O Grimório Encantado
1 O Grimório Encantado
Há lugares no mundo que, independentemente do que aconteça, sempre parecerão muito calmos — mesmo depois de uma noite tempestuosa ou de uma súbita invasão de turistas para a feira local. A cidade, ou vila, ou montanha, ou instalação mágica voadora sempre consegue restabelecer sua genuína tranquilidade em pouco tempo. Algumas pessoas também são assim, mas até hoje, ninguém soube explicar exatamente por que. De qualquer forma, morar num lugar desses é sempre uma experiência agradável e Damiano era um garoto bastante sortudo, porque não só morava numa cidade do tipo, como também compartilhava dessa maravilhosa flexibilidade de espírito.
Havia duas coisas que Damiano gostava mais do que tudo: olhar para o mar, que naquela época do ano era brilhante como um pingente de água-marinha, e passar horas na biblioteca lendo sobre os mais variados assuntos. Era muito bom em descobrir coisas (principalmente feitiços), e sempre que encontrava um livro com algum efeito mágico, o levava diretamente para Louise, a bibliotecária. É claro que não podia deixar de ler o livro todo antes de entrega-lo.
– Já pensou no que vai fazer quando crescer? – perguntou a mulher de cabelos da cor do pôr-do-sol – Podia trabalhar como caçador de feitiços! Ia viajar bastante e descobrir coisas muito interessantes! O último livro que você me trouxe tinha um mapa escondido, sabia disso?
Damiano obviamente sabia, uma vez que tinha virado o livro de cabo a rabo antes de entrega-lo, mas achou melhor não falar sobre isso. E embora o menino fosse bom em encontrar feitiços, era péssimo em lança-los, por isso disse:
– Não acho que consigo fazer alguma coisa desse tipo, não sei conjurar quase nada... – explicou desanimado. Depois achou melhor mudar de assunto, então perguntou – Mas e esse mapa? Para onde ele leva?
Damiano também era muito jovem e havia muita coisa que ele não conhecia, então, embora tivesse encontrado o mapa no livro, ainda não tinha entendido para onde ele levava. Esperava que a moça respondesse, mas ela também não tinha ideia.
A biblioteca mudara o livro para a Ala de Itens Mágicos assim que o menino o devolvera. Crianças não podiam entrar lá, já que nem todos os jovens leitores eram tão cuidadosos quanto Damiano, então ele não tinha mais acesso ao volume. O garoto achava aquilo bastante injusto e até chegou a pensar em da próxima vez, contrariar a regra da biblioteca e não entregar o livro mágico para Louise antes de descobrir tudo sobre ele.
Mas Damiano tinha ido para lá aquele dia para procurar outro livro em especial. Faye, a famosa pirata, havia chegado à cidade na semana anterior e ele a ouviu conversando com sua tripulação pela manhã no cais, que ficava próximo ao mirante que o menino costumava visitar. A capitã comentara alguma coisa sobre um livro cor de musgo com inscrições douradas, chamado “Sonata”. Disse que havia um feitiço escondido dentro dele que permitia consertar objetos quebrados. Assim que menino ouviu que o livro estava na biblioteca, partiu ansioso para procura-lo.
Mas ele não estava conseguindo encontrar o livro de maneira alguma. Depois que perguntou à Louise o que significava “sonata” e a moça respondeu que se tratava de um tipo de música (além de ter dito que não conhecia nenhum encadernado com esse nome), Damiano achou que deveria começar a procurar na sessão musical. Infelizmente, depois de olhar volume por volume, constatou que o livro não estava lá. Começou então a andar pela biblioteca pensando em que outro lugar poderia procurar.
Tinha decidido virar à direita quando um grande livro amarelo chamou sua atenção na prateleira. “Não é por aí”, dizia o título. Damiano achou aquilo um pouco esquisito, então tirou o livro do lugar. Quando o abriu percebeu que o nome na capa era diferente do que estava do lado de dentro: “A história dos cozinheiros de Soleggiato” era o título verdadeiro, e o livro era mesmo todo sobre a história dos cozinheiros de Soleggiato. Deviam ter errado na hora de encapar, pensou o menino, então devolveu o volume para a prateleira e continuou sua busca pelo “Sonata”.
Olhou cada exemplar da estante da direita e não encontrou nada também.
Assim que saiu do corredor, deu de cara com outro livro de título grande: “Eu avisei”, dizia na capa. Damiano ficou um pouco surpreso. Poderia a biblioteca estar falando com ele?
“A biblioteca não”, era o título do livro seguinte. Damiano engoliu o ar em vez de respirá-lo, bastante impressionado. Tirou “A biblioteca não” da prateleira para averiguar e descobriu que o que estava do lado de dentro do livro também não tinha nada a ver com o título. Era como se as capas estivessem mudando sozinhas. Seria possível?
A lombada do próximo livro dizia:
“Muitas coisas são possíveis”
Damiano ficou muitíssimo animado, então pensou com bastante clareza dessa vez para testar sua teoria: “Se não é a biblioteca, então quem é você?”. Alguns passos à frente achou outro livro grande com letras enfeitadas: “Sou o grandioso Rafaelle Cavallieri”. O encadernado parecia bastante pomposo, e se não fosse mesmo um livro inanimado, poder-se-ia dizer que estava bem orgulhoso de si mesmo.
“Hm, Rafaelle parece nome de menina”, pensou Damiano, “mas está escrito ‘o grandioso’ e não ‘a grandiosa’...”. O menino ficou algum tempo pensando sobre isso e só depois que chegou a conclusão de que na verdade não fazia diferença nenhuma qual era o nome da pessoa ou livro, já que a pessoa ou livro podia se chamar da maneira que quisesse, é que voltou a olhar para as prateleiras outra vez. Num volume fino e escuro, quase deprimido, lia-se “Rafaelle também é nome de homem”.
“Tudo bem então”, Damiano deu de ombros “Mas Rafaelle, porque está conversando através dos livros?”
Dessa vez nada pareceu acontecer, e o menino chegou a pensar que tivesse olhado mal a prateleira e deixado alguma coisa passar. Só quando chegou ao fim do corredor que encontrou um volume vermelho com os dizeres “Abra esse livro” — então decidiu fazer o que estava escrito e abriu-o. Na contracapa lia-se o título exagerado: “Uma curta história sobre triste destino do grandioso Rafaelle Cavalilieri”, e nas próximas páginas um relato cheio de adjetivos sobre como “o nobre, talentoso e belo Rafaelle” havia sido enclausurado dentro de um livro por seu terrível rival, depois de um combate mágico na cidade vizinha. O “desalentado e pobre Rafaelle”, não tinha ideia de quanto tempo passara preso no livro, mas com a ajuda de Damiano seria libertado e iria duelar mais uma vez com seu oponente. Depois disso, o texto ainda dizia que o livro em que Rafaelle tinha sido aprisionado era um encadernado sem título, de paradeiro desconhecido, embora com certeza estivesse em algum lugar da biblioteca, já que o mago conseguia mudar as capas dos livros dali. Por fim, dizia que se Damiano o ajudasse, Rafaelle revelaria onde o “Sonata” estava guardado.
O menino teria ajudado de qualquer forma então concordou de boa vontade. “Você quer que eu encontre o livro sem título então?” perguntou para ter certeza. Guardou o “Abra esse livro” onde o encontrou, e na prateleira seguinte achou outra capa chamativa “Que bom que você entendeu”, estava escrito, e o menino achou que aquilo era confirmação o suficiente.
Como, por mais que passasse um bom tempo na biblioteca, ainda não conhecesse de cor todas as seções, pensou que seria mais fácil perguntar para Louise se ela sabia de algum livro sem título. A moça não tinha ajudado com o “Sonata”, mas costumava saber exatamente onde cada exemplar ficava guardado.
– Um livro sem título, é? – perguntou ela, pensativa – Só consigo pensar em dois lugares onde você poderia encontrar um livro desses: na Seção dos Livros em Branco, no fim da biblioteca, ou na Ala de Itens Mágicos. Eu não cuido da Ala de Itens Mágicos, você sabe. Quem fica lá é a velha Adalberta, mas posso perguntar para você mais tarde.
Damiano disse que ficaria contente se ela fizesse isso, e depois caminhou até a Seção dos Livros em Branco. Era uma parte mais escura da biblioteca e estava iluminada por candelabros, quase que como uma área de depósito. Mas tudo era muito limpo já que Louise sempre se lembrava de conjurar um magnífico feitiço de limpeza nas partes do prédio que estavam sob sua responsabilidade.
Pegou um livro vermelho, que era o primeiro da fileira e o abriu. Definitivamente estava em branco: não havia nem sequer um pequeno feitiço escondido entre as páginas. “Porque guardam esse tipo de livro?”, pensou Damiano consigo mesmo “não é muito útil se está completamente vazio”.
“Precisa estar em branco para que alguém escreva, ora essa”, respondeu a capa do livro seguinte (que em teoria não devia ter título nenhum, ainda mais um daquele tamanho). Damiano achou a sugestão interessante e resolveu levar aquele encadernado que tinha em mãos para tentar escrever nele depois.
“Meu livro não está aqui”, disse a capa reluzente de um livro branco, próximo de onde Damiano estava olhando agora. O menino suspirou — Louise com certeza ia ficar furiosa quando descobrisse que tantas capas de livro estavam ficando diferentes.
“Se não está aqui, não está em lugar nenhum da biblioteca”, pensou claramente para responder, “Louise conhece todos os exemplares, e os únicos que não têm título estão nessa sessão”. Depois ficou procurando por alguma lombada que mostrasse uma reposta. Encontrou uma coleção de seis volumes:
“O livro está na biblioteca, tenho certeza”, dizia o Volume I.
“Mas não está nessa sessão”, lia-se no Volume II.
“Então, faça o favor de não ser tão preguiçoso”, era o título do Volume III.
“E procure com mais empenho”, censurou o Volume IV.
“Já olhou no andar de cima?”, sugeriu o Volume V.
Alguns livros à frente encontrava-se o Volume VI:
“Abra esse livro”
Damiano franziu as sobrancelhas para a prateleira: Rafaelle não era muito bem educado. Mesmo assim o menino estava bastante curioso, então acabou por abrir o sexto livro. Dentro dele havia um desenho muito mal feito da Ala de Itens Mágicos (ou o que Damiano julgou ser a Ala de Itens Mágicos), com um desenho ainda pior da velha Adalberta segurando um livro de título “Sonata”. Isso só podia significar que o “Sonata” estava na sessão de itens mágicos!
“Ah, poxa vida” pensou Damiano, lembrando-se que não tinha permissão par ir para o andar de cima “queria tanto ver aquele livro”.
“Então vá para lá”, a capa do último exemplar da prateleira disse. Damiano começou a achar que Rafaelle tinha certeza que seu livro também estava na Ala de Itens Mágicos, e queria que o menino fosse para lá de uma vez para pegá-lo. Por que havia contado onde o “Sonata” estava se não fosse por isso? “Mas eu não posso entrar”, pensou ele outra vez, enquanto devolvia o encadernado com o desenho tosco no lugar de onde havia tirado. Voltou para a parte iluminada da biblioteca para pensar no que poderia fazer. Não iam deixa-lo entrar, e mesmo que Louise encontrasse o livro de Rafaelle lá, a velha Adalberta não o emprestaria nunca para Damiano. Ele achava que entrar lá de fininho era muito errado, e então começou a ficar sem opções.
Demorou algum tempo para decidir que a melhor coisa a fazer era contar tudo para Louise e pedir ajuda, e estava indo para o balcão quando pôde escutar alguém falar bem alto na entrada da biblioteca:
– Boa tarde, minha amiga! Será que você não tem o livro que estou procurando? Hahaha – Damiano achou que quem quer que fosse o dono daquela voz, deveria estar bastante bêbado – Um livro verde de letras douradas... – a voz disse.
Será que a pessoa também queria o “Sonata?”, Damiano pensou. O menino então correu para perto da entrada e se escondeu atrás de uma prateleira para ouvir melhor. Louise parecia irritada:
– Por favor, façam silêncio! Estamos numa biblioteca. – ela disse, e o grupo de homens e mulheres (que Damiano reconheceu como parte da tripulação de Faye) caiu na gargalhada.
“Caramba, piratas!”, era o nome do livro que estava na altura dos olhos de Damiano. O que é que eles tinham ido fazer na biblioteca?
– Mocinha, quer fazer o favor de entrar o “Sonata” de uma vez? – disse alguém menos bêbado no meio do grupo, e os outros concordaram. Damiano percebeu que tinha razão quando pensara que eles estavam procurando pelo livro encantado.
Louise tentou avisar mais uma vez para que falassem baixo e agissem com mais cortesia, mas um membro da tripulação decidiu que não ia esperar mais:
– Quer saber, eu sei onde ele está! Lá, no andar dos itens mágicos! Vamos pegá-lo! – e todos os membros do grupo correram escada à cima para a sessão que ficava aos cuidados da velha Adalberta.
Damiano achou que aquilo era um grande problema e saiu do seu esconderijo para ajudar Louise, que estava bastante ultrajada com a falta de respeito daquelas pessoas:
– Ah, eles vão ver só! – disse a moça, e seguiu para o andar de cima, sem nem impedir Damiano de acompanha-la. O menino não conseguia conjurar muitos feitiços, mas estava decidido a não deixar os piratas estragarem a biblioteca.
Só que quando chegaram à sessão de itens mágicos tudo já estava uma bagunça.
Feixes coloridos estouravam em todos os cantos, havia uma ou duas pessoas dormindo no chão (que provavelmente foram acertadas por algum encantamento da velha Adalberta), muitos exemplares caídos e coisas dos mais variados tipos, que ninguém nunca adivinharia que poderiam estar numa biblioteca (como colheres de madeira, pincéis, um cachorro, flores e até um poste de luz) estavam espalhadas por todos os lados.
Apesar da diferença de número, os piratas eram bastante incompetentes quando se tratava de magia, e a velha Adalberta tinha conseguido dar um jeito em todas as suas armas antes mesmo que o grupo começasse a revirar as prateleiras. Os que não sabiam nada de magia foram procurar o livro, e os que ficaram estavam duelando com a senhora e levando a pior — a velha Adalberta, em seu vestido amarelo claro florido, era muito boa nas conjurações! Louise correu para ajuda-la e Damiano achou que devia pegar o “Sonata” antes dos piratas, então se embrenhou pelas prateleiras para procurar. Mas onde é que o livro poderia estar?
O menino estava olhando por toda a parte da maneira mais rápida que podia, mas sabia que se não pensasse em alguma coisa rapidamente, os piratas (que estavam em maior número) iriam encontrar o livro primeiro. Sonata era um tipo de música, certo? Será que havia uma seção para música na Ala dos Itens Mágicos? Estava pensando nisso, quando, por pura sorte, achou uma plaquinha colorida indicando a seção musical. “Isso!”, pensou consigo mesmo e correu na direção apontada.
Damiano já estava vendo as prateleiras de música quando teve sua atenção tomada por um grande livro de capa vermelho-escura adornada em dourado, exposto em um pedestal com uma caixa de vidro o protegendo. “Um grimório encantado”, estava escrito numa plaquinha de metal colada ao pedestal. Por mais interessante que o livro parecesse, Damiano não teria parado ali naquele momento se não tivesse notado uma coisa importante no tal grimório: ele não tinha título nenhum. “Será o livro do Rafaelle?” pensou, mas não recebeu resposta de nenhuma capa de livro nas prateleiras, como era de costume. Talvez Rafaelle não conseguisse mudar os livros mágicos do andar de cima. Mas antes de conseguir pensar em uma resposta, Damiano ouviu um pirata falar:
– Olhe só aquele livro! Deve valer uma fortuna, devíamos pegá-lo também!
– É mesmo! – concordou a mulher que estava com ele.
– Nem pensar! – disse Damiano automaticamente, apesar de não ter ideia do que pudesse fazer para impedi-los. Os piratas riram e começaram a andar para onde ele estava. Um pouco mais adiante, atrás de uma estante, alguém com uma voz bêbada reclamou:
– Onde é que está esse “Sonata”?
Então o menino lembrou-se de algo: o desenho de Rafaelle mostrava a velha Adalberta segurando o “Sonata” na mão. Então o livro devia estar com ela, pensou o menino. E se estava com ela, ninguém colocaria as mãos nele tão cedo!
Damiano ficou contente em saber que o livro já estava seguro, então decidiu concentrar suas forças em proteger o grimório. “Não vou deixar que eles o peguem” pensou, e em seguida, empurrou o pilar de gesso com o máximo de força que conseguiu. O pilar caiu, o vidro quebrou e o grimório deslizou um pouco para frente. Damiano o pegou e disparou para o meio das prateleiras.
– Segure aquele menino! – gritaram os dois piratas e saíram correndo também.
“Como é que será que eu abro essa coisa?” pensou Damiano enquanto corria. Sua única esperança era libertar o “grandioso” Rafaelle Cavallieri para ajuda-lo, mas estava difícil tentar descobrir como é que a fechadura do livro funcionava ao mesmo tempo em que fugia dos membros da tripulação de Faye. Como estava distraído com seus pensamentos, acabou, sem querer, entrando num corredor sem saída.
– Ah, não! – choramingou, quando percebeu que o corredor terminava em uma grande janela. Depois respirou fundo e disse – Bem, vai ter que ser agora!
Então o menino aproveitou seus segundos de vantagem para descobrir como abrir o livro. Uma alavanca para lá, outra passando por cima, uma terceira ligada à lombada... No momento em que os piratas deram as caras no corredor, o grimório se abriu e brilhou, fazendo Damiano jogá-lo para frente por causa do calor que saia da capa. Era como se o livro estivesse derretendo, e até seus perseguidores pararam para ver o que estava acontecendo. A luz foi tomando forma, e segundos depois, no lugar do livro, surgia um rapaz de cabelos claros e roupas antiquadas.
– Até que enfim! – reclamou ele, fazendo uma careta para Damiano, e depois se virou para os piratas – Eu sou o grandioso Rafaelle Cavallieri, e agora vocês vão ter que se ver comigo!
Damiano não tinha entendido muito bem, mas ficou aliviado de ter alguém entre ele e os dois piratas. Para sua surpresa, entretanto, em vez de se assustarem e correrem, os piratas começaram a gargalhar:
– Hahaha! O “grandioso Rafaelle Cavellieri”? Hahaha. – riu a mulher
– A capitã não tinha dado um jeito em você? "Grandioso", hahaha — o homem chorava de tanto rir.
Depois deram as costas para Rafaelle e Damiano, e sumiram em meio às prateleiras, ainda rindo.
“Poxa, que fracasso”, disse Damiano para si mesmo, um pouco desapontado. Bem, pelo menos os piratas tinham desistido de segui-lo. O menino deu umas batidinhas na calça e levantou-se, mas levou um susto quando percebeu que Rafaelle olhava para ele de mau-humor:
– Não consigo mais ouvir o que você está pensando, mas essa sua cara de decepção não me agrada. – disse o mago.
– Pensei que você fosse fazer alguma coisa útil – respondeu o menino, dando de ombros.
Rafaelle resmungou alguma coisa que Damiano não ouviu direito e depois disse:
– Bem, veja só isso então!
Com um gesto da mão ele fez surgir uma espécie de bengala com uma ponta de vidro, e depois a bateu no chão. No mesmo instante todas as prateleiras ficaram transparentes, e Damiano pôde ver Louise e a velha Adalberta colocando um dos últimos piratas para dormir. O menino também pôde ver o casal de piratas que o perseguiu ir em direção à entrada da ala.
– Você conhece algum feitiço para pará-los? – perguntou Rafaelle para o menino.
– Bem, daria para transformar o carpete em óleo. Eles escorregariam e bateriam ali, naquela mesa, ou mais adiante naquela prateleira do primeiro corredor – Damiano apontou – mas não consigo conjurar esse tipo de feitiço...
– Ora, me pareceu que você tinha algum talento com as palavras, porque não tenta escrever naquele livro que pegou? – sugeriu o mago.
Os piratas enxergavam as prateleiras normalmente (já que aquilo era só um feitiço de rastreamento), então ainda estavam meio perdidos, dando voltas para lá e para cá, enquanto tentavam chegar até onde Louise a Adalberta estavam.
Damiano tinha certeza que aquilo não ia dar certo (ele não conseguia se lembrar da última vez que um feitiço seu funcionara), mas resolveu tentar mesmo assim. Escreveu: “O primeiro corredor está sujo de óleo” seguido de uma palavra mágica, e assim que levantou os olhos pôde ver o casal de piratas passar correndo pelo primeiro corredor, escorregar no óleo e bater na prateleira, derrubando os pesados livros em suas cabeças. “Talvez eu devesse ter feito outra coisa”, pensou Damiano, embora estivesse contente com seu feitiço “Espero que os livros não tenham estragado...”.
– Olhe só, nada mal! – parabenizou Rafaelle. Os dois foram juntos até a entrada da ala, onde encontram Louise e a velha Adalberta bastante cansadas e resmungonas. Damiano explicou que os piratas queriam o “Sonata” e a velha riu de satisfação por tê-lo guardado no bolso do avental. Ela estava justamente lendo aquele livro, e agora parecia que ia precisar usar os feitiços de conserto antes do que imaginava, já que a Ala dos Itens Mágicos tinha ficado bastante quebrada.
O menino ia começar a apresentar Rafaelle para as duas bibliotecárias quando uma mulher de sobrecasaca apareceu na entrada da ala: era Faye, a pirata.
– Sinto muito pela bagunça que minha tripulação causou aqui – disse ela, antes que todo mundo começasse a reclamar – Tinha pedido para que viessem buscar o livro, mas queria aluga-lo como uma pessoa comum, não roubá-lo!
Para compensar o estrago, Faye disse que ia colocar a tripulação inteira ao dispor de biblioteca por duas semanas. Eles consertariam os danos, ajudariam a limpar e organizar, e até poderiam montar algum tipo de propaganda para atrair mais gente para o lugar. Louise e Adalberta pareceram ficar contentes com o acordo, e até concordaram em emprestar o “Sonata” para a pirata mais tarde.
– Mas só depois que Damiano terminar de ler – disse a velha com um sorriso. Depois falou diretamente com o menino – Louise me contou que você estava procurando por ele. Sabia que se tivesse pedido eu teria deixado você pegar o livro, desde o começo? Não ia poder leva-lo para casa, porque as regras são claras, mas não vejo problema nenhum em você lê-lo aqui, sob a supervisão de Louise...
Damiano se sentiu um pouco bobo de não feito uma coisa tão simples quanto perguntar logo no começo, e um pouco envergonhado por ter julgado que a velha Adalberta era uma pessoa difícil sem nem mesmo conhecê-la. Disse para si mesmo que não ia mais agir daquela maneira e ficou muito contente saber que ia poder ler todos os livros da Ala de Itens Mágicos agora.
Só Rafaelle parecia muito mal-humorado, e assim que Faye o viu, não pode conter um risinho:
– Então conseguiu sair? Bem, estava pensando em soltá-lo esta tarde mesmo... – falou, brincando.
O rapaz, entretanto, respondeu dramaticamente:
– Que mulher sem coração! Você não tem ideia de como foi passar todo esse tempo enclausurado num livro!
Damiano ia começar a defendê-lo também quando Faye suspirou e disse:
– Ora, Rafaelle, eu tranquei você nele na tarde de ontem, no fim do duelo! E pelo visto não adiantou em nada. Pensei que você fosse mudar um pouco essa sua atitude exibida depois de ter um tempo para pensar...
Na tarde do dia anterior? Damiano sentiu-se agora ainda mais bobo por ter caído naquela história do “Triste destino do grandioso Rafaelle Cavallieri”. Mas, de qualquer forma, acabou ficando feliz em ver tudo resolvido. A pirata, depois de ouvir a história de como Rafaelle saíra do livro, prometeu ensinar os melhores feitiços que conhecia para Damiano (inclusive o que ela usou para colocar o grimório na ala de itens mágicos sem que a velha Adalberta percebesse) e o menino aceitou o treinamento corajosamente. Faye até pediu desculpas para Rafaelle e os dois decidiram marcar um novo duelo, com menos exibição e com a regra de que ninguém podia ser trancafiado num livro no final.
Damiano prometeu ir assistir. O menino tinha decidido aprender mais feitiços e treiná-los com o caderno. Era claro que nem todos eles seriam tão simples quanto transformar um tapete em óleo, mas o garoto estava confiante de que poderia aprendê-los se se esforçasse.
Assim, as coisas voltaram a ficar calmas e tranquilas como antes. Embora, é claro, nem tudo estivesse exatamente como estivera no começo.
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