O Gato
1 Capítulo 1
A terra úmida começava a se acumular, formando um pequeno monte de lama onde minhocas se retorciam, agonizando em contato com o ar fresco da noite.
O cheio de umidade penetrava em suas narinas sensíveis de forma bastante agradável, e apesar da escuridão, conseguia enxergar perfeitamente através de seus olhos aguçados de felino. Sentiria falta do olfato e da visão apurada, mas estava muito ansioso para voltar a ter uma vida normal.
Ainda era difícil acreditar que retornaria a ser o que era. Já foi um acontecimento milagroso o próprio fato de ter deixado de ser um boneco para entrar no corpo de um gato, então voltar a ser humano parecia uma coisa quase absurda.
Desde o dia em que invadira aquela pequena casa no pântano, seguindo ordens da coroa para capturar uma suposta bruxa que sequestrava crianças, sua vida havia sido transformada. Assim que deu os primeiros passos no assoalho, assinou um contrato de perdição.
Ainda teve tempo de observar bem o rosto da bruxa antes de desmaiar. Era uma mulher bonita, com longos caracóis louros caindo por suas costas, contrastando com o manto vermelhos das sacerdotisas da deusa.
Quando acordou, estava olhando pata eu próprio corpo do alto de uma estante, e viu com horror a mulher esquartejá-lo e alimentar os corvos com os pedaços de sua carne.
Desde então estivera preso naquele corpo de boneco. Quase cinco séculos haviam se passado, e durante todo esse tempo esteve imóvel, incapaz de fazer qualquer coisa além de ver e ouvir um mundo com o qual estava impedido de interagir, agonizando na companhia de sua própria mente, almejando uma morte que jamais o atingiria.
Teve milhares de donos, a maioria dos quais nem desconfiavam de sua natureza verdadeira. Foi vendido, usado, exposto em museus até que por fim terminou na vitrine de um antiquário em algum lugar do Brasil. Aquele lugar havia mudado muito, desde que deixara de ser um conjunto de capitanias.
Já não tinha qualquer esperança de ser livre quando aquele garoto apareceu. Parecia um rapaz comum, com cabelo louro, olhos castanhos e rosto gordo e sardento. Imaginou que seria colocado em uma casa como decoração, sabendo que ficaria ainda mais entediado do que estando na vitrine da loja.
Mas, ao contrário do que tudo indicava, foi levado para uma pequena casa suburbana e para os fundos de um porão sem janelas. Nesse cômodo viu centenas de livros empoeirados, velas e frascos com poções coloridas. Imediatamente soube que aquele garoto era um bruxo, como aqueles que costumava perseguir em sua vida passada.
Ele o deixou no centro da sala e saiu, fechando a porta e deixando a sala na mais completa escuridão. No escuro, aquela situação era aterrorizante.
Horas se passaram antes que o garoto louro voltasse, trazendo consigo um saco de estopa. O conteúdo do saco deixou-o enojado: o corpo de um gato cinzento.
Mas foi com aquele corpo que a magia foi efetuada. Sua alma foi mais uma vez sugada, dessa vez sendo dirigida para o corpo frio daquele felino. Quando acordou... estava vivo.
Pela primeira vez em séculos foi capaz de mover-se, de sentir o ar ao seu redor e provar o gosto de comida. As coisas mais insignificantes, para as quais nem mesmo dava valor no passado agora lhe eram extremamente preciosas, e sentia-se grato.
A partir desse dia, acostumou-se a viver como um gato. Acabou por se tornar o animal de estimação daquele bruxo louro, e descobriu que gostava dessa vida.
Mas agora, estava prestes a mudar novamente. Quase tudo pronto...
O garoto louro fincou a pá no monte de terra recém escavado, e com um pé-de-cabra abriu a tampa do caixão, expondo o corpo gelado daquele defunto.
Seu novo corpo. Sua nova vida. Mas algo ainda lhe dizia que era somente a quarta, de sete.
Fale com o autor