Era o primeiro dia de aula, o último ano do colegial. Baltazar não ia ao colégio faz muito tempo. Nem pretendia ir.

Foi Julia que o convenceu, assim como a ter uma aparência fixa. Nos últimos tempos, Baltazar se passava por várias pessoas e estava desempregado, tornando Julia a provedora do lar. Além disso, ele havia percebido uma movimentação estranha sempre que se escondia e mudava de aparência.

O plano óbvio foi: ser uma única pessoa e ter uma vida normal. Ele não fazia isso a muito tempo, e quando Julia sugeriu cursar novamente o colegial (pois seu diploma datava de 1950 e ele insistia em manter uma aparência jovem) ele concordou com a maior má vontade do mundo. Para o plano entrar em prática, era preciso que ele, de fato se tornasse outra pessoa, do zero. Inicialmente, Julia sugeriu que ele ficasse como um bebê por um tempo, fossem feitos documentos como filho dela, e depois de uns anos, ele fizesse o colégial e a graduação. Não preciso nem dizer que ele odiou a sugestão.

Se houvesse tido um guerra, seria fácil dizer que perdeu os documentos em meio a ela, mas nesse caso, ele não tinha formulado um plano melhor. Jonhatan, seu último personagem, está definitivamente morto, com direito a funeral falso e tudo. Não tinha volta.

Em um dia no final de Janeiro, Julia mandou uma mensagem informando que voltaria tarde do trabalho, o que fez Baltazar sair de casa depois de uma semana, semana na qual eles tinham discutido sobre a nova identidade. O cair da noite ainda estava claro e quente, caracterísco do verão. Baltazar saía de casa com a aparência de um homem comum, com aproximadamente trinta anos e barba por fazer.

Ao chegar ao Dr Lanche, um lugar tão horrível quanto o nome, sentou-se proximo a uma janela e começou a ver as opções do cardápio sobre a mesa. Eram as mesmas gororobas baratas e sem grande variação; embora o lugar parecesse mal cuidado, sempre haviam pessoas, principalmente moradores locais. O preço era o grande chamariz.

Enquanto esperava alguém aparecer para o atender, ficou observando um jovem casal sentado algumas mesas a frente. O garoto era um pouco mais alto que a menina, não era bonito, mas parecia ser simpático, enquanto era o contrário com ela; era uma garota muito bonita, mas aparentava ser bem tímida.

Em um certo momento, ela levanta e parece dizer algo ao garoto, apontando para fora; Baltazar interpretou que ela iria buscar algo. Minutos depois que a garota sai, é possivel ouvir um alto barulho de pneus parando bruscamente e um grito. Muitas pessoas saem do estabelecimento procurando saber o que aconteceu. Inclusive Baltazar.

Chegando lá, um homem tenta incessantes vezes animá-lá com massagens cardíacas, seu tórax enchia de cor uma jaqueta pressionada no local. Finalmente o homem que estava sobre ela para, e é possível ouvir o choro abafado do garoto que estava com ela. Ela morreu.

Baltazar havia perdido a fome, e foi para a casa sem comer nada. A princício, não havia se comovido; já tinha visto tantas pessoas morrerem que estava acostumado, só esperando a sua vez. Mas foi quando viu o garoto jogado no chão, falando palavras incompreensives e alguns "Lara"s no meio, lembrou-se que a pior parte sempre foi essa, a de ver as pessoas tristes pela que se foi.

No meio do caminho para casa, lhe veio uma ideia. E se ele se tornasse Lara?!