O Guardião do Farol
1 Shy yet proud.
Notas iniciais
Me pertence, o conto só.
Ele nasceu e cresceu junto ao mar. Era um homem tímido, mas orgulhoso como uma besta marítima. Havia aprendido a viver longe da multidão, longe dos murmúrios e dos olhares cruéis que a cidade poderia abrigar. Era o guardião do farol; assim, as pessoas do povoado costeiro o conheciam. Raramente (se algum dia o fez) aventurava-se no mundo lá fora ou no centro da cidade. Sua fobia social era alta; e ele sabia precisamente o quão longe estava do desconforto.
Mas tudo mudou no Ano Novo.
...Uma noite na cidade pode mudar uma vida para sempre.
Seria a primeira vez que ele estaria em um encontro social. Tivera a repentina decisão de participar das celebrações, embora a falta de confiança o fizesse ter uma fraca ideia de como eram as interações com pessoas de verdade.
Era véspera do primeiro dia de janeiro. O faroleiro estava parado frente a sua casa, o farol, observando o festejo da cidade e pensando o quão errado sua atitude de sair poderia ser. Ignorou-a então.Precisava, uma única vez, experimentar como era a vida.
Caminhou, temeroso, por entre as ruas enfeitadas através da multidão. Estava alheio aos murmúrios e suspirares, mas não o bastante para deixar um detalhe passar despercebido: seus olhos cobaltos encontraram os dela, negros como a maré noturna, assim que ela deixara a própria casa. As combinações da desajeitada timidez dele e o espirito de liberdade dela, mesmo sem palavras, foram perfeitas. Ambos foram juntos para o centro das festividades, mas nenhum estava realmente interessado na festa.
Para ele, havia sido amor à primeira vista.
Para ela, uma atenção necessária e gentil.
O tímido faroleiro perdera todo o seu temor diante ela, ganhara a luz e o fogo ardente no peito. Procuraram privacidade e, lentamente, juntos, deixaram a cidade para trás. Ela, sorridente, abrira as portas do farol entre contentes palavras; as quais, infelizmente, ele não pode ouvir. Estava encantado por ela, pelo momento, pela canção suave das ondas do mar. Então, a belíssima moça explicou que deixaria o povoado na manhã seguinte em uma embarcação chamada Rainha dos Céus.
“A cidade está ficando muito pequena para mim.” Dissera em um sussurro sutil, um ponto brilhante exalou de seus olhos de ébano. “Preciso conhecer o mundo que me espera além deste mar tempestuoso.”
“Você não pode...” O faroleiro respondeu entre uma visível indignação. “Você deu uma nova vida para todo o meu ser.” E ela sorriu tristemente.
“Eu prometo ser sua para sempre... ou só por uma noite.”
O tímido romance foi sustentado pela madrugada que se seguiu. O faroleiro fora tomado por sentimentos e emoções desconhecidas, nunca antes experimentadas. Havia sido derrotado; e os dois amantesfizeram amor pelas horas que antecediam o amanhecer.
Enquanto ele dormia, ela partiu para embarcar no navio.
No despertar preguiçoso do sol, o ingênuo homem acordou sozinho. Desesperadamente, deixou o farol e correu por entre os campos; era iluminado pela luz da manhã e aquecido pela chama do próprio peito. Havia experimentado o amor, por um breve e único instante, todavia, passara a ver que a vida presa no farol não fazia mais sentido.
Antes que pudesse chegar à cidade, porém, fora abordado e encurralado por alguém. O faroleiro não era um lutador, vivera longe dos males da vida – não os conhecia com perfeição – e, então, recebeu a primeira de suas surras. Alguns ossos quebrados, cortes... ele não sabia identificar, somente sentira a sensação da frieza causada pelo agressor.
O faroleiro permaneceu inconsciente até o anoitecer. No nascer da lua do primeiro dia do ano, ele acordou de um pesadelo em que um sinal brilhante cegava seus olhos. Seus pensamentos ferveram:lembrara-se do seu farol, sua casa, e que a luz que guiava as embarcações havia se apagado. Silenciosamente, ele implorou para o astro prateado iluminar o caminho, rezou por uma noite sem nuvens e um mar calmo. Então, caíra na inconsciência da exaustão mais uma vez.
Ele viu-se em uma cama quando despertou mais tarde.Estremeceu: não era o seu leito, tampouco sua casa. O sol brilhava pela janela, era manhã do segundo dia. Suas fraturas e cortes haviam sido tratados, a febre, embora presente, estava baixa; todavia, estes pequenos detalhes não foram capazes de distanciar sua preocupação.A luz do farol.
"Que a embarcação tenha partido em segurança..." pensara e pensara, repetidas vezes enquanto se levantava da desajeitada cama. Logo, além da porta, desceu as escadas. Encontrou-se, enfim, no salão comunitário da cidade; e o hall estava cheio de pessoas que o julgaram com olhares de cólera, de tristeza, de decepção. O faroleiro sentiu o coração palpitar em angustia, sufocado na própria ansiedade, quando os seus lábios se moveram por conta própria:
"Por favor... Digam-me que tudo está bem..." o sussurro foi fraco, mas o bastante para quebrar a tensão do silêncio.
Silêncio este que pareceu perdurar por uma eternidade. A população presente o assassinava com os olhos.
"Todos a bordo da Rainha dos Céus morreram!" um homem tatuado e robusto exclamou, e sua voz explodiu entre as paredes do salão. Lágrimas brotavam da multidão; sentimentos negativos que fizeram o pobre faroleiro baixar a cabeça, incrédulo. "A embarcação atingiu o recife sem deixar sobreviventes... E você, maldito, era a luz da noite!" e terminara a acusação.
Ele era a luz da noite, sim, ele era; e esta mesma luz que guiava as embarcações no denso oceano, o guiou a uma resposta. O homem tatuado que o acusara... era o mesmo que o atacara! No braço musculoso ele carregava um nome familiar, o nome da linda mulher que o faroleiro se apaixonara.
Era o marido dela; pai da criança não nascida.
O prefeito pedira por silêncio na corte, mas o inocente homem não ouviu. Tudo ficara claro para ele: a mulher estava fugindo do marido, recentemente grávida, ao embarcar no Rainha dos Céus.
Inconsolado, o faroleiro fugiu do salão para as ruas; e ninguém ousou o seguir. Enquanto retornava ao farol, o verdadeiro lar, sua mente o julgou em acusação própria. A sensação do arrependimento o dilacerava, a mágoa o matava por dentro e, longe de seus olhos cobaltos, o oceano rugia a ponto de engoli-lo.
Ele queria ser engolido.
Parou frente ao recife, um passo poderia decidir o seu destino: voltaria para o farol, esqueceria seu erro ou veria o seu fim. Cerrou os punhos, olhos marejados.
Como poderia continuar vivendo? Não poderia seguir em frente como faroleiro, não depois de ter acarretado em tantas mortes – principalmente a dela. Como enfrentaria os olhares das pessoas e protestaria por sua inocência, implorando por compaixão?
...Afinal, ele era realmente inocente? Sangrava psicologicamente a cada novo pensamento culposo.
Não deveria ter deixado o farol! Não deveria ter saído! Deveria ter ficado lá dentro como sempre o fez, seguir a vida como sempre seguiu... Por que, então, saíra?
Porque, apesar da solidão, ele continuava sendo humano com um coração. Um coração que precisava ser nutrido, seja por erros, seja por sentimentos, seja por mentiras e verdades.
O guardião implorou para que o farol mostrasse o seu caminho; imaginou uma luz descendo pelo penhasco até a costa, onde ondas se colidiam com uma violência terrivelmente... magnifica. Não havia mais saída, acreditou ao julgar-se, ele não era mais um humano.
Na penumbra noturna, o faroleiro pulou rumo ao inferno. Caindo, ele chamou pelas águas negras, desejava que elas o engolisse, e seus últimos pensamentos foram nos quais perderam suas vidas no Rainha dos Céus. Queria que o mesmo recife o levasse também; que o mesmo oceano, seu companheiro de anos, carregasse a sua vida para a profunda escuridão.
Nos últimos segundos antes do esquecimento, ele recitou sua prece final.
Fale com o autor