O Guardião dos Meninos da Sombra
6 As lembranças vêm e vão
Anglyus retornou ao quarto junto com os demais colegas e ficou pensativo sobre o que acontecera na sala de aula. Daryus e Thiery pareciam endemoniados, queimando-o com seu olhar fuzilante.
Anglyus deitou-se na cama e lágrimas correram pelo rosto, era a primeira vez que tinha chorado desde que chegara naquele lugar. Lembrou-se do momento em que o senhor Helius estivera em sua casa. Sua mãe cozendo* as meias de seu pai, sua irmã Izabely acariciando sua boneca de pano que havia ganhado no último natal.
Seu pai, um homem bem sucedido tinha um comércio de charutos e cigarros, parecia estar indo bem os negócios, havia um bom tempo que não reclamava das despesas da casa com sua mãe.
As lembranças povoavam sua cabeça e lembrara-se do momento em que estava brincando junto a lareira com seu cavalinho de madeira, presente que havia ganhado da senhora Merry, professora de música, quando o som da campainha ecoou na sala.
Era o senhor Helius que chegara na casa acompanhado de um sentinela que não entrou na sala, ficou no portão como se fosse um cão de guarda parado como uma estátua. Anglyus observara a cena mas voltara a brincar com seu cavalinho.
Ao ver sua mãe o senhor Helius a cumprimenta gentilmente.
─ Como vai senhora?
─ Muito bem, obrigada! E o senhor como está?
Era um homem gentil. Educado e bem vestido. Anglyus, observou aquele homem e percebeu um olhar misterioso.
Lembrou-se que o pai saiu do escritório e convidou o senhor Helius para entrar e os dois conversaram algum tempo. O senhor Helius gesticulava, mostrava livros e cadernos aos pais. A mãe com olhar triste, demonstrava preocupação.
Observou quando o pai delicadamente estendeu a mão para sua mãe, que estava sentada em uma poltrona ao lado da escrivaninha, e depois dirigiu-se ao senhor Helius, dizendo:
─ O senhor, nos dê licença por alguns minutos, vamos conversar um pouco e logo traremos a resposta.
Eles entraram no escritório da casa e conversaram por muito tempo. Enquanto isso o senhor Helius caminhava pela sala observando tudo, olhava alguns objetos, fazia gestos com as mãos como se estivesse ansioso.
Depois de algum tempo o senhor Helius fora convidado a entrar no escritório.
Anglyus lembrara que ele e a irmã escutavam as gargalhadas do senhor Helius e as vezes sua mãe parecia alterar a voz como se contestasse algo. Após algumas horas a senhora Sofy, saiu da sala chorando e foi direto para o quarto. Anglyus não compreendeu a atitude da mãe. Sempre tão amorosa, carinhosa, gentil e educada havia deixado o senhor Helius a sós com seu pai que continuava as gargalhadas dentro do escritório.
De repente, o pai de Anglyus saiu do escritório e chamou o filho. Anglyus acompanhava o pai e viu o senhor Helius sentado na poltrona a frente da mesa, com um sorriso forçado chamou-o para junto dele. Abraçando-o e afagando seus cabelos. Aquela voz soou como um terremoto de emoções. Não podia acreditar, mas não era educado contestar as decisões dos pais. Apenas ouvir os discurso do Senhor Helius.
─ Dentro de dois dias você irá para uma escola de formadores de homens. Homens com virtude, dignidade, valores morais e com ambição de sucesso. O lugar é lindo, colorido, e muito caloroso.
O senhor Helius tinha uma voz suave, era educado, e fez com que os conflitos emocionais que apertavam o peito de Anglyus se afastasse e convenceu-se que poderia ser feliz lá.
Por outro lado, Anglyus entristeceu ao saber que ia deixar a sua família e ficou olhando para o pai com os olhos lagrimejando.
O pai sempre autoritário repreendeu o menino impondo-lhe valores que recebera de seu pai.
─ Homem de verdade não chora, não tem medo, e a escola é o melhor lugar para formar um homem de caráter.
Virou-se para o senhor Helius e se justificou.
─ Em casa ele está aprendendo coisas de mulheres, vendo sua mãe cozinhar, cozer*, sua irmã brincando de bonecas. Como pai não posso deixar a empresa para dar atenção ao menino, e a escola fará dele um homem como eu.
Anglyus não entendia o que seria ser um homem como seu pai. Ele trabalhava o dia todo, e as vezes ouvia sua mãe choramingando pela casa a espera dele que chegava quando o dia estava amanhecendo. Um homem que contava os quinhões que sobravam da compra do leite, do pão. Um homem que não realizava o gosto nem de seus filhos e nem de sua esposa. Sua mãe, por muitas vezes, encostara sua cabeça no peito de Anglyus e chorava baixinho. Era esse o homem que iria tornar-se?
Pensando que poderia deixar sua mãe desamparada, sem um ombro amigo para chorar, Anglyus pediu à mãe que intercedesse por ele ao pai, mas foi em vão, o pai estava irredutível e dada a sua palavra não voltava atrás.
Sua mãe muito aflita chamou Anglyus em seu quarto para dizer-lhe o quanto o amava, o quanto o admirava e que ele sempre estaria junto dela em suas orações. Anglyus não compreendeu porque teria que ir.
No dia marcado o senhor Helius chegara a casa e esperou pacientemente os pais e a irmã despedirem do menino. Abraços, beijos e muitas lágrimas.
O pai com olhar de autoridade despediu-se do filho com um aperto de mão dizendo que em breve iria buscá-lo, Anglyus perguntou:
─ Seria no Natal?
Antes que o pai respondesse, o senhor Helius interviu dizendo:
─ Quando forem convocados pela escola, o pai, a mãe e a irmã poderão ir visitá-lo.
Anglyus entrou no ônibus escolar que o esperava na porta da casa, viu muitos meninos lá dentro. Percebeu que outros meninos precisavam formar-se homens de caráter.
O ônibus seguiu até uma cidade vizinha e chegou a um local isolado com mata fechada, sem casa por perto e um gramado enorme. Neste gramado muitos meninos estavam sentados aguardando o ônibus chegar.
Naquele momento o senhor Helius, mudou radicalmente de atitude e desceu irritado, esbravejando e xingando os meninos. Um homem muito diferente daquele que havia chegado a sua casa.
Alguns sentinelas já começavam organizar a fila para a caminhada. Anglyus perguntou ao senhor Helius:
─ Por que não vamos com o ônibus?
O senhor Helius olhou o menino bem nos olhos e gritou bem alto:
─ Porque vocês são porcos e porcos tem que andar a pé. Não fale mais comigo seu peste. E colocou o menino como o primeiro da fila.
De volta a realidade em seu quarto Anglyus chorou baixinho e adormeceu como se quisesse esquecer o terror que sua vida tinha se tornado.
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