O Grego Procura..
3 Um vôo confuso
Notas iniciais
A primeira classe do avião destinado a Grécia era como em todos os aviões das companhias. Fechadas e soberbas. Entre elas, um homem olhava constantemente para o seu relógio com uma expressão carrancuda na face.
–Aquela desesperada irá me deixar aqui? – se perguntou alterado. Seus olhos focavam na entrada, enquanto o sangue fluía pela sua cabeça – Eu vou matá-la. Me envolve nisso e acha que poderá escapar? Acabarei com você – disse ao se levantar seguindo para a porta, assim que colocou o pé para fora, sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se e permaneceu sério ao olhar para a aeromoça.
–Não pode sair, senhor – ela tornou gentil.
–Tenho que buscar uma pessoa e levá-la as profundezas do inferno.
–Não sei sobre o que está falando, mas não pode sair – a aeromoça falou ao soltá-lo, olhando com receio. – Volte para o assento, por favor, senhor. – Yan a estudou demoradamente, enquanto avaliava a situação em que estava. Estalou a língua nos dentes antes de olhar para a frente e em seguida para a aeromoça.
–Senhor, por favor, volte para o seu lugar ou serei obrigada a chamar a segurança – Yan suspirou antes de dar as costas a aeromoça e em seguida encará-la.
–Ligue para alguém que saiba informar se a pessoa que sentará ao meu lado já chegou – ordenou.
–Eu..não posso fazer isso, senhor.
–E então espera que eu o faça? – perguntou friamente ao encará-la – vai fazer isso agora ou esperará que eu saia do avião e lhe culpe por isso? – A aeromoça o olhou temerosa, e praguejou antes de dar as costas a ele e ligar para a segurança. Em poucos segundos todo o aeroporto comentava sobre o incidente no avião que se dirigia para a Grécia.
***
Melissa arrastava a sua mala pelo aeroporto ainda insegura. Ela sabia que era a sua única chance, mas ainda assim temia estar sendo algo de alguma brincadeira. Uma brincadeira como forma de vingança pelo seu comportamento.
–Tudo pelo restaurante – disse a si mesma antes de seguir as placas em direção a portaria 12. Caminhou tranquila por todo o caminho ate parar em frente ao local onde entregaria a sua passagem. Olhou demoradamente para o atendente que lhe sorria, como se a incentivasse.
–Grécia? – ele perguntou amistoso ao sorrir. A viu assentir, e ainda assim a viu parada, indecisa a sua frente – Primeira vez em um avião?
–Também – confirmou ao suspirar pensativa – mas, é a primeira vez que me vendo. Será que ele estará sentado ou ficará rindo? Se isso for uma brincadeira, ele deve ser um idiota por gastar tanto em uma passagem, apenas para brincar comigo.
–Senhora? – o homem a chamou envergonhado pelo que ela dissera – irá embarcar?
–O que tenho a perder se não entrar no avião? – perguntou ao olhar para o homem, que manteve-se em silêncio sem saber o que dizer – Perderei o restaurante, mas se eu entrar.. será que perderei a dignidade? Não que eu tenha tido alguma, algum dia, mas...
–Senhora – falou impaciente ao perceber os olhares que as pessoas lançavam para eles – vai embarcar ou não? É sua ultima chance.
–Que droga, eu vou – Melissa falou ao entregar a passagem e logo se viu caminhando para o desconhecido.
***
Yan olhava ansioso para a entrada. Ele sabia que estava sendo um tolo desesperado, mas dada a situação era o que lhe restava. Percebia o momento em que o avião iniciaria a sua partida, e a presença da sua “namorada” era inexistente. Quando ele já estava prestes a se levantar, ele a viu. Melissa caminhava atrás da aeromoça que lhe sorria gentil, indicando aonde era o seu lugar. Seus olhares se cruzaram e por longos segundos, ela o fitou de forma carinhosa. Melissa não sabia o motivo, mas sempre que o encarava sentia-se tragada por uma nostalgia e uma sensação de lentidão. Ao retornar a si, foi ate onde ele estava, e sentou-se ao seu lado, na janela. Ela não disse nada com receio do que deveria falar em uma situação como aquela, ate se sentir incomodada, cinco minutos depois com o silencio e o semblante taciturno dele.
–Grécia hein? Um belo lugar.
–Já foi alguma vez? – Yan questionou sem encará-la. A sua raiva ainda não tinha sido dissipada por ter a esperado e ansiado por ela. Não que ele a quisesse ao seu lado, mas precisava dela.
–Será minha primeira vez – falou antes de ser interrompida pela voz do piloto que anunciava a decolagem. Inconsciente, Melissa, agarrou-se ao braço da poltrona confortável em que estava, e assim permaneceu, com a respiração suspensa, após certificar-se que o cinto de segurança estava preso. Inspirava o ar com dificuldade e expirava com temor. Aquela era a primeira vez em que voava e a sua companhia não ajudava a ficar mais tranquila. – Deveria ser proibido uma coisa como essa voar, como isso é possível? Algo tão pesado.. voando – murmurou desolada ao se agarrar cada vez com mais força a poltrona. Yan não havia percebido nada fora do normal ate avistar que poderia retirar o cinto. Olhou para o lado segurando o riso ao ver a mulher que tinha se jogado em seus braços noites atrás, pálida de medo. A estudou por alguns instantes ate perceber o que acontecia.
–Então é sua primeira vez.
–Sim – confirmou – espero que a Grécia valha esse sacrifício – disse mais a si mesma em voz alta. Yan nada disse apenas fez um discreto sinal para que uma aeromoça se aproximasse deles.
–Me traga duas taças de champagne – pediu em um tom frio, e assim que ela assentiu sorrindo, saiu. Demorou poucos minutos para ela retornar com um carrinho. Entregou as duas taças a Yan, lhe dando um sorriso cordial e convidativo. Melissa nada percebeu ao estar presa em seu próprio medo. Medo de que o avião caísse. – É melhor beber isso – Yan disse ao lhe entregar uma taça.
–E o que vamos festejar? – perguntou tentando aparentar tranquilidade, mas seus olhos a entregava.
–Não se precisa estar comemorando algo para beber champagne.
–Vou me lembrar disso – murmurou ao tomar toda a bebida em um gole.
–Talvez eu deva mandar trazer a garrafa – percebeu incrédulo.
–Seria bom, pelo menos minha outra personalidade iria aparecer – comentou consigo mesmo fazendo uma careta surgir na face de Yan.
–Costuma beber para ter aceitação social? – questionou sério.
–Não – negou sorridente – mas sempre tem a mania de escutar as pessoas falando sozinhas?
–Se quiser falar consigo mesma basta pensar. Não precisa externalizar tudo o que vem a sua mente.
–Como se fosse fácil – murmurou carrancuda.
–Exatamente do que estou falando – disse ao encará-la e a olhar de cima a baixo. Reparou no vestido que ela trajava, o modo como ele subiu quando ela estava sentada, o modo como o decote revelava a maciez de seu colo. Olhou hipnotizado por alguns segundos ate perceber o que estava fazendo. Recordações surgiram em sua mente, e logo meneou a cabeça para espantá-las. – É preciso saber algumas coisas sobre mim – falou após pigarrear afim de evitar a rouquidão em sua voz.
–Como o que? – perguntou inconsciente do poder que exercia sob ele.
–Sobre a minha vida – disse ao beber um gole da bebida gelada – Meu nome é Yan Andretti, lembre-se disso. Sou piloto de corrida. Costumo ser chamado de flash, meu agente se chama..
–Eu deveria estar sabendo sobre você, não é? – questionou o interrompendo ainda temerosa com o voo – mas porque não está me contando nada pessoal?
–Eu acabei de começar a falar – disse taciturno ao suspirar – Olhe..
–Quantos anos você tem? – perguntou interrompendo-o novamente – Se sou sua namorada devo saber isso. Ah, seu aniversario, signo, quando nos conhecemos, o que gosta de fazer quando está livre, quem é seu melhor amigo, onde mora, e você deve saber algumas coisas mim. – Yan a encarava perplexo e um sorriso de escárnio surgiu em sua face, deixando-a sem jeito.
–Deve ter feito isso muitas vezes. Atacado homens nos bares e em seguida os obrigando a serem seus namorados. Não estou certo?
A face de Melissa demonstrou todo o horror que sentiu ao escutar as acusações de Yan e a partir daquele momento percebeu que não fazia ideia quem era o homem que estava ao seu lado, assim como ele não sabia quem ela era.
–Sim, está – respondeu ao sorrir assim que viu a expressão de surpresa de Yan – O que? Não esperava por isso? Deveria esperar ou imaginou que foi minha primeira vitima? A minha ultima vitima era um milionário que possuía um fetiche muito peculiar, ele era dominador – disse ao piscar para Yan – Você não está sozinho nisso.
–Do..minador? – gaguejou surpreso. – Você... apanhou? – perguntou ao encará-la de cima a baixo.
–Muito – disse fazendo um bico – ele tinha um quarto.. totalmente..secreto – murmurou em seu ouvido – todo em vermelho, mas como toda a história tem seu fim, acabou. Ele começou a namorar, uma jovem jornalista – mentiu descaradamente ao narrar um livro que tinha lido.
–Você... apanhou dele e..gostou? – perguntou impressionado – Não imaginei que..fosse desse tipo.
–Que tipo eu sou? – perguntou tentando demonstrar indiferença quando sentia vontade de rir e ao mesmo tempo, vergonha do que estava falando.
–Que gosta de apanhar.
–Todos gostam, e acho que ate você – sorriu travessa ao acomodar-se melhor em seu assento tentando não transparecer a vergonha que sentia. Yan olhava incrédula para a mulher sentada ao seu lado.
–Você é realmente assustadora – balbuciou antes de pigarrear.
–Não tanto quanto ele era quando estava ex..ci..ta..do – Melissa colocou a mão em sua boca para evitar que gargalhasse diante da expressão de Yan – Mas, falando nisso, quando receberei o dinheiro para o restaurante?
–Quando precisa? – perguntou tentando retirar de sua mente a imagem dela apanhando.
– Duzentos mil – disse ao encará-lo firmemente. – você pode pagar em parcelas, o banco não irá ligar, afinal eles vão estar recendo dinheiro e isso já será algo para se alegrar de qualquer forma.
–Não deveria falar tudo o que vem a sua cabeça. – retirou o celular de seu bolso e estendeu para ela – basta digitar a sua conta e assim que aterrissarmos, depositarei todo o dinheiro.
–Possui tanto dinheiro assim? – perguntou impressionada ao pegar o aparelho.
–Mais do que sua mente masoquista pode imaginar – respondeu com um leve sorriso. A viu parada, encarando-o com surpresa – não fique tão surpresa, é cansativo. Sou um piloto profissional que faz comerciais e é bom no que faz. Tenho algum dinheiro, basta digitar o numero de sua conta. – Melissa assentiu ao digitar o numero, entregando o aparelho em seguida.
–Está bem mesmo?
–O que?
–Isso tudo. Mentir para a sua família.
–Quem começou foi você – a relembrou sem encará-la.
–Mas poderia ter contado a verdade.
–Poderia e com isso continuaria a ser um grego problemático com problemas de relacionamento.
–Mas você ainda é – comentou observadora recebendo como resposta o seu olhar frio – Quero dizer, continua solteiro, não é? Então porque não contar a verdade?
–Porque se eles continuarem achando que mudei, tudo ficará mais fácil.
–Tudo?
–A minha família – respondeu sem vontade – não deveria estar fazendo perguntas mais uteis?
–Como o que? O que perguntei você não respondeu. Então porque deveria continuar me esforçando?
–Você é realmente uma coisa.
–Uma coisa boa? – perguntou sorridente.
–Com toda a certeza não é uma coisa boa – disse carrancudo ao suspirar – a única coisa que precisa saber é que meu nome é Yan, sou piloto de corrida, possuo uma família grega e hoje vamos conhece-la.
–Se assim que quer, não vejo problemas – deu de ombros ao olhar para a janela vislumbrando o oceano. Permaneceu encantada pela paisagem a sua frente e antes que percebesse, seus olhos se fecharam lentamente. Aos poucos, se viu adormecida.
Yan começava a se perguntar se não estava louco ao levar aquela insensatez a diante, mas quando estava prestes a desistir de tudo, sentiu algo em seu ombro. A cabeça de Melissa encontrava-se repousada de forma desengonçada em seu ombro, o que o fez sorrir.
–Talvez aquela noite não tenha sido tão desastrosa – disse a si mesmo antes de fechar os olhos.
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