Depois da conversa áspera de Lucy corri ate a margem de um rio que corria perto da minha casa, ele era limpo ate uns meses atrás, mas agora que uma fabrica ficou desativada esta sujo de produtos químicos.

Peguei uma pedra do chão e joguei com toda minha força a fazendo não quicar no rio e sim acertar alguém do outro lado da margem.

— DESCULPE- berrei para a pessoa.

De repente surge uma garota com uma camisa esfarrapada e com a mão na cabeça, por um minuto pude ver ela me mostrando o dedo fino de tocadores de instrumentos, depois disso ela saiu correndo. Estava mesmo vendo aquilo? Não sei se fico assustado por ter machucado outra garota ou se ela desafiou um garoto que nem conhece com um dedo.

Sentei-me no chão me segurando para não gritar apenas socava o chão varias e varias vezes, quando parei senti a ardência em minha mão o sangue escorria de alguns arranhões que ficou por eu ter acertado pequenas rochas quebradas no chão olhei para o alto e vi a lua, ela estava grande, brilhante um dia também serei igual a ela. Um dia serei grande, um gênio um belo guerreiro no qual nasci para ser.

Fiquei deitado no gramado do rio olhando para o alto e pensando sobre tudo, sobre toda minha vida desde criança ate agora. Minha infância difícil, meu primeiro trabalho de pintor, meu relacionamento com Lucy.

Quando o nome dela me veio à cabeça minha garganta fechou, os doces dias de nossa adolescência agora são poeira em um passado que fingimos não ter acontecido, chegamos ao acordo de sermos amigos para sempre apenas velhos amigos e nada mais. Ainda me lembro de como ela me esperava no portão da escola, a animação dela de me ver saindo da cerca de casa e indo para calçada, seus tempos de stalker.

Além do seu cheiro doce que já não sinto mais.

O amor é uma droga, ela gastou toda sua mesada em um perfume, depois ela o jogou fora com o nosso passado. Ate hoje isso me vem à cabeça, mas agora eu penso, se eu ainda estivesse ao lado dela como ela reagiria a essa noticia? Será que seria desse jeito ou ela iria abrir um sorriso falso?

Mordi meu lábio inferior ao lembrar-me de Lucy chorando, não a culpo de estar preocupada comigo ela tem um trauma consigo, penso o que ela iria fazer caso recebesse a bandeira de nosso país mais uma medalha de guerra junto de meus pais, provavelmente ela iria desmaiar ou entrar em um surto paranoico ate se recuperar de vez.

Abri meu celular e olhei as horas já estava um pouco tarde, ainda nesta madrugada iria para os outros testes ate eu finalmente entrar no castelo definitivamente. Levantei-me para ir ate minha casa arrumar minhas coisas, andando pela trilha cheia de buracos me despeço de pouco a pouco do meu passado quando eu entrar no castelo finalmente terei atingido minha maturidade, viro a cabeça para a direita e vejo lá no alto o castelo com poucas luzes ligadas o quarto da princesa vive com as luzes apagadas, por falar nela ninguém sabe onde ela esta ou se ela esta viva, tem gente que diz que ela esta morta e o rei e a rainha esconde a verdade, outros que ela é tímida , não importa o que falam dela, logo estarei do lado da família real com um uniforme de guarda branco e cheio de medalhas no peito, igual aos que eu via quando criança, voltei a olhar para o chão e vi as minhas antigas bimbas de cigarro.

Eu fumava com alguns amigos aqui as latas velhas de energético mostram aqueles anos dolorosos quando eu e Lucy voltamos a ser apenas amigos, não me lembro de quase nada do que fiz só que deixava minha mãe furiosa e meu pai decepcionado, esta trilha tem tantas lembranças ate mesmo minha caverna meu esconderijo secreto esta lá, entrei e olhei as paredes repletas de desenhos de criança tenho vergonha de ter desenhado essas coisas, um dos bonecos esta vestido de guarda e ao lado esta Lucy embaixo esta escrito “eu e minha amiga”, mas no fundo da caverna minha prova de amor para Lucy estava encravada para sempre, enquanto alguns desenhos estavam gastos pela água que entrava quando o rio transbordava, eu fiz isso com uma faca e um pouco de flores que agora estão mais do que murchas, peguei pedras e as moí,me lembro de carregar essas pedras para cima e para baixo com todos me olhando e rindo, eu sempre fui desajeitado e ate hoje não me lembro onde foi parar a mais bonita pedra de todas.

Gostaria de apagar isso, mas não da para sempre ficara marcado “Lucy meu amor por você é maior do que o horizonte” isso é vergonhoso, agradeço a carta por me fazer nunca mais ver isso. Saí da caverna recebendo uma brisa no rosto junto dela algumas folhas voavam tão livres e tão belas.

Assim como Lucy. Nunca lutou contra o vento e sim procurava uma saída dele dançando entre seus problemas.

Sinto-me como um garoto apaixonado para sempre, mas é isso que sou, sou alguém que quer sentir o amor novamente. Quero ter alguém para proteger novamente.

Quando chego em casa tudo esta apagado quando acendo varias pessoas pulam gritando “Surpresa!” meu pai assopra uma língua de sogra no meu ouvido me deixando surdo por um tempo sem conseguir ouvir os comprimentos de meus amigos do lado esquerdo apenas sorrio e aceno para eles. Algumas mulheres a parabenizam por ter me dado à luz meu pai, ouve elogios dos homens sobre o filho que tem e os filhos de todos cercam Ashley com olhos ternos para a pequena princesinha enrolada no colo da minha prima.

Nem eu podia esperar meus familiares reunidos, quando minha audição volta olho para meus pais minha mãe esta tão feliz que nem percebe meu pai fazendo uma cara de “eu não tive escolha, ela me obrigou a me fazer isso!”. Eu sorrio para ele com um rosto de “tudo bem, mas não deixe acontecer de novo” vejo alguns garotos e garotas que nunca mais havia visto, eles aviam mudados uns para melhor outros para pior, alguns tinham espinhas nojentas no rosto obvio puberdade bate na porta de todos, as meninas ganharam algumas um par de seios vantajosos, os garotos não paravam de olhar como animais parecia que nunca viram uma menina na vida, por isso que quando Ashley crescer nunca na minha vida vou deixar a puberdade fazer isso com ela, penso se Lucy também sofre isso já que os seios dela não se encaixam em nenhum sutiã da região ela me dizia que seu irmão do meio costurava alguns para ela. Porem quando ele ganhou o emprego de estilista ela nunca mais o viu apenas o vê pela televisão em seus desfiles de moda caríssimos algo mais caro que ate a Vogue quer uma parceria.

Quando olhei para o ponche vejo uma mão cheia de cicatrizes pegando o suco da tigela, olho para cima e vejo Rafael, como sempre seus cabelos pretos e sempre bem aparados estavam jogados para trás às vezes gostaria que ele fosse para o exercito e voltasse sem cabelo nenhum e cheio de marcas e feridas sangrentas, mas como minha mãe me ensinou a não desejar a maldade mesmo que a pessoa deseja nunca disse isso em voz alta.

— Então você entrou para a Guarda. – ele disse em um tom de deboche.

Quase vomitando ao ouvir a voz dele sorrio e digo:

— eu não entrei ai- fui cortado com ele rindo e dizendo

— foi o que eu pensei, — ele bebe a bebida que se mistura com o veneno que ele chama de saliva – Você é fraco demais para entrar, lá apenas os homens entram. – ele coloca o copo meio cheio na mesa. — eu só não entrei nesse concurso idiota porque sabia que eu ia entrar no primeiro teste e porque vou herdar a empresa da minha mãe e do meu pai ganhei um lindo carro então não vou deixar minha vida glamorosa que você não conhece – ele sorriu ao dizer isso- para entrar em um emprego de pobres.

Ele saiu da mesa não antes de sussurrar no meu ouvido.

— não esta com o açúcar certo no ponche, sinto o gosto fortíssimo da goiaba. E eu detesto.

Ele saiu andando, o veneno desse garoto fica no copo tenho ate nojo de beber do mesmo ponche que ele, aquela cobra sempre teve tudo que quis de mãos abertas, sua mãe o criou igual a um príncipe acham que o dinheiro compra tudo ate uma boa faculdade, mas tem um pingo de verdade nisso. Ele nem pôs os pés na faculdade de administração e se formou comprando o diploma depois ele teve aulas particulares no conforto de sua casa.

Depois que seu pai descobriu sobre minha carta ouvi por bocas femininas que seu pai esta treinando ele para ser um guerreiro melhor que o filho do Gabriel, o pobre coitado da cidade que vive sob uma muleta porque perdeu a perna no trabalho da antiga fabrica de tecidos e a família não tem dinheiro para comprar uma prótese.

Quero ver esse garoto sobreviver a um treinamento de verdade em uma semana, o que o pai dele faz não é nem o que meu pai e meu tio faziam comigo.

A festa continuou ate alguns minutos depois da meia noite nesse tempo uma das garotas já tinha saído enrolada na faixa de parabéns a família dela era de artesãos e de atores com certeza ela iria usar de vestido para a peça que vai acontecer na praça amanhã. Pena que não irei ver.

Subi os degraus e comecei arrumar as malas coloquei algumas roupas de baixo, algumas camisas folgadas e o cobertor mais fofo da casa.

Minha mãe me abraçou e acariciou meu rosto com suas delicadas mãos, sinto de leve os calos em seus dedos de tanto que costurava e os desníveis devido à agulha faziam cocegas.

—quem diria meu filho... — ela suspirou- o garoto que nunca teve um pelo no rosto iria amadurecer tão rápido.

Olhei para ela sentindo meu rosto pegar fogo. Segurei sua mão as beijando como eu sempre fazia.

—Tome meu querido. – ela me entregou um colar em forma de concha – para que sempre se lembre de todos.

Quando abri o colar tinha uma foto dela do meu pai e de Ashley sorrindo. Quando olhei para ela, estava lacrimejando as rugas cortavam seu rosto e seu cabelo loiro cobria os fios brancos porem alguém que olhasse para ela nesse estado nunca ia dizer que ela sofreu a vida toda com fome e pobreza ela estava tão radiante e tão feliz.

Peguei minha mala e fui ate a sala onde meu pai estava lutando para ficar acordado junto de Ashley que parecia lutar também conversamos um pouco ate alguém bater em nossa porta minha mãe abriu com uma vontade enorme de pular de felicidade porem ela se comportou como uma dama.

Um mensageiro vestido um traje azul e com o emblema da família real diz para todos da casa.

— Luke Dambos, Você foi escolhido para a segunda fase do teste da Guarda Real do estado de Dusek. Por favor, queira me acompanhar até o castelo real.

Meu pai me deu um forte abraço de despedida e Ashley se agarrou em meu cabelo bagunçado, me lembro de minha mãe sempre falando para eu cortar ele, quando eu finalmente soltei Ashley do meu cabelo ela começou a chorar, por um minuto decidi ficar, mas a voz do mensageiro falando com o motorista sobre ela me trouxe de volta para a realidade dolorosa.

Dirigi-me ate o carro com minha mãe colocando a mão em meu ombro, minha mala foi colocada dentro do porta-malas eu a beijei na bochecha e entrei no carro porem quando olhei para a parte de cima da janela na casa vizinha estava Lucy me olhando ir embora, abri a janela e dei um tchau para ela, mas em troca recebi um gélido gesto de virar de costas.

Deixei meu passado com uma facada no coração.