O Guardião Noctua
2 Bosque Noturno
Notas iniciais
O azul profundo havia sumido do céu, era o auge da madrugada, a última hora antes do inicio do clareamento do céu, mas as estrelas brilhavam mais do que nunca. Algumas estrelas cadentes riscavam o céu noturno em diferentes horas, verde ou azul, sempre brilhando e correndo pelo espaço na velocidade da luz. Um silêncio tranquilizador soava no ar, aquele som agudo e perturbador, mas que sabemos que é o silêncio, cortado apenas pelo habitual crepitar das fogueiras e pelo ocasional som das corujas no bosque. As casas do vilarejo estavam escuras e silenciosas, todos dormiam acomodados em suas camas ou barracas, parecia mais uma noite tranquila para todos, menos para uma menina.
Alexys é uma menina um pouco alta para a idade dela, seus olhos escuros e cabelos pretos brilhavam fraco com a luz da grande lua que estava descendo em direção ao mar. Os pais de Alexys são de uma linhagem forte do clã, onde todos tinham a pele escura, porém com o passar dos anos essa cor está perdendo sua força, mas a pele dela ainda é escura. Os olhos são pequenos e seu sorriso é como o de Ollie, quase infantil, moldado num rosto redondo e pequeno. Seu corpo é esguio e sem muitos músculos, mas ela não é fraca. O cabelo dela é cortado na altura do queixo e é encaracolado. É uma menina diferente das demais, e é isso o que torna ela tão especial. Estava no topo da árvore que ela mesma havia plantado ali anos atrás, próxima á sua casa. Era uma árvore menor que as demais, media uns cinco metros, um pequeno carvalho em crescimento. Ela olhava para o limite da cidade, para o mar. O mar refletia o brilho do primeiro dia do estágio da lua minguante junto com o brilho das estrelas como um grande espelho trêmulo.
– Não consegue dormir?
A voz vinha de dentro de sua cabeça. Ela não se assustou, pois isso já fazia parte do cotidiano, ela sabia que era Ollie que estava por perto, se comunicando pela habilidade mental que ambos haviam aprendido.
– Não invada minha mente sempre que quiser falar qualquer coisa Clark, isso assusta ás vezes – ela disse com frieza.
Seu semblante não permitia mentir, Alexys estava muito aborrecida com tudo que havia acontecido, e muito preocupada também. Aqueles homens conseguiram voltar, muito feridos e arriscando a vida sobrevoando o mar, mas se eles que conseguiram chegar á costa estavam naquelas condições, ela não conseguia parar de imaginar em que condição estava o seu irmão, que estava a bordo do mesmo barco que esses homens. Ataques como este não são comuns. Tão próximos ao reino das corujas, um ataque do clã dos morcegos era inconcebível, mesmo com toda a raiva que o clã Bat tem dos Noctua, um acordo foi assinado depois da guerra. Alguma coisa estranha está acontecendo, e ela estava disposta descobrir o que é.
– Ninguém me chama Clark, exceto minha mãe – disse mais para si mesmo do que para ela – desculpe-me, eu não pretendia assustar... – ele disse pousando ao lado dela em sua forma animal.
– Não tem problema, eu sei que você não fez por mal. – responde olhando-o com tristeza.
– O que aconteceu? Por que estava chorando? – perguntou olhando nos olhos dela que estavam inchados e vermelhos, com uma lagrima quase caindo.
– Não se preocupe comigo, era só...
– Está pensando no Soren não é? O seu irmão. – ele adivinhou o pensamento dela com facilidade, também estava preocupado com Soren, era seu melhor amigo também.
Alexys olhou espantada para ele, como sabia que ela estava preocupada com Soren? Por fim deduziu que ele a conhecia muito bem e logo voltou a pensar no irmão. Àquela hora ele deveria estar jogado no chão de uma caverna escura e fria, morrendo de fome e sangrando pelos ferimentos da luta. Talvez já estivesse morto, quem sabe, mas Alexys tentava pensar no melhor. Ollie não suportava o sofrimento dela, era duro demais ficar ali parado vendo sua melhor amiga sofrer sem poder fazer nada. Foi então que teve uma ideia.
– Vem comigo caçar? – pergunta tentando envolvê-la em alguma coisa para que deixasse de se preocupar por um tempo – No caminho pra cá eu vi alguns animais no bosque, podemos ir lá caçar um pouco para não ficar fora de forma. Então? O que me diz?
– Não sei Ollie...
– Não, não! Você precisa sair dessa tristeza, não se preocupe, Soren é muito esperto, ele deve estar bolando um plano para trazer todos os sobreviventes de volta á essa altura, não concorda?
Ela pensou que talvez Ollie tivesse razão. Soren era um líder nato, e também um grande lutador, com certeza teria sobrevivido ao ataque e guiado todos para um lugar seguro. Talvez devesse realmente tentar descansar sua mente por um tempo, a final, estavam falando de Soren.
– Tudo bem, você me convenceu – disse por fim, levantando-se e iniciando a transformação em coruja – mas não vamos demorar muito, já vai amanhecer e o bosque pode ser perigoso de dia.
Como lhes era ensinado na academia, corujas tem hábitos noturnos, por isso é comum ver jovens com medo de entrar em florestas durante o dia, que é quando os outros animais estão acordados. Alexys não temia entrar no bosque de dia, mas ela tinha consciência de que pode realmente ser perigoso. Por diversas vezes foram relatados problemas ou até morte de pessoas por ataques de aves maiores ou ursos, todos os tipos de animais caçam de dia em florestas, e eles devem se lembrar disso.
De uma janela perto dali alguém observava o casal de corujas que acabava de alçar vôo e partir em direção ao bosque.
Chegando à barreira de arvores, os dois amigos pousam nos galhos das grandes arvores que separam o bosque do vilarejo. As árvores desse bosque não são muito próximas umas das outras, mas são muito numerosas, dando tanta liberdade para voar quanto lugares para pousar.
– E agora Ollie? Onde você disse que viu animais que poderíamos pegar?
– Não me apresse, temos que ouvi-los, você poderia me ajudar um pouco, não acha?
– Ah é, tudo bem, como se eu fosse ter alguma chance de ouvir alguma presa antes do grande caçador prodígio da... – ela dizia enquanto ele se atentava para qualquer som entre as árvores, até que ele partiu antes que ela terminasse de falar – quanto cavalheirismo. Sua mãe nunca te ensinou que é falta de educação sair da conversa enquanto outra pessoa fala?
Ollie descia silenciosamente para os galhos baixos. Era incrível como se movia sem fazer absolutamente nenhum ruído, facilitando a aproximação dele com a presa. Não era difícil para Alexys fazer o mesmo, mas ele tinha uma habilidade natural, como se tivesse nascido para caçar. A descida silenciosa era a parte fácil, agora ele tinha que pegar a presa sem ser visto, mas isso também era tarefa fácil para Ollie, e não demorou muito para que o fizesse. O arbusto balançou levemente um segundo antes da chegada dele, e em seguida uma figura escura saiu às pressas do meio das folhas, mas era tarde demais para ela. Ollie já estava ganhando velocidade e agora era apenas pegar a presa e o trabalho estaria terminado, mas o problema só pôde ser evitado no ultimo segundo, quando as garras dele estavam totalmente preparadas para o abate. Para espanto dele e de Alexys, não era um animal, mas uma pessoa, e alguém que eles conheciam muito bem.
– Andressa!? – eles pensaram em uníssono.
A terceira pessoa do trio de melhores amigos da academia. Estavam sempre juntos, mas naquele dia foi diferente, pois Andressa ficou de castigo por ter arranhado o rosto de um dos colegas de classe, mesmo ela dizendo que era em legítima defesa.
– Oi turma. Ah... Ollie, você pode... – ela gaguejava sem jeito de falar – sair de cima de mim?
– Sim, me desculpe, é só... O que você estava fazendo aqui? – ele estava curioso e assustado, ele teria a matado se não tivesse visto que era ela.
Alexys desceu da árvore distante em que tinha ficado olhando e agora se aproximava dos amigos. Ela voltou à forma humana, sendo imitada por Ollie.
– Ah... Eu só estava... Eu vim para... – Tinha sido pega e não sabia o que dizer, então não restava alternativa além da verdade – Eu estava espionando vocês. – disse abaixando a cabeça envergonhada e começando a brincar com os dedos nervosos.
– Mas por quê, Andy? Não estávamos tentando esconder nada de você, sabe que te contamos tudo, por que tentaria nos espionar? – indagou – eu poderia tê-la machucado sério agora!
– Tudo bem, tudo bem. Eu devia ter ido falar com vocês, eu sei. Eu só não sabia se iria atrapalhar alguma coisa, entende? – disse envergonhada, agora olhando para Alexys – eu vi vocês juntos no seu carvalho, e depois vindo para o bosque, daí eu achei que vocês iam...
Um barulho alto de galhos quebrando veio de algum lugar logo á frente interrompendo o que Andy ia dizer. Todos olharam fixamente para o escuro da floresta. A lua já estava muito baixa ao oeste e não iluminava mais no interior das árvores, tinham se guiado até agora com a visão noturna que aprenderam a controlar na academia, porém a distância visível não era muito grande, dava apenas para ver alguns metros á frente, era muito útil para se mover durante a noite, mas não conseguiam distinguir cores. Foi então que pensaram em voltar para casa e desistir da caçada, pois ia amanhecer dali a pouco tempo, mas não tiveram muito tempo para pensar. Um enorme urso preto saiu do meio das árvores arrastando todos os arbustos que tinham na frente, rosnando alto e rasgando as cascas das árvores com suas garras. Ele se movia muito rápido, então era agir ou morrer. Ollie abriu os braços e em questão de segundos ele estava coberto de penas e subindo no ar. Andy deu uma pequena corrida para trás e logo estava começando a voar também, o problema era Alexys. Não consegue se transformar sob pressão, ela fica muito assustada e não se concentra na forma, mas além de não se transformar, ela não saia do lugar.
O urso estava vindo rápido na direção de Alexys e ela permanecia paralisada pelo medo. Nunca havia visto um urso de perto e nem um tão grande, o que lhe fez ficar imóvel, aterrorizada. Ollie gritava desesperado na mente dela e guinchava alto com seu bico de coruja, tentava fazer o máximo de barulho para Alexys se mover, mas ela estava ensurdecida pelo pavor. Andy estava fazendo o mesmo e ambos viam a menina petrificada diante do urso preto gigante. Ollie estava decidido a não deixar que sua melhor amiga morresse, não ali. Ele afastou-se para a esquerda e começou a voltar voando rápido. O urso estava a poucos metros de Alexys e não parecia que ia parar entes de chegar nela, ele tinha que agir rápido. Desviando de todas as árvores Ollie voava como um raio branco na penumbra, em direção á amiga. Ele fez uma curva para chegar atrás dela e pega-la pelos braços. O urso viu a grande ave branca se aproximando rápido e se preparou. Quando Ollie alcançou Alexys e tentou subir com ela, o urso, agora muito perto deles, saltou e atingiu a asa esquerda dele, derrubando os dois no chão violentamente. Juntos eles rolaram entre os arbustos e Ollie não resistiu e se destransformou. A cabeça de Ollie atingiu com força uma pedra grande no chão, agora ele estava com um braço quebrado e um ferimento grande na cabeça, totalmente inconsciente.
Alexys entrou em pânico, mas depois de tudo, conseguiu se mover finalmente, indo em direção á Ollie, que estava desmaiado e gravemente ferido, jogado ao pé de uma arvore. Olhando ao redor procurando por Andressa, ela não encontrou ninguém. Sua melhor amiga tinha fugido e abandonado os dois no meio das árvores, para serem devorados pelo urso enfurecido.
– Ollie!!! – ela gritou em desespero – Acorda agora Olliver!
Os gritos estridentes dela atraíram o urso novamente, que começou a andar na direção deles, devagar e com passos pesados. A respiração dele era visível no ar, o bicho estava furioso, algo errado devia ter acontecido com ele. Ursos não atacam, a menos que se sintam ameaçados.
– Socorro! Alguém nos ajude! – ela gritava com o amigo nos braços e as roupas ensanguentadas – Socorro, por favor!
Era tarde demais. O urso já estava encima deles, bufando e babando, com os dentes à mostra, era tarde para correr e impossível de defender, apenas um milagre os salvaria agora. O animal estava encima deles, quando ele parou de andar, começou a se erguer, estava apoiado apenas nas patas traseiras e levantando as garras, era o fim.
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