Elyc pára diante da casa. Seus olhos vagueiam na imensidão que surge à sua frente. O andar silencioso incerto até este momento o deixa atordoado, sem conseguir conciliar seu pensamento. Á sua frente uma imensidão de incertezas e medo. Elyc fixa seus olhos no casarão imenso com janelas escuras, grandes e com grades de ferros maciços e grossos. Na vidraça cortinas escuras os impediam de visualizar o interior dos cômodos. A parede com a pintura já envelhecida pelo tempo aparentava ser uma casa de muitos séculos. As portas de entrada eram de madeira muito grossa e negra, mais parecia aquelas casas de estórias de terror contadas pelo seu melhor amigo Myc.

Elyc observava cada detalhe, quando de repente algo chama sua atenção. Olha para o terceiro andar da casa e através da vidraça suja e escura, percebe uma sombra esguia, sob a luz de uma vela onde a cortina grossa não o permitia distinguir do que se tratava. Atrás de Elyc seguia mais de cem meninos que passariam a residir naquela casa.

─ Garotos preguiçosos! Andem! — retrucava com sua voz rouca e irritada, o senhor Helius. Um homem gordo, baixo, com cabelos brancos chegando até os ombros amarrado com uma fita vermelha. Trajava um sobretudo muito sujo, com remendos nas mangas e faltando alguns botões. A voz enérgica de Helius fez Elyc retornar a realidade e continuar andando à frente da fila.

Antes de adentrar ao pátio que antecedia a porta de entrada da casa, Elyc tentou olhar mais uma vez para a vidraça, tentando ver novamente a sombra a qual não conseguia esquecer.

Com passos lentos e compassados a fila seguia o senhor Helius, até que o último menino passou pelo portão e o sentinela fechou-o com grossas fechaduras.

Elyc tentou ver como o portão fora aberto, pois antes de adentrá-lo, o menino que tinha um ouvido muito aguçado, ouviu uma voz fina e mansa respondendo do lado de dentro. Elyc se lembra da primeira parada em frente ao portão imenso. Era ele que vinha a frente da fila, quando foi impedido de continuar. O senhor Helius vira-se para a fila de meninos e aos berros grita.

─ Seus maialius imundos, parem! Não me sigam até que eu lhes ordene!

Estavam a cem metros do portão. Era imenso com madeiras escuras e grossas. Tinha uma fechadura enorme que unia as duas partes do portão. As dobradiças estavam enferrujadas, mas resistentes e firmes. Todos pararam.

Os meninos calados, sujos, famintos e amedrontados puderam observar a muralha a qual cercava a casa. Eles foram avisados que não poderiam olhar para os lados, nem para cima, teriam que ficar com os olhos para o chão.

A cada 50 meninos tinha um sentinela observando tudo. Os sentinelas eram pessoas de confiança do senhor Helius, que a cada desobediência surrava-os com um chicote feito com correias de couro e feixes de correntes com bolas de metal nasextremidades. Elyc não pôde ver, mas ouviu o senhor Helius esbravejar com um dos sentinelas para que retirasse um dos meninos da fila e o jogasse no rio que passava abaixo do lajedo.

Aos berros gesticulava ao sentinela.

─ Desfaça-se deste maialius imundo! Ninguém podia ver o que havia acontecido, mas a fila já estava com um menino a menos.

Elyc ouviu o choro silencioso de Amin, o menino que estava logo atrás. Teve vontade de se virar e pedir que não chorasse, mas não podia, o sentinela estava observando a todos.

O silencio foi quebrado com os berros mal humorados do senhor Helius diante do portão. Aproveitando a parada alguns meninos suspiravam de medo, outros choramingavam quase que sussurrando, tentando entender porque estavam ali.

O senhor Helius diz uma palavra que Elyc não entendeu:

─ mahantilongtresw!

Nunca havia ouvido aquela palavra, e nem sabia qual era a língua. De dentro do portão uma voz fina e mansa responde:

─ reythungboom! — e os portões vagarosamente vão se abrindo. O rangido se ouvia ao longe.

Nesse momento, Elyc sem tirar os olhos do chão, pede ao menino que está logo atrás que se acalme.

─ Não chore! Por favor, faça silencio!

Nesse momento o senhor Helius, volta-se para os meninos e grita raivoso.

─ Venham porcos! Andem, estou cansado. Molengas, malditos!.

E segue a frente com passos lentos e pesados.

Elyc, ouve o portão se fechar. O barulho é ensurdecedor.

Ao adentrar o pátio, todos ficam surpresos, é imenso, com muitas árvores frutíferas, bancos e mesas confortáveis com almofadas e pintadas com cores vivas. Elyc fica estupefato com tanta beleza. Amin sai da fila e corre para uma macieira, quando um sentinela o agarra pelos cabelos e o trás de volta a fila. O menino chora e de repente cai. Elyc percebe que Amin foi esbofeteado e chicoteado, mas não pode fazer nada pelo amigo. Amin desmaia e é levado arrastado pelo sentinela em direção a uma porta pequena que fica atrás de um pequeno arbusto nos fundos do pátio. Amin não reaparece e Elyc fica apreensivo sem saber o que poderia ter acontecido com o menino. Elyc resolve manter-se calmo e continua a frente da fila caminhando seguindo o senhor Helius que agora esbraveja, reclama e aos berros chama pelo Senhor Clomaus.

Os meninos passam pelo pátio pintado com cores alegres e árvores frutíferas, chegam a uma sala muito grande, escura, mal cheirosa e com a pintura desbotada. Na parede um quadro chama a atenção de Elyc, a figura de uma mulher muito bonita e elegante. Na sala apenas uma mesa grande, de madeira grossa e negra com uma cadeira giratória com estofado vermelho e aconchegante.

O senhor Helius, chega gritando

─ Aqui estão seus porquinhos! E agora me deixe descansar, vou para meus aposentos. O senhor Helius sai vagarosamente e bate a porta com muita força.

Os meninos ficam em fila olhando para o chão, até que uma voz suave chama a atenção de todos.

─ Meu nome é senhor Clomaus. Sou o responsável pela educação de vocês. Terão que aprender a se comportar, ler, contar, a escrever e oratória. A partir de hoje, esqueçam seus nomes, todos terão outros nomes com os quais serão conhecidos por todos nesta casa.

Ouve-se um silencio, e depois um suspiro aliviado. Parecia que o pesadelo tinha acabado. Elyc respira fundo e olha fixamente para o senhor Clomaus e pensa:

"O senhor Clomaus, apesar da aparência, não parece um homem rude como o senhor Helius."

Agora, os meninos já podem observar tudo a sua volta.