Capítulo 2

Acordei com a cabeça latejando, fui aos poucos abrindo meus olhos e me acostumando com a claridade que estava aquele quarto, quarto?. Me levanto em um susto e acabo caindo de volta deitada, estava exausta mesmo sabendo que tinha dormido por um dia inteiro, olhei ao redor e percebi que a janela estava aberta deixando a claridade da noite entrar e iluminar o quarto. Estava totalmente perdida no tempo e espaço, mal sabendo como fui parar ali, só lembrava de uma coisa, Axel.

– que?- acabo me perguntando quando me lembro daquela luz dourada que ele emitia.

– ah, vejo que acordou.

Olho de onde veio o som da e voz e percebo Axel sentado no parapeito da janela do lado oposto ao meu, seus olhos encaravam o horizonte quase como se estivesse cansando algo, como se esperasse que algo o atacasse. Me levanto aos poucos e fico sentada tendo que me encostar na parede para poder olhar de frente para ele, eu estava mesmo acabada.

– como você está? – ele perguntou ainda olhando para o lado de fora.

– bem – resmunguei – apenas estou me sentindo como se tivesse um gnomo está sapateando na minha cabeça.

– por que um gnomo sapatearia? – divagou

– nossa, obrigada pela consideração a minha saúde – falei sarcástica – e quem se importa se um gnomo sapateia ou não?

– deixe de ser dramática – ele falou colocando ao fim aquela conversa maluca.

– que horas são? – pergunto ainda desnorteada.

– creio que três horas da madrugada – resmungou em um sussurro.

– e o que faz acordado até agora? – me surpreendi, Axel que nunca quebrava as regras, sempre seguia a mesma rotina de sempre, então por que ele estava aqui?

– apenas a observando – falou sincero.

– já que estava me observando, pode me dizer o que foi que aconteceu depois que eu sai daqui? – perguntei – não lembro – pelo menos parcialmente, pensei.

– não se lembra? – ele resmungou sarcástico – você já mentiu melhor.

– hã...- fiquei sem reação por alguns segundos – bateu a cabeça enquanto carregava caixas? – retruquei no mesmo tom sarcástico que o dele.

– e você ? – ele me encarou – bateu enquanto “brincava” no parquinho? – ele ainda não em encarava, isso não era bom. Ele estava irritado, isso era visível.

Me levantei mais, agora mais intrigada do que antes, a palavra ‘parquinho’ ainda em minha cabeça. Então aquilo foi real? pensei surpresa. Passei minha mão pelo me ombro e encontrei um curativo, meus olhos se arregalaram, não podia acreditar que aquilo foi verdade!

– não, não – comecei a sussurrar, o fato de alguém ter tentado me matar começou a me assombrar – não foi real, não foi – lembrei do brilho e de Axel estar com asas – foi uma alucinação, eu devo ter caído e batido forte a cabeça– falei agora um pouco mais alto.

Olhei para Axel esperando ele concordasse comigo apenas dizendo que tive essa queda feia, mas ele continuou olhando para o lado de fora esperando que algo acontecesse.

– me diz – falei lentamente – foi uma alucinação, não foi?

– agora que nos encontraram não posso mais esconder isso de você – ele falou mais para si mesmo do que para mim – não tem como mais ficarmos assim, tenho que mudar algumas coisas e para isso você tem que saber de algumas coisas. – ele me encarou de soslaio – mas você não entende, é cabeça dura de mais para isso.

– do que você está falando Axel? – me irritei – Não é por que eu fugi por umas horas que tem que começar a enlouquecer. – baixei meu tom – agora dá para me dizer o que aconteceu enquanto eu estava desmaiada tendo alucinações?! – a raiva estava tomando conta da minha cabeça – Desembucha!

– O que? – ele olhou para mim, seus olhos estavam com um brilho esquisito a luz do luar – dizer a você que aquilo tudo foi uma alucinação? – ele também se irritou– que você quase ter acabado morta foi apenas algo da sua cabeça? — ele olhava para mim com raiva, irritação e preocupação, tudo ao mesmo tempo -o que você acha Ravena? –me encarou.

– você só pode estar maluco – me levantei ignorando toda a dor.

– humanos – resmungou – tão cegos e céticos quando se trata da verdade. – ele pulou do parapeito para dentro do cômodo – tudo aquilo que lembra foi real – ele falou o óbvio.

– não foi não – o encarei – não foi. –

– você acha mesmo que não foi? – ele me olhava irritado – acha que conseguiu esses ferimentos onde? Jogando vídeo game? – pegou algo que estava na janela e atirou no chão perto de mim. – ainda acha que foi uma alucinação?

Paralisei, meus olhos foram diretos para aquela adaga encravada no chão, a mesma daquele homem, a mesma que me feriu, só podia ser brincadeira. Se aquele cara era real, aquela coisa...então Axel, Axel não era...eu mal conseguia concluir o pensamento.

– o que é você? – me afastei mais dele bruscamente.

– não precisa ter medo de mim – agora sua irritação havia diminuído– sou a ultima pessoa que iria machuca-la.

– o que é você? – repeti.

– seu guardião – ele falou o que eu já sabia – quando seus pais morreram eu vim para tomar conta de você.

– ainda não me respondeu – o encarei, sem fazer qualquer menção de desviar o olhar ou desistir de sua resposta.

– sou exatamente isso, um guardião – ele tentou se aproximar o que apenas me fez tentar recuar.

– babás não são assim – falei em deboche–O que é você e o que quer de mim?

– se acalme – pediu e tentou se aproximar.

– se acalme você – retruquei me afastando, eu tinha que sair dali, estava enlouquecendo com aquilo tudo.

– não quero nada de você, apenas ajuda-la – ele deu dois passos para trás. – é normal agir assim quando coisas estranhas ocorrem.

– estranhas? – olhei para ele – já vi coisas estranha de mais para o meu gosto. – falei distraindo-o. – agora, só uma coisa. – o encarei. – cuidado com a cabeça.

Ele olhou para mim sem entender, arremessei o vaso que estava no parapeito em sua direção e sai correndo em direção as escadas. Desci o mais rápido que pude e atravessei as portas correndo até chegar a saída, corri sem olhar para trás . Puxei energia das quais nem sabia que tinha e continuei a correr até não poder mais. Quando me dei conta já estava a uma quadra longe de casa chegando perto do maldito parquinho, passei por ele e sem se quer entrar dei a volta e pulei a cerca que dava para o campo mais à frente. Antes de aterrissar no gramado do outro lado, senti minha perna ser pega e me levantar para cima. Gritei surpresa, temerosa e sem entender, estava sendo levada para cima; me debati e esperneei, mas a pegada ao redor da minha perna era forte sem chances de me soltar até que fui colocada no chão. Me arrastei rapidamente me distanciado daquilo que havia me pegado, minhas costas se encontraram com uma mureta de concreto, deparei-me que estava em um terraço a 20 metros do chão. Olhei para frente e vi Axel vindo em minha direção, mas com um par de asas brancas em suas costas, me apavorei ao vê-lo daquela forma, o que me fez tentar me arrastar para trás ainda mais.

– calma...calma – ele levantou as mãos em sinal de rendição e se afastou – sou apenas eu.

Meu cérebro não raciocinava bem e as palavras não se formavam, o único som que saia da minha boca era o de espanto e um sussurro incompreensível, acompanhado de um olhar de terror. Eu mal conseguia controlar minha respiração que estava desordenada.

– ...apenas eu – repetiu – fique calma.

– você...asas...ter.... – as palavras saíram desconexas e altas.

–não entre em pânico – acrescentou logo em seguida – não grite, por favor – deu um passo à frente.

– não chegue perto de mim – avisei enquanto me levantava e me segurava na borda da mureta, fortemente. Meu ombro latejava fortemente, a dor se unindo ao meu pânico e desespero.

– ok – ele se afastou – só tente se acalmar.

O silêncio se estabeleceu entre nós, com apenas o barulho alto da minha respiração descontrolada. Me encostei totalmente na mureta, ficando apenas alguns centímetros de uma queda bem alta, apoiei todo meu peso tentando me segurar em alguma coisa antes que eu caísse naquele chão imundo

– quer tentar conversar agora? – ele falou quebrando o silêncio. – sem mais tentativas de fugas?

– quem é você? – consegui perguntar finalmente.

– você está bem? – ignorou minha pergunta.

– depende, o quão bem ao alguém pode ficar na minha situação? – falei rispidamente, ele ficou em silêncio, repeti– quem é você?

– Axel. – ele respondeu simplesmente recolhendo suas asas.

– o que é você? –

– eu sou um anjo – ele falou finalmente – um guardião, para ser mais específico. – fiquei parada olhando para suas asas brancas sem entender como aquilo era possível. Não tinha como, minha mente estava de pernas para o ar sem conseguir dar uma resposta lógica a tudo aquilo, ele percebeu minha confusão e tentou se aproximar querendo ajudar, mas o detive.

– fique ai – falei estendendo a mão em sinal para que não avançasse – estou bem. – virei minha cabeça para o lado de fora e acabei vomitando. Cai no chão de joelhos sem força alguma, Axel veio correndo até mim e me segurou fortemente, antes que eu de caísse totalmente.

– solte- me – o empurrei com as minhas últimas forças que ainda restava.

Ele se afastou um pouco, mas ainda ficou perto o suficiente para me ajudar a levantar, me segurei na mureta recusando sua ajuda. O gosto amargo fez com que eu ficasse mais enjoada, tentei me recompor.

– por que..? – comecei a falar depois que me recompôs – por que você está aqui?

– para ser seu guardião – falou.

– para que?

– para que você não fosse achada por demônios como aquele que viu.

– e por que eles estariam atrás de mim?

–por que...- sua voz vacilou.

– por que eles estariam atrás de mim? – repeti.

– por que você não é uma mortal comum.

– e o que me diferi dos outros? – falei sem tentar parecer maluca e assustada com aquelas palavras.

– seu espirito e sua capacidade mortal. – ele parou subitamente e fechou os punhos – antes que pergunte mais alguma coisa, você tem que entender sua localidade aqui não é mais segura, tenho que tira-la agora daqui.

– não sem antes entender – falei teimosa.

– irei responder tudo, mas antes vou tira-la daqui – ele se aproximou e mesmo com minha objeção de tê-lo perto de mim, o empurrei mas ele apenas me segurou e deu um salto para frente, pulando para queda logo abaixo de nós e começou a voar cada vez mais alto e para longe daquele lugar, deixando tudo para trás.