consolidated, com 34.
A empresa de Júlia, a Comodoro Industrial, disputava ainda as ações com a Smith Investimentos, o plano do empresário porém era lavar os dois concorrentes de maneira que pudesse diluir as ações até que não tivessem valos monetário complexo até o ponto em que ele pudesse comprar a empresa por valores menores do que 1 milhão de dólares.
– Senhor Smith, por favor.
– Obrigado. Agora, eu estava analisando os relatórios e percebi que estamos num impasse, o maior assessor é o senhor Bent, com 34% das ações sendo que cada uma delas está valorizada em mais um menos 0,5 milhão de dólares, totalizando portando uma soma de 17 milhões de dólares das ações totais, o resto das ações está dividido em 33%, totalizando 16,5 milhões de dólares nas ações totais. Mas eu não gosto de sair perdendo, então, eu decidi hoje que quero fazer algo melhor, e como tenho certeza que você vai produzir equipamentos para vendê-los a milhões para milionários. Então nada melhor do que fazer com que eu acabe por ficar com a empresa.
– E como fará isso? — disse Júlia, atenta.
– Primeiramente, eu pensei justamente em por que fazer isso, mas depois vi que eu posso fazer melhor. Então vendi minhas ações em preços diluidos de maneira que agora ao invés de três, essa conferência teria então mais ou menos uns 73 acionistas, mas ao que indica meu computador — ele levantou a pequena tela de vidro transparente onde sobre a tela digital holográfica um gráfico decadente flutuava — Com as ações sendo vendidas, a empresa deve ter perdido bastante dinheiro, especialmente quando todos os antigos acionistas eram donos de importantes indústrias de caridade a favor das civilações bárbaras na África. Então acho que os 50 milhões se tornaram 33,5 no total.
– E do que isso importa?
– Que as ações foram desvalorizadas e os investimentos principais foram perdidos, vocês estão perdendo bastante dinheiro e até o final do mês a empresa não valerá nada além de 1 dólar antes de ser completamente desvalorizada, como vocês foram idiotas para criarem associadas, é provável que percam bastante dinheiro até a falência. Então eu gostaria de propôr o seguinte. Katia, por favor, pegue os formulários 167B, preencha os nomes de proposta com respectivamente Jonas Bent e Júlia Vasco e Diamond Consolidated e Comodoro Industrial. Pois bem, vocês irão me vender suas ações pela metade do preço, uma vez que a prosposta de compradores vai cair bruscamente. Mais do que já caiu.
– O senhor é um péssimo negociador — insultou sem efeito Bent.
– O senhor é um péssimo administrador — respondeu Smith — Agora, senhorita Vasco.
– Sabe que segundo meus cálculos eu poderia diluir as ações que ganharia mais.
– Eu compraria todas e teria controle sobre as associadas da Comodoro, eu disse que não foi uma boa ideia. Eu teria controle então de 3% das ações de suas empresas, poderia me espalhar como um câncer e dominar a empresa da sua família antes que você notasse, então eu recomendo que você venda as ações da empresa.
– Você continuaria tendo controle das associadas.
– Não, o acordo que Katia vai lhes entregar promete a venda apenas das ações da Benelux, as ações das associadas serão dividas e eu receberei 10% do valor total. Vocês perderão uma quantia de bastante dinheiro, mas eu prometo que isso é apenas porque eu tenha uma grande antipatia por perder, e grande simpatia por ver pessoas perderem, e outra coisa, eu estou me habituando a atentados contra minha vida, então eu espero que tenham esportiva dessa vez.
– Acha que venceu, senhor Smith? — perguntou Bent.
– Não, eu tenho certeza — disse Smith se levantando depois de receber uma mensagem em seu computador que era agora proprietário executivo da Benelux Company — Muito obrigado, senhores, agora com licensa, tenho que salvar uma empresa decadente — disse finalmente enquanto os dois saíam do prédio derrotados — Senhorita Vasco, gostaria de jantar comigo?
– Por que não? — disse enquanto a porta do elevador se fechava.
Smith se levantou, tocou a superfície lisa da mesa enquanto esperava Katia dizer que o plano tinha dado certo, as ações valorizariam imediatamente assim como ele tinha planejado, tudo graças à suas miraculosas Equações Monetárias, que ele montou na faculdade, deixou de lado e lembrou-se segundos antes de se sair de casa, parando numa lanchonete para fazer seus cálculos. Utilizando variáveis inteligentes que montariam um plano gráfico capaz de prever as ações, logo era só montar as divergências de planos entre o modelo de alterações que ele criaria a partir da compra e venda de ações e o movimento das ações comum, para que ele não tivesse que criar dois milhões de gráficos diferentes ele pediu à divisão de programação construir um programa de análise conectado com a Bolsa, todas as alterações seriam computadas e ele poderia calcular facilmente as alterações toda vez que quisesse, claro que naquele dia em especial ele precisou ficar meia hora no telefone vendendo as ações enquanto fazia contas com um lápis nº1.
– E então — ele perguntou para Katia.
– Estabilizamos as ações. E agora, senhor?
– Primeiro temos que achar o Estratego, depois dar uns brinquedinhos para ele.
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