O Guardião

3 Capítulo 2


A porta bate duas vezes seguidas, uma atrás da outra, John espera por alguns segundos, a maçaneta gira e uma mulher de meia idade, com cabelos loiros, roupas simples, comuns para se ficar em casa e um longo cachecol feito à mão o atende.
– John – ela se emociona ao ver a face do jovem.
– Bom dia Donna.
Ambos sorriem um para o outro, ela da um abraço nele e por fim da um beijo em sua bochecha. Já fazia um bom tempo desde que eles se viram pela ultima vez, após se formar no ensino médio John se escreveu para o exercito, se especializando na área da aeronáutica para finalmente embarcar na carreira de astronauta e por isso acabara tendo de se afastar de Donna.
– Há quanto tempo, você mudou bastante, deixou a barba crescer, já até parece um homenzinho.
– Eu sei... Uma hora eu tinha que amadurecer né, inclusive tem algo que quero te contar.
Ela ergue uma das sobrancelhas, enquanto encara John atentamente.
– Posso entrar?
– Claro que pode a casa também é sua.
Donna termina de abrir a porta, que antes estava apenas entre aberta. Entra em sua antiga casa e sente em seu peito a nostalgia daquele lugar, após a morte de seu pai, quando tinha apenas nove anos de idade, John fora adotado por Donna, ela não era sua familiar, apenas uma grande amiga de seu pai e fora confiada à guarda do garoto desde então.
O pé direito dá o primeiro passo, seguido do esquerdo, um de cada vez, bem devagar para que pudesse ouvir mais uma vez o som do assoalho rangendo de baixo de si, aquele barulho, que na época era como algo insuportável para ele por ter que ouvir todos os dias só de andar pela casa, se tornara algo memorável. A frente da porta está um corredor longo com algumas entradas, uma para cada cômodo da casa, John vira se logo na primeira, onde se encontra a sala de estar, ao se virar vê todos os moveis exatamente como ele se lembrava. Dois sofás, um pequeno de dois assentos e um pouco maior com três, ambos ficavam encostados em paredes diferentes, no centro da sala havia uma antiga mesinha de centro feita a madeira, com um estilo rustico, levemente escurecido e com detalhes esculpidos a mão, no outro lado da sala uma estante onde ficava a televisão e algumas fotos de sua infância.
– Você ainda guarda essas fotos? São tão antigas.
– Eu sei, mas é para me lembrar do pequeno John — Donna faz um sinal para John se sentar e some corretor adentro.
– Onde está indo?
– Pegar um suco, você preferi laranja ou uva?
– Laranja, por favor – senta-se no sofá de dois assentos para espera-la.
Começa a observar melhor as fotos, nota que em uma delas está seu pai, Donna e ele. Em uma festa de aniversario de uma colega da escola, tinha cerca de cinco anos na época, usava uma calça jeans velha, com uma camisa branca, seu pai estava vestido semelhante, só que usava ainda um colar e uma camisa social antiga por cima. John estava nos braços do pai e Donna ao lado dos dois, estava vestida de forma mais elegante, usava um vestido azul e uma blusa aveludada por cima, parecia exagerado para uma festa de aniversario de criança, mas para a jovem Donna estar sempre arrumada era o essencial.
John não se contem e levanta para observar a foto mais de perto, pega o retrato em suas mãos, nesse mesmo instante Donna chega com dois copos de suco e os coloca na mesa de centro.
– Ainda sente saudades dele?
– Muita – Ela apoia o braço no ombro do rapaz.
– Não é fácil pra mim também, ele era um homem tão bom.
Donna se distancia, pega os copos de suco e entrega um deles para John. Ele segura o copo com as duas mãos, segurando-o firmemente, gira o corpo e vai em direção ao sofá menor, a doce mulher o acompanha e senta-se ao lado dele.
– Bom... isso já é passado.
– Mas nunca deve ser esquecido.
– Não vou esquecer, meu pai é o motivo pelo qual quero me tornar astronauta, lembro perfeitamente do dia em que ele partiu.

O vento estava forte naquele dia, o sol brilhava como todos os outros dias, mas ainda sim o frio se sobressaia, o pequeno John olhava maravilhado para todas as direções, há alguns metros havia um gigantesco foguete, era a primeira vez que pudera entrar em uma base espacial, seu pai tivera a sorte de conseguir que o deixassem entrar junto de seu filho.
– Grande não é mesmo?
– Gigantesco, isso é incrível.
– Sim, e então, acha que consigo pilotar essa nave?
– Claro que consegue, você é incrível papai, espero que um dia também possa pilotar uma nave como essa.
O pai de John solta alguns risos, seu filho ainda era apenas uma criança, mas já era um sonhador como o pai, os dois compartilhavam o mesmo desejo. Thomas esperava ansiosamente por esse momento desde a época que tinha a mesma idade de seu filho. “parecia algo infantil, mas afinal, quem nunca sonhara com isso?”.
Uma das caixas de som da base espacial anuncia que a nave ira partir em poucos minutos e para todos os membros da missão se preparem o mais rápido possível.
O astronauta se vira para despedir-se do filho.
– Acho que é isso, está na hora, tenho que ir.
– Vai lá papai, te amo.
John pula nos braços do pai, abraçando-o o mais forte possível, Thomas se desiquilibra e quase cai, mas retoma o equilíbrio e segura firmemente o filho nos braços. Alguns segundos se passam e o pequeno John salta novamente, caindo no chão, bem a frente do pai.
– Até mais filho.
– Até papai.
Thomas se vira para a plataforma onde está o elevador que o levará para o foguete e segue andando lentamente, depois de caminhar por cerca de três metros se vira e vê o filho sorrindo ao lado de Donna, que o segura no colo, o garoto abana o braço em sinal de despedida, ele faz o gesto de volta e se vira para frente, faltam apenas mais alguns metros para chegar ao elevador, à porta está aberta com mais dois homens totalmente vestidos com a roupa de astronauta e o capacete debaixo do braço. Thomas se junta a eles, a porta é fechada e um dos presentes aperta o botão para o topo da nave.
As últimas memorias de John daquele dia eram apenas da nave espacial sendo lançada a uma velocidade surpreendente para cima e ter ficado imaginado como estaria seu pai durante a noite toda, lembra também de ter chegado atrasado à escola no dia seguinte por que não havia dormido na hora e acabara se atrasando.
Dias depois chegara o dia de seu pai retornar, pena que por desgosto do destino, ele fora o único a não voltar, a partir disso muitos pesquisadores tentaram entender o que havia acontecido, tudo o que os demais astronautas alegavam era que ele tinha sumido de uma hora para outra sem motivo nenhum, isso traumatizara muito John, por um longo tempo foi caçoado na escola, os colegas do garoto adoravam insinuar de que seu pai tinha dado um salto tão grande que saíra da orbita da lua, isso o magoava profundamente.
Desde aquele acontecimento refletira muito sobre realmente querer ser astronauta , isso gerou problemas psicológicos que o obrigaram a ser levado em uma psiquiatra por cerca de dois, ao longo desse tempo, percebera que não podia deixar que aquilo atrapalhasse em seu sonho, mas que deveria fortalece-lo e ainda honrar a memoria de seu pai seguindo o mesmo caminho que ele, no entanto, sequelas o marcaram pelo resto da vida, seu psicológico abalado era facilmente desmoronado ao se lembrar do pai.

– John? Tudo bem?
– Oh, sim, claro, só estava me lembrando daquele dia.
– Fique calmo, agora me diga por que veio me visitar de uma hora pra outra?
Ele se alegra com aquela pergunta, seu sorriso se estende de orelha a orelha.
– Acabo de terminar mais uma etapa de meu treinamento. Agora estou apito a participar de missões espaciais.
Donna da um grito de alegria, seguido de outro abraço caloroso, ela sabia que ele desejava isso a um bom tempo e agora estava tão feliz quanto ele, como se estivesse cumprindo seu próprio sonho.
– Meus parabéns, eu sempre soube que conseguiria e se seu pai estivesse aqui, com certeza estaria ainda mais feliz com isso.
– Obrigado Donna, eu estou muito feliz, nem acredito que finalmente consegui.
– Mas então, quando vai ser sua primeira missão?
– Não tem como saber, pode ser que demore um pouco.
– Entendo, mas sei que você já está pronto, você sempre esteve.
– Tenho que estar, pode ser que eu seja convocado a qualquer instante para uma missão relâmpago ou algo assim.
– Pelo jeito o pequeno John se tornara um grande homem.
John da um sorriso de lado e abaixa a cabeça.
– Qual o problema John?
– Está tudo tão perfeito... Pena que meu pai não está aqui.
– Não fica assim.
– Eu não entendo Donna, Por quê? Por quê? O que ele fez de errado, por que ele não voltou.
– Calma.
– Não consigo Donna, eu não entendo como ele pode ter sumido naquele dia?
– Ninguém sabe, eu não sei e você também não, John preciso que você me ousa atentamente, você não pode viver no passado, seu pai se foi... Agora você tem que viver sua vida, está tão próximo de realizar seu sonho e ainda vive a mercê daquele dia, pare com isso imediatamente, entendeu?
Olha para o chão, tentando achar as palavras, tudo que Donna diz é verdade, não podia viver como se sua vida dependesse de seu pai. Ele levanta a cabeça em direção da mulher a sua frente, se levanta do sofá e olha ainda mais fixamente para ela.
– Me desculpa Donna, ainda é difícil pra mim, depois de tanto tempo, parece que o peso ainda está sobre meus ombros — os olhos começam a avermelharem.
– Você é jovem, perder os pais tão cedo não é um fardo pequeno para se carregar, eu sei que não é fácil, mas você tem que superar isso.
Ambos ficam se encarando por um tempo, ele se aproxima ainda mais e cai em frente á mulher com a cabeça baixa, ombros caídos, corpo totalmente contraído e torna-se inevitável segurar a lagrimas.
– John...
O envolve com os braços e o levanta.
– Pare com isso agora mesmo, você já tem vinte oito anos, como quer ser um astronauta se ainda chora como uma criança.
Ela se enfurece de vez, puxa o braço para trás e juntando todas as forças bate no rosto do rapaz, um estralo de apenas um segundo pode ser ouvido, ele senti o corpo sendo jogado para trás, enquanto seu rosto queima arduamente, é como se todas as espinhas de sua face estourassem de uma só vez, foi apenas uma pancada para voltar a si, Donna já tinha certa idade, mas ainda era boa de briga e odiava drama.
– Droga Donna não precisava disso.
– Claro que precisava. Você parecia uma criança chorando.
Mexe a cabeça de um lado para o outro, tenta recuperar a o equilíbrio e aos poucos sua cabeça começa a pensar melhor novamente.
– Isso machucou de verdade.
– Essa era a intenção, John venha comigo.
Donna segura em sua mão e o leva em direção ao corredor, entrando na segunda porta do lado esquerdo.
– Lembra daqui? – o antigo quarto de John, que havia dormido durante quase dez anos. Um quarto pequeno, mas suficiente para um menino, era bem simples, no canto do quarto havia uma cama de solteiro, no outro uma mesa para estudar, fazer tarefas ou fazer qualquer outra coisa que fosse necessário e na frente da cama havia um guarda roupa enorme que encobria a parede inteira. Em cima da cama tinha uma pequena caixinha de madeira.
– Claro que lembro, mas o que é isso em cima da cama?
– Um presente. Coloquei ali quando fui pegar o suco, era pra você descobrir sozinho, mas pelo jeito vou ter que entregar pessoalmente.
– O que é? – Donna vai em direção à cama e pega a caixinha.
– Seu pai havia dado isso a sua mãe muito tempo antes de você nascer, ele queria te entregar quando você fosse mais velho, porém ele não está aqui para fazer isso, então decidi eu mesmo entregar.
– E o que é?
– Abra e descubra – ela passa para o rapaz, que a segura com ambas as mãos, ergue a na altura dos olhos para analisa-la melhor. Na caixa não possuía nenhum detalhe em especial, era relativamente apenas uma caixa com uma fechadura que podia ser aberta com as próprias mãos. Ao abrir senti um arrepio em sua nuca, havia um colar com a letra J na ponta, em homenagem a Jane, Mãe de John, rodeado pela metade de um coração, feito de ouro puro, era bem fina, no entanto, ainda possuía seu valor, muito mais valioso que o dinheiro.
– Isso era da minha mãe? – segura o colar em sua mãe, enquanto fita Donna com os olhos.
– Sim.
– Mas eu sempre via meu pai usando isso.
– Não, seu pai usava o outro colar, esse era da sua mãe, o dele tinha a letra T e era a outra parte do coração.
Olha atentamente para o colar e vê que a um encaixe para uma segunda parte, como um quebra cabeça, provavelmente era ali que os colares se encontravam.
– Obrigado.
– Por nada, isso estava guardado por muito tempo comigo, eu que tenho que agradecer pela visita, assim finalmente pude te entregar.
Eles passam o resto do dia conversando, John conta como foi sua vida depois do ensino médio, quando se mudou para uma base militar para focar em seu treinamento, assim que terminara, foi para Hoston, onde começou seu treinamento de astronauta, passando por diversos testes físicos e psicológicos. Durante a conversa Donna lhe faz uma pergunta um tanto constrangedora:
– Mas... E as namoradas?
John da um suspiro. Olha de um lado para o outro e se vira para ela.
– Ai você tocou em um assunto delicado.
– Nem venha com essa, me diga, você tem ou teve namorada?
Abaixa a cabeça e falando o mais baixo possível responde Donna.
– Não tive sorte – Donna tenta segurar o riso, enquanto tenta anima-lo.
– Um dia você vai conseguir alguém. Mas você pelo beijou uma garota?
– Claro que já beijei, obvio, mas nunca tive um uma namorada realmente.
– É a vida...
Donna não consegue segurar e solta alguns risos.
– Vamos muda de assunto, por favor.
Ela contem o riso e se recompõe, se vira para ele, pensando em algum assunto que não o deixe constrangido.
– Bom hoje vai ter uma chuva de meteoros, o que acha de sairmos para ver.
John franze o cenho. Tem um pressentimento estranho e automaticamente de lembra de algo.
– Hoje à noite?
– Daqui algumas horas na verdade.
– Tenho que ir agora – ele se levanta do sofá e vai em direção à porta, ao chegar ao corredor se vira para Donna e diz:
– Desculpa ter que ir tão cedo, mas tenho a impressão de que algo vai acontecer e eu preciso voltar para a base o mais rápido possível – Termina de pegar suas coisas – Você poderia me dar uma carona para o aeroporto?
Donna se levanta.
– Claro que posso.
Eles saem pela porta da frente, o carro está estacionado logo na calçada da casa, um Sedan 2013 branco, com detalhes em prata e preto. John se apressa e vai à frente, pede para abrir o porta-malas e coloca suas coisas, partindo em direção ao banco do passageiro, Donna logo atrás entra no banco do motorista, senta e vira-se para John.
– Agora me diga o que está acontecendo?
– Eu te conto no caminho.
– Ou você conta agora ou pode ir a pé.
John da um suspiro.
– Essa pode ser minha chance.
– Como assim?
– Durante parte do meu treinamento e fora dele, descobri que uma chuva de meteoros pode avariar um satélite, caso esse satélite seja importante de alguma maneira, é obrigatório que uma missão seja feita para conserta-lo e bom, eu sou um dos pilotos atuais da base espacial.
Donna não pensa duas vezes, liga o motor do carro e vai em direção ao aeroporto.
– Isso for realmente verdade, é bom que você esteja lá logo.
– Tenho que ver os voos ainda – John pega o celular em seu bolso, liga e entra na pagina do aeroporto, aproximadamente meia hora para o próximo voo para Hoston – Donna eu diria que o destino está colaborando conosco dessa vez.
Tenda manter a postura, mas só de imaginar que logo pode ser chamado para uma missão seu coração bate mais rápido e seus lábios se moldam em um sorriso exalando felicidade.
Donna se vira por um instante para o lado. John está com o corpo virado para frente, usando o colar que dera para ele mais cedo, nunca vira ele com aquele sorriso no rosto desde que seu pai fora embora, ele se tornara um garoto um pouco recluso e não tinha amigos, naturalmente era excluído socialmente.
– Pelo jeito está animadinho, hein?
– Donna, Eu vou para o espaço Donna, Eu vou para espaço! Esperei isso minha vida toda e agora eu vou ir ao espaço Donna – mal consegue conter a empolgação.
O carro segue reto até o final da rua e vira para a direita, depois a esquerda, onde passa pelo portão principal de saída e entrada do Park Outim, eles seguem em direção à rodovia principal, indo em direção ao aeroporto.
Durante todo o caminho John fica sorrindo, enquanto Donna o observa tão alegre quando, boa parte do caminho eles ficam em silencio, ela apenas dirigia e ele observava a paisagem da gigantesca cidade de Orlando, imaginando em diversas coisas ao mesmo tempo, “Como deve ser estar lá em cima”,” A vista deve ser incrível” e “Imagine a sensação de realmente estar no espaço”, todos esses pensamentos flutuavam em sua cabeça, faltavam menos de um quilometro para chegar ao aeroporto e John já podia velo tranquilamente, começa a se arrumar para sair do carro, pega o celular para conferir a hora, faltam apenas vinte minutos para o voou, tempo suficiente para comprar a passagem de avião.
O carro para bem em frente ao aeroporto, naquela hora o movimento estava bem mais fraco do que pela manhã, já estava quase anoitecendo, o sol ainda brilhava seus últimos raios do dia. John abre a porta do passageiro e sai do carro, Donna faz o mesmo pela porta do motorista, ela ajuda-o com as bagagens.
– Essa foi uma visita realmente rápida- diz Donna sorrindo, tirando a mochila do porta-malas e dando-a para John.
– Desculpa não pode ficar por mais tempo, mas sinto que essa é minha chance, não posso perder.
– E como tem tanta certeza de que um satélite realmente vai ser atingido por um dos meteoros.
John sorri de ante a pergunta.
– Bom, cerca de noventa por cento das vezes isso acontece, tenho fé de que essa caso não seja os outros dez por cento.
Ambos dão risada.
– Diante dos números acho que não tenho como fazer você ficar. Acho que só o que tenho a dizer é “Boa sorte”.
– Obrigado.
John coloca a mochila nas costas, da mais uma verificada no celular, faltam quinze minutos.
– Donna foi muito bom te ver novamente, obrigado pelo colar, obrigado por tudo na verdade.
– De nada John, agora vai logo, não vai querer perder o voou.
Ele dá um rápido abraço de despedida e corre para a porta de entrada do aeroporto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.